sábado, 29 de julho de 2017

Vatican Kiseki Chousakan/Vatican Miracle Examiner (S01-EP04)


Com o quarto episódio chega ao fim o primeiro arco de Vatican Kiseki Chousakan. O roteiro toma caminhos um tanto quanto mais amalucados, mas termina de maneira que classifico como positiva, mostrando, afinal, não se tratar de uma obra anticatólica (embora use alguns clichês problemáticos). 

Deixo o link do quarto episódio em espanhol, e logo que sair a versão em português, incorporarei o player na postagem.

Vatican Miracle Examiner (S01-EP04)

Logo, também, pretendo trazer ao leitor uma análise mais detalhada sobre os pontos positivos e negativos do anime, sob um ponto de vista católico, a partir do que foi possível observar neste primeiro arco.

terça-feira, 25 de julho de 2017

A interpretação do Concílio Vaticano II e a sua relação com a crise atual da Igreja

A situação atual da inaudita crise da Igreja é comparável com aquela geral no século IV, onde o arianismo contaminou a esmagadora maioria do episcopado e foi reinante na vida da Igreja. Devemos procurar ver esta situação atual, por um lado, com realismo e, por outro, com o espírito sobrenatural, com um profundo amor para com a Igreja, que é nossa mãe, e que está sofrendo a paixão de Cristo por meio dessa tremenda e geral confusão doutrinal, litúrgica e pastoral.

Devemos renovar a nossa Fé de que a Igreja está nas mãos seguras de Cristo e que Ele sempre intervirá para renová-la nos momentos em que a barca da Igreja parece naufragar, como é o caso óbvio em nossos dias.
Quanto à atitude diante do Concílio Vaticano II, devemos evitar os dois extremos: uma rejeição completa (como o fazem os sedevacantistas e uma parte da FSSPX) ou uma “infalibilização” de tudo o que o Concílio falou.

O Concílio Vaticano II foi uma legítima assembleia presidida pelos Papas e devemos manter para com este concílio uma atitude de respeito. Contudo, isso não significa que não podemos exprimir dúvidas bem argumentadas e respeitosas propostas de melhoria, apoiando-se na Tradição integral da Igreja e no Magistério constante.

Pronunciamentos doutrinais tradicionais e constantes do Magistério durante um plurissecular período têm a precedência e constituem um critério de verificação acerca da exatidão de pronunciamentos magisteriais posteriores. Os pronunciamentos novos do Magistério devem, em si, ser mais exatos e mais claros, nunca, porém, ambíguos e aparentemente contrastantes com anteriores pronunciamentos constantes magisteriais.

Aqueles pronunciamentos do Vaticano II que são ambíguos devem ser lidos e interpretados segundo os pronunciamentos da inteira Tradição e do Magistério constante da Igreja.

Na dúvida, os pronunciamentos do Magistério constante (os concílios anteriores e os documentos de Papas, cujo conteúdo demonstrava ser uma tradição segura e repetida durante séculos no mesmo sentido) prevalecem sobre aqueles pronunciamentos objetivamente ambíguos ou novos do Concílio Vaticano II, os quais, objetivamente, dificilmente concordam com específicos pronunciamentos do Magistério anterior e constante (por exemplo, o dever do Estado de venerar publicamente Cristo, Rei de todas as sociedades humanas; o verdadeiro sentido da colegialidade episcopal frente ao primado petrino e ao governo universal da Igreja; a nocividade de todas as religiões não-católicas e o perigo que elas constituem para a salvação eternas das almas).

O Vaticano II deve ser visto e aceito tal como ele quis ser e como realmente foi: um concílio primeiramente pastoral, isto é, um concílio que não teve a intenção de propor doutrinas novas ou propô-las numa forma definitiva. Na maioria dos seus pronunciamentos, o Concílio confirmou a doutrina tradicional e constante da Igreja.

Alguns dos novos pronunciamentos do Vaticano II (por exemplo, colegialidade, liberdade religiosa, diálogo ecuménico e inter-religioso, atitude para com o mundo) não são definitivos e por eles, aparentemente ou em realidade, não concordarem com os pronunciamentos tradicionais e constantes do Magistério, devem ser ainda completados com explicações mais exatas e com suplementos mais precisos de caráter doutrinal. Uma aplicação cega do princípio da “hermenêutica da continuidade” também não ajuda, pois se criam com isso interpretações forçadas, que não convencem e que não ajudam para chegar ao conhecimento mais claro das verdades imutáveis da Fé Católica e da sua aplicação concreta.

Houve casos na história onde expressões não definitivas de alguns concílios foram, mais tarde, graças a um debate teológico sereno, precisadas ou tacitamente corrigidas (por exemplo, os pronunciamentos do Concílio de Florença acerca da matéria do sacramento da ordenação, isto é, que a matéria fosse a entrega dos instrumentos, mas a tradição mais segura e constante dizia que era suficiente a imposição das mãos do bispo, o que Pio XII em 1947 confirmou). Se depois do concílio de Florença os teólogos tivessem aplicado cegamente o princípio da “hermenêutica da continuidade” a este pronunciamento específico do concílio de Florença (um pronunciamento objetivamente errôneo), defendendo a tese que a entrega dos instrumentos como matéria do sacramento da ordem fosse uma expressão do Magistério constante da Igreja, provavelmente não se teria chegado ao consenso geral dos teólogos sobre a verdade que diz que somente a imposição das mãos do bispo constituiria propriamente a matéria do sacramento da ordem.

Deve-se criar na Igreja um clima sereno de discussão doutrinal acerca daqueles pronunciamentos do Vaticano II que são ambíguos ou que criaram interpretações errôneas. Não há nada de escandaloso nisso, pelo contrário, será uma contribuiçao para guardar e explicar na maneira mais segura e integral o depósito da Fé imutável da Igreja.

Não se deve destacar demais um determinado concílio, absolutizando-o ou equiparando-o de fato, à Palavra de Deus oral (Tradição Sagrada) ou escrita (Sagrada Escritura). O Vaticano II mesmo disse, justamente (cf. Dei Verbum, 10), que o Magistério (Papas, Concílios, magistério ordinário e universal) não estão acima da Palavra de Deus, mas sob ela, submisso a ela, e somente ministro dela (da Palavra de Deus oral = Sagrada Tradição e da Palavra de Deus escrita = Sagrada Escritura).

Do ponto de vista objetivo, os pronunciamentos do Magistério (Papas e concílios) de caráter definitivo têm mais valor e mais peso frente aos pronunciamentos de caráter pastoral, os quais são, por natureza, mutáveis e temporários, dependentes de circunstâncias históricas ou respondendo às situações pastorais de um determinado tempo, como é o caso da maior parte dos pronunciamentos do Vaticano II.

O próprio contributo valioso e original do Concílio Vaticano II consiste no chamado universal de todos os membros da Igreja à santidade (cap. 5 da Lumen gentium), na doutrina sobre o papel central de Nossa Senhora na vida da Igreja (cap. 8 da Lumen gentium), na importância dos fiéis leigos em conservarem, defenderem e promoverem a Fé Católica e que eles devem evangelizar e santificar as realidades temporárias segundo o perene sentido da Igreja (cap. 4 da Lumen gentium), no primado da adoração de Deus na vida da Igreja e na celebração da liturgia (Sacrosanctum Concilium, nn. 2; 5-10). O resto se podia até um certo ponto considerar secundário, temporário e talvez no futuro mesmo esquecível, como foi o caso com os pronunciamentos não definitivos, pastorais e disciplinais de diversos concílios ecumênicos no passado.

