terça-feira, 24 de novembro de 2020

Podem as Almas do Purgatório aparecer sob a forma de animais?

Muitos leitores do diário de Eugênia não conseguem familiarizar-se com a idéia de que certas Almas se mostrem sob forma de animais repelentes e nojentos; assim, por exemplo, quando Egolf se mostra em forma de um grande macaco “de olhos em brasa”, e Maria R. como serpente, pois “ela foi o símbolo de minha vida, juramentos quebrados, tudo mentira e fingimento”.

A isso pode-se dizer: Também outros videntes, homens e mulheres, têm visto as Almas do Purgatório sob a forma de animais. Certa vez, Jesus disse a Santa Brígida da Suécia, numa visão: “O que é espiritual não te aparece tal qual é, mas em forma corpórea; para que tua mente possa compreender as verdades, elas são apresentadas em símbolos e comparações”.

O médico-chefe Dr. Kemer, de religião luterana, escreveu em seu livro Die Seherin von Prevorst, que um espírito disse à vidente de Prevorst: “Tu nos vês como é o nosso caráter”.

O Dr. Kemer fala também de outra mulher, à qual aparecia muitas vezes um espírito sob forma de animais nojentos, com a aparência de coruja, de gato, de feio cavalo etc.

José de Gõrres, o grande especialista em mística, da Universidade de Munique, escreve em sua obra Mística cristã, de cinco volumes, sobre a Irma Francisca do SSmo. Sacramento, da Ordem das Carmelitas, que “apareciam, às vezes, a essa Irmã, pessoas falecidas sob formas terríveis, mais parecendo um animal do que gente. E como, em tais casos, Francisca ficasse tão aterrorizada, a ponto de desmaiar, essas almas, no seu primeiro aparecimento, não se mostravam sob essas formas mas qual sombras flutuantes, até que ela se acostumasse ao seu aspecto animalesco”.

Os fenómenos aqui descritos ocorreram, também, em todos os detalhes, com Eugênia von der Leyen.

- Arnold Guillet. Prólogo do livro Conversando com as Almas do Purgatório; p.25-26.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

La ira del Cordero

Em um dos trechos mais marcantes de Alba Triunfante, Monsenhor Masterman, indignado com a condenação de seu amigo - Frei Adrian - a morte por heresia, põe-se a queixar do sistema inquisitorial, afirmando o quão cruel e pouco cristão é tal instituição. O frade condenado protesta, saindo em defesa do sistema que o condenara, afirmando sua legitimidade sem, porém, abrir mão de sua inocência. Segue a transcrição desta obra, ficcional, todavia de rica inspiração teológica.

—¡Pero Cristo! —gritó—. ¡Jesucristo! ¿Podéis ni siquiera concebir la idea de que aquel dulcísimo Señor de todos nosotros tolere esas cosas ni por un instante? No puedo contestarle ahora, aunque estoy persuadido de que existe una contestación; pero ¿es concebible que Aquel que dijo «no luches con el mal», que Aquel que enmudecía ante sus asesinos?…

También el Padre Adrian se puso en pie. Centellaban sus ojos y estaba aún más pálido que antes. Comenzó a hablar en voz baja; pero fue elevándola hasta acabar casi a gritos, que resonaban en la reducida estancia.

—Sois vos quien deshonra a Nuestro Señor —dijo—. Sufrió Él ciertamente, como algún día veréis que sufrimos nosotros, los católicos… como habéis visto ya mil veces, si algo sabéis de lo pasado. Pero ¿es acaso esto lo único que Él representa?... ¿Es solo el Príncipe de los Mártires, la Suprema Víctima del Dolor, el silencioso Cordero de Dios? ¿No habéis oído hablar nunca de la ira del Cordero; de los ojos que despiden llamas; del cetro de hierro con que hace pedazos a los reyes de la Tierra?... El Cristo ante quien vos clamáis no es nada: no es más que un Hombre vencido, del cual se separa la Divinidad…, el Príncipe de los sentimentales y de aquella antigua y perniciosa religión que en otro tiempo se atrevió a darse a sí misma el nombre de cristianismo. Pero el Cristo que adoramos nosotros es más que esto: el eterno Verbo de Dios, el Caballero de la Blanca Cabalgadura que realiza y seguirá realizando sus conquistas… Monseñor, ¡os olvidáis de cuál es la Iglesia a que pertenecéis como sacerdote! Es la Iglesia de Aquel que rechazó los reinos de este mundo que le ofrecía Satán, que Él podía ganarlos por sí mismo. Esto ha hecho. ¡Cristo reina!... He aquí lo que habéis olvidado, Monseñor. Cristo no es ya una opinión o una teoría. Es un hecho. ¡Cristo reina! Él gobierna real y verdaderamente el mundo. Y ese mundo lo sabe.

