quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Homem Prático


28ª Semana do Tempo Comum | Quarta-feira
Primeira Leitura (Rm 2,1-11)
Responsório (Sl 61)
Evangelho (Lc 11,42-46)

<Ele respondeu: Ai também de vós, doutores da Lei, que carregais os homens com pesos que não podem levar, mas vós mesmos nem sequer com um dedo tocai os fardos. (Lc 11,46)>

Deveríamos ao menos esforçar-nos por colocar nossas ideias em prática, testá-las em nós mesmos antes de vir a confiá-las irresponsavelmente aos outros. Isso evitaria muitos problemas, bem como nos afastaria da atitude hipócrita dos doutores da lei. Por mais que a teoria seja importante, tal como belas mulheres, há ideias que nos seduzem por sua estética. São tão belas, encantadoras e harmônicas... Mas assim como nem sempre uma bela mulher tem as características necessárias para ser uma boa esposa, de igual modo uma bela ideia pode ter consequências desastrosas no mundo real. Mais do que um teórico, o cristão deve esforçar-se por tornar-se um homem prático. Até porque, não é por nossas teorias que seremos julgados, mas por nossas obras. Todavia, não é fácil escapar de comportamento; querendo escapar da armadilha das teorizações, acabei por criar outra teoria. Terrível paradoxo, não?

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

O Bom Samaritano


27ª Semana do Tempo Comum |  Segunda-feira
Primeira Leitura (Jn 1,1–2,1.11)
Responsório (Jn 2,2-8)
Evangelho (Lc 10,25-37)

1. O Evangelho hoje proclamado diz respeito trata da a famosa parábola do Bom Samaritano. Na encíclica Fratelli tutti (uma péssima encíclica, diga-se de passagem), há um trecho interessante (um dos poucos aproveitáveis neste terrível documento) em que o Papa Francisco comenta a respeito; transcrevo aqui afim iluminar nossas reflexões neste dia de hoje:

O abandonado

63. Conta Jesus que havia um homem ferido, estendido por terra no caminho, que fora assaltado. Passaram vários ao seu lado, mas… foram-se, não pararam. Eram pessoas com funções importantes na sociedade, que não tinham no coração o amor pelo bem comum. Não foram capazes de perder uns minutos para cuidar do ferido ou, pelo menos, procurar ajuda. Um parou, ofereceu-lhe proximidade, curou-o com as próprias mãos, pôs também dinheiro do seu bolso e ocupou-se dele. Sobretudo deu-lhe algo que, neste mundo apressado, regateamos tanto: deu-lhe o seu tempo. Tinha certamente os seus planos para aproveitar aquele dia a bem das suas necessidades, compromissos ou desejos. Mas conseguiu deixar tudo de lado à vista do ferido e, sem o conhecer, considerou-o digno de lhe dedicar o seu tempo.

64. Com quem te identificas? É uma pergunta sem rodeios, direta e determinante: a qual deles te assemelhas? Precisamos de reconhecer a tentação que nos cerca de se desinteressar dos outros, especialmente dos mais frágeis. Digamos que crescemos em muitos aspetos, mas somos analfabetos no acompanhar, cuidar e sustentar os mais frágeis e vulneráveis das nossas sociedades desenvolvidas. Habituamo-nos a olhar para o outro lado, passar à margem, ignorar as situações até elas nos caírem diretamente em cima.

65. Assaltam uma pessoa na rua, e muitos fogem como se não tivessem visto nada. Sucede muitas vezes que pessoas atropelam alguém com o seu carro e fogem. Pensam só em evitar problemas; não importa se um ser humano morre por sua culpa. Mas estes são sinais dum estilo de vida generalizado, que se manifesta de várias maneiras, porventura mais subtis. Além disso, como estamos todos muito concentrados nas nossas necessidades, ver alguém que está mal incomoda-nos, perturba-nos, porque não queremos perder tempo por culpa dos problemas alheios. São sintomas duma sociedade enferma, pois procura construir-se de costas para o sofrimento.

66. É melhor não cair nesta miséria. Fixemos o modelo do bom samaritano. É um texto que nos convida a fazer ressurgir a nossa vocação de cidadãos do próprio país e do mundo inteiro, construtores dum novo vínculo social. Embora esteja inscrito como lei fundamental do nosso ser, é um apelo sempre novo: que a sociedade se oriente para a prossecução do bem comum e, a partir deste objetivo, reconstrua incessantemente a sua ordem política e social, o tecido das suas relações, o seu projeto humano. Com os seus gestos, o bom samaritano fez ver que «a existência de cada um de nós está ligada à dos outros: a vida não é tempo que passa, mas tempo de encontro».

