sábado, 18 de janeiro de 2020

Brasil Profundo em Filme Pastelão

Não sei se por temperamento ou vício de época, mas confesso ao leitor que tenho um fraco pela complexidade. Ante os enigmas que se me apresentam, procuro sempre uma compreensão profunda, explorando sobretudo seus aspectos mais marginais e obscuros. Assim também se dá no estudo da religião. Procurando manter a devida prudência, é certo, as questões que mais me atraem são aquelas as quais apresentam maior dissonância para com a mentalidade moderna, a saber hoje: a realidade dos seres espirituais (anjos e demônios) e os aspectos hierárquicos e aristocráticos da revelação. Temas estes que não foram muito explorados por meus conterrâneos. Antes, o ethos brasileiro parece dedicar especial atenção ao aspecto moral e social do catolicismo. Tal perspectiva, válida, sem dúvida, encontra um especial eco em um velho filme datado de 1984: Padre Pedro e a Revolta das Crianças.

O roteiro, embora belo, é terrivelmente simples: um padre novo chega na cidade para restabelecer a vida religiosa à sete anos interrompida. Uma espécie de mafioso local começa a conspirar pela expulsão do sacerdote, pois teme que este possa vir a comprometer seus negócios imorais. O sacerdote é interpretado pelo comediante Pedro de Lara, o vilão é ninguém menos que a excêntrica figura do senhor Zé do Caixão.  O filme é marcado por aquele velho humor pastelão, com diálogos em linguagem escrachada, efeitos especiais risíveis e atuação caricata. Apesar disso, ou justamente por causa disso, é um bom filme.

Comentários técnicos a parte, ainda fico a pensar a respeito da narrativa. Temos um padre machão que vem para moralizar a cidade; ricos iníquos mancomunados com políticos temendo a ação justiceira da Igreja, um povo refém dos poderosos que encontra no sacerdote a defesa e a proteção contra os senhores do mundo. As coisas são tão simples... Não há heresias, não há conspirações, não há complexas especulações teológicas, mas a coragem de um homem inspirado por Deus que faz o que tem de ser feito. É simples, perturbadoramente simples, e ainda assim tocante. Creio que falta ao mundo de hoje esta simplicidade rústica daquilo que chamo catolicismo folk. Histórias locais contam que em uma metodologia análoga a do Padre Pedro, um sacerdote local teria impedido a construção de uma loja maçônica nos arredores da Igreja, todavia, com a morte deste valente padre, seu sucessor, com toda politicagem e diplomacia não conseguiu lograr o mesmo resultado, de modo que em frente ao Templo de Deus se edificou a Sinagoga de Satanás. Lembro de uma história que ouvi em Goiás, a respeito de um padre que ameaçado de morte, por contrariar um coronel local, teria respondido e acusado publicamente seus adversários durante homilia (em linguagem popular, o sermão): "Se querem me matar, que tentem! Eu sou padre na batina, e macho na carabina!".  

Em tempos de grande passividade, onde blasfêmias são realizadas em plena luz do dia e ninguém faz nada, quão luminoso é assistir este velho filme pastelão, contemplar toda a força e carisma do bom e velho catolicismo folk, macho e porradeiro, e contrastá-lo com essa gosma efeminada e dialogante do catolicismo vaticanosegundista. Quando o padre é macho, o diabo não tem vez! Já quando é frouxo, o povo caminha rumo ao inferno.... Conforme disse outrora, é urgente restaurar a alta macheza!

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Fidelidade, Obediência e os Mártires Franciscanos


1ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (1Sm 4,1-11)
Salmo Responsorial (Sl 43)
Evangelho (Mc 1,40-45)

1. A primeira leitura trata da vergonhosa derrota de Israel ante os filisteus. O salmo expressa a consternação do povo ante o abandono de Deus. As palavras usadas são de uma ousadia que soa até um pouco estranha: "Senhor , porque dormis?". Não é que Deus durma, mas que sua proteção não é um dado automático, uma garantia, uma lei física. Antes suas promessas são condicionadas, se não formos profundamente fiéis a Ele, não adianta que nos arroguemos pertencer a seu povo. Se não formos fiéis, mesmo que sejamos identitária e ideologicamente católicos, podemos até mesmo terminar no inferno.

Pensemos nisto.