Dejó de hablar un momento, temblando de cólera, y alzó después al cielo las manos.

—¡Despertad, Monseñor! ¡Despertad! Estáis soñando. Cristo es nuevamente, ahora, el Rey de los hombres…, no precisamente el de los devotos, cuyo entendimiento se inclina a lo religioso. Gobierna porque este es su derecho… Y el poder civil lo reconoce y apoya en lo secular, y la Iglesia en lo espiritual. ¿Que se me condena a mí a muerte? Pues bien, yo protesto de que no se me considere inocente; pero no de que el crimen de que se me acusa se castigue con la pérdida de la vida. Protesto; pero no me lamento, no me quejo. ¿Creéis que temo a la muerte?... ¿No está ella también en Sus manos?... Cristo reina, y todos lo sabemos. ¡Y también vos debéis saberlo!

Hasta el poder de sentir parecía haber abandonado al que escuchaba estas palabras… No veía ante él más que un rostro pálido, como en éxtasis, y unos ojos ardientes que le miraban con fijeza. No podía ya resistirse, rebelarse por más tiempo. Solo un gran esfuerzo impidió que se rindiera del todo. Algo enorme, inexplicable, parecía oprimirle, envolverle, amenazándole hasta con hacerle desaparecer. Tan terrible era la fuerza con que las palabras se dijeron que por un instante le pareció que surgía ante él la visión de lo que describían: una suprema y dominadora Figura, herida, en verdad, pero poderosa e imperativa en la plenitud de su fuerza: no ya el Cristo de la dulzura y de la muchedumbre, sino un Cristo que, revestido, al fin, de todo Su poder, reinaba; un Cordero que era, al mismo tiempo, un León; un Siervo que resultaba ser Señor de todo, y que, si defendía antes su derecho, mandaba ahora sin contradicción… 
- Pe. Robert Hugh Benson. Alba Triunfante; p. 134-135.

domingo, 15 de novembro de 2020

O favelão das redes sociais e a antiga nobreza dos fóruns digitais

O Facebook é uma 💩! Tá, talvez não seja esse o melhor modo de começar uma postagem, talvez antes eu lhes deva contar uma história. Há alguns dias comecei a assistir o anime Yowamushi Pedal, seria apenas mais um slice of life comum não fosse tratar de um tema sensacional: ciclismo. E eu que gosto de dar uns "roles" de bike desde tempos arcaicos, empolguei de impulsionar ainda mais minhas aventuras sobre duas rodas. Mas esse não é um post sobre bicicletas - que ainda há de vir - e sim como as redes sociais são um favelão identitário, diferente da aristocrática estrutura arcaica da internet de outrora. De todo o modo, retornemos a história: empolgado com a bike, fui entrar em alguns grupos de ciclismo no Facebook para pegar algumas dicas, trocar informações sobre equipamentos, técnicas de pedalada e etc... Todavia, não encontrei nada disso, antes salta em meu feed foto de uma dona de camisa e calcinha, com a bicicleta no fundo e o foco da câmera em seu corpo: <Oiii gente, o que acham da minha bike nova hihihi>, e um monte de gado nos comentários, mugindo como sempre. Ah, e pra variar, a dona tinha de ser carioca. Em outro grupo, mais fotinhas, de donas posando com seu uniforme de ciclismo a outras coisas ainda piores, que se descrever com a linguagem adequada capaz de tomar a porcaria de um processo por ''mophobics". Talvez eu só tenha entrado em um grupo ruim (foram uns três nesse nível), mas na verdade acredito que toda aquela rede social é ruim, e assim o é porque esta espelha a estrutura pós-moderna: a sociedade aberta, laica, democrática e identitária.

O leitor mais jovem, nascido no Kali Yuga digital, na era das redes sociais, talvez não acredite, mas houve um tempo em que a internet era um lugar nobre e aristocrático, este tempo foi a era dos fóruns. Enquanto hoje há uma pressão social normie para associar as redes sociais a sua identidade real, abdicando de sua privacidade e entregando dados referentes a sua aparência, preferências políticas, vida afetiva, sexual - quem tem vida sexual fora do casamento é um fornicador imundo e vai pro inferno - e, sobretudo, hábitos de consumo; na era dos fóruns vivíamos como que em um baile de máscaras, onde sob a face de um avatar - quase sempre um personagem de anime ou videogame - as pessoas iam buscar sua turma, gente com gostos semelhantes para falar de assuntos que gostam. O importante ali era o assunto e não a pessoa, então não tinha ninguém exibindo fotinha para lá - forçando sua identidade suja seja para compensar alguma carência psicológica ou tão somente buscar uma namoradinha, nem fazendo militância política em local inadequado - tampouco desviando o foco daquilo que interessa. Em um fórum de bicicletas, se falava de bicicletas, em um fórum de religião, se falava de religião, e assim por diante. 

