terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Trinity Blood: Um Vaticano sem Fé

Havia lido uma crítica positiva com relação ao anime Trinity Blood em um site ligado a Comunidade Shalom; geralmente não confio muito na capacidade de crítica artística de comunidades ligadas a RCC, mas dei o braço a torcer e fui conferir a obra que, segundo o autor do texto, seria bem respeitosa com a Igreja:
(...) O personagem principal é Abel Nightroad, padre católico e “crusnik”, um vampiro que se alimenta de outros vampiros. Sua parceira é um jovem freira chamada Esther Blanchet, que o acompanha em missões de paz que [obviamente] acabam em batalhas carregadas de ação. Praticamente todo personagem masculino relevante também é padre, e muitas das personagens femininas são freiras (ou, o que é esquisito, “uma Cardeal” — mas deixa quieto). Até o Papa (o Papa!) é um personagem recorrente com sua própria sub-trama!

Trinity Blood é intencionalmente respeitosa com a Igreja Católica, retratando-a como mantenedora da paz e uma força do bem no mundo (embora tenham me informado que, enquanto escrevo, o Papa Francisco ainda não inaugurou a divisão antivampiro da Igreja). O vampirismo de Padre Nightroad é uma metáfora eficiente para a natureza decaída do homem. Ele luta constantemente contra essa condição e, às vezes, sucumbe aos seus impulsos perversos, porém, sempre vem a possibilidade de arrependimento e de renovar o compromisso em combater as forças da escuridão.
Que Igreja?  Essa foi a pergunta que ficou no primeiro capítulo, permaneceu no segundo, e não estou com o mínimo de vontade de assistir ao terceiro. A trama é bacaninha, houve uma espécie de Guerra Nuclear, depois disso apareceram alguns vampiros pra fazer mais bagunça ainda, e nessa restruturação pós-apocalíptica a Igreja tomou papel de destaque na proteção da humanidade, só. A Igreja no anime foi reduzida a uma organização política, um Vaticano com soldados de elite, muito poderosos, sábios, mas nada católicos. Nenhuma referência há a Fé, a Salvação de almas, a Cristo, nada... Ora, qualquer um que tenha ao menos terminado a catequese sabe que o valor da Igreja não está em seu legado geopolítico, artístico e civilizacional, mas na pureza de sua doutrina, e na sublimidade de seus Sacramentos, ambos entregues pelo próprio Deus. Quando a última catedral for destruída, e a diplomacia vaticana não valer de nada, mesmo que a Igreja se faça pobre, pequena e perseguida, será ainda o Reino de Deus na Terra. Todavia, aqueles que negam um mísero iota, uma doutrina aparentemente marginal, para preservar o poder sob os impérios, a glória das catedrais, já não fazem mais parte desta instituição divina, tendo caído na derradeira arapuca do tentador. Uma Igreja sem Cristo, um Vaticano sem fé, não é outra coisa senão uma artimanha demoníaca.

Voltemos, porém ao anime, na obra (ao menos nos dois episódios que vi), este Vaticano cyberpunk é governada por um Papa fraco, manipulado por seus cardeais, entre eles sua irmã (Mulher Cardeal? Pois é....). Enfim, queria saber que raios deu na cabeça desses meus irmãozinhos de fé para elogiar tamanha sandice; falta-lhes o mínimo de bom senso.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

“Vai para casa, para junto dos teus e anuncia-lhes tudo o que o Senhor, em sua misericórdia, fez por ti”


4ª Semana do Tempo Comum - Segunda-feira
Primeira Leitura (2Sm 15,13-14.30;16,5-13a)
Responsório (Sl 3)
Evangelho (Mc 5,1-20) 

1.Na primeira leitura contemplamos um episódio extremamente triste: o Rei Davi é perseguido de morte por seu próprio filho, Absalão. Vemos um rasgo, uma profunda fresta na instituição familiar; não apenas isso, Davi, perseguido por seu filho ainda é caluniado e injuriado por Semei, entretanto, suporta com paciência e resignação, clamando ao Senhor misericórdia. 

O mal que caiu sobre a casa Davi pode vir a cair sobre cada um de nós; não alimentemos ilusões de que a vida familiar há de ser sempre, tal qual, comercial de margarina, mas antes agradeçamos ao Senhor pela paz que gozamos, e rezemos para que ele sustente a nós e nossos familiares no tempo da provação.

2.No santo Evangelho, Cristo se confronta com o possesso de Genesaré, libertando-o de uma legião de demônios. Após a libertação, lemos que: <Enquanto Jesus entrava de novo na barca, o homem que tinha sido endemoninhado pediu-lhe que o deixasse ficar com ele. Jesus, porém, não permitiu. Entretanto, lhe disse: “Vai para casa, para junto dos teus e anuncia-lhes tudo o que o Senhor, em sua misericórdia, fez por ti”.(Mc 5, 18-19)>; o homem queria estar com Jesus, tornar-se um clérigo e viver a seu serviço, todavia não era esta sua vocação; mas não é preciso ser padre para seguir a Cristo, ou bendizer ao Senhor; Cristo ordena ao homem que anuncie aos seus as maravilhas que o Senhor fez em sua vida. Eis uma importante lição, sobretudo para nós leigos, neste ano do Laicato: <“Vai para casa, para junto dos teus e anuncia-lhes tudo o que o Senhor, em sua misericórdia, fez por ti” (Mc 5, 19b)>.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Nossa Senhora das Bicicletas (?)