Os quatro assuntos seguintes: Nossa Senhora, santificação da vida pessoal, defesa da Fé com a santificação do mundo segundo o espírito perene da Igreja e o primado da adoração de Deus são os tópicos mais urgentes a serem vividos e aplicados hoje em dia. Nisso, o Vaticano II tem um papel profético, o que, infelizmente, não está ainda realizado de modo satisfatório. Em vez de viver e de aplicar estes quatro aspectos, uma considerável parte da “nomenklatura” teológica e administrativa na vida da Igreja, há meio século, promoveu e está ainda promovendo assuntos doutrinários, pastorais e litúrgicos ambíguos, deturpando, assim, a intenção originária do Concílio ou abusando dos seus pronunciamentos doutrinários menos claros ou ambíguos a fim de criar uma outra Igreja de tipo relativista ou protestante. Estamos vivenciando o auge desse desenvolvimento em nossos dias.

O problema da atual crise da Igreja consiste, em parte, no fato de que se infalibizaram aqueles pronunciamentos do Vaticano II que são objetivamente ambíguos, ou aqueles poucos pronunciamentos dificilmente concordantes com a tradição magisterial constante da Igreja. Dessa forma, impediu-se um sadio debate e uma necessária correção, implícita ou tácita, dando, ao mesmo tempo, o incentivo para criar afirmações teológicas contrastantes com a tradição perene (por exemplo, no que diz respeito à nova teoria de um assim chamado duplo sujeito ordinário supremo do governo da Igreja, ou seja, o Papa sozinho e todo o colégio episcopal junto com o Papa; ou a doutrina da assim chamada neutralidade do Estado frente ao culto público que ele deve prestar ao Deus verdadeiro, que é Jesus Cristo, Rei também de cada sociedade humana e política; a relativização da verdade que a Igreja Católica é o único caminho da salvação querido e ordenado por Deus).

Devemos nos libertar das algemas da absolutização e da infalibilização total do Vaticano II e pedir que haja um clima de debate sereno e respeitoso, por amor sincero à Igreja e à sua Fé imutável.

Uma indicação positiva nesse sentido podemos ver no fato de que, em 2 de agosto 2012, o Papa Bento XVI escreveu um prefácio ao volume relativo ao Concílio Vaticano II na edição da sua Opera omnia. Neste prefácio, Bento XVI exprime suas reservas quanto a um conteúdo específico dos documentos Gaudium et spes e Nostra aetate. Do teor dessas palavras de Bento XVI se vê que alguns defeitos pontuais em algumas passagens do Vaticano II não são remediáveis pela “hermenêutica da continuidade”.

Uma Fraternidade Sacerdotal de São Pio X canônica e plenamente integrada na vida da Igreja poderia também dar um válido contributo nesse debate, como também o desejou o Arcebispo Marcel Lefebvre. A presença plenamente canônica da FSSPX na vida da Igreja de hoje poderia também ajudar a criar um tal clima geral de um debate construtivo na Igreja, para que aquilo que foi crido sempre, em toda a parte e por todos os católicos durante dois mil anos, seja crido mais clara e de modo mais seguro também em nossos dias, realizando, assim, a verdadeira intenção pastoral dos Padres do Concílio Vaticano II.

A autêntica intenção pastoral visa a salvação eterna das almas, a qual se dá somente pelo anúncio de toda a vontade Divina (cf. At 20, 7). Uma ambiguidade na doutrina da fé e na sua aplicação concreta (na liturgia e na pastoral) ameaçaria a salvação eterna das almas e seria, por conseguinte, anti-pastoral, já que o anúncio da clareza e da integridade da Fé Católica e da sua fiel aplicação concreta é vontade explícita de Deus. Somente a obediência perfeita a esta vontade de Deus que, por Cristo, o Verbo Encarnado, e pelos Apóstolos nos revelou a verdadeira Fé, a Fé interpretada e praticada constantemente no mesmo sentido pelo Magistério da Igreja, traz a salvação das almas.


+ Dom Athanasius Schneider,
Bispo auxiliar da arquidiocese de Maria Santíssima em Astana, Cazaquistão

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Notas sobre a Tradição

Uma das características da modernidade é a sua ruptura e rejeição as tradições, abandona-se o caminho seguro, a experiência acumulada das gerações em prol das “modas”; atitude terrível que amputa o homem de seu passado pondo em risco o seu futuro, um desastre para as nações, um desastre para as famílias, um desastre para os indivíduos. 

Tal qual a árvore que finca raízes cada vez mais profundas ao solo a fim de que dele retire os nutrientes os quais, na magnífica dinâmica interna da criação (que a ciência explica e descreve, mas, por vezes, esquece-se de contemplar), serão combinados e transformados para crescimento e perpetuação da planta, assim devem as nações retirar das profundezas do passado os elementos para edificação de seu presente e constituição de seu futuro. Se, por outro lado, a árvore não fincar raízes profundas, mas restringe-se a superfície, como fazem as sociedades que abandonam suas tradições, tornar-se-á fraca e débil; indefesa frente a violência dos ventos.

Tendo isto em vista, trago aos leitores do BunKer, após esta breve introdução, um artigo da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, de autoria do meu grande amigo Victor Emanuel Barbuy, neto do grande filósofo Heraldo Barbuy, também ele, tal qual o avô, um homem católico, herdeiro das antigas tradições, arauto do Brasil Profundo. Sob essas notas, que visam clarificar o conceito de Tradição (não confundir com “Tradição Apostólica” ou "Sagrada Tradição”, que dizem respeito à Igreja universal), entendida no contexto das tradições nacionais de um povo; está assentada parte importante da “filosofia” deste BunKer, que visa apresentar uma linha de ação católica no front da guerra cultural; sendo o desbravar e o redescobrir as primevas tradições luso-brasileiras também um modo de resgate da herança católica desta Terra de Santa Cruz.

~Edmundo_Noir

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Notas sobre a Tradição
Victor Emanuel Vilela Barbuy[i]

sábado, 22 de julho de 2017

Vatican Kiseki Chousakan/Vatican Miracle Examiner (S01-EP03)



Saiu o terceiro episódio de Vatican Kiseki Chousakan. Ainda não tive tempo de assistir, logo que o fizer edito a postagem adicionando meus comentários a respeito como de costume.

Vatican Kiseki Chousakan

domingo, 16 de julho de 2017

Que tipo de educação?



”Vou investir em educação”

”Lugar de criança é na escola’’

”Escola em tempo integral”

São alguns dos mantras repetidos pelos políticos em época eleitoral… Escola, escola, escola, educação, educação, educação. Mas que escola? Que educação?

Quando mais jovem a escola para mim foi uma longa e entediante perca de tempo.

As aulas de História eram divertidas, o professor um piadista nato. Mas, e a história que aprendi? Falsidades. Aprendi que a Igreja matou ”milhões na inquisição” e que Salazar era uma versão portuguesa do nazismo. Aprendi que Cuba era um paraíso na Terra, que o mundo não era outra coisa se não uma eterna luta entre opressores e oprimidos, o mesmo roteiro em cenários diferentes…

Nas aulas (terrivelmente tediosas) de Gramática devia decorar uma lista incansável de regrinhas.
Para que isso? – perguntei certa feita a professora.
Para passar no vestibular... – me respondia.

As aulas de Matemática Aplicada não podiam estar mais longe da aplicação, aprendia fórmulas e complexos raciocínios, mas nenhuma indicação de como aplicá-lo em situações cotidianas.

E o que dizer então das aulas de Química, e Física? Totalmente voltadas ao tal do ”Vestibular”, com suas musiquetas e trocadilhos idiotas a fim de decorar fórmulas cujo o sentido do uso não compreendia.

As únicas aulas que escapavam desta lógica: Artes e Educação Física. Mas eram como fosse um segundo recreio: a professora de Artes nos dava algumas folhas e tintas para rabiscarmos; já o professor de Educação Física dava uma bola para jogarmos futebol e sumia. 

Nenhuma destas, porém, foram piores que minhas aulas de Inglês, lá era eu induzido a decoreba de mil regrinhas a respeito do uso de verbos que não sabia o significado para frases que minha velha professora traduzia de má vontade. E assim foi, depois de 7 anos desta disciplina ainda sou incapaz de ler um texto na língua anglo-saxônica sem recorrer ao Google Tradutor.