67. Esta parábola é um ícone iluminador, capaz de manifestar a opção fundamental que precisamos de tomar para reconstruir este mundo que nos está a peito. Diante de tanta dor, à vista de tantas feridas, a única via de saída é ser como o bom samaritano. Qualquer outra opção deixa-nos ou com os salteadores ou com os que passam ao largo, sem se compadecer com o sofrimento do ferido na estrada. A parábola mostra-nos as iniciativas com que se pode refazer uma comunidade a partir de homens e mulheres que assumem como própria a fragilidade dos outros, não deixam constituir-se uma sociedade de exclusão, mas fazem-se próximos, levantam e reabilitam o caído, para que o bem seja comum. Ao mesmo tempo, a parábola adverte-nos sobre certas atitudes de pessoas que só olham para si mesmas e não atendem às exigências ineludíveis da realidade humana.

68. A narração – digamo-lo claramente – não desenvolve uma doutrina feita de ideais abstratos, nem se limita à funcionalidade duma moral ético-social. Mas revela-nos uma caraterística essencial do ser humano, frequentemente esquecida: fomos criados para a plenitude, que só se alcança no amor. Viver indiferentes à dor não é uma opção possível; não podemos deixar ninguém caído «nas margens da vida». Isto deve indignar-nos de tal maneira que nos faça descer da nossa serenidade alterando-nos com o sofrimento humano. Isto é dignidade.

Uma história que se repete

69. A narração é simples e linear, mas contém toda a dinâmica da luta interior que se verifica na elaboração da nossa identidade, que se verifica em toda a existência projetada na realização da fraternidade humana. Enquanto caminhamos, inevitavelmente embatemos no homem ferido. Hoje, há cada vez mais feridos. A inclusão ou exclusão da pessoa que sofre na margem da estrada define todos os projetos económicos, políticos, sociais e religiosos. Dia a dia enfrentamos a opção de ser bons samaritanos ou viandantes indiferentes que passam ao largo. E se estendermos o olhar à totalidade da nossa história e ao mundo no seu conjunto, reconheceremos que todos somos, ou fomos, como estas personagens: todos temos algo do ferido, do salteador, daqueles que passam ao largo e do bom samaritano.

70. Digno de nota é o facto de as diferenças entre as personagens na parábola ficarem completamente transformadas ao confrontar-se com a dolorosa aparição do caído, do humilhado. Já não há distinção entre habitante da Judeia e habitante da Samaria, não há sacerdote nem comerciante; existem simplesmente dois tipos de pessoas: aquelas que cuidam do sofrimento e aquelas que passam ao largo; aquelas que se debruçam sobre o caído e o reconhecem necessitado de ajuda e aquelas que olham distraídas e aceleram o passo. De facto, caem as nossas múltiplas máscaras, os nossos rótulos e os nossos disfarces: é a hora da verdade. Debruçar-nos-emos para tocar e cuidar das feridas dos outros? Abaixar-nos-emos para levar às costas o outro? Este é o desafio atual, de que não devemos ter medo. Nos momentos de crise, a opção torna-se premente: poderíamos dizer que, neste momento, quem não é salteador e quem não passa ao largo, ou está ferido ou carrega aos ombros algum ferido.

71. A história do bom samaritano repete-se: torna-se cada vez mais evidente que a incúria social e política faz de muitos lugares do mundo estradas desoladas, onde as disputas internas e internacionais e o saque de oportunidades deixam tantos marginalizados, atirados para a margem da estrada. Na sua parábola, Jesus não propõe vias alternativas, como, por exemplo, no caso daquele homem ferido ou de quem o ajudou terem dado espaço nos seus corações ao ódio ou à sede de vingança, que sucederia? Jesus não Se detém nisso. Confia na parte melhor do espírito humano e, com a parábola, anima-o a aderir ao amor, reintegrar o ferido e construir uma sociedade digna de tal nome.

As personagens

72. A parábola começa com os salteadores. O ponto de partida escolhido por Jesus é um assalto já consumado. Não nos faz deter na lamentação do facto, nem dirige o nosso olhar para os salteadores. São coisas do nosso conhecimento. Vimos avançar no mundo as sombras densas do abandono, da violência usada para mesquinhos interesses de poder, acúmulo e repartição. A questão poderia ser: deixaremos ali estirado por terra o homem maltratado para correr cada qual a esconder-se da violência ou a perseguir os ladrões? Será o ferido a justificação das nossas divisões irreconciliáveis, das nossas cruéis indiferenças, dos nossos confrontos internos?

