quarta-feira, 1 de abril de 2020

"Stat Crux dum volvitur orbis"


5ª Semana da Quaresma - Quarta-feira
Primeira Leitura (Dn 3,14-20.24.49a.91-92.95)
Salmo Responsorial (Dn 3,52-56)
Evangelho (Jo 8,31-42)

A quarentena já está torrando a paciência. Muitos só querem que isso acabe logo e as coisas retornem a normalidade. Mas, essa normalidade burguesa é uma ilusão.A sociedade humana é instável e impressível, sendo impossível a perpetuação do passado ou do presente na história. Aliás, este é um dos aspectos mais infantis da ideologia marxista: sonhar com um futuro fim da história desde uma perspectiva imanente, como se pudessem perpetuar-se e fazer de seu regime eterno; chega mesmo a ser cômico!

Retornando o raciocínio, o Corona já transformou nossas vidas, o mundo de outrora passou. A peste ceifou a milhares de vidas (no momento em que escrevo este texto, por volta de 40 mil) e tudo indica que sua sede por sangue ainda não foi saciada. Tantos perderam amigos, familiares e levam agora  uma marca indelével n'alma. Muitos perderam empregos, outros tantos ''perderam o CNPJ''. Foi gestada uma crise de oferta e demanda, de modo que toda a animação de recuperação econômica desaparece e o otimismo de outrora dá lugar a um pessimismo agonizante. A paralisação acelerou o processo de virtualização da sociedade e a marcha tecnológica, o amanhã será online. A crise sanitária também remanejou as peças do jogo político; no âmbito nacional, a direita que vivia uma fase de vigorosa acensão se transforma agora em um poder frágil prestes a se desintegrar. No estrangeiro, foi a pá de cal na era de dominação americana e o marco do mundo chinês. Se a crise terminar hoje, ainda assim o mundo que fica não é mais ou mesmo de antes. E, quanto mais se prolonga esta guerra sanitária contra a virose mortífera, tanto mais irreconhecível será o mundo futuro.

O mundo futuro, porém, logo se transformará em passado e será substituído por outro construto ainda mais imprevisível. A história é assim, um mar revolto e instável. Se assim o é, onde encontraremos a segurança e a estabilidade para edificar nossas vidas? A liturgia de hoje, uma vez mais, nos trás uma resposta oportuna: oportuna ao tempo em que estamos vivendo.

<Pelo que dizia Jesus aos Judeus, que n'elle crêram: Se vós permanecer es na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discipulos: E conhecereis a verdade, e a verdade vos livrará.“ (Jo 8, 31-32)>

"Stat Crux dum volvitur orbis" ("A Cruz permanece intacta enquanto o Mundo dá sua órbita"),

Entre todas a instabilidade desta época, em que numa sutil ironia o mundo parado seja o motor de uma radical mudança civilizacional, se permanecermos em Sua palavra, seremos verdadeiramente livres! E tal liberdade nos dará forças para perseverar em nossa jornada no novo mundo que virá.

QUE NÃO MUDOU

A noite desabou sobre o cáes
pesada, côr de carvão.
Uivam cães na escuridão.
Quando o dia se elevar
outras sombras cairão.
Todas as coisas mudarão.
Gloria Áquele que não mudou.
As sombras se despenharam
pesadas côr de carvão.
A geografia mudou.
Gloria Áquele que não mudou.
As estrelas já morreram
O velho tempo secou.
Na Gloria eterna caminha
Aquele que não mudou.

- Jorge de Lima

A vós louvor, honra e glória eternamente!

segunda-feira, 30 de março de 2020

Juvenil Surrealismo Quarentenário

Foi em um recente artigo de Aleksandr Dugin, entre a peste e Resident Evil que encontrei a referência deste filme que é tido como um clássico cult da história do cinema.; O Anjo Exterminador de Luis Buñuel. Quando se trata de um clássico, a tendência entre os críticos tardios é entoar loas a "genialidade" da obra, o que não o farei. É certo que o roteiro é sugestivo, tanto mais hoje. Temos um grupo de aristocratas que misteriosamente ficam presos dentro da sala de uma rica mansão. Misteriosamente, pois não há barreiras físicas e nenhuma revolução exterior que impeça sua saída, antes, num recurso bem surrealista, uma espécie de bloqueio mental. É sugestivo pensar sobre isso em tempos de pandemia, onde muitos estão confinados em suas casas, tanto mais por um análogo bloqueio mental gerado pelo medo (o que não entrarei no mérito se é ou não justificado) que pela repressão estatal. A criatividade acaba aí, de resto temos uma crítica adolescente ao teatro social burguês, e um cair das máscaras da aristocracia, que em situações extremas manifesta toda a animalidade de uma natureza humana profundamente corrompida. Este tipo de tolice pode vir a impressionar a juventude, intrinsecamente tola e impressionável, embora para qualquer homem maduro seja algo um tanto quanto tedioso. Sim, o mundo burguês é um teatrinho social, que há de novo nisso? Acaso alguém não o sabe? Aliás, o que verdadeiramente impressiona no filme é que os personagens perseverem tanto em um simulacro de civilidade, tendo alguns de fato manifestando verdadeira virtude (apesar das troças do diretor); meus contemporâneos já teriam perdido compostura bem mais cedo. Poderia terminar o artigo por aqui uma vez que o filme é basicamente isso; o autor se limita uma contemplação sádica da baixeza humana aliado há simbolismos desconexos, e sutis alfinetadas a Igreja. Não há. pois, nada de propositivo, nenhum argumento estético sobre como transcender as limitações e superar a perspectiva hipócrita em favor de uma sinceridade existencial. Buñuel é fraco, e seu Exterminador não tem nada de genial. Estilo sem substância. E mesmo o estilo é limitado a premissa, pois para um filme surrealista, o impacto visual é quase insignificante, a fotografia não choca, tampouco fixa na lembrança, passados poucos dias desde que assisti ao filme,são poucas as imagens das quais me recordo. 

