sábado, 28 de outubro de 2017

O Golpe de Mestre de Satanás

Sabemos pelo Gênesis e melhor ainda pelo próprio Nosso Senhor que Satanás é o pai da mentira. No versículo 44, capítulo 8 do Evangelho de São João, Nosso Senhor interpela os judeus dizendo-lhes:

“Vós sois filhos do demônio, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai; ele foi homicida desde o princípio, e não permaneceu na verdade; porque a verdade não está nele; quando ele diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira...”

Satanás é homicida nas perseguições sangrentas, pai da mentira nas heresias, em todas as falsas filosofias e nas palavras equívocas que estão na base das revoluções, das guerras mundiais, das guerras civis.

Não cessa de atacar Nosso Senhor em seu Corpo Místico: a Igreja. No curso da História empregou todos os meios, dos quais um dos últimos e mais terríveis foi a apostasia oficial das sociedades civis. O laicismo dos Estados foi e será sempre um escândalo imenso para as almas dos cidadãos. E é por esse subterfúgio que conseguiu laicizar pouco a pouco e fazer perder a fé numerosos membros da Igreja, a tal ponto que esses falsos princípios de separação da Igreja e do Estado, da liberdade das religiões, do ateísmo político, da autoridade que toma sua origem dos indivíduos, terminaram por invadir os seminários, os presbitérios, os bispados e até o Concílio Vaticano II.

Para fazer isso, Satanás inventou palavras chaves que permitiram que os erros modernos e modernistas penetrassem no Concílio: a liberdade foi introduzida mediante a Liberdade religiosa, ou Liberdade das religiões; a igualdade, mediante a Colegialidade, que introduz os princípios do igualitarismo democrático na Igreja e, finalmente, a fraternidade mediante o Ecumenismo que abraça todas as heresias e erros e oferece a mão a todos os inimigos da Igreja. O golpe de mestre de Satanás será, por conseguinte, difundir os princípios revolucionários introduzidos na Igreja pela autoridade da própria Igreja, pondo esta autoridade em uma situação de incoerência e de contradição permanente; enquanto este equívoco não for dissipado, os desastres se multiplicarão na Igreja. Ao se tornar equívoca a liturgia, se torna equívoco o sacerdócio, e tendo ocorrido o mesmo com o catecismo, a Fé, que não se pode manter senão na verdade, se dissipa. A própria Hierarquia da Igreja vive em um equívoco permanente entre a autoridade pessoal, recebida pelo sacramento da Ordem e a Missão de Pedro ou do Bispo e os princípios democráticos.

É preciso reconhecer que a trapaça foi bem feita e que a mentira de Satanás foi utilizada maravilhosamente. A Igreja vai destruir a si mesma por via da obediência. A Igreja vai se converter ao mundo herege, judeu, pagão, pela obediência, mediante uma Liturgia equívoca, um catecismo ambíguo e cheio de omissões e de novas instituições baseadas sobre princípios democráticos.

As ordens, as contra-ordens, as circulares, as constituições, as cartas pastorais serão tão bem manipuladas, tão bem orquestradas, mantidas pela onipotência dos meios de comunicação social, pelo que resta dos movimentos da Ação Católica, todos marxizados, que todos os fiéis honrados e os bons sacerdotes repetirão com o coração quebrado mas consentindo: Temos que obedecer! A quem, a que? Não se sabe exatamente: à Santa Sé, ao Concílio, às Comissões, às Conferências Episcopais? Qualquer um aqui se perde como nos livros litúrgicos, nos ordos diocesanos, na emaranhada bagunça dos catecismos, das orações do tempo atual, etcétera. Temos que obedecer, com perigo de se tornar protestante, marxista, ateu, budista, indiferente, pouco importa! temos que obedecer através das negações dos sacerdotes, da inoperância dos Bispos, salvo para condenar àqueles que querem conservar a Fé, através do matrimônio dos consagrados a Deus, da comunhão aos divorciados, da inter-comunhão com os hereges, etc. Temos que obedecer! Os seminários se esvaziam e são vendidos como os noviciados, as casas religiosas e as escolas; se saqueiam os tesouros da Igreja, os sacerdotes se secularizam e se profanam em sua vestimenta, em sua linguagem, em sua alma!... temos que obedecer. Roma, as Conferências Episcopais, o Sínodo presbiterial o querem. É o que todos os ecos das Igrejas, dos jornais, das revistas repetem: aggiornamento, abertura ao mundo. Desgraçado seja aquele que não consente. Tem direito a ser pisoteado, caluniado, privado de tudo o que lhe permitiria viver. É um herege, é um cismático, que merece unicamente a morte.

Satanás conseguiu verdadeiramente um golpe de mestre: consegue fazer com que sejam condenados aqueles que conservam a fé católica por aqueles mesmos que a deveriam defender e propagar.