Além disso, a estrutura de tópicos e respostas facilitava tanto a organização e o armazenamento de publicações relevantes, quanto um maior foco nas discussões e debates, compare isso com a fuzarca das redes sociais onde uma eventual informação relevante é afogada em um mar aleatório de inutilidades imundas. Cabe ainda que mencionar que sob o regime do Zuckerberg os usuários estão sob a lei do politicamente correto, e podem ser banidos sumariamente por digitar algumas palavrinhas proibidas, ou por pressão uma falsas denúncias de alguma gangue ideológica - eu já tomei dois bans por discurso de odeo - enquanto que nos fóruns, cada comunidade é livre para se governar segundo suas próprias regras. 

Em suma, as redes sociais são um maldito lixo liberal onde você deve conviver com tudo quanto é tipo de gente, o qual está mais preocupado em alimentar a própria vaidade e forçar sua identidade suja, que de fato aprender ou discutir sobre algo, e as grandes corporações, é claro, exultam com isso: gente estúpida e consumista; um favelão. Bem diferente do aristocrático clima dos fóruns onde a pessoa não importa, onde ninguém quer saber de sua identidade, sua vida privada, de seus hábitos de consumo, mas tão somente se você tem algo a contribuir com a comunidade na discussão sobre determinado assunto, seja este assunto filosofia tomista, ou simplesmente Digimon. Aliás, experimente falar de tomismo em sua timeline para escutar o ruído dos bonobos acusando de elitismo ou estar fora da realidade e querendo lhe dizer como deve conduzir seus estudos. Em um fórum temático você estaria livre deste incomodo e encontraria um ambiente adequado para discutir aquilo que lhe interessa com gente que também se interessa pelo assunto. Se um dia a degeneração na internet diminuir a turma vai abandonar o Facebook, o Instagram e os grupos do zap - que são um inferno - e retornar aos fóruns. Infelizmente esse dia não é hoje.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Os três negociantes de Gúbio

Infelizmente o deus dos nossos tempos é o dinheiro. Quão numerosos são os que se prostram diante dele e lhe oferecem adoração em todo tempo e lugar! 

O resultado é que, correndo atrás deste ídolo, esquecem o verdadeiro DEUS, e, por conseqüência, precipitam-se num abismo de desgraças e perdem toda a felicidade, enquanto que, na afirmação do profeta e rei, aqueles que buscam a DEUS antes de tudo, não caem em nenhum verdadeiro mal e têm acréscimo de todos os bens, Inquirentes Dominum non minuentur omni bono (Sl 33,11). Esta palavra se verifica ainda mais naqueles que , antes de se entregarem a seu trabalho ou a seus negócios, têm o cuidado de assistir ativa e atentamente à Santa Missa.

É o que prova a história dos três negociantes de Gúbio. Dirigiram-se a uma feira que se realizava num burgo chamado Cisterno. Depois de vender suas mercadorias, dois deles começaram a pensar na volta e resolveram partir no dia seguinte de madrugada, a fim de estarem em casa ao cair da tarde. O terceiro discordou desta resolução e declarou que, sendo o dia seguinte um domingo, não se punha a caminho se antes ter assistido à Santa Missa.
 
E exortou os outros, se queriam voltar como tinham vindo, teriam primeiro que assistir à Santa Missa; em seguida fariam uma refeição e partiriam abençoados. Além disso, se não pudessem chegar naquela mesma noite a Gúbio, não faltariam albergues confortáveis no caminho. 

Os companheiros não se renderam aos conselhos salutares e sensatos; mas, decididos a chegar naquela mesma noite a seus lares, responderam que DEUS havia de perdoar-lhes se pro aquela vez faltassem à Santa Missa. Assim, no domingo, antes da aurora, sem entrar sequer na igreja, montaram a cavalo e tomaram a estrada para sua terra. 

Em breve chegaram à torrente de Corfuone, que a chuva torrencial da noite anterior engrossara a ponto de fazer transbordar. A água, em corrente impetuosa, sacudira e deslocara bastante a ponte de madeira. 
Os dois negociantes meteram-se por ela com suas alimárias, mas, bem não tinham chegado ao meio, rompeu-se o madeirame à pressão da água e os dois cavaleiros precipitaram-se no rio onde se afogaram, perdendo assim dinheiro, mercadorias e a vida. 