BAMMMMMM! O sinal batia, e finalmente podia eu ir pra casa.

E assim foi ano após ano, sendo eu obrigado dia após dia à frequentar aulas e mais aulas da escola, sem que meus professores me desse quaisquer respostas do porque de eu estar ali, que não para o tal do vestibular.

Educação, educação, educação. Escola, escola, escola.

Ao menos no que se propôs, funcionou, serviu para me fazer ”passar no vestibular”, nos dois que prestei passei em uma boa colocação sem dificuldade, mas perdi tanto tempo para tão pouco... E a vida acadêmica na faculdade não é lá grande coisa, mas isso é assunto para outra hora.

Ah, se me tivesse sido ensinada a verdadeira História! Ah se me tivesse sido ensinado colocar em prática os raciocínios abstratos da Química, da Física e da Matemática! Ah, se a professora de Gramática tivesse dito sobre a importância da língua na compreensão e desenvolvimento do horizonte mental do individuo! Ah, se meu professor de Educação Física tivesse me mostrado outro esporte que não o futebol!

Aqui estou eu, depois de anos dessa tal educação, procurando me virar, limpar a mente das mentiras e cacoetes ensinados, a procura de aprender aquilo de importante que não aprendi… Buscando a verdadeira história, aplicando à vida concreta as abstrações, treinando o corpo na disciplina de um esporte que me agrada.

Quem dera no passado eu não tivesse sido um bom aluno… Sim, isso mesmo. Quem sabe se eu fosse da turminha do ”fundão”, da zoeira, não teria eu tanto trabalho hoje para limpar a mente das porcarias aprendidas no ontem, com a tal ”educação”.

Quanto tempo perdido, quantos anos ali sentados naquela carteira só para cumprir uma exigência curricular, só para passar numa provinha de múltipla escolha ao final da jornada… E hoje falam em escolas de tempo integral! Penso nas pobres crianças….

Acaso venha eu a ter filhos e fossem eles obrigados a frequentar tais instituições lhes daria o seguinte conselho:
-Não deixe que a escola mate seu desejo de conhecimento meu filho! Se dedique o suficiente para sair daí com o ”papel” o mais rápido possível, e ter tempo de sobra para estudar de verdade.

Educação!Educação! Escola! Escola! -gritam os políticos.
-Que tipo de educação? -pergunto eu, a multidão se aquieta, e não sobra nada além do velho sorrisinho cínico, a contemplar a própria mentira enunciada. O mesmo sorriso de meus velhos professores, o sorriso de alguém que não acredita na real utilidade daquilo que diz.

sábado, 15 de julho de 2017

Vatican Kiseki Chousakan/Vatican Miracle Examiner (S01-EP02)


Saiu o segundo episódio de Vatican Kiseki Chousakan/Vatican Miracle Examiner. A narrativa ganha contornos ainda mais tensos e interessantes, mesmo assim ainda é difícil julgar a "catolicidade" do anime pelos dados até agora apresentados...

(Vale mencionar: o tradutor não parece ser muito católico; o "São Rosário" na legenda foi difícil de engolir rsrs.)

  Vatican Miracle Examiner (S01-EP02)

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Cardeal Sarah quer “reconciliação litúrgica” das formas antiga e nova da missa

Robert Sarah, cardeal guineense, quer ver um fim às batalhas entre os apoiadores da forma extraordinária da liturgia e aqueles que são a favor da celebração ordinária da missa, forma desenvolvida após o Concílio Vaticano II.

Por decisão de Bento XVI, com a publicação do documento Summorum Pontificum dez anos atrás, houve uma suspensão das restrições em celebrar a liturgia pré-conciliar, autorizando um uso ampliado do antigo rito. Nesta versão, a missa é conduzida por um padre proferindo as orações em latim, as quais são, em sua maioria, inaudíveis e de costas ao povo, ou seja, com o sacerdote de frente para o oriente, postura conhecida como ad orientem. Os devotos desta forma da missa a elogiam por seu mistério transcendental e a têm como uma via à contemplação.

Os críticos dizem, porém, que a decisão de Bento XVI foi um movimento que acabou gerando divisão, pondo em dúvida as reformas do Concílio de 1962 a 1965: este permitiu que a missa fosse celebrada nas línguas vernáculas e com uma ênfase na “participação ativa” do povo. A “forma ordinária” reformada da liturgia é aquela celebrada na grande maioria das paróquias ao redor do mundo.

Em artigo à revista francesa La Nef para marcar os dez anos desde a publicação de Summorum Pontificum, Sarah agora quer reconciliar os ritos com um novo calendário compartilhado para quando se celebrarem dias santos, garantindo que ambas as formas da missa usem as mesmas leituras bíblicas ao mesmo tempo. Sob o comando de Bento XVI, uma comissão trabalhou, por muitos anos, nesse sentido, mas sem sucesso.

Esse movimento do prelado guineense é, por um lado, um movimento conciliatório, visto que ele tem amplamente promovido os desejos dos tradicionalistas desde que assumiu a presidência da Congregação para o Culto Divino.

No artigo, o religioso pede um fim à frase “reforma da reforma”, ideia levantada pelos que querem que a forma ordinária da missa seja mais parecida com o rito antigo.

“‘Reforma da reforma’ se tornou sinônimo de domínio de um clã sobre o outro”, escreve ele em francês. “Esta expressão pode então se tornar inadequada, portanto prefiro falar de reconciliação litúrgica. Na Igreja, o cristão não tem opositor!”.

No ano passado, durante uma palestra em Londres, o cardeal disse que “não podemos descartar a possibilidade ou o desejo de uma reforma oficial da reforma litúrgica”, e fez um apelo aos padres para que começassem a rezar a missa ad orientem. Mas, logo depois, ele se encontrou com o papa que, segundo nota divulgada pelo Vaticano, disse ao cardeal que nenhuma orientação nesse sentido deveria ser dada, ao mesmo tempo em que o porta-voz da Santa Sé falou que a frase “reforma da reforma” deveria ser evitada.

Porém, no mesmo momento em que pede reconciliação, o cardeal também quer que a versão ordinária da missa assuma elementos da versão extraordinária, adotando um maior uso do latim e tendo os padres a rezarem determinadas orações em silêncio. Em abril deste ano, Sarah denunciou o “desastre, a devastação e o cisma que os promotores modernos de uma liturgia viva causaram” e disse que a Igreja, depois do Concílio Vaticano II, abandonara as suas “raízes cristãs”.

No artigo publicado em Le Nef, o prelado ainda propõe que a forma mais recente da liturgia adote o seguinte: a comunhão seja recebida de joelhos e sobre a língua, a inclusão de “Orações ao Pé do Altar”, que acontecem no antigo rito, e que o sacerdote se certifique de que, após consagrar a hóstia, os dedos que a tocaram permaneçam unidos.
O cardeal afirma que os que usam o antigo rito da missa para pôr em dúvida oVaticano II estão “gravemente em erro”, mas também escreve que as reformas conciliares não “contradizem” aquela que veio antes.

“Seria, pois, um erro considerar as duas formas diferentes de liturgia como se mostrassem duas teologias opostas”, explica o religioso.

“É uma prioridade que, com a ajuda do Espírito Santo, possamos examinar, via oração e estudo, como voltar a um rito reformado comum sempre com o objetivo de uma reconciliação dentro da Igreja. Por enquanto, ainda há violência, desprezo e uma oposição prejudicial que destrói a Igreja e nos afasta ainda mais da unidade pela qual Jesus orou e morreu na Cruz”, escreve o cardeal.

Aos apoiadores do rito, o religioso enfatiza que a liturgia não é um “objeto de museu”, mas, diferentemente, pode ser “frutífero aos cristãos de hoje”. Sarah também sustenta ser essencial que os fiéis que frequentam as missas na forma extraordinária tenham uma forma de “participação ativa” na liturgia, e que as leituras bíblicas – que geralmente são lidas em latim – sejam compreendidas pelas pessoas nos bancos da igreja.