Dias atrás tive a oportunidade de assistir o filme Perigo por Encomenda (Premium Rush); apesar do roteiro um tanto quanto fraco, o filme me empolgou, sobretudo com as cenas de ação, bikes a toda velocidade contornando a caótica Nova Iorque. Sou fã de bicicletas, e adepto deste meio de transporte, bem como vejo com bons olhos esta recente onda de construção de ciclovias, que avança contornando as barreiras do lobby automobilístico.

Algo muito interessante, que descobri a pouco tempo, é a relação da bike com a devoção a Nossa Senhora de Ghisallo:
Madonna di Ghisallo é uma colina na região da Lombardia, no norte da Itália. Recebeu esse nome após uma aparição da santa ao Conde Ghisallo que, na Idade Média, ao ser atacado por bandidos, se refugiu em uma capela e viu sua imagem.

Como a região fazia parte do Giro di Lombardia, importante prova ciclística italiana, o padre local, Ermelindo Viganò, propôs que a santa fosse declarada padroeira dos ciclistas.

A sugestão foi acatada pelo Papa Pio XII e a Nossa Senhora de Ghisallo foi consagrada oficialmente em 1949.

O santuário acabou se tornando centro de romaria de ciclistas do mundo todo e acabou se transformando em um pequeno museu.

As paredes da capela são adornadas por camisas de ciclistas famosos, flâmulas de equipes, além de fotos e bicicletas, dentre as quais se destaca a do ciclista italiano Fabio Casartelli, campeão olímpico de 1992, em Barcelona, e que morreu durante uma etapa do Tour da França em 1995.

Na capela, onde fica a imagem da Madonna di Ghisallo, há também uma chama eterna, em homenagem a todos os ciclista que já morreram.

Com o tempo, a coleção da capela ficou tão grande que, ao seu lado, foi criado o Museu do Ciclismo para guardar parte do acervo.

A construção do museu, em um prédio de arquitetura moderna, foi finalizada em 31 de maio de 2006 e foi abençoada pelo Papa Bento XVI.

Fazem parte do acervo do museu bicicletas da época da Primeira Guerra Mundial até modernas bikes de carbono. No museu, também é possível ver uma edição de 1903 do jornal l’Auto, anunciando o primeiro Tour de France.[1]
No vídeo abaixo é possível ver algumas fotos:

 

Posteriormente, inspirado em Ghisallo, outra capela, desta vez na França tornou-se um centro de peregrinação dos ciclistas, com a aprovação do Papa São João XXIII, a capela Notre-Dame des Cyclistes [2].

sábado, 27 de janeiro de 2018

A Doutrina dos Dois Gládios


3ª Semana do Tempo Comum - Sábado
Primeira Leitura (2Sm 12,1-7a.10-17)
Responsório (Sl 50)
Evangelho (Mc 4,35-41)

Davi, o grande Rei Davi, governante de Israel, detentor do gládio do poder temporal, pecara. Usou de seu poder para tomar a mulher de Urias e, posteriormente, matou o heteu. Quem, pois, pedirá conta dos pecados dos poderosos? Quem fará a justiça? Eis que então o profeta Natã, detentor do gládio espiritual repreende Davi, manifestando-lhe a justiça de Deus, e o rei, aceita a sentença, bem como se penitencia por seus pecados. Eis aí, neste breve trecho, o modelo cristão da governança das nações: dois gládios, um espiritual, sob a posse do príncipe leigo, outro temporal, sob a posse da Igreja, sendo o segundo superior ao primeiro. A Igreja não é parte da militância, retaguarda os poderes terrenos, mas antes um poder superior, que há de julgá-los e repreende-los, conforme os desígnios de Deus.

***
Bula Unam Sanctam
Papa Bonifácio VIII

Una, santa, católica e apostólica: esta é a Igreja que devemos crer e professar já que é isso o que a ensina a fé. Nesta Igreja cremos com firmeza e com simplicidade testemunhamos. Fora dela não há salvação, nem remissão dos pecados, como declara o esposo no Cântico: "Uma só é minha pomba sem defeito. Uma só a preferida pela mãe que a gerou" (Ct 6,9). Ela representa o único corpo místico, cuja cabeça é Cristo e Deus é a cabeça de Cristo. Nela existe "um só Senhor, uma só fé e um só batismo" (Ef 4,5). De fato, apenas uma foi a arca de Noé na época do dilúvio; ela foi a figura antecipada da única Igreja; encerrada com "um côvado" (Gn 6,16), teve um único piloto e um único chefe: Noé. Como lemos, tudo o que existia fora dela, sobre a terra, foi destruído.