73. De imediato a parábola faz-nos pousar o olhar claramente naqueles que passam ao largo. Esta perigosa indiferença que leva a não parar, inocente ou não, fruto do desprezo ou duma triste distração, faz das duas personagens – o sacerdote e o levita – um reflexo não menos triste daquela distância menosprezadora que te isola da realidade. Há muitas maneiras de passar ao largo, que são complementares: uma é ensimesmar-se, desinteressar-se dos outros, ficar indiferente; outra seria olhar só para fora. Relativamente a esta última maneira de passar ao largo, nalguns países ou em certos setores deles, verifica-se um desprezo dos pobres e da sua cultura, bem como um viver com o olhar voltado para fora, como se um projeto de país importado procurasse ocupar o seu lugar. Assim se pode justificar a indiferença de alguns, pois aqueles que poderiam tocar os seus corações com as suas reivindicações simplesmente não existem; estão fora do seu horizonte de interesses.

74. Nas pessoas que passam ao largo, há um detalhe que não podemos ignorar: eram pessoas religiosas. Mais ainda, dedicavam-se a dar culto a Deus: um sacerdote e um levita. Isto é uma forte chamada de atenção: indica que o facto de crer em Deus e O adorar não é garantia de viver como agrada a Deus. Uma pessoa de fé pode não ser fiel a tudo o que essa mesma fé exige dela e, no entanto, sentir-se perto de Deus e julgar-se com mais dignidade do que os outros. Mas há maneiras de viver a fé que facilitam a abertura do coração aos irmãos, e esta será a garantia duma autêntica abertura a Deus. São João Crisóstomo expressou, com muita clareza, este desafio que se apresenta aos cristãos: «Queres honrar o Corpo de Cristo? Não permitas que seja desprezado nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm que vestir, nem O honres aqui no templo com vestes de seda, enquanto lá fora O abandonas ao frio e à nudez». O paradoxo é que, às vezes, quantos dizem que não acreditam podem viver melhor a vontade de Deus do que os crentes.

75. Habitualmente os «salteadores do caminho» têm, como aliados secretos, aqueles que «passam pelo caminho olhando para o outro lado». O círculo encerra-se entre aqueles que usam e enganam a sociedade para chupá-la, e aqueles que julgam manter a pureza na sua função crítica, mas ao mesmo tempo vivem desse sistema e seus recursos. Verifica-se uma triste hipocrisia, quando a impunidade do delito, o uso das instituições para interesses pessoais ou corporativos e outros males que não conseguimos banir, se associam a uma desqualificação permanente de tudo, à constante sementeira de suspeitas que gera desconfiança e perplexidade. Ao engano de que «tudo está mal» corresponde o dito «ninguém o pode consertar. Sendo assim, que posso fazer eu?» Deste modo, alimenta-se o desencanto e a falta de esperança; e isto não estimula um espírito de solidariedade e generosidade. Fazer um povo precipitar no desânimo é o epílogo dum perfeito círculo vicioso: assim procede a ditadura invisível dos verdadeiros interesses ocultos, que se apoderaram dos recursos e da capacidade de ter opinião e pensamento próprios.

76. Olhemos enfim o ferido. Às vezes sentimo-nos como ele, gravemente feridos e atirados para a margem da estrada. Sentimo-nos também abandonados pelas nossas instituições desguarnecidas e carentes, ou voltadas para servir os interesses de poucos, fora e dentro. Com efeito, «na sociedade globalizada, existe um estilo elegante de olhar para o outro lado, que se pratica de maneira recorrente: sob as aparências do politicamente correto ou das modas ideológicas, olhamos para aquele que sofre mas não o tocamos, transmitimo-lo ao vivo e até proferimos um discurso aparentemente tolerante e cheio de eufemismos».

Recomeçar

77. Cada dia é-nos oferecida uma nova oportunidade, uma etapa nova. Não devemos esperar tudo daqueles que nos governam; seria infantil. Gozamos dum espaço de corresponsabilidade capaz de iniciar e gerar novos processos e transformações. Sejamos parte ativa na reabilitação e apoio das sociedades feridas. Hoje temos à nossa frente a grande ocasião de expressar o nosso ser irmãos, de ser outros bons samaritanos que tomam sobre si a dor dos fracassos, em vez de fomentar ódios e ressentimentos. Como o viandante ocasional da nossa história, é preciso apenas o desejo gratuito, puro e simples de ser povo, de ser constantes e incansáveis no compromisso de incluir, integrar, levantar quem está caído; embora muitas vezes nos vejamos imersos e condenados a repetir a lógica dos violentos, de quantos nutrem ambições só para si mesmos, espalhando confusão e mentira. Deixemos que outros continuem a pensar na política ou na economia para os seus jogos de poder. Alimentemos o que é bom, e coloquemo-nos ao serviço do bem.