Ao fragor desta catástrofe, acorreram os camponeses, e por meio de ganchos e varapaus conseguiram retirar os cadáveres que deixaram estendidos na margem, para que fossem identificados e se lhes pudesse dar sepultura. 

O terceiro, entretanto, que se deixara ficar para cumprir o preceito de assistir à Santa Missa, pôs-se a caminho alegre e animado. Ao chegar à mesma torrente, viu na margem os dois mortos, e por curiosidade se deteve para olhá-los. Reconheceu imediatamente seus dois amigos e ouviu emocionado a descrição da tragédia. 

Levantou, então, as mãos ao céu, agradecendo a DEUS que tão misericordiosamente o preservara de semelhante desgraça, e abençoou mil vezes, a hora que consagrara à Santa Missa, à qual devia estar são e salvo.

Ao chegar a sua cidade, comunicou a triste notícia e excitou em todos os corações um vivo desejo de assistir todos os dias à Santa Missa. 

- São Leonardo de Porto-Maurício. As Excelências da Santa Missa; p. 70-72.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Sobriedade


32ª Semana do Tempo Comum | Terça-feira
Primeira Leitura (Tt 2,1-8.11-14)
Salmo Responsorial (Sl 36)
Evangelho (Lc 17,7-10)

Sobriedade. a palavra aparece repetidas vezes na primeira leitura de hoje. Fica mais fácil entendermos seu significado quando a comparamos com seu antônimo: embriaguez. Embriaguez é um estado de confusão, onde nossa conduta segue um ritmo que não é adequado a situação, e nosso raciocínio está como que obnubilado. A forma mais conhecida de embriaguez é aquela advinda do álcool, existem outras substâncias que causam efeito semelhante, mas não só. Existe a embriaguez das paixões, a embriaguez de luxúria, da ira, da tristeza; como bêbados estamos com o raciocínio obscurecido, numa conduta viciosa. Existe um outro tipo de embriaguez que por vezes é tida como virtude aos olhos dos incautos: a embriaguez da moderação. A quietude e a calma nem sempre são adequadas. Em meio a uma guerra, ou aos atos próprios do matrimônio, certo radicalismo, certa paixão se faz necessária, quem ali se mantivesse calmo, moderado, estaria falhando em seus deveres de estado. Em meio a crise eclesial deste século não poucos recorrem a este tipo de embriaguez; os bárbaros profanam o templo sagrado, as santas relíquias são jogadas aos porcos, e lá se vê a turma, a falar em diálogo e condenar os supostos radicais que reagem apaixonadamente contra tal blasfêmia. Estão, pois, embriagados na moderação, brisando como maconheiros...

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

"[...] irreprehensiveis no meio d'huma nação depravada, e corrompida: onde vós brilhais como astros no mundo"


31ª Semana do Tempo Comum | Quarta-feira
Primeira Leitura (Fl 2,12-18)
Salmo Responsorial (Sl 26)
Evangelho (Lc 14,25-33)

Vivemos nós em uma época de degeneração, em uma sociedade apóstata, em um mundo apodrecido e degradado, mas, isso não é algo inédito. Atentemos pois as palavras do apóstolo na Carta aos Filipenses: <A fim de serdes sem nota, e sem refolho, como filhos de Deos irreprehensiveis no meio d'huma nação depravada, e corrompida: onde vós brilhais como astros no mundo (Fl 2,15)>.

Note o leitor que São Paulo não alimente projetos ilusórios de reforma social, não propõe um novo mundo, mas remete a conduta pessoal e destaca a necessidade dos cristãos daquele tempo de manterem-se puros, contrastando com a imundície da sociedade. E de fato o juízo do apóstolo mostrou-se correto, uma vez que Roma só viria a tornar-se católica mais de 300 anos depois, a essa altura os Filipenses a quem originalmente fora dirigida a carta, já estavam mortos. O mesmo irá acontecer conosco, nenhum de nós viverá para ver o florescimento de uma nova sociedade, uma hipotética nova cristandade, temos, pois de sobreviver a degeneração contemporânea, mantermo-nos puros e irrepreensíveis, de pé em meio a ruínas. Que nossa esperança esteja no céu, e não na terra, do contrário ficaremos frustrados.