Quando se trata da liturgia mais recente, o prelado quer que os padres assumam um papel menos proeminente e quer uma cruz grande sobre o altar, que possa ser vista por todos e, dessa forma, se torne “um ponto de referência a toda a congregação reunida”.

Fonte: The Tablet
Tradução: IHU Unisinos

A Complexidade Psicologico-Simbólica de Digimon

Se tem uma coisa que não canso de repetir é o fato de que a ficção se trata de um poderoso meio de transmissão de idéias, e que todos os produtos da cultura pop têm, por trás de si, uma multidão de conceitos e filosofias que podem contribuir para edificação ou degeneração do homem. Sobretudo no entretenimento infantil essa realidade ganha tons ainda mais graves uma vez que a criança não dispõe ainda de um correto discernimento para lidar com os aspectos "venenosos" de certas obras da moderna indústria cultural. Deste modo, caberia a pais responsáveis selecionar cuidadosamente o entretenimento consumido por seus filhos, principalmente durante sua primeira década de vida. Um desenho infantil nunca é mero entretenimento. É um compêndio simbólico de ensinamentos dirigido a crianças.

Afim de ilustrar toda a complexidade de uma simples narrativa ficcional infantil, trago hoje ao leitor uma breve análise da obra Digimon, tanto do ponto de vista simbólico (apresentado no vídeo), quanto do ponto de vista psicológico (como é destacado no texto).

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(...) O mundo real em Digimon, é bem próximo da realidade. É extremamente conflituoso e problemático:

*Takeru e Yamato são irmãos separados pelo divórcio dos pais, o que faz de Takeru, uma criança insegura e assustada e de Yamato um irmão superprotetor, cheio de ciúmes (foram criados um pelo pai e outro pela mãe, apesar de eles se encontrarem uma vez lá, não tinham até então um laço como irmãos, descobriram isso durante a série!). (...)

*Sora tem uma relação difícil com sua mãe, que lhe parece distante e fria. Motivo? A mãe de Sora desejava que a sua filha se tornasse uma pessoa moldada por ela mesma: sem gostos, sem opiniões! Ocorre que Sora era uma menina diferente das demais! (...) Por conta dessa insegurança e de como a sua mãe a tratava, Sora pensava que sua mãe não a amava e, por conta disso, ela também não amava a sua mãe, então ela que não amava ninguém, não poderia ter como valor, o brasão do “amor”, ao final de adventure, ela descobre o significado da palavra amor!

*Koushiro (Izzy) descobre que foi adotado e tanto ele como seus pais sofrem com o segredo que envolve o fato. Durante toda a série, ele não sabe como chegar aos pais e dizer que em um determinado dia, ele escutou uma conversa entre ambos e sabe que é uma criança adotada, e os pais não sabem como chegar a ele e contar que ele é um filho adotado. Koushiro descobre que ele tem a “SABEDORIA” como virtude, e que ele pode fazer uso dela pra que ele vença seus próprios medos, e que façam assim ele evoluir como ser humano. No final de Digimon Adventure, ele consegue ter a conversa com seus pais, e dizer a eles, que ele os ama acima de qualquer coisa! (...)

*Jou (Joe) é um CDF compulsivo, inseguro e assombrado pelas expectativas de seus pais em relação ao seu sucesso na vida. A escolha da problema de Jou é uma tragédia, que já se tornou muito comum no Japão: jovens que se matam por serem inseguros, e terem medo de não atingir as expectativas que seus pais esperavam. (...)

*Mimi é fútil e egoísta. Isso ocorre em casos que os pais são super protetores (...) A Mimi em Digimon é bem retratada, assim como seus pais; acho que ela é a que mais sofre quando tem a prova de fogo de conseguir sobreviver em um mundo estranho, onde não pode contar com o apoio de ninguém bajulando e realizando suas vontades. (...)

*Taichi parece ser o mais estável do grupo, mas seus pontos fracos são sua irmã mais nova, de saúde frágil e ar triste, e seu sentimento de culpa por não poder protegê-la sempre. (....)

No Mundo Digital, ao serem forçados a formar um grupo, as crianças não conseguem, a princípio, vencer sua insegurança e seus problemas pessoais. O conflito é permanente e declarado, inclusive com violência física, como entre Taichi e Yamato. A eliminação dos conflitos é lenta e dolorosa, e apenas ao final da primeira parte da série, no último episódio, praticamente, eles conseguem a confiança que vem do auto-conhecimento e da certeza de que têm entes queridos que os apoiam.

Os conflitos não se restringem às oito crianças principais: os adultos também sofrem as mesmas angústias das crianças, não conseguem organizar suas vidas adequadamente. E também os digimons têm dúvidas e sofrimentos, anseios e preocupações que os levam a lutas, à fuga ou a uma existência de medo e incerteza. [1]
***

Além do já mencionado, note o leitor a recorrência da mesma estrutura narrativa em que chamei atenção em minha crítica sobre o filme Alice no País das Maravilhas: protagonistas com problemas e dificuldades no mundo real que escapam para o mundo das fadas (no caso aqui, o Digimundo), um mundo de fantasia, onde aprendem a desenvolver as virtudes necessárias para bem viver sua vida cotidiana. Este tipo de estrutura é bem comum no entretenimento infantil, o jogo Final Fantasy Tactics Advanced se destaca por aprofundar um pouco mais na temática:

(...) Em se tratando de jogos com esse tema, temos o Final Fantasy Tactics Advanced, onde no jogo o "Final Fantasy" é visto como um jogo e a historia se passa no mundo real.

Mesmo o jogo sendo um pouco infantil, ele até consegue debater bem sobre esse tema. Mas mostrando varias perspectivas. Temos o nosso herói Marche onde ele e seus dois amigos tem sérios problemas em sua realidade. Enquanto um tem problemas pessoais, o outro teve a mãe que morreu e seu pai que não conseguiu seguir adiante depois da tragédia, deixando o garoto que já tinha problemas ainda mais recluso.

Um dia, os três vão para outro mundo. O protagonista pretende voltar ao mundo real, mas para isso ele tem que destruir cristais que vão criar uma desestabilização naquele mundo, fazendo assim ele e seus amigos voltarem pra casa. Porém, diferente das histórias padrões, os seus amigos não querem voltar pra casa, muito pelo contrário eles decidem ficar nesse mundo, pelo fato de ser tudo o que eles queriam. A garota tem seu sonho realizado, o garoto recluso sem mãe e com um pai fraco, nesse mundo a mãe dele é viva e seu pai é forte e confiante. (...)[2]
Em Final Fantasy Tactics Advanced a discussão vai mais além, tocando a fundo o problema da função da fantasia. Se por um lado temos sua função pedagógica, onde o mundo das fadas é um instrumento para o crescimento nas virtudes, por outro temos seu potencial alienante, onde procura-se usá-lo como uma fuga do mundo real.

De todo o modo, voltemos a Digimon; temos tamanha complexidade psicológico-simbólica em uma simples narrativa infantil, mas, seria o imaginário infantil capaz de absorver tudo isso? Para responder esta questão consulto as reminiscencias de minha infância, creio que devia ter cerca de 8~10 anos no tempo em que me encantava com as maravilhas do digimundo na TV Globinho. Embora toda a estética simbólica do anime me causasse admiração, não era capaz de penetrar em seu significado profundo, mesmo a complexidade psicológica da narrativa passou despercebida; o que guardei na época foi certa admiração pela semelhança (?) entre o temperamento do personagem Yamato/Matt (não sei dizer ao certo se realmente tinha um temperamento e personalidades semelhantes, ou se acabei incorporando isso por mimetismo) e o meu. Vi ali a expressão de certas tendências de personalidade que possuía dentro de mim. Outra coisa que me marcou profundamente na época foi a figura de Angemon, foi ela a primeira e mais ''concreta'' referência imaginária que encontrei daquilo que seria um anjo, a partir daquele personagem é que pude compreender e imaginar a verdade católica a respeito dos anjos da guarda que aprendi em minha catequese infantil.