78. É possível começar por baixo e caso a caso, lutar pelo mais concreto e local, até ao último ângulo da pátria e do mundo, com o mesmo cuidado que o viandante da Samaria teve por cada chaga do ferido. Procuremos os outros e ocupemo-nos da realidade que nos compete, sem temer a dor nem a impotência, porque naquela está todo o bem que Deus semeou no coração do ser humano. As dificuldades que parecem enormes são a oportunidade para crescer, e não a desculpa para a tristeza inerte que favorece a sujeição. Mas não o façamos sozinhos, individualmente. O samaritano procurou um estalajadeiro que pudesse cuidar daquele homem, como nós estamos chamados a convidar outros e a encontrar-nos num «nós» mais forte do que a soma de pequenas individualidades; lembremo-nos de que «o todo é mais do que a parte, sendo também mais do que a simples soma delas». Renunciemos à mesquinhez e ao ressentimento de particularismos estéreis, de contraposições sem fim. Deixemos de ocultar a dor das perdas e assumamos os nossos delitos, desmazelos e mentiras. A reconciliação reparadora ressuscitar-nos-á, fazendo perder o medo a nós mesmos e aos outros.

79. O samaritano do caminho partiu sem esperar reconhecimentos nem obrigados. A dedicação ao serviço era a grande satisfação diante do seu Deus e na própria vida e, consequentemente, um dever. Todos temos uma responsabilidade pelo ferido que é o nosso povo e todos os povos da terra. Cuidemos da fragilidade de cada homem, cada mulher, cada criança e cada idoso, com a mesma atitude solidária e solícita, a mesma atitude de proximidade do bom samaritano.

O próximo sem fronteiras

80. Jesus propôs esta parábola para responder a uma pergunta: «Quem é o meu próximo?» (Lc 10, 29). A palavra «próximo» na sociedade do tempo de Jesus costumava indicar a pessoa que está mais vizinha, mais próxima. Pensava-se que a ajuda devia encaminhar-se em primeiro lugar para aqueles que pertencem ao próprio grupo, à própria raça. Para alguns judeus de então, um samaritano era considerado um ser desprezível, impuro, e, por conseguinte, não estava incluído entre o próximo a quem se deveria ajudar. O judeu Jesus transforma completamente esta impostação: não nos convida a interrogar-nos quem é vizinho a nós, mas a tornar-nos nós mesmos vizinhos, próximos.

81. A proposta é fazer-se presente a quem precisa de ajuda, independentemente de fazer parte ou não do próprio círculo de pertença. Neste caso, o samaritano foi quem se fez próximo do judeu ferido. Para se tornar próximo e presente, ultrapassou todas as barreiras culturais e históricas. A conclusão de Jesus é um pedido: «Vai e faz tu também o mesmo» (Lc 10, 37). Por outras palavras, desafia-nos a deixar de lado toda a diferença e, em presença do sofrimento, fazer-nos vizinhos a quem quer que seja. Assim, já não digo que tenho «próximos» a quem devo ajudar, mas que me sinto chamado a tornar-me eu um próximo dos outros.

82. O problema é que Jesus destaca explicitamente que o homem ferido era um judeu – habitante da Judeia –, enquanto aquele que se deteve e o ajudou era um samaritano – habitante da Samaria –. Este detalhe reveste-se duma importância excecional ao refletirmos sobre um amor que se abre a todos. Os samaritanos habitavam numa região que fora contagiada por ritos pagãos, o que – aos olhos dos judeus – os tornava impuros, detestáveis, perigosos. De facto, um antigo texto hebraico, que menciona as nações odiadas, refere-se à Samaria afirmando até que «nem sequer é um povo», e acrescenta que é «o povo insensato que habita em Siquém» (Sir 50, 25.26).

83. Isto explica por que uma mulher samaritana, quando Jesus lhe pediu de beber, tenha observado: «Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber a mim que sou samaritana?» (Jo 4, 9). E noutra ocasião, ao procurar acusações que pudessem desacreditar Jesus, a coisa mais ofensiva que encontraram foi dizer-Lhe: «tens um demónio» e «és um samaritano» (Jo 8, 48). Portanto, este encontro misericordioso entre um samaritano e um judeu é uma forte provocação, que desmente toda a manipulação ideológica, desafiando-nos a ampliar o nosso círculo, a dar à nossa capacidade de amar uma dimensão universal capaz de ultrapassar todos os preconceitos, todas as barreiras históricas ou culturais, todos os interesses mesquinhos.

A provocação do forasteiro

84. Por fim, lembro que Jesus diz noutra parte do Evangelho: «Era forasteiro e recolheste-me» (Mt 25, 35). Jesus podia dizer estas palavras, porque tinha um coração aberto que assumia os dramas dos outros. São Paulo exortava: «Alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram» (Rm 12, 15). Quando o coração assume esta atitude, é capaz de se identificar com o outro sem se importar com o lugar onde nasceu nem donde vem. Entrando nesta dinâmica, em última análise, experimenta que os outros são «a sua carne» (Is 58, 7).

