segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Quem não domina é dominado


3ª Semana Comum | Segunda-feira
Primeira Leitura (2Sm 5, 1-7.10)
Responsório (Sl 88)
Evangelho (Mc 3,22-30)

A primeira leitura comenta brevemente sobre a conquista da cidade de Jerusalém pelo rei Davi. A cidade pertencia aos jebuseus, mas pouco importa. O Senhor dos Exércitos abençoou a Davi, que tomou posse desta e lá estabeleceu a capital do seu reino. Posteriormente seu filho Salomão ali edificaria o templo do Senhor.

Deus usa da guerra - e o faz com relativa frequência - para realizar seus desígnios. A dinâmica da conquista, o domínio e mesmo a subjugação e eliminação de povos ímpios figuram não apenas não apenas a "lei do mundo", mas a própria história sagrada. Todavia, desde a Segunda Guerra, conseguiram infundir nos homens uma vergonha e um desprezo para com uma realidade tão elementar. Tantos cristãos, por vezes, pedem desculpas pelas conquistas de seus ancestrais, sentem-se constrangidos pelas vitórias militares do passado. E essa perspectiva pacifista faz com que acumulem - no presente - derrota atrás de derrota. Quem não domina é dominado. Aqueles que insistem em bobagens pacifistas, terminarão como escravos daqueles que ainda conservam o mínimo de bom senso, armas e coragem para fazer valer sua vontade. O mundo é assim, a diplomacia e o diálogo não são absolutos, mas tem limites bem estreitos. Parece que alguns líderes políticos desta era - escrevo no contexto do risco de que a Ucrânia venha a ser invadida e tomada pela Rússia - pretendem recordar-nos disso de forma não muito amigável.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Justa desigualdade e necessário anti-populismo


Sexta-feira depois da Epifania
Primeira Leitura (1Jo 5,5-13)
Responsório (Sl 147)
Evangelho (Lc 5,12-16)

1. <Com nenhum outro povo Ele agiu assim, a nenhum deles manifestou seus mandamentos (Sl 147/146B, 9/20)>; o versículo expressa o espanto e a alegria do salmista ante a preferência divina manifesta para com Israel, nação esta que recebeu os primórdios da revelação e transmitiu o sangue e a carne ao Messias. Para além disso, o trecho também expressa uma verdade de fé que gostamos de esquecer nestes tempos em que ideias toscas, como igualitarismo, tem uma popularidade demasiada. Deus não trata de forma igualitária a todas as nações, antes distribui seus dons entre elas de forma desigual. E por um motivo muito simples: para que nenhuma se baste a si mesma, mas tenham que depender umas das outras, ocasião propícia para o desenvolvimento da virtude da humildade e para a prática da caridade. Determinada ação tem um talento artístico inigualável, outra encontra uma esterilidade criativa nesta área, mas possuí um gênio comercial sem tamanho. Esta é pateticamente pacifista e incapaz de defender-se, em compensação porém possuí grande talento diplomático. Aquela uma valentia e expertise militar sem igual, etc etc. O Império Romano fora capaz de compreender tal realidade, de tal forma que adotou a cultura grega, a religião cristã e táticas militares de muitos dos povos vizinhos. Soube aproveitar aquilo que havia de positivo fora de suas fronteiras. O que nos impede de fazer o mesmo?

2. A multidão procurava a Cristo e Ele com frequência dela se afastava para rezar em lugares desertos. Sem oração ninguém suporta a lida com as massas. Esqueça o romantismo populista latino americano do século passado, a mentalidade politiqueira de véspera de eleição. Aquilo é uma farsa. O convívio humano é sempre um desafio, tanto maior quanto mais numerosos forem aqueles com que se tem de conviver. É preciso que existam momentos de solidão e oração, afim de recarregar as energias, afim de que o indivíduo não perca sua identidade, não venha a se dissolver no formigueiro humano informe, nem dê vazão irar a ponto de desestabilizar a já frágil harmonia social. Quem se ajunta a multidão por que gosta de ''estar junto com o povo'' é doido. Os santos o fazem antes por caridade. A multidão não é boa, é desprezível. Mas Deus os ama, então há que se ter paciência e exercer a caridade para com ela...