Conscientemente é isso que lembro-me de ter absorvido, entretanto, a simbólica de Digimon marcou-me tão fortemente, tal qual uma semente, um arquivo compactado, que senti a necessidade de na fase adulta cultivar esta semente, descompactar este arquivo, aprofundar-me no significado da narrativa, e daí veio a pesquisa que originou este artigo.

Concluindo, embora Digimon não seja uma obra católica, tampouco é, um destes entretenimentos modernos novordistas com vistas a engenharia social; enquadrando-se numa espécie de ''conto de fadas japonês'' lotado de referências culturais, religiosas e sociológicas diversas, mais ou menos explícitas (e classifico como positiva a influência desta obra sobre o imaginário infantil), é um ilustrativo exemplo da profundidade das obras de ficção infantil, e um convite a deixar cair as escamas dos olhos tratando com realismo, seriedade e prudência a temática da fantasia ficcional e sua influência sobre o imaginário infantil.

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[1]O texto intitulado "A Filosofia de Digimon" foi parcialmente alterado nesta publicação, não em seu conteúdo mas em sua forma: ortografia, gramática, coesão, e etc. Embora tenha sido feliz nas constatações, o autor do texto original derrapou um pouco na hora de expressá-las textualmente.
[2]O texto "A filosofia dos mundos paralelos dos animes e jogos japoneses" também foi parcialmente alterado em sua forma nesta publicação.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Cinema "da Libertação" : Daens, Nomadelphia, Hélder e Dom Romero


O cinema é um precioso meio de difusão de ideias, uma arte usada com frequência pelos inimigos da Igreja, não só pelos seus inimigos externos como também por seus inimigos internos que escondem sob a batina as armas da revolução. Em nosso país a Teologia da Libertação usou e abusou dos meios cinematográficos, temos uma verdadeira indústria do filme socialista-cristão[1]: Batismo de Sangue, Dom Helder: O Santo Rebelde, O Anel de Tucum, Descalço sobre a Terra Vermelha são alguns dos títulos que infestaram a cinema nacional. Já no estrangeiro poderia citar Don Zeno - O Fundador de Nomadelphia, Daens: Um Grito de Justiça, Ya no Basta Rezar.

Sem dúvida há no mundo muitas injustiças e cabe sim a Igreja denunciar, tal qual fez o profetismo israelita. Mas, a Teologia da Libertação não fica só no profetismo bíblico e na denúncia das injustiças, passa para um milenarismo herético na tentativa de imanentizar a escatologia; o mal deixa de ser fruto do pecado e é jogado na culpa do sistema; o pecado pessoal dá lugar ao pecado estrutural; a conversão e a penitência dão lugar a Revolução. E como está claro que essa concepção não é muito católica, a Teologia da Libertação estende seu conceito de sistema à “igreja hierárquica”, comprando a narrativa protestante que associa o Catolicismo a uma artimanha do Império Romano para “domesticar” o cristianismo. 

E isto não é calúnia, os próprios expoentes da Teologia da Libertação não têm vergonha de admitir:



Além da narrativa “TL” ser algo herético e estúpido, é de uma chatice e um mau gosto terrível, tanto do ponto de vista Teológico, quando do narrativo. E nessa chatice que, com raras exceções, basicamente consiste sua expressão cinematográfica. A história é sempre a mesma: um padre rebelde a combater o sistema, mas que têm em seu caminho o obstáculo da Igreja institucional; assim é em Daens: Um Grito de Justiça, onde o padre “romaninho” é sempre retratado como um covarde puxa-saco a abusar de sua autoridade espiritual para intimidar os trabalhadores a não se revoltarem contra seus patrões carrascos. No mesmo filme encontramos também o personagem Woeste, um eminente politico católico que não passa de um tirano burguês. Os malabarismos narrativos utilizados no filme são tão grandes, que da luta da Igreja pela dignidade dos trabalhadores a coisa se converte na imagem simbólica de socialistas e liberais se unirem em apoio a eleição do Padre Daens contra a “opressão do partido católico”.

Em Don Zeno - O Fundador de Nomadelphia não temos coisa muito diferente: um padre revolucionário, “amigo dos pobres”, lutando contra uma Igreja indiferente submissa aos ricos; o Papa (Pio XII) nessa história vira um príncipe apático prisioneiro do poder, uma figura simbólica oprimida pelas estruturas aristocráticas da cúria romana. Não estou eu forçando a barra, veja algumas frases extraídas de diálogos do filme: "o mundo é dividido em duas partes: opressores e oprimidos”; “(...) ao longo do tempo tivemos os santos, a caridade, tudo bem mas isto não basta, precisamos de uma Revolução!”;

Os filmes nacionais vão na mesma linha, Dom Hélder: O santo (?) rebelde, embora tente desgrudar do Bispo de Olinda o rótulo de “comunista” como fosse uma “calúnia da ditadura”, não consegue disfarçar seu desconcerto para com a Igreja “institucional”, finalizando a obra com o famoso e blasfemo poema “helderiano”:

“Sonhei que o Papa enlouquecia
E ele mesmo ateava fogo
Ao Vaticano.
E à Basílica de S. Pedro…
Loucura sagrada,
Porque Deus atiçava o fogo
Que os bombeiros
Em vão
Tentavam extinguir.
O Papa, louco,
Saía pelas ruas de Roma,
Dizendo adeus aos Embaixadores,
Credenciados junto a Ele;
Jogando a tiara no Tibre;
Espalhando pelos Pobres
O dinheiro todo
Do Banco do Vaticano…
Que vergonha para os Cristãos!
Para que um Papa
Viva o Evangelho,
Temos que imaginá-lo
Em plena loucura!…”


***

Diante deste festival de heresias, cujo uma pequena parte chegou as lentes do cinema, o Vaticano obviamente tomou providencias, culminando na publicação do documento Instrução sobre alguns aspectos da «Teologia da Libertação», assinado pelo prefeito da Sagrada Congregação para Doutrina da Fé, na época, o Cardeal Ratzinger (futuro Bento XVI). Apesar do choro dos teólogos da libertação, a “inquisição ratizingeriana”  foi extremamente branda. Muitos conservadores consideram até que foi “branda até demais”... Talvez, mas vale apresentar o argumento de que a Teologia da Libertação não é um produto de meras especulações intelectuais, mas tomou forma no complicado contexto politico das ditaduras sul-americanas, um “furacão de tensões e emoções” que confundiu a cabeça de muita gente; isso, possivelmente, ajuda a explicar a paciência da Santa Sé. 

De todo o modo, como só falei de filme ruim até aqui, falo agora de um bom filme, um dos poucos filmes “TL” sem o veneno da heterodoxia[2] , falo do filme Romero, onde temos o retrato de uma oposição católica a um regime tirano, um bispo que ama seu povo e sua Igreja e que não cai na armadilha de escolher neste falsa oposição entre a doutrina e a justiça. 



***

Em resumo, além de recheados de heterodoxias, 90% dos filmes “TL” são uma chatice só (igualzinho suas músicas)...


Obs: 
-Todos os filmes mencionados podem ser facilmente encontrados no YouTube.
-Me limitei aqui a comentar apenas os filmes, pouco sei sobre os personagens históricos nele retratados como: Daens, Zeno, Dom Hélder e Dom Romero.
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[1] Que dizer então do chamado “socialismo cristão” ou “católico”?
O chamado “socialismo cristão” ou “socialismo católico” é uma aberração tão grande como se alguém falasse de um protestantismo católico ou de um círculo quadrado. - Catecismo Anticomunista, §84; Dom Geraldo de Proença Sigaud.
[2] Talvez nem TL seja, alguns defendem que Dom Romero jamais teve ligação com os expoentes heterodoxos deste movimento, mas que teve sua imagem “sequestrada” pelo marketing revolucionário.

sábado, 8 de julho de 2017

O Papa Francisco está refletindo sobre o futuro do Motu Proprio Summorum Pontificum

Nos corredores do Vaticano, o Summorum Pontificum já é algo do passado. Mais importantes parecem ser hoje as discussões com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, para quem o texto de Bento XVI não foi necessariamente uma boa notícia: saindo do debate da questão litúrgica, o Papa alemão tinha, na verdade, permissão para ir ao fundo das divergências teológicas.