Sobre o filme, nada mais há a dizer senão que talvez Resident Evil possa vir a ser uma obra mais interessante.

sexta-feira, 27 de março de 2020

"não era ainda chegada a sua hora"

4ª Semana da Quaresma - Sexta-feira
Primeira Leitura (Sb 2,1a.12-22)
Salmo Responsorial (Sl 33)
Evangelho (Jo 7,1-2.10.25-30)


<Procuravão pois os Judeos prendello: mas ninguem lhe lançou as mãos, porque não era ainda chegada a sua hora. (Jo 7, 30)>

Deus é o Senhor da história e, em mais um paradoxo quase que incompreensível para nós homens, há uma harmonia entre a liberdade humana e como que alguns ''marcos de roteiro'' estabelecidos pelo Divino Autor. Desde essa perspectiva devemos nós entender nosso encontro com a morte. Por mais que o episódio aparente desde nossa perspectiva uma simples e terrível fatalidade, na verdade o fim dos nossos dias já tinha sido determinado desde antes de nascermos. Quando chegar a nossa hora, haveremos de pegar o expresso para o outro mundo, uma passagem só de ida, cujo destino não o sabemos... Em um belo dia cá estamos aqui, despreocupados, no outro lá estaremos a no entremundos, a espera do maquinista em companhia da morte. Ou quem sabe um barqueiro, os gregos falavam de Caronte; mas, isto deve ser tomado apenas como analogia. Seja de trem, de barco ou dirigível, o certo é que nossa passagem já foi comprada desde antes da concepção e tal viagem não pode ser adiantada ou adiada, ao menos de nossa parte... Digo de nossa parte, pois, o Divino Autor tem absoluta liberdade para mudar seus planos, prorrogando ou reduzindo o tempo de cena de seus personagens. Há nas Cantigas de Santa Maria uma linda história a respeito de um frade, que pela intercessão da Imaculada, pode retornar a vida afim de se arrepender de seus pecados e escapar do inferno. Como nos Bodas de Caná, por intermédio da Virgem Santíssima, Deus mudou seus planos para com aquele pobre frade. Ou quem sabe também já estivesse em seus planos? Podemos perguntar isso a Ele em oração, pode ser que nos responda algum dia...

quinta-feira, 26 de março de 2020

"Pro multis"


As palavras que se ajuntam "por vós e por muitos", foram tomadas parte de São Mateus, parte de São Lucas. A Santa Igreja, guiada pelo Espírito de Deus, coordenou-as numa só frase, para que exprimissem o fruto e a vantagem da Paixão.

De fato, se considerarmos sua virtude, devemos reconhecer que o Salvador derramou Seu Sangue pela salvação de todos os homens. Se atendermos, porém, ao fruto real que os homens dele auferem, não nos custa compreender que sua eficácia se não estende a todos, mas só a "muitos" homens.

Dizendo, pois, "por vós", Nosso Senhor tinha em vista, quer as pessoas presentes, quer os eleitos dentre os judeus, como o eram os Discípulos a quem falava, com exceção de Judas.

No entanto, ao acrescentar "por muitos", queria aludir aos outros eleitos, fossem eles judeus ou gentios. Houve, pois, muito acerto em não se dizer "por todos", visto que o texto só alude aos frutos da Paixão, e esta sortiu efeito salutar unicamente para os escolhidos.

Tal é o sentido a que se referem aquelas palavras do Apóstolo : "Cristo imolou-Se uma só vez, para remover totalmente os pecados de muitos"; e as que disse Nosso Senhor no Evangelho de São João: "Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por estes que Vós Me destes, porque eles são Vossos".

Catecismo Romano, II Parte: Dos Sacramentos; VI. Da Eucaristia; p.269-270.