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Rozen Maiden: Chá, dolls e conflitos domésticas

Depois de tantos anos nesta indústria vital é raro que uma algo venha a nos surpreender. Se leu o título e viu a imagem que ilustra a postagem, já deve supor que eu estou a falar de anime, mas essa é uma regra que serve para praticamente qualquer coisa. A experiência nos torna elitistas, o contato com material de qualidade elevada nos faz ter imensa má vontade para com o medíocre. Se você gosta de algo, se realmente gosta de algo e se aprofunda nisso, seja algo importante ou uma bobeira, você vai compreender do que estou fazendo. Mas, se você é daquele tipo de pessoa superficial cujo gosto é pautado pelas modas e engole qualquer porcaria que lhe empurra a indústria cultural sob o rótulo de popular, pela "vibe" do momento... bem, o que raios faz por aqui? Vai ler um UOL da vida seu normiezinho patético!

Rozen Maiden não é uma obra particularmente genial. Temos uma vez mais criaturas mágicas lutando usando a energia vital de seus parceiros humanos, desta vez bonecas mágicas. A arte também não é suficientemente memorável, e tendo em vista que o anime é da mesma época de Digimon Tamers, há um abismo entre a forma em que ambas as obras retrataram e se apropriaram de Tokyo. Então se trata de uma obra medíocre? De maneira nenhuma. Ainda que deficiente em muitos aspectos, Rozen Maiden sabe qual é o fator essencial de qualquer história: bons personagens. Ainda que existam mistérios e épicas batalhas,  a maior parte dos episódios é dedicada ao convívio entre os personagens. É extremamente agradável ver a rotina de Sakurada Jun e a interação dele com Shinku e as demais bonecas, a forma como ele vai se transformando de um hikikomori egoísta e traumatizado - devido a bullying na infância - a uma pessoa virtuosa e heroica; Shinku e sua arrogância aristocrática em contraste com Hina Ichigo que é uma bebezona; a personalidade tímida e ao mesmo tempo manipuladora de Suiseiseki, e todos os conflitos domésticos na casa de Jun, cenário da maior parte do anime. O anime de deixa imerso na rotina daquela casa, a paixão de Shinku por chás, os planos e maquinações de Suiseiseki, as criancices de Hina Ichigo, e o show do Detitive Kun Kun protagonista da série televisiva favorita das bonecas. É tão triste quando essa rotina chega ao fim, quando essa desordem doméstica é perturbada pelo Jogo da Alice, que substitui o clima alegre por um pesado drama que vai ceifando a vida de cada uma das personagens...

Existem animes os quais lhe fazem pensar. Outros que lhe convidam a uma contemplação artística. Rozen Maiden não é destes nem daqueles, mas traz aquilo que no fundo todos nós procuramos quando buscamos o entretenimento japonês: momentos memoráveis, agradáveis e divertidos.

***

Três parágrafos, eu já fui mais prolixo... 

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

O início da via purgativa - Pe. Roberth Hugh Benson

Al principio, como hemos dicho, el alma disfruta extraordinariamente con lo meramente externo, que considera santificado por la presencia de Cristo. Por ejemplo, la organización humana de la Iglesia, sus métodos, las funciones litúrgicas, la música y el arte religiosos, todo tiene para ella un sentido celestial y divino.

Con extraordinaria frecuencia, la primera señal de que ha empezado a recorrer la vía purgativa consiste en la sensación que experimenta el alma de lo que el mundo llama desilusión. Y esta sensación tiene causas muy distintas.

Por ejemplo, el alma se encuentra frente a unos hechos desconcertantes un sacerdote indigno, una congregación desunida, escándalos en la vida cristiana, etc., justamente en los ámbitos en los que Jesucristo debería ser el modelo supremo. Pensaba que la Iglesia era perfecta por ser la Iglesia de Cristo, o el sacerdocio inmaculado por pertenecer al orden de Melquisedec… Y para su decepción, se encuentra con la vertiente humana indefectiblemente asociada a las cosas divinas en la tierra.

La novedad empieza a disiparse, y ahora el alma siente que las cosas que creía más directamente relacionadas con su nuevo amigo son ajenas, temporales y transitorias en sí mismas. Su amor por Cristo era tan grande como para hacer brillar todas aquellas cosas externas que ambos compartían; ahora, ese brillo empieza a apagarse y las ve mucho más terrenales. Y cuanto más intenso fue su amor imaginativo, más intensa es su decepción actual.