sábado, 31 de outubro de 2020

Demonologia na Patrística

A presença do demónio na doutrina dos Santos Padres é tal que se poderia fazer uma tese de doutoramento sobre o tema em cada um deles. A doutrina do Novo Testamento aparece neles repetidamente ampliada pelo interesse que têm de pesquisar na natureza dos demônios, no pecado que cometeram, bem como na sua incidência na vida espiritual. Como é lógico pensar - tendo em conta a doutrina do Novo Testamento - não existe um único Padre que tenha duvidado da existência do demônio, bem como do seu carácter pessoal. A crença nele é pacífica e universal, algo de que não se pode duvidar. Para eles, seria impensável levantar-se a dúvida. Como disse Gozzelino, a realidade dos espíritos bons e maus que influenciam no mundo constitui um dado absolutamente óbvio e pacífico, que nas suas consequências se manifesta como um dado de fé e de vida cristã.

Uma vez que devido à extensão desta obra não podemos apresentar um estudo de cada um dos Padres, limitamo-nos a fazer um resumo da sua doutrina, assinalando o contributo específico dos mesmos. Já Melitão de Sardes escreveu um livro sobre o demónio no séc. II.

Sobre esta matéria deve dizer-se que os Padres tiram a sua doutrina da Bíblia, embora se descubra também neles uma certa influência judaica e até helenística. Já no século IV, quando se abandonou a leitura dos apócrifos, se verifica nos Padres, comenta Lavatori alguma purificação das fantasias demonológicas para se concentrarem expressamente no que a Bíblia ensina e diz.

Os Padres apologetas desenvolvem uma doutrina sobre o demónio numa dupla direcção: declarando que a idolatria, a magia e a adivinhação são meios com os quais os demónios procuram impedir a evangelização cristã, e explicando também que a origem do mal não se deve à má natureza do homem criado, mas ao mau uso que o primeiro homem fez da sua liberdade.

Para rebater o gnosticismo, era preciso esclarecer a questão da origem do mal. E é neste sentido que os Padres apologetas tratam o pecado original e a acção sedutora do demónio. Mais à frente Orígenes adverte: «É impossível conhecer a origem do mal sem conhecer os ensinamentos sobre o diabo e sobre os seus anjos, isto é, o que ele foi antes de se tomar diabo, e também a razão pela qual os seus anjos participaram na sua apostasia».

Uma coisa que não levanta dúvida nos ensinamentos dos Santos Padres é que os demónios são criaturas de Deus que se revoltaram contra Ele. Isto era já ponto assente pela Sagrada Escritura, mas os Padres têm que voltar frequentemente a este ponto para se defenderem do maniqueísmo dos primeiros séculos. Santo Ireneu, por exemplo, tem de defender a criaturalidade dos anjos contra a gnose do século II, rejeitando a identificação que esta fazia dos diabos com os eons divinos de cariz neoplatónico. Os apologetas do século II vão também nessa mesma direcção.

Santo Agostinho teve que se confrontar com a concepção maniqueísta (que ele tinha partilhado antes da sua conversão) e que hipostasiava o mal fazendo dele um princípio eterno e subsistente com a mesma essência que o princípio do bem. Santo Agostinho explica que o mal não é uma substância (pois toda a substância criada por Deus é boa), mas uma deficiência que existe nos seres criados. É a privação de um bem devido que, como privação, acontece em algo que por si só é bom. Assim, o demónio foi criado bom. Era um anjo bom que prevaricou com o seu pecado. Tornou-se mau, portanto, por causa do mau uso que fez da sua liberdade.

Por isso, os Santos Padres falam extensamente do pecado dos anjos. E é neste capítulo que se nota melhor a influência judaica. Baseando-se no primeiro livro de Henoc, a teoria inicial dos Padres para explicar o pecado angélico é apresentá-lo como um pecado de luxúria (pecado cometido com as filhas dos homens). Assim o explicam Santo Ireneu, Justino, Atenágoras, Clemente de Alexandria, Tertuliano e Lactâncio, entre outros.

A partir do século IV, comentam Flick e Alszeght, os Santos Padres realizam uma reflexão mais profunda sobre a natureza espiritual dos anjos que rebate a explicação anterior. São João Crisóstomo, por exemplo, diz que é blasfémia falar do pecado da luxúria a partir do Gn 6,4, dado que os anjos pecaram antes de Adão e que a sua natureza incorpórea não permitia esse tipo de pecado.

Por isso se vai impondo entre os Padres uma segunda teoria que explica o pecado dos anjos relativamente à dignidade concedida por Deus ao homem. Alguns anjos, dizem, tiveram inveja do homem e recusaram reconhecer e reverenciar nele a imagem de Deus. Assim se explicam Ireneu, Tertuliano, Cipriano, Gregório de Nisa e Santo Agostinho, entre outros.