Já é tempo de encontrar novamente o senso comum da fé, de reencontrar a verdadeira obediência à verdadeira Igreja, oculta sob essa falsa máscara do equívoco e da mentira. A verdadeira Igreja, a Santa Sé verdadeira, o Sucessor de Pedro, os Bispos enquanto submetidos à Tradição da Igreja, não nos pedem e não nos podem pedir que nos tornemos protestantes, marxistas ou comunistas. Pois bem, se poderia crer ao ler certos documentos, certas constituições, certas circulares, certos catecismos que nos pedem que abandonemos a verdadeira Fé em nome do Concílio, de Roma, etc.

Devemos negar a tornarmo-nos protestantes, a perder a Fé e a apostatar como o fez a sociedade política depois dos erros difundidos por Satanás na Revolução de 1789. Recusamo-nos a apostatar, ainda que fosse em nome do Concílio, de Roma, das Conferências Episcopais.

Permanecemos aderidos, sobretudo, a todos os Concílios dogmáticos que definiram a perpetuidade de nossa Fé. Todo católico digno desse nome deve rejeitar todo relativismo, toda evolução de sua fé no sentido de que o que foi definido solenemente pelos Concílios em outros tempos deixaria de ser válido hoje e poderia ser modificado por outro Concílio, com maior ainda razão se é simplesmente pastoral.

A confusão, a imprecisão, as modificações dos documentos sobre a Liturgia, a precipitação na aplicação, demonstram bem claramente que não se trata de uma reforma inspirada pelo Espírito Santo. Esta forma de obrar é de tal modo contrária aos costumes romanos que obram sempre “cum consilio et sapientia”. É impossível que o Espírito Santo tenha inspirado a definição da Missa segundo o artigo VII da Constituição e ainda mais inaudito que se tenha sentido a necessidade de corrigi-la em seguida, o que é uma confissão de um serviço malfeito na mais importante realidade da Igreja: o Santo Sacrifício da Missa.

A presença dos protestantes para a reforma litúrgica da Missa, é preciso confessar, estabelece um dilema ao qual parece difícil escapar. Sua presença significava ou que estavam convidados para reajustar seu culto segundo os dogmas da Santa Missa ou que lhes fosse perguntado o que lhes desagradava na Missa Católica para evitar que se deixasse presente uma expressão dogmática que eles não poderiam admitir. É evidente que esta segunda solução é a que foi adotada, coisa inconcebível e certamente não inspirada pelo Espírito Santo.

Quando se sabe que esta concepção da “Missa normativa” é a do Padre Bugnini e que ele a impôs tanto ao Sínodo como à Comissão de Liturgia, pode-se pensar que há Romas e Romas, a Roma eterna com sua fé, seus dogmas, sua concepção do Sacrifício da Missa e a Roma temporal influenciada pelas ideias do mundo moderno, influência à que não escapou o próprio Concílio – o qual, propositadamente e pela graça do Espírito Santo quis ser unicamente pastoral.

Santo Tomás se perguntava na questão da correção fraterna se convém que seja praticada às vezes com os Superiores. Com todas as distinções úteis, o Anjo da Escola responde que deve ser praticada quando se trata da Fé.

Pois bem, quem pode com toda consciência dizer que hoje em dia a Fé dos fiéis e de toda a Igreja não está ameaçada gravemente na Liturgia, no ensino do catecismo e nas instituições da Igreja?

Que se leia e releia São Francisco de Sales, São Roberto Belarmino, São Pedro Canísio e Bossuet e se encontrará com assombro que tinham que lutar contra os mesmos falsos procedimentos. Mas desta vez o drama extraordinário consiste em que estas desfigurações da Tradição nos vêm de Roma e das Conferências Episcopais; se alguém quer por conseguinte guardar sua Fé temos que admitir sim que algo anormal ocorre na administração romana. Devemos, certamente, manter a infalibilidade da Igreja e do Sucessor de Pedro, devemos também admitir a situação trágica em que se encontra nossa Fé católica pelas orientações e os documentos que nos vêm da Igreja; a conclusão volta ao que dizíamos no começo: Satanás reina pelo equívoco e pela incoerência, que são seus meios de combate e que enganam os homens de pouca Fé.

Este equívoco deve ser suprimido valentemente para preparar o dia eleito pela Providência em que será suprimido oficialmente pelo Sucessor de Pedro.

Que não nos tachem de rebeldes ou orgulhosos, porque não somos nós os que julgamos, senão que Pedro mesmo quem como Sucessor de Pedro condena o que ele por outro lado fomenta, é a Roma eterna a que condena a Roma temporal. Nós preferimos obedecer a eterna.

Pensamos com plena consciência que toda a legislação emitida desde o Concílio é, ao menos, duvidosa e, em consequência, apelamos ao Cânon 23 que trata deste caso e nos pede ater-nos à lei antiga.

Estas palavras parecerão a alguns injuriosas para a autoridade. Ao contrário, são as únicas que protegem a autoridade e a reconhecem verdadeiramente, porque a autoridade não pode existir senão para o Verdadeiro e o Bom e não para o erro e o vício.

Em 13 de outubro de 1974, no aniversário das aparições de Fátima.
Que Maria se digne abençoar estas linhas e faça com que produzam frutos de Verdade e Santidade.
+ Marcel Lefebvre

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