Esta es, pues, la primera etapa de la vía purgativa; el alma siente desilusión ante las cosas humanas y considera que los cristianos deberían ser —y después de todo no son— otros Cristos.

El primer peligro se presenta inmediatamente: no hay procedimiento de limpieza que no implique cierto poder destructor. Y si el alma es un poco superficial, perderá la amistad con Cristo (la que tenía) además de las atenciones y regalos con los que Ella obsequiaba y complacía. En el mundo hay almas débiles que fallan en esta prueba, que confunden un enamoramiento humano con el Amor esencial, y en cuanto Cristo se despoja de sus adornos, se separan de El. Pero si son almas más firmes, habrán aprendido la primera lección: que la divinidad no radica en las cosas materiales y que el amor de Cristo es algo mucho más profundo que los mismos regalos que El hace a sus nuevos amigos.

- Robert H. Benson. La amistad de Cristo; p.12.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Prosperidade, Política e Provação


1ª Semana do Advento | Quinta-feira
Primeira Leitura (Is 26,1-6)
Responsório (Sl 117)
Evangelho (Mt 7,21.24-27)

1. <Ele derrubou os que habitavam nas alturas e destruiu a cidade soberba, derrubou-a por terra e ao nível do chão a reduziu. Ela é calcada aos pés pela plebe, sob os passos dos indigentes. (Is 26, 5-6)>

É curioso pensar - ao menos para mim que sou um individualista convicto - como um ente coletivo e abstrato como uma cidade pode apresentar características antropomórficas. A cidade soberba, ou se preferir a tradução do Pe. Matos Soares: a cidade altiva. Mas, de fato assim o é. Nem todas as terras são iguais, há lugares onde a atmosfera cultural está abarrotada de pestilência, onde uma espécie de contaminação social parece corromper seus habitantes. Há lugares relativamente mais saudáveis, onde o "clima social" parece favorecer a prática de determinada virtude. Nem toda a terra, nem toda cidade, nem toda nação é igual. Assim como determinadas plantas só crescem em um tipo muito específico de solo sob certas condições climáticas também muito particulares, bem se pode dizer o mesmo sobre determinadas almas. Igualmente sob as pragas que a atacam a lavoura e a sociedade...

2. <Mais vale procurar refúgio no Senhor do que confiar nos grandes da terra (Sl 117, 9)>

A tradução da Vulgata do Pe. Matos Soares é tanto mais precisa ao trocar "grandes da terra" por "príncipes", sobretudo se o leitor tiver um vago conhecimento sobre a obra de Hobbes e Maquiavel. Mais vale procurar refúgio no Senhor que confiar na política. Todavia, tem gente que gosta de se iludir. Paciência...

3. Pode pedir dinheiro para Deus? Pode, desde que não se esqueça da Salvação. Mas se você vai receber ou não, aí é com Ele. De todo modo, canta o salmista:

<Senhor, dai-nos a salvação; dai-nos a prosperidade, ó Senhor! (Sl 117, 25)>

4. A tempestade vem para todo mundo, o que muda é se o sujeito foi prudente e se preparou para o caos. Escutamos no Evangelho: um alicerçou sua casa sobre a rocha, o outro sob a areia. Nenhuma das duas foi poupada da provação. Aquela permaneceu de pé, já esta, grande foi sua ruína. Nossos métodos, nossas escolhas, serão constantemente testados nas diversas circunstâncias da vida, a provação e a oportunidade estão aí para o bom e o mal, para o justo e o injusto. Quiçá sejamos nós prudentes e não insensatos.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

"É nesse momento que a natureza termina e a ecologia começa"