Já no século XVI, Suarez explicou que a origem do pecado dos anjos foi a inveja contra o Filho de Deus, Deus e Homem, enquanto se negaram a reconhecer n'Ele a sua cabeça. Esta explicação, não o podemos negar, é no mínimo sugestiva, dado que o homem ia participar, nos planos de Deus, da glória do Seu Filho como centro da história e do cosmos. Esta teoria, assim exposta, estava muito próxima da terceira opinião dos Padres que explicam a queda dos anjos como um pecado de soberba. Seria o desejo de serem iguais a Deus, comprazendo-se desordenadamente da sua própria perfeição. Assim pensaram Tertuliano, Orígenes, Gregório Nazianzeno, Atanásio, Cirilo de Alexandria, Ambrósio e Agostinho entre outros. Os anjos tinham sido criados para servir Cristo e o seu plano de salvação para os homens.

H. Spaemann, um filósofo dos nossos dias, junta-se às teorias dos Padres ao afirmar: «Deus incarnou no homem e a condenação de Satanás é causada por ele ter rejeitado a decisão de Deus que não só Se quis tornar homem, viver como homem e, deste modo, ajudar os homens, mas quis também encomendar aos anjos a tarefa de estarem ao serviço dos homens».

Os Padres, logicamente, foram mais além da Sagrada Escritura com a intenção de explicar e compreender (por outro lado, essa intenção é lógica) a queda e o pecado dos anjos.

Outra das características da doutrina dos Padres sobre o demónio é a perspectiva cristológica com que tratam o tema. O problema do mal, observa Lavatori, não se soluciona apenas a partir da perspectiva filosófica, que acha que ele é a privação de um bem devido, mas soluciona-se também a partir de Cristo. Os Padres sublinham sempre a vitória de Cristo. S. Justino, por exemplo, mostra sempre a vitória de Cristo sobre o demónio não apenas na altura das tentações, mas sobretudo na paixão e na ressurreição. Santo Ireneu, que fala do demónio como de um anjo apóstata, diz que Cristo entrando na guerra que este inimigo fez contra nós, teve que se enfrentar com ele no início do seu ministério. Santo Agostinho, no livro De civitate Dei, apresenta a luta entre as duas cidades como uma luta que tem origem no céu, quando os anjos se dividiram. Vê no pecado como que uma espécie de corpo místico do diabo. Vencido por Cristo, o diabo continua ainda a lutar contra a Igreja.

A demonologia dos Padres insere-se nitidamente no mistério de Cristo. Santo Ireneu, por exemplo, contrapõe a acção redentora de Cristo à obra negativa realizada por Adão. E a redução cristológica que o tema apresenta no Novo Testamento é algo que também se nota nos Padres.  

O problema do mal só encontra a sua resposta cabal e definitiva em Cristo.

É neste contexto que os Padres apresentam Cristo como Aquele que paga ao demónio os direitos que ele tinha adquirido sobre o homem. Mas é necessário distinguir sempre esta forma de entender o mistério (forma discutível) da afirmação de fundo segundo a qual Cristo nos redimiu do poder do diabo.

Os Padres sublinham constantemente a redenção como libertação de Satanás. Este assunto, comenta Galot, apresenta-se de várias formas. É raro que se apresente o sangue de Cristo como algo que se paga ao demónio, «a quem tínhamos sido vendidos pelos nossos pecados», comenta Santo Ambrósio, o que é dificilmente compatível com o princípio de que o sacrifício de Cristo foi oferecido ao Pai e não ao demónio. Ora bem, é frequente nos Padres a teoria do direito do demónio, que Cristo satisfez com a sua redenção.

Os Padres, lembra Lukken, descreveram o domínio de Satanás sobre a humanidade, a partir do pecado original, com a imagem da escravidão, tirada do mundo profano. Neste sentido, dizem que o demónio se apoderou da humanidade, e adquiriu direito de propriedade sobre ela a partir do pecado de Adão. Deste modo, chegam à teoria dos iura diaboli, de acordo com a qual a redenção de Cristo aparece como um resgate, no sentido literal da palavra. 

Este tema está também presente em Ireneu e em Orígenes. É uma teoria que, através de S. Jerónimo passa para o Ocidente e encontramo-la principalmente em Santo Ambrósio. De acordo com ele, o homem caído tem uma dívida com Satanás. Cristo redimiu-nos dessa dívida, de maneira que agora somos d' Ele devedores. É uma teoria que, com matizes diversos, se tornou clássica e podemos encontrá-la em João Crisóstomo, Cirilo de Alexandria, Teodoreto e João Damasceno.