2. No Evangelho que hoje contemplamos, Cristo cura um leproso, mas em seguida o ordena certa discrição. O ex-leproso crê que tem uma ideia melhor e sai por aí falando mais que "veia fofoqueira". Como resultado, Jesus acaba encontrando dificuldades em adentrar as cidades da região.

Se não obedecermos as ordens de Cristo, mas antes acreditarmos em nossos próprios planos, mesmo que sejam planos apostólicos recheados de boa intenção, só criaremos problemas ao divino mestre. Que Deus nos ajude a obedece-lo, e a mortificar nossa vontade, a esquecer nossas ideias tolas que contrariam a vontade de Cristo.

3. Hoje a Igreja celebra a memória dos primeiros mártires franciscanos: São Beraldo e seus companheiros. Homens que foram ao Marrocos pregar pela conversão dos seguidores do falso profeta Maomé. A história é deveras interessante, São Francisco queria ir, mas se adoentou, seus irmãos seguiriam viajem sem ele. Pela sua pregação foram presos diversas vezes, alguns cristãos com contatos entre os infiéis conseguiram libertá-los umas duas ou três vezes, mas estes homens eram santos e tornavam a pregar, de modo que receberam a glória do martírio. Martírio este que motivou uma profunda transformação na vida de um certo cônego que viria a se tornar o grande Santo Antônio.

Dias atrás vi católicos apoiando o Irã e se contentando com uma situação onde embora os cristãos possam se reunir, lhes é proibido, aos que ali habitam, pregar o evangelho aos maometanos. Aqui  onde moro houve um infeliz evento ecumênico, onde membros da ordem franciscana foram a mesquita, sem intenção de converter ninguém, mas para pagar de gente boa com os agarenos e parecer bonzinhos perante a mídia. A memória dos mártires de hoje é um balde de água fria nessas inciativas tontas. É a manifestação da profunda diferença entre a caridade dos santos, dóceis a vontade divina, e as maquinações dos homens e sua vã politicagem.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

O discipulado de Samuel e a bondade de Simão Pedro


1ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (1Sm 3,1-10.19-20)
Salmo Responsorial (Sl 39)
Evangelho (Mc 1,29-39)

1. Samuel servia no templo, desde pequeno, sob a direção de Heli. Diferente de outros estados de vida, salvo no que diz respeito a sua instituição primordial, o sacerdócio não é algo que possa ser aprendido de forma auto-ditada, antes exige a realidade do discipulado: um mestre, um superior que diretamente instruí e dirige seu aprendiz. O Senhor chama a Samuel, e este vai a Heli. Cabe a ele, seu mestre, o discernimento e a tarefa de preparar seu discípulo para receber o Senhor e ser dócil a suas inspirações.

2. O Senhor se faz ouvir no templo, e em tenra idade. A luz da forma como se manifestou a vocação de Samuel, a Igreja abre o serviço do altar as crianças, acólitos e coroinhas, afim de que no templo, nas proximidades do altar, sob a direção do sacerdote, Deus possa chamar aqueles que destinou desde a eternidade a vocação clerical e, que estes encontrem o ambiente propício para responder a seu chamado desde cedo. É certo que o chamado pode se manifestar mais tarde, mas, o ordinário é algo análogo ao que ocorreu com Samuel.

3. Ainda sobre a primeira leitura, é interessante notar a profunda humildade exigida no discipulado, sobretudo no discipulado para a função sacerdotal. Por três vezes chama o Senhor a Samuel e por três vezes o garoto vai ter com Heli.

Quantos de nós temos tal docilidade? Depois da primeira ou segunda vez que Heli nos mandasse dormir, muitos provavelmente reagiríamos aos chamados posteriores com certo mau humor: ''-Ele já me chamou duas vezes e quando fui lá me mandou de volta dormir, o sujeito está me trollando grr! Vou é ficar aqui, já basta de ser feito de bobo!". A presença desse tipo de impaciência,é um grande obstáculo a vocação sacerdotal; uma vez que para este estado de vida são a humildade e a obediência virtudes fundamentais.

4. Canta hoje o salmista: <Feliz o homem que pôs sua esperança no Senhor, e não segue os idólatras e apóstatas. (Sl 39,5)>; creio que o versículo fala por si e dispensa comentários.