[...] Contudo, e para irmos direto ao ponto, deixaremos essa questão em suspenso com um veredito de Marshall McLuhan, que disse em uma entrevista de 1974 que “a Sputnik criou um novo ambiente para o planeta. Pela primeira vez o mundo natural foi completamente encerrado dentro de um recipiente construído pelo homem. No momento em que a Terra adentra esse novo artefato, a Natureza termina e a Ecologia começa. O pensamento ‘ecológico’ passou a ser inevitável assim que o planeta ascendeu ao status de obra de arte”. Esse veredito de McLuhan precisa ser analisado mais a fundo. O evento de 1957 – isto é, o lançamento da Sputnik pela União Soviética – representa a primeira vez em que os seres humanos puderam refletir sobre a Terra a partir de fora, e, nesse aspecto, a Terra, com a ajuda da tecnologia espacial, passa a ser vista principalmente como um artefato. Em A condição humana, Hannah Arendt também descreve o lançamento da Sputnik como aquele que “em importância ultrapassa todos os outros, até mesmo a desintegração do átomo”, porque sugere, como disse Konstantin Tsiolkovsky, que “a humanidade não permanecerá para sempre presa à Terra”. Essa independência com relação à Terra coloca a humanidade diretamente em confronto com a infinitude do universo e a prepara para um niilismo cósmico. É nesse momento que a natureza termina e a ecologia começa. Em contraste com o sentido dado por Ernst Haeckel ao termo “ecologia” no fim do século XIX, entendido então como a totalidade de relações entre um ser vivo e o ambiente em que ele está inserido, e também com a definição dada por Von Uexküll de ecologia como um processo de seleção do Umgebung (o ambiente físico) para o Umwelt (a “intepretação” do mundo pelo ser vivo), aquilo a que McLuhan se refere é a perda do caráter biológico da ecologia. De acordo com McLuhan, a Terra passa a ser considerada um sistema cibernético monitorado e governado por máquinas que se encontram tanto em sua superfície quanto no espaço sideral. O que testemunhamos é o desaparecimento da Terra, já que a continuidade do planeta é absorvida para o interior de um plano de imanência construído pelo pensamento recursivo da cibernética.

- Yuk Hui. Tecnodiversidade, p.80-81.

As diversas penas do inferno - Papa Inocêncio III


Las penas del infierno son diversas según los diferentes pecados. La primera pena es el fuego; la segunda es el frío. De éstas dijo el Señor: allí será el llanto y el crujir de dientes (Matth. XIII). El llanto por el humo del fuego; el  crujir de dientes por el frío. La tercera es el hedor. De estas tres se dice en el salmo X: el fuego, el azufre y el viento tempestuoso son el cáliz que les tocará. La cuarta remite a los gusanos que no desaparecen; de donde Isaías: cuyo gusano no muere nunca y cuyo fuego jamás se apagará (Isa. LXVI). La quinta, martillos resonantes: Así dice Salomón: aparejados están los terribles juicios de Dios para castigar a los burlones y los mazos para machacar los cuerpos de los insensatos (Prov. X). La sexta, las tinieblas palpables exteriores e interiores. De ahí lo de Job: tierra de miseria y de tinieblas, en donde tiene su asiento la sombra de la muerte y donde todo está sin orden y en un caos sempiterno (Job X). Y en otra parte: Iré a la tierra tenebrosa y cubierta de las negras sombras de la muerte (Ibid.). Y en el Salmo: no verán jamás la luz (Psal, XLVIII). En otra parte reza: los impíos perecen en tinieblas (I Reg. II). La séptima es la confusión de los pecadores. Entonces, como se lee en Daniel, serán abiertos los libros (Dan. VII) , ello es, las conciencias de los hombres serán conocidas por todos. La octava es la visión horrible de los demonios, que se verán en el sacudimiento de las chispas que ascienden del fuego. La novena, las cadenas ígneas, por las cuales los impíos en sus individuales miembros serán atados.

La primera pena es de los concupiscentes, la segunda de los maliciosos, la tercera de los lujuriosos, la cuarta de los envidiosos y llenos de odio, la quinta de aquellos que en este siglo no merecieron ser castigados con flagelos, porque tentaron y exacerbaron al Señor (Psal. LXXVII) en la multitud de sus iniquidades. De donde escrito está: el pecador ha exasperado al Señor, no reposará según la multitud de su ira (Psal. X). La sexta la de aquellos que, ambulando en las tinieblas, se olvidaron de venir a la luz verdadera que es Cristo. La séptima de los que confesaron sus pecados y se olvidaron de hacer penitencia. La octava la de aquellos que en este siglo vieron los males y los hicieron libremente. La novena la de aquellos que por sus vicios singulares cayeron, que anduvieron tras sus deseos y fueron detrás de sus concupiscencias.

- Papa Inocêncio III. De contemptu mundi sive de miseria conditionis humanae; Livro III, Capítulo IV: De las diversas penas del infierno.