Em Santo Agostinho, essa teoria está unida à ideia do abuso do poder realizado pelo demónio, que quis exercer sobre Cristo um direito que tinha apenas sobre os pecadores. 

Segundo Galot, esta teoria propagou-se, não só na teologia latina, como na oriental. Galot relembra ainda como se espalhou entre os Padres a teoria da desforra: era conveniente que Deus obtivesse a vitória do mesmo modo que o demónio obteve a sua; isto é, por meio de um homem nascido de mulher. Nessa teoria, surge também por vezes, a ideia da armadilha lançada ao demónio.

Sem dúvida, que todas estas imagens apresentam grande dose de metáfora. Os próprios Padres, quando falam dos direitos do demónio, utilizam termos como tamquam, velut, que relativizam um pouco as suas expressões, porque, como comenta Lukken, «em última análise, o domínio de Satanás depende do próprio Deus, que entregou o homem a Satanás depois da queda». Existe, portanto, muita metáfora em tudo isto, mas, «apesar das suas imperfeições - comenta Galot - os textos patrísticos contêm um dado que não se pode deixar de ter em conta. Sublinham um aspecto do drama redentor que o pensamento moderno muitas vezes tem tendência a passar por alto ou a deixar esquecido: a luta com os poderes espirituais do mal. Ao insistirem nesta luta, os Padres não fazem senão recolher uma ideia essencial da Escritura: Cristo libertou a humanidade por meio do triunfo sobre Satanás despojando-o do seu poder escravizante. As metáforas patrísticas tendem a colocar-nos diante dos olhos a grande verdade de que a nossa salvação foi conseguida através da vitória de Cristo sobre aquele que submetera a humanidade à servidão do pecado. Assim como antes o demónio tinha arrancado a humanidade da amizade divina, Cristo libertou a humanidade do poder do demónio. O demónio foi vencido ali mesmo onde tinha triunfado provisoriamente: no coração do homem».

Juntamente com os ensinamentos anteriores, expressos às vezes através de metáforas, existe nos Padres a convicção, de que por causa do pecado original, o homem fica sujeito ao demónio enquanto não for regenerado nas águas do baptismo. É esta a ideia que os Padres desenvolveram, principalmente, em ligação com o Baptismo.

Não nos podemos alongar sobre este tema que desenvolvemos noutro lugar. À maneira de exemplo limitamo-nos a citar dois textos: um de Santo Ireneu e outro de Santo Agostinho. Santo Ireneu falou deste modo: «Nós éramos os seus vasos e a sua casa (do diabo), estando como estávamos em apostasia. Porque nos usava à sua vontade, e o espírito imundo habitava em nós». E mais à frente acrescenta: «Uma vez que no início o diabo persuadiu o homem a transgredir o preceito, manteve-o sobre o seu poder, mas o seu poder é transgressão e apostasia e com elas amarrou o homem ... Depois o Verbo prendeu o demónio como seu escravo e destruiu os seus vasos, quer dizer, aqueles que o diabo dominava e dos quais se servia injustamente. E assim ficou justamente cativo aquele que tinha prendido o homem injustamente, e o homem que antes tinha estado cativo foi libertado do poder do possuidor, segundo a misericórdia de Deus Pai».

Textos como estes são abundantes no próprio santo Ireneu e nos apologistas, Tertuliano, Orígenes, Ambrósio, Ambrosiaster e em Agostinho entre outros. Dada a intenção deste capítulo, limitamo-nos a outro texto de Agostinho: «Fica nelas (nas crianças) o pecado original, pelo qual ficam cativas sob o poder do diabo, até serem redimidas pelo sangue de Cristo no banho da regeneração, e deste modo passem para o Reino do seu Redentor, sendo vencido o poder do seu dominador, e dando­ -lhes o poder de que, de filhos da ira que eram, passem a ser Filhos de Deus». Os textos de Santo Agostinho que se poderiam citar são inúmeros.

Nesta altura queremos apenas realçar que este é em muitos casos o modo como os Padres entendem o pecado original. O P. Orbe, ao estudar Ireneu, escreveu, por exemplo: «O drama do pecado original não acontece per se entre Deus e o homem, mas entre Deus e o anjo do mal . O homem revela o drama, como a primeira ocasião avaramente aproveitada pelo diabo. Mas já aqui se percebe o desenlace. Acabará com o bem do homem e o mal do diabo, para vitória de Deus».