5. Hoje, no Santo Evangelho, Jesus vai com Tiago e João a casa de Pedro e André. A reunião dos discípulos mal começou e a amizade entre eles já começa a estreitar-se, de modo que vão todos a casa de Pedro. A casa é um lugar íntimo para o qual não se convida a qualquer um. É lugar para a reunião com amigos e familiares. O seguimento de Cristo, pois, forja amizades íntimas e duradouras. O episódio é ainda mais interessante. Diz o Evangelho que a casa era de Simão (Pedro) e André. Pedro já era a este tempo alguém relativamente velho para os padrões da época, e morava junto de seu irmão. Cuidava de seu irmão. Para tempos individualistas como os nossos é algo contrastante. Há aí uma profunda relação de irmandade, onde o irmão mais velho cuida do mais novo...Cuidado este que não se restringe a infância. Quantos de nós temos tal relação com nossos irmãos de carne? Digo, não sem certa vergonha, que dificilmente suportaria um convívio com os meus por muito tempo já na vida adulta... Mas a riqueza ''social'' do relato não para por aí! Quem mais estava na casa? A sogra de Pedro, uma senhora idosa e doente. Pedro cuidava da sogra. Enquanto hoje tantos filhos descartam impiedosamente seus pais em asilos, Pedro cuidava de uma senhora que nem sua mãe era, mas sua sogra! E não só cuidava, como a trouxe para morar consigo. E a esposa de Pedro, onde estava? Nos conta a tradição que por essa época, estava morta e enterrada. Isso torna a história ainda mais forte, Pedro cuidava da mãe da esposa falecida.

Pensemos nisso? Pedro, um sujeito já de certa idade, que poderia muito bem viver sozinho cuidando de seus assuntos, ou quem sabe arranjar uma nova esposa e recomeçar a vida, lá estava ele a cuidar do irmão mais novo e da sogra idosa e doente e a morar com eles. Antes mesmos de conhecer o Senhor, o pescador já era um homem bom. Um homem muito bom. Um homem melhor que a maioria de nós que a tanto tempo conhecemos e seguimos a Jesus e apesar disso nos comportamos de forma tão egoísta...

sábado, 11 de janeiro de 2020

Santa Burguesia (?)

Há poucos dias foi divulgada um lista a respeito dos livros mais vendidos em 2019[1]; a lista gerou, não sem razão, um verdadeiro furdúncio entre a pretensa nova intelectualidade, tanto católica quanto laica. "-Não há literatura de verdade!'' - vociferavam alguns; ''-A cultura brasileira está se americanizando!'' - lamentavam outros; ''Só dinheirismo, nosso povo está possesso pelo espírito burguês!'' - diagnosticava este que voz escreve, em uma primeira impressão que, embora não fosse incorreta, era deveras incompletas. Confira o leitor a lista dos títulos, e reserve alguns minutos para manifestar suas sinceras reações interiores.
Os 15 livros mais vendidos no Brasil em 2019:

– A Sutil Arte De Ligar O F*da-Se, de Mark Manson
– O Milagre da Manhã, de Hal Elrod
– Do Mil Ao Milhão. Sem Cortar o Cafezinho, de Thiago Nigro
– Seja Foda!, de Caio Carneiro
– Brincando com Luccas Neto, de Luccas Neto
– As Aventuras na Netoland com Luccas Neto, de Luccas Neto
– O Poder da Autorresponsabilidade, de Paulo Viera
– Os Segredos da Mente Milionária, de T. Harv Eker
– Me Poupe!, de Nathalia Arcuri
– O Poder da Ação: Faça sua Vida Ideal Sair do Papel, de Paulo Vieira
– Pai Rico, Pai Pobre – Edição de 20 Anos: Atualizado e Ampliado, de Robert Kiyosaki
– Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale Carnegie
– Mindset, de Carol S. Dweck
– O Poder do Hábito, de Charles Duhigg
– Mais Esperto Que o Diabo, de Napoleon Hill 

