quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Gunpowder: "Remember, remember, the 5th of November"


"Remember, remember, the 5th of November
The gunpowder, treason and plot;
I know of no reason, why the gunpowder treason
Should ever be forgot."

"Lembrai, lembrai, o cinco de novembro
A pólvora, a traição e a conspiração;
Não conheço nenhuma razão para que a traição de pólvora;
Deva ser esquecida algum dia."

A antiga canção inglesa fora imortalizada na obra de Alan Moore, V de Vingança, obra esta que também direcionou e despertou a curiosidade do grande público para com a controversa figura de Guy Fawkes, bem como o episódio conhecido como "A Conspiração da Pólvora". Anos depois do sucesso de V de Vingança, a recente minissérie da BBC, Gunpowder, se propõe a recontar as minúcias deste complô católico.

A maioria dos textos que hoje em circulação (inclusive em meios católicos) sobre a figura de Fawkes sofrem de um simplismo criminoso, Fawkes é visto como um fanático católico, um terroristazinho semelhante aos radicais islâmicos, um "Bin Laden medieval"; a série inglesa é, porém, mais sincera e honesta; contextualizando a trama. Logo na primeira cena vemos uma missa clandestina, o padre jesuíta Henry Garnet celebra em latim na casa de uma aristocrata. Instantes depois chegam os soldados do rei, é tempo de perseguição religiosa na Inglaterra, a besta protestante busca eliminar todo resquício de "papismo" na ilha, os padres são escondidos, mas após uma busca, os soldados do tirano encontram um jovem clérigo, condenando-o a uma morte brutal: suas vísceras arrancadas e sua cabeça cortada diante de uma multidão extasiada. A crueldade da cena, que fez muitos dos expectores ingleses vomitarem, nada mais é do que um pequeno reflexo da monstruosidade da chamada inquisição protestante, tão pouco conhecida do grande público. O atentado fracassado contra o rei inglês não nasceu de devaneios fanáticos, mas foi uma medida desesperada diante de uma violenta perseguição.

A série é feliz em retratar o heroísmo dos mártires católicos, que diante das mais cruéis torturas mantem-se firme na Fé. A farsa protestante anglicana também é vista sem falsificações, esta não passa de uma artimanha política da coroa inglesa, liderada por um rei fútil e sodomita, manipulado por seus subordinados na corte. Há também ricas reflexões nos diálogos entre os personagens Robert Catesby, líder da conspiração e o padre Henry Garnet. Catesby defende uma reação violenta, uma conspiração para matar o tirano e por fim a perseguição aos católicos, enquanto Garnet adota um discurso de "não violência" , argumentando que os católicos não devem sujar suas mãos de sangue. Em tempos de perseguição religiosa, este debate volta a emergir no interior da Igreja, como vimos durante a Guerra Cristera no México. 

Outro ponto interessante fica com o papel da Espanha na trama. Este reino católico, tão zeloso a ponto de, na ficção, "queimar judeus para preservar a Fé", mostra-se tão indiferente às perseguições de seus irmãos ingleses, silenciando seu poder de pressão em troca de benefícios comerciais. O Estado foi posto acima da Fé, e esta instrumentalizada por ele. O episódio final, faz o espectador questionar ainda mais a catolicidade daquele antigo Estado confessional.

Guido Fawkes, porém, é um personagem bem marginal, sua história, seus dramas, nada disto é exposto. Fica a imagem de um homem bruto, forte, um verdadeiro badass, que diante da tortura, acaba por ceder. Diferente é o destino do padre Garnet, um homem que temia fraquejar diante das torturas, mas pela graça de Deus, mantem-se fiel até o último instante, morrendo como um verdadeiro mártir de Cristo.

Gunpowder não é uma série religiosa, todavia, é possível encontrar nesta uma teologia mais ortodoxa do que em muitos seminários diocesanos.

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