De acordo com a Comissão Ecclesia Dei, encarregada em Roma do diálogo com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, essas divergências poderiam ser, atualmente, eliminadas. Faltaria apenas a assinatura de dom Bernard Fellay no documento apresentado já alguns anos. “Se não assinarem o documento, eles são realmente muito bestas, porque lhes foi estendida uma ponte de ouro”, comenta um observador que leu o texto. O superior geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X deveria assiná-lo após convencer os mais recalcitrantes da Fraternidade. E, provavelmente, antes do verão de 2018, data do próximo capítulo geral no qual o seu mandato será colocado em jogo. Ser nomeado para um cargo vitalício à frente da prelazia evitaria uma reeleição complicada.

O sacerdote não deve escolher o seu rito
Para Francisco, trata-se em primeiro lugar de um gesto de unidade: partidário de uma “diversidade reconciliada” e não de uma Igreja uniforme, ele está persuadido de que, no momento em que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X se diz católica, ela tem seu lugar na Igreja. Resta saber se os lefebvrianos encontrarão seu lugar na Igreja plural de Francisco. “Diante disso, o que os bispos farão nas dioceses com a prelazia lefebvriana?”, pergunta um observador.

Especialista em liturgia, o teólogo Andrea Grillo recorda-se também como, na época da sua publicação, o Summorum Pontificum colocou os bispos em apuros, sentindo-se, de repente, espremidos entre os padres escolhendo o antigo rito e uma Comissão Ecclesia Dei fazendo uma leitura muito ampla do texto. “Ao introduzir uma escolha subjetiva do rito pelo sacerdote, o motu proprio fragilizou a unidade litúrgica da Igreja e criou, às vezes, Igrejas paralelas até nas próprias paróquias. É uma ruptura da tradição”, diz ele.

Próximo ao Papa, ele recorda que, como arcebispo de Buenos Aires, o cardeal Bergoglio pediu a um sacerdote, contrário à forma extraordinária, para que celebrasse para os fiéis tradicionalistas, precisamente para salientar que o padre não deve escolher seu rito.

“Isso não é o comum da Igreja”
Porque, ao mesmo tempo, o Papa argentino compartilha com seu predecessor uma visão muito pragmática do antigo rito. Como Bento XVI falou do “pequeno círculo daqueles que utilizam o antigo missal”, Francisco estima que seu predecessor “fez um gesto justo e generoso para ir ao encontro de uma certa mentalidade de alguns grupos e pessoas nostálgicas e que estavam afastadas”.(1) Mas, ele estima que se trata de uma “exceção” e que “o comum da Igreja não é isso”. “O Vaticano II e a Sacrosanctum Concilium devem ser promovidos assim como são”, afirma o Papa que recusa qualquer ideia de “reforma da reforma”.

De acordo com Andrea Grillo, Francisco contempla inclusive, eventualmente, a abolição do Summorum Pontificum a partir do momento em que o antigo rito seja preservado na Prelazia Pessoal oferecida à Fraternidade Sacerdotal São Pio X. “Mas ele não tomará essa decisão enquanto Bento XVI estiver vivo”, prevê imediatamente.

Enquanto isso, esse Papa – para quem as demandas de alguns, “jovens demais para conhecerem a liturgia pré-conciliar”, escondem uma “rigidez defensiva” – está se preparando para iniciar um novo ciclo de catequese das quartas-feiras, precisamente sobre a liturgia. “Isso mostra a sua disposição de levar esse assunto a sério, afirma Andrea Grillo. Mas será uma oportunidade para falar mais do conteúdo da liturgia do que da sua forma e das rubricas”.

Nota:
1. Entrevista com o Pe. Antonio Spadaro na introdução do seu livro Nei tuoi occhi è la mia parola [Nos teus olhos está a minha palavra]. Rizzoli, 2016.
Fonte: La Croix
Tradução: IHU Unisinos

sexta-feira, 7 de julho de 2017

EXCLUSIVO: Vatican Kiseki Chousakan/Vatican Miracle Examiner (S01-EP01)


Com exclusividade para os leitores do BunKer, trago o primeiro episódio de Vatican Kiseki Chousakan/Vatican Miracle Examiner, o anime estreou ontem (07/06) no Japão, segue abaixo, com o áudio original em japonês e as legendas em espanhol (é o que tem pra hoje).



*Atualização (08/07 - 13:03): Saiu a versão legendada em português.

Vatican Kiseki Chousakan | Anime Católico?



O vídeo acima é trailer do anime Vatican Kiseki Chousakan (em inglês: Vatican Miracle Examiner), que estreou a poucos dias no Japão. Segundo as informações que obtive a história desenrola-se à volta de Hiraga Josef Kō, um cientista, e Robert Nicholas, um especialista em arquivos e criptoanálise. Os dois trabalham em equipe como os “examinadores de milagres” do Vaticano, viajando pelo mundo para investigar a autenticidade dos milagres. 

Nesse pequeno vídeo podemos ver a Basílica de São Pedro desenhada ao estilo anime, num belíssimo trabalho artístico. 

Com as informações que tenho, e que são tão poucas, é difícil formar juízo. Mas, fica o aviso: as aparições da Igreja em animes não foram muito felizes, vide Hellsing onde temos católicos-nazistas, cruzados que se vestem como a Ku Klux Klan e anglicanos bonzinhos (tsc)....



Conforme obter dados mais completos volto a informar o leitor.

O RPG Chinês e seu ecos na existência

Em minha infância peguei o finzinho da moda das artes marciais, me diverti pacas assistindo aqueles filmes asiáticos malucos, jogando videogames e simulando combates imaginários pulando sofás e usando cabos de vassoura como arma nos fundos da casa de meus avós rsrs. Já na adolescência vivi o início do período da popularização do MMA, e pratiquei por um bom tempo o Muay Thai. Hoje, anos mais tarde, venho a revisitar este universo fantástico com um olhar um tanto diferente.

Em <O UFC e o fim do mito shaolim hollywoodiano>. comentei sobre como a romantização hollywoodiana em torno das artes marciais foi um terreno fértil para charlatões. Charlatanismo alimentado inclusive pela conivência de muitos artistas marciais sérios que, de um modo ou de outro, ainda incensam os velhos mitos, vide o que foi feito com o antigo Templo Shaolim transformando-se numa lucrativa Dysneilandia Kung Fu; ou de toda a mitologia criada em torno do ator Bruce Lee

Entretanto, cabe ressaltar que a culpa maior é do idiota que se deixa iludir e toma a ficção por realidade, a fantasia por verossímil. Cito por exemplo o clássico Jogo da Morte[1] sucesso do fim do século passado, última obra de Bruce Lee, que morreu antes da concluir as gravações. O diretor, numa ousadia que entrará para história do cinema, concluiu o filme estabelecendo teias tênues entre a realidade e a ficção, relacionando a vida de ator com a do protagonista, usando inclusive cenas reais do velório de Bruce no filme. Porém, por mais que a genialidade artística do diretor relacione intimamente a ficção e a realidade, fica claro ao espectador o aspecto fantasioso da obra que segue uma estética de videogame. Sim, videogame! Enquanto assistia me senti jogando Capitão Comando[2], vemos o protagonista passar de estágio em estágio, lutar com os capangas, passando aos “boss” e por fim chegando ao “chefão” (big-boss), tudo isto com aquela trilha sonora bem ao estilo Super Nintendo. A indiferença e insensibilidade frente à vida humana no filme (coisa comum no cinema desta época desde Rambo ao Exterminador do Futuro), que do ponto de vista moral poderia ser uma séria crítica, ganha neste contexto uma justificativa e um reforço ao aspecto ficcional da narrativa: é ficção, como um jogo, tanto que a morte ali é irreal e insignificante, como numa partida de videogame. Na sequência da franquia, Jogo da Morte 2, a fantasia fica ainda mais absurda, mas não menos interessante, quando se mescla o Kung Fu de videogame com uma estética futurista. Enfim, por mais bobinho que seja o espectador, ele precisa de um esforço imaginativo muito grande para romper as fronteiras entre a ficção e a fantasia, tomando como real o que viu no cinema (eu vi no YouTube).