Encolerizou-se, caro leitor? Já pronunciou alguns xingamentos eruditos e outros não tão eruditos assim? Não precisa se sentir culpado, eu fiz a mesma coisa, todavia, é preciso ir além disso. De modo geral os títulos mostram que o público nacional busca por duas coisas: psicologia (barata) e dinheiro. A busca por conteúdo psicológico, autoajuda barata, regrinhas de comportamento, é manifestação de uma alma doente e uma cultura confusa. Em uma cultura sadia as pessoas sabem mais ou menos o que fazer e não precisam recorrer a gurus de ocasião... Provavelmente que quer acha que vai se tornar F*da lendo um livrinho boboca não faz parte do seleto público deste honroso blog, mas vocês podem levar o recado ao gado, essa doença d'alma a qual sofre o brasileiro médio  não há mindset que cure. A cura da alma se dá pela doutrina e pelos sacramentos...  Esqueça as novidades do mercado e vá ler as velharias empeiradas escritas pelos  santos doutores! Dito isto, falemos das verdinhas. O pessoal quer ficar rico. Rico não, milionário! Esse é um desejo bem comum na era capitalista, onde o dinheiro se torna praticamente o único critério de valoração social. Como nobre templário que sou (vai nessa rsrs!), desejaria ver meus compatriotas libertos do espírito burguês, e munidos de heroica valentia no combate cultural contra a modernidade iníqua... Todavia, como nem todos vão ler Plínio Salgado[2], nem nasceram para vida de soldado, resta ao menos rezar para que sejam não apenas bom burgueses, mas santos burgueses. E isso existe? É possível? É sim!

Convido o leitor a abrir a sua bíblia, vamos lá pegue aquela edição de bolso da ave-maria com zíper e capinha de couro... Não tem? Bom, então vou facilitar as coisas para você meu amigo e transcrever o trecho em questão (e vou fazer um favorzão: ainda usar a tradução da Vulgata):

Mas Jabes foi mais ilustre do que seus irmãos e sua mãe pôs-lhe o nome de Jabes, dizendo: Porque o dei à luz com dor. Ora Jabes invocou o Deus de Israel dizendo: Oh! Se tu me cumulasses de bençãos, dilatasses os meus limites, a tua mão fosse comigo e não permitisses que eu fosse oprimido pela malícia! E Deus concedeu-lhe o que ele pediu. (I Cr 4, 9-10)

''Dilatasses os meus limites'' significa que Jabes estava pedindo que Deus desse prosperidade a seus negócios para que ele expandisse suas propriedades. Ele estava basicamente pedindo prosperidade, posses, dinheiro. E sabe o que é o mais curioso? Deus atendeu sua oração! Eita, é isso mesmo produção? Jabez pediu dinheiro e o Senhor o abençoou? Sim, é assim mesmo. "-Ma-s, que teologia da prosperidade é essa?" Calma, sigamos, vamos sair da antiguidade veterotestamentaria para a idade média, falemos sobre Santo Homobono:

Santo Homobono (Cremona, 1117 — Cremona, 13 de novembro de 1197) é o padroeiro dos empresários, comerciantes, alfaiates e sapateiros, bem como de Cremona, na Itália.

Ele foi canonizado em 1199 a pedido urgente dos cidadãos de Cremona. Ele morreu em 13 de novembro de 1197 e seu dia de festa é comemorado em 13 de novembro.

Ele era um comerciante de Cremona, norte da Itália . Nascido Omobono Tucenghi, ele era um leigo casado que acreditava que Deus havia permitido que ele trabalhasse para poder apoiar pessoas que viviam em estado de pobreza. Seu nome é derivado do bônus homo, latino ("homem bom").

Homobono foi capaz de perseguir esse chamado na vida facilmente como resultado da herança que recebeu de seu pai, um próspero alfaiate e comerciante. Ele praticava seus negócios em Cremona com honestidade escrupulosa. Ele também doou uma grande proporção de seus lucros para o alívio dos pobres.
Homobono era frequentador intenso da igreja, e participava da Eucaristia todos os dias. Enquanto participava da missa, prostrado na forma de uma cruz, em 13 de novembro de 1197, Homobono morreu. Quatorze meses depois, Homobono foi canonizado pelo Papa Inocêncio III . Na bula da canonização, o papa o chamou de "pai dos pobres", "consolador dos aflitos", "assíduo em oração constante", "homem de paz e pacificador", "homem de bom nome e ação", e "esse santo ainda é como uma árvore plantada por correntes de água que produzem frutos em nossos dias". [3]

O que Jabes e Santo Homobono tem em comum? Ambos foram abençoados pelo senhor com a fortuna. E, embora não saibamos muito mais sobre a história de Jabez, com relação ao santo comerciante temos conhecimento o suficiente de sua vida para entender que este usou de seus bens e suas riquezas em favor do reino de Deus, na caridade para com os pobres. Então meu caro amigo, se você tem alma burguesa e aspira antes as riquezas que o combate, ao menos procure imitar Homobono e dar uma generosa e católica serventia a tais bens; ajudando os pobres, patrocinando o bom apostolado, sendo patrono de artistas dignos e piedosos e armando cavalerios templários para uma nova cruzada contra o mundo moderno... Enfim, seja também um empreendedor espiritual, e Deus o recompensará! 