"a gloria que vem só de Deos"


4ª Semana da Quaresma - Quinta-feira,
Primeira Leitura (Êx 32,7-14)
Salmo Responsorial (Sl 105)
Evangelho (Jo 5,31-47)

<Eu não recebo dos homens a minha glória . (Jo 5, 41)>

<Como podeis crer vós outros, que recebeis a glória uns dos outros: e que não buscais a gloria que vem só de Deos? (Jo 5, 44.)>

A glória de Deus. Esta deveria ser a bússola que conduz a vida de todo o cristão. Entretanto, nem sempre é assim... Quantos não estão a buscar a glória dos homens, a fama, a vaidade? Quantos, por vezes, não se utilizam até da palavra de Deus para tal? A radicalidade profética do Evangelho é tida tão somente como uma obra de arte a ser admirada ao invés de um modelo a se imitar e uma doutrina a se seguir. É bonito, é aesthetic pensar sobre a figura do homem de Deus, aquele que busca a vontade do Pai acima de tudo, que não tem medo da pobreza, da hostilidade do mundo, da morte. Quão belo é assistir tudo... Mas, nos reduziremos apenas a isso: uma legião de fãs gordos e sedentários que procuram apenas assistir o drama cósmico da ao guerra ente os exércitos de Deus e do diabo na história sem, contudo, tomar parte nesta luta? Nos furtaremos de tomar a sério o Evangelho e verdadeiramente nos esforçar-mo-nos por segui-lo? Que Deus nos livre de tamanha covardia.

quarta-feira, 25 de março de 2020

O "plano de poder" da Igreja


4ª Semana da Quaresma - Anunciação do Senhor - Quarta-feira
Primeira Leitura (Is 7,10-14;8,10)
Salmo Responsorial (Sl 39)
Segunda Leitura (Hb 10,4-10)
Evangelho (Lc 1,26-38)

<Porque a Deos nada é impossível.  Então disse Maria: Eis-aqui a escrava do Senhor , faça-se em mim, segundo a tua palavra. (Lc 1, 27-28b)>

Para Deus NADA é impossível, mas, as maravilhas de Deus só se manifestam em nossa vida na medida em que nos dispomos a fazer a Sua vontade. É, mais um, dos grandes paradoxos de nossa santa religião. Um poder tremendo, aquele que é abençoado por Deus pode realizar o impossível, mas apenas na medida em que se dispõe a renunciar a própria vontade e fazer-se escravo do Senhor. É uma dinâmica absolutamente diferente daquilo que estamos acostumados. Eis o gládio espiritual, o qual se distingue de forma radical do gládio temporal,  o qual estamos acostumados a manejar. Se o poder dos homens consiste na capacidade de fazer valer pela força a própria vontade; ao contrário, o poder de Deus em nós se manifesta na fragilidade e na renúncia de nosso querer. Uma mulher humana colocada acima dos anjos, terrível como exércitos em ordem de batalha; a escrava do Senhor, tornou-se rainha do céu e da terra, dos anjos e santos. A doutrina dos dois gládios não é apenas uma limitação arbitrária imposta por algum papa medieval. é, antes, a perfeita descrição da estrutura do real!. Os dois gládios, as duas espadas, seguem lógicas diferentes, possuem uma técnica de manejo distintas; não se pode aplicar uma na outra nem a outra na uma.

A Virgem Santíssima é também imagem da Igreja. Apenas na medida em que esta (a Igreja) submete-se, como escrava do Senhor, conseguirá reinar. Não pela é diplomacia, nem pela bajulação aos poderosos a esquerda ou a direita,  tampouco pelo dinheiro, mas se submetendo inteiramente a vontade de Deus. Eis, pois, o ''plano de poder'' da Igreja. 

segunda-feira, 23 de março de 2020

"De tarde estaremos em lagrimas: e de manhã em alegria"


4ª Semana da Quaresma - Segunda-feira
Primeira Leitura (Is 65,17-21)
Salmo Responsorial (Sl 29)
Evangelho (Jo 4,43-54)

1. <Porque eis aqui estou eu que crio uns Ceos novos, e uma terra nova: e não persistirão na memoria as primeiras calamidades, nem subirão sobre o coração. (Is 65, 17)>; a primeira leitura extraída do livro do profeta Isaías fala do advento de novos céus e nova terra. Tal profecia não deve ser tida em sentido figurado, mas de forma literal, e como tal ainda não se realizou, antes ainda esperamos sua realização para o fim dos tempos, conforme ensina o príncipe dos Apóstolos.

O mundo natural nos parece tão estável, tanto mais que nossa caótica sociedade, porem, até mesmo o universo, os céu e a terra passarão. E então virá um novo céu e uma nova terra... Isso nos devia inspirar uma atitude de humildade e encantamento ante a criação. Se nem o céu nem a terra são eternos, que podemos dizer de espécies diversas de plantas e animais? Quantos belos pássaros voaram de uma extremidade a outra, dos quais não mais ouviremos seu cantar? Quantas belas frutas não mais poderemos saborear? Tanta coisa do passado já não existe, assim como parte do presente não chegará ao futuro. O universo não é eterno. Se a própria criação é transitória, não deveríamos nós contempla-la com mais amor e zelar por ela com maior responsabilidade? É certo que no fim haverá de ser melhor, mas nossa jornada até lá...

2. <Porque ele nos fere na sua ira: e ele nos dá a vida na sua boa vontade. De tarde estaremos em lagrimas: e de manhã em alegria. (Sl 29, 6)>; rezemos nesta tarde dos tempos, e sobretudo na escura noite que se avizinha, é tempo de pranto e sofrimento. Mas, ansiemos pela aurora, onde uma vez mais vem saudar-nos a alegria.