Tal aspecto fantasioso das artes marciais é ainda mais ressaltado na recente série Punho de Ferro, onde o Kung Fu se mistura com magia zen, punhos que brilham e mortos que não morrem; um mundo mágico onde o sobrenatural é natural e corriqueiro. Aliás, não falta no entretenimento obras semelhantes, principalmente nos animes japoneses, basta lembramos-nos do clássico Dragon Ball, e seus alienígenas, androides e porcos falantes.

Estamos diante de uma fantasia, um conto de fadas, um rpg chinês. Não é pra querer imitar, pelo menos não se tiver mais de 13 anos de idade, mas para ecoar os benefícios da elfolândia na vida real e concreta. Todo esse “rpg chinês” pode ser usado em sentido metafórico, os combates da ficção, e os movimentos artísticos e repetitivos do Kung Fu podem ser usados por professores experientes como método para ensinar as crianças e adolescentes valores de disciplina, superação. Já escutei muitos relatos de existências transformadas pela prática das artes marciais, muitos jovens deixaram as drogas e venceram dramas familiares por meio dele (o esporte em geral tem esse potencial, o futebol exerceu um papel semelhante na vida de tantos). 

Em resumo: creio ser necessário aos fãs de artes marciais deixar bem claro os limites entre a ficção e a realidade, entretanto, sem negar o potencial criador e metafórico da ficção, sobretudo para crianças e adolescentes. A chave é absorver a ficção sem ser absorvida por ela; de tal modo que a ficção ecoe na realidade trazendo bons frutos sem que venha iludir ou alienar.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

A Igreja e a tradição dos povos



A confusão ideológica pós-moderna têm levado muitos homens por uma jornada em busca de uma maior valorização do passado; a “tradição” seria o caminho orientador dos povos, o remédio contra o veneno cosmopolita. Vejo com bons olhos todo este movimento, porém, não raro, junto as rosas costumam crescer as ervas daninhas que podem vir a sufocá-las, de modo análogo junto a este saudável resgate do passado, tantas vezes se manifesta a pregação de um isolacionismo demente sob máscaras de nacionalismo, um romantismo estático sob desculpa de tradição. E disso se aproveitam os filhos da serpente para destilar seu veneno odioso contra a Santa Igreja; tive a infelicidade de ler um desses textos venenosos em que o autor taxava a Igreja com o rótulo de “multinacional estrangeira” e numa revolta fascista, resmungava por ela minar o poder do Estado rsrs, responderei pois essas vãs acusações ao longo do texto, antes porém cabe alguns conceitos básicos.

Como bem explica Perillo Gomes[1]:
Os princípios de expansão e de assimilação, po­tencia de ação e potencia de unidade, em linguagem philosophica, é que explicam, de um ponto de vista meramente natural, a vida internacional. As nações, quanto mais cultas, mais se apercebem de que são unidades incompletas. E buscam, então, em outras, aquillo que sentem que lhes falta - eis o principio de expansão. Mas o que ellas vão buscar além das suas fronteiras, ellas não podem nem querem acolher como corpo estranho. E então se empenham num trabalho de assemelhação, de harmonisação, para manter o indispensavel caracter de unidade - eis o principio de assimilação.

Se, no entanto, uma intelligencia superior não preside o desenvolvimento dessas duas forças instinctivas da collectividade, teremos, como consequencia, a perturbação, o conflicto, o predomínio de uma sobre a outra ou o seu exercício desviado  das verdadeiras finalidades. E o principio de expansão se transforma em principio de conquista, e o de assimilação em principio de domínio. Eis a gênese do imperialismo.
Em resumo: nenhum país é perfeito, nenhuma cultura basta a si mesma, aqueles que se isolam definham. É o natural desejo de expansão que leva a buscar o contato com outras culturas, e através desse contato por uma saudável assimilação, se absorve aquilo que convém, de modo harmônico, em consonância com a cultura e tradições primevas. A Santa Igreja sempre compreendeu e respeitou esta dinâmica orgânica das sociedades, o termo "inculturação do Evangelho”, reflete essa consciência. Cito o exemplo do Apóstolo do Brasil: São José de Anchieta não queria transformar os índios em uma cópia dos portugueses, mas trazer-lhes os elementos civilizatórios e salvíficos para que eles pudessem desenvolver a própria identidade e o próprio caminho segundo a Fé Verdadeira, diferente do maçom Marquês Pombal que queria uma padronização industrial; este bode infeliz aboliu e sepultou a língua geral (cultivada e sistematizada por Anchieta), sumiu com os jesuítas do continente, e promoveu uma matança geral. Aí temos o contraste entre a ação orgânica, civilizatória e evangelizadora da Igreja e o imperialismo liberal cosmopolita.

É preciso compreender este aparente paradoxo: se por um lado se respeita a organicidade natural das culturas, por outro é dever de caridade tirá-los do erro, das trevas das heresias e do paganismo, levando a extinção dos seus ídolos e o combate ao pecado. Se todos os povos e tradições devem, pois, estar sujeitas a lei Divina e a sã doutrina, cada um têm a liberdade de, irmanados pela mesma Fé, manifestar seus dons e peculiaridades individuais, pois, como nos ensina o Pentecostes, só na Igreja Santa, vivificada pelo Divino Espírito que encontramos o saudável equilibro da diversidade na unidade.

Sobre a acusação da Igreja minar o poder do Estado, é dever dela para o bem dos indivíduos, impedir uma estatolatria pagã que faz do Estado um ídolo:
Quem pega da raça, ou do povo, ou do Estado, ou da forma de Estado, ou dos senhores do poder, ou de qualquer outro valor essencial à comunidade humana - coisas que na cidade terrestre ocupam lugar honroso e justo - para se deslocar da sua devida escala de valores e elevá-los ao pedestal onde os diviniza e lhes presta culto idólatra, - perverte e falsifica a ordem das coisas criadas e estabelecidas por Deus, está longe da verdadeira fé em Deus e da concepção de vida correspondente a essa fé. (Mit Brennender Sorge, §12 - Papa Pio XI)
Concluindo: não seja um vira-lata americanoide a desprezar as tradições nacionais na ânsia de querer transformar esta terra em uma cópia barata da potência cultural da moda. De igual modo, lembre-se que todas as tradições humanas estão sujeitas ao juízo do Evangelho, afim de que aquilo que contribua para a maior glória de Deus seja cultivado e conservado e aquilo que contraria leis divinas seja cortado e jogado ao fogo.
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[1]GOMES, Perillo. O Liberalismo; 1933.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Fé, Política e o Concílio...


Enquanto a Igreja não resolver a treta do Concílio Vatícano II, qualquer ação política e cultural é mero paliativo. E quem pode resolver essa treta é só o Papa (os teólogos talvez podem até dar uma ajudinha...).

Até lá cabe a nós esperar, rezar e fazer o que der no campo político-cultural, sabendo sempre que somos como enfermeiros dos SUS dando aspirina para um paciente com câncer. Não vamos conseguir resolver é nada, mas quem sabe conseguimos aliviar um pouco o sofrimento até que venha a solução.

Lutemos o bom combate, mas não alimentemos ilusões e utopias.

domingo, 2 de julho de 2017

Viva segundo suas próprias regras

Estou lendo atualmente "A Arte da não Conformidade" de Chris Guillebeau. Um livro muito interessante que, como diz o subtítulo, apresenta estratégias para viver segundo suas próprias regras.