É verdade que o diabo, já vencido por Cristo, continua a actuar no mundo e na Igreja. Está condenado e vencido, mas continua a agir ainda contra a Igreja até à segunda vinda de Cristo, altura em que será definitivamente expulso para o inferno. Pois bem, a condenação do demónio, já é definitiva. Foi Orígenes quem, no entanto, pensou que o inferno, o inferno dos demónios e dos condenados, seria algo puramente temporal. Por certo que no século III, Orígenes introduz a doutrina da apokatástasis, de acordo com a qual os ímpios, depois de um castigo temporal, ficariam definitivamente salvos. A maior parte dos Padres contemporâneos de Orígenes mantiveram, no entanto, a doutrina tradicional. E o pensador de Alexandria foi condenado no sínodo Endemousa (em Constantinopla) no ano 543, depois de Padres como Santo Agostinho terem rejeitado completamente a sua doutrina como contrária às palavras de Cristo. A partir do referido Sínodo, o consentimento dos Padres, tanto orientais como ocidentais, foi unânime. S. Jerónimo, que a princípio tinha defendido a ideia de Orígenes, mais tarde atacou-a com decisão.

Finalmente, na doutrina dos Padres sobre o demónio aparece uma preocupação espiritual no sentido de que se preocupam pela influência que o demónio tem nas almas e na direcção espiritual. Os Padres, principalmente no meio monástico, dão conselhos aos cristãos na luta contra as forças das trevas. Evágrio Pôntico e Cassiano são, talvez, os autores mais importantes na demonologia monástica, comenta Iraburu. Os demónios são anjos caídos que atacam os homens nos seus níveis mais vulneráveis - corpo, sentidos, imaginação - mas que nada podem sobre o homem se este não lhes der o seu consentimento. Para o seu cerco servem-se principalmente dos logismoi - pensamentos, paixões, impulsos desordenados e persitentes - que se podem reduzir a oito: gula, luxúria, avareza, tristeza, cólera, preguiça, vaidade e orgulho. Mas nos seus ataques não podem ir para além do que Deus permite.

As tentações do demónio são subtis, dado que ele sabe revestir-se de anjo de luz e mostrar o mal como bem.

O cristão deve resistir com «a armadura de Deus» que o apóstolo descreve (Ef 6, 1 1 -18), e muito especialmente com a Palavra divina, a oração e o jejum, que foram as armas com que Cristo resistiu e venceu nas tentações do deserto. Mas deve resistir sobretudo apoiando-se em Jesus Cristo e nas suas legiões de anjos (Mt 26,53). Como disse S. Jerónimo, «O próprio Jesus, nosso chefe, tem uma espada, e avança sempre à nossa frente, vencendo os nossos adversários. Ele é o nosso chefe: lutando Ele, vencemos nós».

Os santos padres entraram certamente na reflexão quanto à natureza dos demónios. Neles é completamente rejeitada toda a concepção dualista do diabo já que é uma criatura de Deus. Por outro lado, orientam-se progressivamente para uma concepção espiritual da sua natureza, comenta Lavatori, uma vez que na sua origem são considerados como anjos bons. São portanto, seres espirituais. No entanto, às vezes é-lhes atribuído um corpo aéreo e subtil, com certeza para justificar as suas aparições. «A concepção mais comum - comenta Lavatori -é a de uma imaterialidade relativa, no sentido de que os demónios têm um corpo mais espiritual que o humano, mas não se podem definir como privados de toda a dimensão material ». Como diria Santo Agostinho, têm um corpo aéreo.

Uma vez que não têm a visão do Verbo, têm um escasso conhecimento de Deus e dos homens, embora tenham uma inteligência e poder superiores. Não podem conhecer o espírito interior do homem, mas antes conjecturá-lo pelos sinais externos, diz Santo Agostinho.

Usam o seu poder, superior ao do homem, sobretudo para afastar os homens de Deus, incitando-os ao pecado, à idolatria, à mitologia e à corrupção da sã doutrina, através da heresia.

No entanto, a acção nefasta do demónio não é ilimitada, porque como todas as criaturas, está submetida ao poder e obra de Deus de acordo com a providência divina. O demónio pode influenciar no homem através do seu corpo e da sua fantasia, mas não pode coagir a liberdade humana. O livre arbítrio é um elemento constitutivo de cada criatura intelectual, quer seja angélica ou humana, e isto, comenta Lavatori constitui um ponto firme e insuperável. É a defesa que os Padres fazem do homem como criatura de Deus, feita à sua imagem e semelhança, que continua a ser livre apesar de tudo. 

- José António Sayés; O Demônio: Realidade ou Mito?; p.59-70.