P.S. Encerremos o artigo com algumas lições bíblicas de empreendedorismo 😜

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

The Guest: Sincretismo Coreano

Há neste desterro tantos povos e nações. Se outrora para os conhecermos deveríamos ser aventureiros, viajantes, missionários ou vagabundos, hoje, com a internet e a cultura pop, podemos nos aproximar e aprofundar um pouco mais a respeito das diversas potencialidades da sociedade humana. Embora para mim a Coréia seja para mim um tanto quanto desconhecida, sua indústria cultural já a muito penetrou terras tupiniquins, o K-Pop empolga mocinhas de todas as classes sociais, e centenas de doromas ganham legendas na língua de Camões; e é justamente um dorama (ou k-drama?) o assunto do post...

The Guest, é um intrigante, porém sincrético, suspense que aborda a temática do exorcismo. Antes de tratar do principal (ao menos para este falido blog católico que se pretende ortodoxo), que é o roteiro, quero comentar sobre alguns aspectos secundários, mas que chamaram atenção a este principiante no entretenimento coreano. Dentre estes ínfimos detalhes, está o fato de que a Coréia, ao menos da forma como fora retratada no dorama, me pareceu em demasia ocidentalizada. As praias, a grande metrópole, a delegacia de polícia, as roupas dos personagens; não fosse pelos olhos puxados e nomes complicados, a imaginação poderia devanear até algum filme americano; não há nada de especificamente coreano e identitário naqueles cenários. Salvo pela pequena aldeia rural, uma aldeia de pescadores, e em alguns detalhes da arquitetura das igrejas, foi difícil experimentar o sensação de alteridade ante uma cultura estranha, sensação essa que aflora, por exemplo, no consumo do entretenimento japonês. Aliás, já que citei a terra dos samurais, gostaria de contrastar certa diferença na construção dos personagens. Uma das características do moderno entretenimento japonês é a riqueza na construção destes: sua história, sua personalidade, sua psicologia, sua evolução ao longo da história... Senti falta disso no dorama; os personagens são um tanto quanto apáticos, não cativam, e não mudam nem aprendem muita coisa no decorrer da trama. Não me entenda mal, a história, o suspense em The Guest, são muito atrativos, mas os personagens não o são.

Até agora eu só resmunguei; mas isso não significa que eu não tenha gostado da história. Eu gostei,  a estrutura narrativa me cativou. Comparando agora com os americanos, cuja a estrutura faz com que suas sérias acumulem episódios inúteis e desconexos, The Guest está perfeitamente conectado. Não há episódio inútil, não há perda de tempo, não há mera apelação ao ''monstro da semana''; tudo está adequado como um quebra-cabeça onde as peças vão pouco a pouco se encaixando.

Ainda antes de entramos no que de facto me interessa nessa texto, falemos sobre a ação. Apesar dos efeitos especiais não serem do nível de Hollywood, eles são bem utilizados, as cenas de exorcismo e perseguição são muito boas, embora as cenas de luta tenham deixado um pouco a desejar; não que estejam superficiais, é só que os golpes usados não tem estética, seriam úteis, talvez, na realidade, mas para o entretenimento são ''sóbrios'' demais, não geram a sensação de catarse. 

Falemos da Igreja, que foi afinal o que direcionou meu interesse nesta obra. Por um lado os roteiristas fizeram uma boa pesquisa: as orações utilizadas correspondem a realidade (embora não sei se se por erro de tradução, pois não falo coreano, se utilize o termo ''divindades'' no plural), a cena da missa (nos capítulos finais) mostra certo conhecimento da teologia sacramental (usando água ao invés de vinho não há consagração válida por falha na matéria); por outro lado a história não escapou do sincretismo. O cosmos de The Guest não é um cosmos católicos, mas pagão. Fantasmas, e não demônios (Park Il Do é o único capeta ''puro sangue'' da narrativa), são os responsáveis pela possessão, xamãs e padres convivem amigavelmente, não há o mínimo esforço de evangelização... Detalho um pouco mais para o eventual leitor não católico: segundo a doutrina, após a morte a alma vai para o seu destino eterno (céu [ás vezes precedido por uma passagem pelo purgatório] ou inferno), não fica vagando, não fica assombrando os vivos; aquilo que os exorcistas enfrentam são demônios e não fantasmas! Existe, uma ÚNICA menção de almas humanas possuindo vivos na literatura dos padres exorcistas. Em dois mil anos de Igreja, um único testemunho, cuja validade é, não raro, posto em dúvida. Sobre a convivência harmônica com os pagãos, apesar de certa diplomacia ser buscada, nada além disso pode ser obtido. Segundo a Sagrada Escritura, os deuses dos pagãos são demônios. A partir disto, não seria de modo algum católico, procurar a colaboração de xamãs, tanto menos para o exorcismo.