85. Para os cristãos, as palavras de Jesus têm ainda outra dimensão, transcendente. Implicam reconhecer o próprio Cristo em cada irmão abandonado ou excluído (cf. Mt 25, 40.45). Na realidade, a fé cumula de motivações inauditas o reconhecimento do outro, pois quem acredita pode chegar a reconhecer que Deus ama cada ser humano com um amor infinito e que «assim lhe confere uma dignidade infinita». Além disso, acreditamos que Cristo derramou o seu sangue por todos e cada um, pelo que ninguém fica fora do seu amor universal. E, se formos à fonte suprema que é a vida íntima de Deus, encontramo-nos com uma comunidade de três Pessoas, origem e modelo perfeito de toda a vida em comum. A teologia continua a enriquecer-se graças à reflexão sobre esta grande verdade.

86. Às vezes deixa-me triste o facto de, apesar de estar dotada de tais motivações, a Igreja ter demorado tanto tempo a condenar energicamente a escravatura e várias formas de violência. Hoje, com o desenvolvimento da espiritualidade e da teologia, não temos desculpas. Todavia, ainda há aqueles que parecem sentir-se encorajados ou pelo menos autorizados pela sua fé a defender várias formas de nacionalismo fechado e violento, atitudes xenófobas, desprezo e até maus-tratos àqueles que são diferentes. A fé, com o humanismo que inspira, deve manter vivo um sentido crítico perante estas tendências e ajudar a reagir rapidamente quando começam a insinuar-se. Para isso, é importante que a catequese e a pregação incluam, de forma mais direta e clara, o sentido social da existência, a dimensão fraterna da espiritualidade, a convicção sobre a dignidade inalienável de cada pessoa e as motivações para amar e acolher a todos. 

2. Hoje é dia de São Francisco de Assis, que ele hoje interceda por todos aqueles que cuidam dos animaizinhos, para que amando as criaturas, amem também a seu Criador, e possam comtemplar a sua face nos céus.

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Bolha e Testemunho


25ª Semana do Tempo Comum | Quarta-feira
Primeira Leitura (Esd 9,5-9)
Responsório (Tb 13,2-8)
Evangelho (Lc 9,1-6)


1. <Desde o tempo de nossos pais até o dia de hoje, temos sido gravemente culpados. Por causa de nossas iniquidades, fomos escravizados, nós, nossos reis e nossos filhos; fomos entregues à mercê dos reis de outras terras, à espada, ao cativeiro, à pilhagem e a vergonha que nos cobre ainda hoje. (Esd 9,7)>

A situação a qual nos encontramos é análoga ao dos antigos israelitas, todavia estamos longe de manifestar a mesma humildade que seria o caminho para vermo-nos livres de tal crise. Ao invés de atentarmos aos nossos pecados, de constatarmos nossa miséria, antes alimentamos ilusões de grandeza. Seriamos um grupo puro e inocente, injustamente oprimido por forças tirânicas, mas ó, no dia em que conquistarmos novamente o poder por nossas próprias forças, então virá uma era gloriosa, porque afinal, somos bons, os melhores. E assim essa megalomania defensiva, impede-nos de avaliar nossos próprios erros e corrigi-los, de entender, sobretudo, que se algum dia tivemos força, ela não vinha de nós mesmo, mas do Senhor, tal qual a força de Sansão.


2. Há quem por vezes se queixe de não encontrar no entorno o consolo de um ambiente adequado, de uma comunidade verdadeiramente católica na possa qual viver. Hoje em dia fala-se de bolha, embora isso ás vezes tome conotações pejorativas. Nada há de errado em viver em uma bolha, em procurar o convívio dos seus. Se Deus lhe concede isso, alegre-se! Mas, se não o concede, pode ser que sua missão seja outra, que tenhas sido escolhido como testemunha do Senhor ante aqueles que não o conhecem, tal como está descrito no livro de Tobias:

<Porque, se ele vos dispersou entre povos que o não conhecem, foi para que publiqueis as suas maravilhas e lhes façais reconhecer que não há outro Deus onipotente senão Ele. (Tb 13, 4)>

Se assim o é, fortaleça o teu coração e reze com perseverança para viver com valentia tamanha aventura.

