sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Acídia, Ambição, Talento e Esforço

Quais são os sete pecados capitais? Tem o leitor na ponta da língua o nome destas sete doenças que afligem a alma humana? Se sim, meus parabéns, pois faz parte de um seleto e excepcional grupo; hoje a maioria dos homens ignora aquilo que deveria combater.

Em seu Tratado Prático, o monge Evágrio Pôntico oferece-nos um curioso conselho: usar um demônio, um dos sete pecados capitais, contra o outro, reservando, porém, o alerta de não se abusar desta técnica. Longe de mim querer adicionar um iota a este clássico da ascese cristã, mas... (depois disso raramente vem coisa boa eu sei, escondam a carteira e liguem a cerca elétrica antes de prosseguir com a leitura) hoje, em pleno século XXI (vish!!!! Já mandou o jargão...) o pecado se disfarça de virtude e pode enganar ainda mais facilmente o usuário desta artimanha. Falemos da Acídia em sua manifestação mais vulgar: Preguiça. Muitas vezes esta se disfarça de humildade em um discurso moralista contra a ambição.

A ambição é ruim? Depende daquilo que se ambiciona. Na parábola dos talentos, aqueles que investiram e multiplicaram seus dons foram elogiados, enquanto o que o enterrou foi chamado “servo mal e preguiçoso”. Assim, a tal da “falta de ambição” pode ser tanto um sintoma de preguiça, algumas vezes associada também ao orgulho. Orgulho? Sim, orgulho. O que é o orgulho? De forma vulgar, uma opinião ilusória de si mesmo, achar que é “o cara”, quando na verdade é um bostinha. Cada vez que caímos, tentamos e falhamos tomamos consciência de nossa condição miserável, mas o preguiçoso não. Quem não tenta e não arrisca, não falha. O personagem Raskólnikov do romance Crime e Castigo é talvez um dos exemplos mais cristalinos da relação entre preguiça e orgulho. Este homem que dizia-se um novo Napoleão, abandonara os estudos, desdenhava da busca pelo emprego e passava horas no marasmo, deitado em seu imundo apartamento, confeccionando os feitos grandiosos, para os quais segundo ele, havia de realizar. E como sabemos, pecado puxa pecado, e a orgulhosa preguiça do senhor Raskólnikov o levou a pratica do homicídio, o resto da história você encontra nas quase 700 páginas de Dostoiévski, mas continuemos... 

Falava da ambição, mas os modernos têm uma visão tacanha e sempre associam a palavra ao dinheiro, por vezes dinheiro e ambição são até mesmo antagônicos. Pensemos em um exemplo simples: cinema. Quantos cineastas tinham talento e potencial para criar verdadeiras obras de arte, obras que atravessariam o século, mas preferiram um blockbuster comum, fórmula pronta para uns trocados? Mas, de que adianta a ambição pela ambição, mesmo que ordenada, sem talento e esforço. O que é talento? Talento é a predisposição natural, algo impresso em nossa alma, uma facilidade a determinados campos e áreas, também conhecido como "potencial". É o mesmo da parábola do Evangelho, a cada um foi dado em quantidades e espécies diferentes, mas a todos a mesma ordem: "multiplicai-o". E esforço? É o trabalho duro, o "suor do seu rosto" que irriga a terra. Sem esforço, ambição e talento hão de no máximo produzir aquela obra relaxada, inacabada, com aquela impressão de "poderia ter sido e não foi". Um bom lugar para se cultivar a virtude do esforço é no esporte, mas deixo isso para um próximo texto, prossigamos um pouco mais, pois o final já se achega.

Nesta luta contra o pecado da preguiça, que algumas tradições monásticas associam ao demônio Belfegor, além das armas da ambição, talento e esforço, conta o católico com o auxilio da graça. Deste modo, não há desculpas para a mediocridade.

Há, pois, de se buscar, ambicionar, o Bem e esforçar-se com os meios lícitos, utilizando dos talentos virtuosos, guiados pela virtude da sabedoria, faculdade impressa em nossa alma que nos difere das bestas irracionais.

Em resumo:
- Por vezes a preguiça se esconde sob os mantos de uma falsa humildade;
- Para vencê-la, deve-se unir as armas da Ambição, do Talento e do Esforço; 
- O uso de tais armas deve ser guiado pela razão natural iluminada pela doutrina cristã e fortalecida pela graça dos sacramentos;
- Desta forma não há desculpas para a mediocridade.

Nota: Há controvérsias com relação ao significado do termo ambição, uso aqui no sentido de desejo. Assim o desejo não é mal nem ruim por si mesmo, mas depende do que se deseja. Há, entretanto,  teóricos católicos como o Padre Ricardo Leão, que dão ao vocábulo ambição um significado diferente, reforçando o seu caráter negativo. De todo o pressuposto do texto é que seja lido sob a hermenêutica da continuidade  para com a tradição católica, onde jamais há de se fazer apologia ao vício.

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