The Guest foi minha ''introdução'' no mundo do entretenimento coreano, pretendo ainda investigar algumas outras obras; caso o leitor quiser me ajudar, pode deixar suas indicações nos comentários. Isso é tudo pessoal!

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Fama, anti-QTPismo e as aventuras do viajante


Segunda-feira depois da Epifania
Primeira Leitura (1Jo 3,22-4,6)
Salmo Responsorial (Sl 2)
Evangelho (Mt 4,12-17.23-25)

1. Nos ensina São João: o mundo escuta os que são do mundo. Mutatis mutandis, o mundo não há não vai escutar quem não é do mundo. Raramente um cristão vai ficar famosinho... Mas não tem problema, pois ainda segundo o apóstolo, quem conhece a Deus escutar-nos-á. Ao menos não vamos ficar falando sozinho 😛; mas isso tão somente se nós formos de Deus. Se quisermos bancar o isentão, se formos mornos, os que são de Deus não vão nos ouvir. Tampouco o mundão, que prefere as degenerações mais modernas e mais radicias.

2. O salmo de hoje é anti-QTPista. Dugin quer um mundo multipolar onde os povos tenham uma autonomia étnica para viver cada qual segundo a sua tradição, segundo sua ''religião tradicional''. Nesse sentido, que tenhamos lá um território cristão, mas também devemos ter um território muçulmano e um budista; e porque não algumas aldeias pagãs? Responde o salmista; aliás, vamos antes a algumas lições de poesia bíblica: no caso deste salmo, o eu lírico é Deus mesmo, e aquele a quem se refere, profeticamente é Cristo. Continuando, diz o salmista: <Pede-me; te darei por herança todas as nações; tu possuirás os confins do mundo. (Sl 2,8)>. Não são apenas os cristãos étnicos, não é só apenas os países da Europa e a América Latina. São os TODAS as nações. Repito TODAS até os confins do mundo. Não tem bairro muçulmano, não tem cota pagã.. Cristo deve reinar sobre toda a terra, sobre todas as nações e este é um norte que o cristão nunca pode perder de vista, sob pena de heresia. E continua o o autor sagrado: <Agora, ó reis, compreendeis isso; instruí-vos, ó juízes da terra. Servi ao Senhor com respeito e exultai em sua presença; prestai-lhe homenagem com tremor, para que não se irrite e não pereçais quando, em breve, se acender sua cólera. Felizes, entretanto, todos os que nele confiam. (Sl 2, 10-11)>; isso é imperialismo! É globalismo! É etnocentrismo! - Choram os incrédulos. Que chorem a vontade, nós soldados de Cristo lutaremos , viveremos e morreremos por este ideal!

''Liberdade, Justiça e Revolução'' é a vovozinha metaleira. Meu brado é ''Viva Cristo Rei!''.

3. Nosso divino meste era, enquanto homem, bem viajado. Nos últimos dias quantas regiões diversas a liturgia não nos leva a percorrer? Cito de memória : Ele nasceu em Belém; fora levado ao templo em Jerusalém; fugiu para o Egito donde ficou até a morte de Herodes. Dali foi para a Judeia, mas temendo a tirania de Arquelau, São José o levou a Nazaré na Galileia e, finalmente, hoje, lemos que se mudou de Nazaré para Cafarnaum. E de Cafarnaum, percorria as cidades da região, curando, expulsando demônios, ensinando e anunciando o Evangelho. Do ponto de vista meramente humano se pode dizer: foram altas aventuras! Mas, em muitos cristãos vive certo espírito de poltronice, que, os inspira o desejo de ficarem longe das agitações de Cristo, tando como modelo a calmaria de Immanuel Kant, que nunca saiu de sua cidadezinha e raramente alterou sua rotina monótona... Que Deus nos conceda a alegria e a agitação das viagens peregrinações!