domingo, 29 de agosto de 2021

Monstros


Habitualmente se dinstinguía entre monstruos y demonios, pero también podán fusionarse. Los monstruos era, supuestamente, seres humanos distorsionados, aunque se dudaba de si tenían alma. Se los suponía creados para mostrar a los humanos cómo es la privacíon física de Dios. F. Gagnon ha sugerido creíblemnete que los monstruos encajan en la cadena ontológica del ser que se extiende desde Dios hacia una realidade cada vez menor. Dios, los ángeles, los governantes humanos, los súbditos humanos, los bárbaros, los monstruos, los demonios, el Anticristo, Lucifer. Los monstruos tienen privaciones físicas: son gigantes, enanos, tienen tres ojos o niguno, o tienen caras en el vientre. Esta clase de privación física es un signo de su privación ontológica que se transmuta fácilmente en privación moral. Su deformidad se fusiona con la del diablo, el más retorcido y depravado de todos los seres. Sin enbargo, hablando en propiedad, los monstruos no son demonios, sino están separados de ellos por al menos un paso; Dios los hizo monstruos y por tanto comparten en algún grado, por pequeño que sea, la bondad y la belleza. Un monstruo particularmente persistente y siniestro es el hombre-animal. Essa clase de seres se encuntran en la mayor parte de las culutras (en la India, por ejemplo, hay hombres tigres, pero en Europa, donde prevalecen los lobos, hay hombres lobo). También se encuentran vampiros en todas partes. Los hombres-animal no son lo mismo que otros montruos, porque sua monstruosidad consiste menos en su deformidad física que en su capacidad demoníaca de cambiar de forma; y mientras los monstruos puden ser moralmente ambivalentes, los hombres-animal son essencialmente malos. Ele diabo es el jefe de los hombres que cambian de forma; los hombres-lobo, los vampiros y las brujas imitan a su señor en esa caulidad para haver la voluntad del diablo.

- Jeffrey Burton Russell. Lucifer: El Diablo en La Edad Media; p.86-87.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

O voto de Jefté


20ª Semana do Tempo Comum | Quinta-feira
Primeira Leitura (Jz 11,29-39a)
Responsório (Sl 39)
Evangelho (Mt 22,1-14)

A primeira leitura de hoje é uma das passagens mais misteriosas e perturbadoras da Sagrada Escritura, estou realmente surpreso que os liturgistas escolheram proclamá-la, eu não teria tanta confiança assim na capacidade dos pregadores de torná-la compreensível ao povo...

Jefté, juiz de Israel, faz um voto ao Senhor: caso lhe fosse concedida a vitória sobre os amonitas, ele ofereceria quando voltasse para casa a primeira coisa que viesse ao seu encontro como holocausto. Quem veio ao encontro de Jefté foi ninguém menos que sua própria filha. A corrente exegética majoritária tende a interpretar a cena em toda a sua literalidade. Jefté, de fato, oferecido sua filha como sacrifício humano. Tal é a interpretação do Padre Matos Soares, segundo o sacerdote: 
 
O espírito do Senhor excita Jefté a reunir gente e o anime à vitória, mas não, por certo, a fazer o voto de sacrifício humano, proibido pela Lei. O voto foi insensato e ímpio, e mantê-lo foi um delito. Quiçá Jefté agiu de boa fé e julgou-se obrigado ao voto depois da vitória estrepitosa. Não devemos esquecer também a sua falta de cultura.

A incultura de Jefté aliada a uma visão errônea da religião, adquirida com o convívio com os povos do entorno, teria sido causa de tal tragédia. É amargo pensar como um homem bom, alguém que fora de fato um herói para Israel cometeu tal delito; como sua inteligência de tal modo fora obscurecida a ponto de cometer tal ato, violando não só o bom senso como a própria lei veterotestamentária que proibia sacrifícios humanos; julgando estar prestando um culto a Deus. Quiçá isso  nos sirva de alerta a cerca do dever de alimentar nossa inteligência afim de adquirir uma correta visão a respeito de nossa religião, sem deixar-nos contaminar pelos erros de nosso tempo.

Devo citar, porém, que existe uma segunda corrente exegética minoritária a respeito de tal passagem, defendida sobretudo por teólogos protestantes. Tal interpretação tende a diminuir a gravidade do ocorrido, afirmando tratar-se não de um sacrifício humano, mas de uma espécie de consagração monástica de dedicação integral ao serviço divino para dedicar a vida ao Senhor, associada também ao celibato. A dramaticidade da passagem, em tal perspectiva, ficaria por conta de que, entregando sua única filha a serviço do Senhor, Jefté ficaria privado de herdeiros não vendo a perpetuação de sua casa [o que, contudo, também ocorreria primeiro caso].