Tantas vezes, deixamos que as convenções culturais e pressões sociais definam nossa vida,  seguimos o fluxo fazendo coisas que não queríamos fazer apenas porque “todo mundo age assim”. O livro apresenta alguns conselhos importantes e práticos para por fim a este ciclo, tais ensinamentos podem ser usados tanto para a vida pessoal, quanto para os combates políticos e culturais.

Cito aqui alguns deles, como a estratégia do azarão:
Gladwell argumenta que, mesmo em uma guerra convencional, os azarões vencerão 28% das vezes. Em uma batalha típica, Davi pode ter sorte e sair vitorioso quando a autoridade se permite baixar a guarda. Mas, quando o azarão adota uma estratégia não convencional e subverte as regras do jogo, a porcentagem de vitórias decola para 63%. Em outras palavras, quando o azarão usa estratégias não convencionais, ele na verdade acaba sendo o favorito. Apesar de todos os fatores aparentemente indicarem o contrário, se for esperto você apostará no adversário mais fraco.

Qual é a diferença entre as duas situações? A diferença é que, em uma situação, o azarão subverte deliberadamente as regras do confronto. Lembre que o verdadeiro propósito dos guardiões é restringir as escolhas (você tem a opção a ou b, mas não c, d ou e). A estratégia do azarão parte em busca de alternativas. No artigo de Gladwell, as alternativas incluíram Lawrence da Arábia escolhendo percorrer quase mil quilômetros pelo deserto para contornar e surpreender o inimigo, o Davi bíblico se recusando a usar uma armadura na batalha contra Golias e um time de basquete desfavorecido utilizando uma inovadora estratégia de defesa agressiva para confundir o adversário. A alternativa de Tim DeChristopher foi encontrar uma terceira opção de protesto como uma alternativa às opções pouco eficazes de escrever cartas ou apelar para a violência.

Em outros encontros com a autoridade, você pode simplesmente fingir que concorda, sorrir e no fim fazer o que quiser. Como mencionamos, é mais fácil pedir perdão do que permissão, mas, felizmente, você na verdade não precisa pedir nem perdão nem permissão com muita frequência. 
E também a ideia da exclusão radical:
Ao começar a redefinir a maneira como passará a dedicar seu tempo, se não souber ao certo quais responsabilidades deverá assumir, pode ser útil começar a aplicar um filtro a todas as opções com as quais você encontra. A resposta às duas perguntas – “Por que eu deveria fazer isso?” e “O que acontecerá se eu não fizer?” – esclarecerá a necessidade de assumir ou não vários tipos de responsabilidade.

Exemplo: Você tem uma reunião marcada e sabe que ela não será produtiva.
Pergunta: “Por que eu deveria fazer isso?” (Respostas possíveis: as pessoas esperam que eu compareça, nós nos reunimos toda semana, pode ser diferente desta vez etc.)
Pergunta: “O que acontecerá se eu não comparecer?” (Respostas possíveis: provavelmente nada, alguém ficará irritado, alguém pode achar que foi esperto da minha parte não ter comparecido etc.)

Se a resposta for que você será demitido imediatamente, pode ser necessário engolir o sapo e comparecer à reunião. Provavelmente, você poderá encontrar uma maneira de não participar da reunião e, ao mesmo tempo, manter o emprego.
Outro ponto muito interessante são as críticas do autor aos métodos tradicionais de educação, e os conselhos para educação autodirigida:
A EXPERIÊNCIA DE UM ANO DE GRADUAÇÃO ALTERNATIVA AUTODIRIGIDA 
•Faça uma assinatura da revista The Economist ou alguma outra boa revista de notícias e atualidades e leia todos os números religiosamente.
Custo: 110 dólares na versão digital para o Brasil + 60 minutos por semana.
•Memorize os nomes de todos os países, capitais e presidentes ou primeiros-ministros do mundo. Custo: US$ 0 + 3-4 horas.
•Compre uma passagem aérea ao redor do mundo ou use milhas de programas de milhagem para viajar a várias importantes regiões do planeta, incluindo a África e a Ásia.
Custo: variável, mas considere uma quantia de quatro mil dólares para seus planos.
•Leia os textos básicos das principais religiões do mundo: o Torá, o Novo Testamento, o Corão e os ensinamentos de Buda. Visite uma igreja, uma mesquita, uma sinagoga e um templo.
Custo: os textos podem ser obtidos gratuitamente na internet (ou em livros usados por menos de 100 reais + 20 horas.
•Faça a assinatura de um podcast de ensino de idiomas e ouça cada episódio de 20 minutos, cinco vezes por semana, durante o ano inteiro. Participe de um clube de idiomas uma vez por semana para praticar o que aprendeu.
Custo: US$ 0 + 87 horas.
•Empreste dinheiro a um empreendedor por meio do site <www.kiva.org>, por exemplo, e visite-o quando estiver no exterior em sua grande viagem ao redor do mundo.
Custo: provavelmente US$ 0 no final, já que 98% dos empréstimos são pagos.
•Desenvolva pelo menos três novas habilidades durante o ano. Sugestões: fotografia, paraquedismo, programação de computador, artes marciais. A chave não é se tornar um especialista, mas sim se tornar proficiente a ponto de ser funcional. 
Custo: variável, mas cada habilidade provavelmente custará menos do que três créditos em uma universidade.
•Leia pelo menos 30 livros de não ficção e 20 romances clássicos.
Custo: aproximadamente 1. 500 reais (pode ser reduzido ou eliminado se você utilizar uma biblioteca).
•Entre em uma academia de ginástica para manter a forma durante seus rigorosos estudos independentes. (Algumas universidades incluem acesso a suas academias mediante o pagamento de 32 mil dólares em mensalidades, de forma que você deverá pagar por isso se não for um estudante universitário.) Veja o custo em seu clube, no Sesc, na ACM.
Custo: cerca de 50 a 150 reais por mês.
•Familiarize-se com habilidades básicas de apresentação e falar em público. Procure cursos ou um grupo de apoio para falar em público para obter uma ajuda construtiva e estruturada. Veja o site do Toastmasters International (www.toastmasters.org), que já conta com algumas unidades no Brasil.
Custo: cerca de 100 reais + 2 horas por semana durante dez semanas.
•Crie um blog, determine um cronograma básico de postagens e se atenha a ele durante o ano inteiro. Uma dica: não tente escrever todos os dias. Limite-se a um cronograma semanal ou quinzenal por um tempo e, se você ainda estiver gostando da experiência depois de três meses, acelere o ritmo.
Custo: US$ 0.
•Configure a página inicial do seu navegador para <http://pt.wikipedia.org/wiki/Especial:Aleatória> . No decorrer de um ano, cada vez que abrir o navegador, verá uma página diferente e aleatória da Wikipédia. Leia-a. Custo: US$ 0.
•Aprenda a escrever ouvindo podcasts, como o Escriba Café em português e o Grammar Girl em inglês no iTunes, e lendo livros sobre o processo de escrever, como o Manual de Redação de jornais como Folha de São Paulo ou O Estado de São Paulo ou o excelente livro em inglês Bird by Bird de Anne Lamott. Custo: US$ 0 para os podcasts, cerca de 40 reais para os livros em português e 14 dólares para o livro de Anne Lamott (10 reais no Kindle).
•Em vez de ler toda a Encyclopedia Britannica, leia resumos, como o em inglês The know-it-all, de A. J. Jacobs ou o Guia dos curiosos em português.
Custo: 15 dólares para o texto americano. O site do Marcelo Duarte (autor do Guia dos Curiosos) é gratuito, <http://guiadoscuriosos.uol.com.br/> .
CUSTO TOTAL: cerca de 10 mil dólares
O autor não é católico e vez ou outra muitas escorregadas liberais (como dá para notar nas citações acima), entretanto, creio que valha a leitura, com a devida prudência é possível tirar muitas coisas boas daí. O livro pode ser encontrado em .pdf no Le Livros.