domingo, 19 de novembro de 2017

Arqueofuturismo e a Gangue da Gravata Borboleta

Mais de um século após o Manifesto Futurista, em que Tommaso Marinetti exortava o abandono de todas as antigas tradições, numa manifestação iconoclasta quase que histérica, mas sincera, do espirito da modernidade, certo conservadorismo, bem como algum tipo de tradicionalismo vem ganhando espaço no mundo das ideias, devido ao fracasso do projeto moderno. Algumas vezes, porém, esta mentalidade tradicionalista se reveste de caracteres um tanto bizarros, desde a mitificação e folclorização do passado, bem como certo anacronismo vulgar. Se o leitor usa as redes sociais já deve ter se deparado com algumas destas figuras: da gangue da gravata borboleta, passando pelos entusiastas dos suspensórios, aos web amishs. Nesta forma vulgar, a Tradição, perde todo seu aspecto dinâmico, vivificante, transmutando-se numa nostalgia apática, em uma fantasia vulgar.

O passado não vai voltar, mas, isto não significa que ele não possa vir a inspirar o futuro. Teriam os tradicionalistas e conservadores mais sucesso em seus intentos se, ao invés de chorar sobre as ruínas da antiga civilização, lamentando-se do mundo degenerado, mitificando os tempos de outrora, empreendessem esforços para imaginar o mundo futuro, iluminado pelas tradições pretéritas.

Na ficção, existe um subgênero narrativo denominado steampunk, que se propõe a pensar o que seria do passado, se neste, o impacto do desenvolvimento tecnológico fossem tais como hoje. Aquilo do qual precisamos, é mais ou menos o contrário, precisamos pensar o futuro sob a ótica do passado, uma espécie de regressismo progressista, ou nos termos de Guillaume Faye, arqueofuturismo[1]. Exemplifiquemos: Que tal imaginar os Estados Pontifícios e uma nova Idade Média, hoje com celulares, internet e televisão? Uma nova cruzada com o uso de tanques de guerra e submetralhadoras? E o feudalismo em tempos de drones e maquinário agrícola de precisão? Como seria uma monarquia tradicional estabelecida em uma cidade cosmopolita tal qual São Paulo ou Nova York? De que modo as instituições do passado, caso fossem restauradas, vão interagir com as inovações,  aparatos tecnológicos, e a psicologia do presente? E com aquilo que esperamos para o futuro?

Não nos ensina a história, que antes de se transmutar em ação, algo deve tornar-se possível e coerente, através da ficção? Se tudo que os tradicionalistas têm a oferecer ao mundo é uma nostalgia ranheta, estão condenados a insignificância das fofocas de Facebook. Mas, se conseguirem com as luzes da tradição, fazer-nos antever um futuro luminoso, talvez aí assim, as pessoas passem a levá-los a sério.

Por mais degenerados que sejam os porcos revolucionários, ao menos uma coisa eles não perderam, a capacidade de sonhar; e nós?

Notas:
[1] Faye é um pagão com a mente cheia de ideias perversas, entretanto, teve o mérito de cunhar o termo arqueofuturismo; todavia, o uso que faço deste é uma interpretação própria, pouco apegada a qualquer fidelidade para com o autor.

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