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

O mundo, os povos e o jejum


6º Dia da Oitava do Natal - Segunda-feira
Primeira Leitura (1Jo 2,12-17)
Responsório (Sl 95) 
Evangelho (Lc 2,36-40)

1. <Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. Se alguém ama o mundo, não está nele o amor do Pai (1Jo 2, 15)>; que é o mundo ao qual se refere o apóstolo? É a cidade dos homens, é a sociedade sem Deus. É um sistema edificado sobre o pecado. Na época apostólica, quando imperavam os césares pagãos sob Roma pagã, as coisas estão bem claras. Hoje não é muito diferente, embora os erros vaticanosegundistas tenham contribuído para criar grande confusão.

Que significa rejeitar o mundo? Significa rejeitar seus valores, a ambição de ser bem quisto a todo o custo, de crescer e adquirir poder pisando nos demais, de saciar de modo impuro os instintos da carne, de se deixar instruir pelo magistério da mídia. O cristão deve ser uma espécie de outsider. Se o sujeito está bem integrado a esse sistema iníquo, se se sente confortável em desprezar a moral e ''subir na vida'' com base na mentira, na fraude, em maquinações maquiavélicas, não está nele o amor do Pai, por mais que o homem insista em simular uma imagem cristã.

2. <[...] julgará o mundo com justiça. e os povos segundo a sua verdade. (Sl 95, 13a)>;  assim canta o salmista. Note a expressão ''os povos". Que quer dizer isso? Que em sua jornada sobre a terra, os homens se agrupam em povos, e cada povo busca seus objetivos. Não raro esses objetivos o levam a guerras e antagonismos. Quem está certo, se sob diferentes perspectivas ambos podem estar buscando seus legítimos interesses? É o Senhor que vai julgar. É Deus, não a ONU, não o tribunal de Nuremberg. E ele julga com justiça. Mas, os homens são muito apressados, não são poucos os que se arrogam o papel de juízes da história querendo determinar lado da justiça e tomando partido em guerras que não lhe dizem respeito. Já nos basta as nossas próprias guerras, aquelas que estamos envolvido de forma pessoal, existencial. Pra quê arrumar mais treta pra cabeça?

3. Ana servia ao Senhor no templo com jejuns e orações. Foi o que lemos no Evangelho de hoje e, é o terceiro mistério gozoso que também hoje se medita na récita do Santo Terço. 

O anjo de Fátima bradava por penitência. O Jejum é uma das formas mais antigas de penitência, em certo trecho do Evangelho, diz Nosso Senhor Jesus Cristo que determinados demônios só podem ser expulsos por jejum e oração. Há um médico americano, Arnold Ehret, um tanto extravagante, que por seu exagero fora excomungado. Ehret atribuía os milagres dos santos a prática do jejum, dizia que se os homens jejuassem adequadamente, poderiam também eles realizar milagres. O exagero deste velho doutor, e sua consequente excomunhão, se deu por atribuir poderes divinatórios ao jejum, colocando o poder no meio, e não no autor da graça. Seja como for, tal exagero ilustra a importância desta prática hoje muito negligenciada. Não devemos os agitar em um ativismo desenfreado, e esquecer de mobilizar os recursos espirituais. É a oração e a penitência que fecunda nosso apostolado e conquista as bençãos divinas para as nossas obras. Se somos nós homens de fé, homens que vivem não segundo a carne, não segundo o mundo, mas segundo o Espírito, não podemos descuidar das obras do espírito e dos meios que ele nos oferece. Rezemos e jejuemos, Mas, não precisa ser hoje, afinal ainda estamos no período festivo do Natal 😛.

4. Há uma perfeita harmonia entre a epístola e o Evangelho na liturgia de hoje. Harmonia essa que traz um ensinamento necessário a estes tempos de messianismo político. São João nos diz para rejeitarmos o mundo, sua lógica, suas práticas desonestas. No Evangelho de São Lucas, o exemplo de Ana nos convida a prática do Jejum e da Oração.

Como uma fórmula matemática temos que: nossa situação não melhorará se os católicos aderirem a metodologia dos mundanos (mentira, manipulação, fraude, traição) em busca de poder, estes apenas vão piorar as coisas e perder suas almas. A mudança virá por graça divina, adotando os meios espirituais a nossa disposição: jejum e oração.

É melhor jejuar que passar pano pra político safado, e fazer aliança com servos do demônio.