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Chá, Guerra do Ópio e Digimon Tamers


Liu I-ming, erudito taoísta, nascido em 1734 e falecido em 1860, observara o paradoxo em torno do bicho-da-seda e da abelha, que na busca da própria felicidade acabam por semear a própria morte[1]:
O Casulo do Bicho-da-seda, o Mel da Abelha

Os bichos-da-seda originalmente tecem o seu casulo para se protegerem, sem saberem que as pessoas os matarão por causa dele. As abelhas originalmente produzem mel para se alimentarem, sem saberem que as pessoas vão tirar-lhes a vida por causa dele. Essas criaturas querem melhorar a própria vida, mas, fazendo isso, apressam a própria morte.
O que percebo quando observo isso é o Tao da interdependência entre o benefício e o prejuízo.
Todas as pessoas temem a morte e, por isso, procuram viver. Como procuram viver, têm de fazer alguma coisa a respeito da comida e da roupa. Elas passam os dias trabalhando mental e fisicamente no mundo comum, acumulando dinheiro e gêneros para enriquecerem a própria vida.
As pessoas comuns deveriam considerar isso o bastante para viverem, mas não percebem que isso não é o bastante para se viver de fato. Na verdade, isso termina por apressar a morte.
Como sabemos que é assim? Quanto maior a seriedade das pessoas com o ganhar a vida, tanto menor a sua seriedade com a preservação do corpo. Trabalham dia e noite, o que provoca danos desconhecidos à sua vitalidade e ao seu espírito, deteriorando sua energia e sua circulação. Elas já entraram no caminho da morte.
Há outro tipo de pessoa que não sabe o que traz morte e o que traz vida. Diante de centenas de doenças, pela manhã essas pessoas não têm certeza da noite, mas não conseguem deixar de lado a comida e a roupa, desejando cada vez mais quanto mais envelhecem, não despertando até morrerem, padecendo de confusão até o fim.
Essas pessoas são como bichos-da-seda, que produzem a própria morte ao tecerem um casulo, como abelhas, que produzem a própria morte ao produzirem o mel.
As pessoas de grande sabedoria têm um modo diferente de preservar a vida. Elas não mantêm a mente concentrada na comida e na roupa, não têm a atenção concentrada em ganhos materiais. Elas renunciam à riqueza do mundo para acumular riqueza espiritual, deixam de lado o corpo material para alimentar o corpo verdadeiro. Como nada as pode afetar, o que as pode beneficiar ou prejudicar?

Coincidência ou profecia, tal como a abelhas e o bicho-da-seda, assim se comportou a China Imperial em suas relações com o Império Britânico: o chá do produzido no oriente encantou os ingleses, eram toneladas e toneladas de folhas importadas pela Companhia das Índias Orientais. Todavia, os nativos desdenhavam dos produtos europeus; salvo por um encanto passageiro com relógios e autômatos, nenhuma mercadoria inglesa interessava aos chineses,  o que gerava um saldo comercial extremamente  desfavorável aos anglo que encontraram no ópio um meio de equilibrar as coisas. A droga, proibida pelo governo chinês - por motivos óbvios - gerava fartas receitas, de forma que a companhia inglesa, por meio de um engenhoso esquema de laranjas abastecia os traficantes locais. O dinheiro obtido, ironicamente, acabava por retornar a China para a compra do chá. Quando o governo chinês resolve tomar medidas mais rígidas, com vistas à extirpar o tráfico internacional e conter a crise social gerada pela proliferação da droga, eis que a Inglaterra mobiliza suas frotas a fim de defender ''o livre comércio'' e as ''liberdades individuais'' de lucrar desgraçando a vida dos chineses.  Tal como o mel produzido pela abelha e o casulo do bicho-da-seda, alvos de humana cobiça e causa para de infinitas desgraças aos seus produtores, assim ocorreu o chá na conflituosa história das relações China e Inglaterra. De certo modo, a história, hoje, se remete uma vez...


Ok, talvez seja exagero comparar a guerra do ópio ao cancelamento de Digimon Tamers, mas eu não podia perder a oportunidade de relacionar minhas últimas leituras a polêmica da semana 😁 . Digimon Tamers não é apenas a melhor temporada de Digimon, mas figura entre os melhores animes da face da terra (talvez esteja exagerando uma vez mais) e eu ainda pretendo escrever a respeito, mas o assunto não é tanto a obra original como um especial lançado a poucos dias (isso é se você estiver lendo isso em uma data próxima daquela em que escrevo este texto). Em comemoração aos 20 anos do anime, o roteirista Chiaki Konaka organizou com os dubladores originais uma espécie de breve sequência que fora apresentada em forma de áudio na Digifest apenas para o mercado japonês. Nessa nova aventura, os tamers devem enfrentar uma nova entidade digital, nascida através das interações humanas na internet:


Irritados com a vaga menção do Politicamente Correto e a Cultura do Cancelamento e a singela sugestão que seu comportamento fosse inadequado, e tivesse alguma reação com o mal, eis que os lacradores ocidentais se mobilizaram para cancelar Digimon Tamers 2021 e Chiaki Konaka, infernizando a vida do japonês no twitter com calúnias difamatórias, a ponto de obrigá-lo a pedir desculpas. Eu até entendo que o Konaka só queira sossego, mas fiquei triste por ter cedido tão facilmente aos bastardos do pôr do sol. Seja como for, para além de um fenômeno isolado, o episódio é mais um de inúmeros marcos daquilo que considero o fim da indústria do anime como conhecemos. Tal como chá caiu no gosto dos ingleses, o entretenimento oriental conquistou o oriente, e este mercado estrangeiro acabara por impor padrões e castrar a criatividade dos autores locais. Como os ingleses destruíram a China para obter seu precioso chá, assim o ocidente está a destruir a indústria de animes a fim de adaptá-los a sua sensibilidade degenerada, chegará o tempo em que as garotinhas fofinhas serão substituídas por machorras lésbicas empoderadas e outras bobagens análogas. 

Para mim, o entretenimento japonês serve como uma espécie de refúgio, um modo de alimentar minha imaginação e me divertir e ao mesmo tempo manter uma saudável distância ao lixo ignominioso que é o entretenimento ocidental contemporâneo. É provável que as gerações posteriores não tenham mais esse refúgio...

A lição que fica é o sugestivo título de um livro distributista, o qual ainda não li (será que deveria ter mesmo dito isto? Talvez se fingisse que li e falasse de forma empolada, como um restaurador da alta cultura, esse blog tivesse mais visitas, se bem que, como vão notar pelo fim deste parágrafo isso me causaria problemas...), a saber:  O negócio é ser pequeno. Não atoa os sábios escondem seus tesouros... Quando algo se torna demasiado conhecido, acaba se tornando objeto de cobiça e invariavelmente acarretando desgraças a seu portador.

***

P.S. Eu poderia ter encerrado o texto ali em cima (e talvez  devesse), mas creio que deveria notar certo aspecto contraditório de minha posição. De certo modo eu tenho acesso ao chá e ao entretenimento japonês porque tais elementos cresceram a ponto de ecoar para além de seu ambiente originário. É possível que esteja sendo meio hipster ao querer privar os demais deste nicho que me trouxe não poucas alegrias, mas julgo que meu consumo é civilizado, enquanto o deles predatório, degenerado e imperialista. 

Referências:
[1] O Despertar do Tao - Liu I Ming

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

"A nuvem e a escuridão estão ao redor dele"


Transfiguração do Senhor | Sexta-feira
Primeira Leitura (Dn 7,9-10.13-14)
Responsório (Sl 96)
Evangelho (Mc 9,2-10)

<A nuvem e a escuridão estão ao redor dele; justiça e equidade são a base do seu trono (Sl 96, 2)>

<Formou-se uma nuvem que os cobriu com sua sombra. (Mc 9, 7)>

O Papa João Paulo II classifica a transfiguração como mistério luminoso. Em tal acontecimento, a luz da divindade de Cristo se torna visível, sua mensagem, sua natureza se manifestam com uma clareza sem igual. No entanto, pretendo hoje falar de sombra e escuridão. Nossa cultura tende a associar tais elementos ao Diabo, como se Deus tivesse criado tão somente o dia e a noite fosse o festim dos demônios. Não é assim. Há certa poesia na penumbra.

Dom Marcel Lefebvre nota que o mais admirável do mistério da Transfiguração não é que Cristo tenha mostrado aos apóstolos sua natureza divina, mas antes que a tenha ocultado durante praticamente toda sua vida terrestre. A sombra do Pai é o título do livro de Jan Dobraczyński dedicado a São José. O ápice da arte barroca nas obras de Caravaggio tem como marca distinta o contraste entre luz e sombra; a degeneração do barroco em Rococó se dá precisamente quando o elemento sombrio desaparece da pintura, dando lugar a uma luminosidade piegas. As próprias passagens bíblicas que hoje lemos mencionam a escuridão sob o trono do altíssimo e a sombra da nuvem que cobre os apóstolos antes da manifestação do Pai.

Discrição e silêncio são as características da sombra. Como numa pintura barroca, em tal cenário a luz divina brilha como nunca. Conseguiremos nós apagar as luzes vulgares desta civilização decadente, apartar-nos de tanta agitação, exibicionismo e barulho, e - de modo metafórico -  retirar-nos para o monte, onde cobertos pela sombra da nuvem, sob escuridão que cerca o trono do Altíssimo nos cobrirá, e poderemos então contemplar seus mistérios e escutar a sua voz?

Diz-se que vivemos tempos sombrios, creio eu que é tanto pior. Estamos imersos numa luminosidade artificial e invasiva, que nos impede de desfrutar da poesia da noite e contemplar o brilho das estrelas.