A esta única Igreja, nós a veneramos, como diz o Senhor pelo profeta: "Salva minha vida da espada, meu único ser, da pata do cão" (Sl 21,21). Ao mesmo tempo que Ele pediu pela alma - ou seja, pela cabeça - também pediu pelo corpo, porque chamou o seu corpo como único, isto é, a Igreja, por causa da unidade da Igreja no seu esposo, na fé, nos sacramentos e na caridade. Ela é a veste sem costura (Jo 19,23) do Salvador, que não foi dividida, mas tirada à sorte. Por isso, esta Igreja, una e única, tem um só corpo e uma só cabeça, e não duas como um monstro: é Cristo e Pedro, vigário de Cristo, e o sucessor de Pedro, conforme o que disse o Senhor ao próprio Pedro: "Apascenta as minhas ovelhas" (Jo 21,17). Disse "minhas" em geral e não "esta" ou "aquela" em particular, de forma que se subentende que todas lhe foram confiadas. Assim, se os gregos ou outros dizem que não foram confiados a Pedro e aos seus sucessores, é necessário que reconheçam que não fazem parte das ovelhas de Cristo pois o Senhor disse no evangelho de São João: "Há um só rebanho e um só Pastor" (Jo 10,16).

As palavras do Evangelho nos ensinam: esta potência comporta duas espadas, todas as duas estão em poder da Igreja: a espada espiritual e a espada temporal. Mas esta última deve ser usada para a Igreja enquanto que a primeira deve ser usada pela Igreja. O espiritual deve ser manuseado pela mão do padre; o temporal, pela mão dos reis e cavaleiros, com o consenso e segundo a vontade do padre. Uma espada deve estar subordinada à outra espada; a autoridade temporal deve ser submissa à autoridade espiritual.

O poder espiritual deve superar em dignidade e nobreza toda espécie de poder terrestre. Devemos reconhecer isso quando mais nitidamente percebemos que as coisas espirituais sobrepujam as temporais. A verdade o atesta: o poder espiritual pode estabelecer o poder terrestre e julgá-lo se este não for bom. Ora, se o poder terrestre se desvia, será julgado pelo poder espiritual. Se o poder espiritual inferior se desvia, será julgado pelo poder superior. Mas, se o poder superior se desvia, somente Deus poderá julgá-lo e não o homem. Assim testemunha o apóstolo: "O homem espiritual julga a respeito de tudo e por ninguém é julgado" (1Cor 2,15).

Esta autoridade, ainda que tenha sido dada a um homem e por ele seja exercida, não é humana, mas de Deus. Foi dada a Pedro pela boca de Deus e fundada para ele e seus sucessores Naquele que ele, a rocha, confessou, quando o Senhor disse a Pedro: "Tudo o que ligares..." (Mt 16,19). Assim, quem resiste a este poder determinado por Deus "resiste à ordem de Deus" (Rm 13,2), a menos que não esteja imaginando dois princípios, como fez Manes, opinião que julgamos falsa e herética, já que, conforme Moisés, não é "nos princípios", mas "no princípio Deus criou o céu e a terra" (Gn 1,1).

Por isso, declaramos, dizemos, definimos e pronunciamos que é absolutamente necessário à salvação de toda criatura humana estar sujeita ao romano pontífice.

Dada no Vaticano, no oitavo ano de nosso pontificado [18 de novembro de 1302].

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

''Tende para com eles singular amor, em vista do cargo que exercem''


3ª Semana do Tempo Comum - Sexta-feira
Primeira Leitura (2Tm 1,1-8)
Responsório (Sl 95(96),1-3.7-8a.10(R/.3))
Evangelho (Lc 10,1-9)

Hoje a Igreja celebra o dia de São Timóteo e São Tito, santos bispos, sucessores dos apóstolos. É necessário que tenhamos nós grande respeito e reverência ao mistério do episcopado, sobretudo nestes tempos liberais, onde está na moda certo desprezo por todo tipo de autoridade, certa crítica irreverente e maledicente. Lembremo-nos, pois, o que nos ensina o Apóstolo dos Gentios: <Suplicamos-vos, irmão, que reconheçais aqueles que arduamente trabalham entre vós para dirigir-vos no Senhor e vos admoestar. Tende para com eles singular amor, em vista do cargo que exercem. (1Ts 5, 12-13)>;

Rezemos por nossos Bispos:
Ó Deus que velais sobre o vosso povo com bondade e o conduzis com amor, dai o espírito de sabedoria e a abundância de vossas graças a vosso servo Dom N., nosso Prelado, a quem confiastes o cuidado de nossa direção espiritual, para que ele cumpra fielmente junto de nós os deveres do ministério sacerdotal, e que receba na eternidade a recompensa de um fiel dispensador. Por Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

"Ide por todo mundo, e pregai o Evangelho a toda criatura"


3ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (At 22,3-16)
Responsório (Sl 116(117),1-2(R/. Mc 16,15))
Evangelho (Mc 16,15-18)

<E disse-lhes: "Ide por todo mundo, e pregai o Evangelho a toda criatura. (...)" (Mc 16, 15)>; a ordem dada por Nosso Senhor Jesus Cristo, momentos antes de sua ascensão. Pregar o Evangelho, foi a esta causa a que dedicou São Paulo toda sua vida após a conversão, foi essa a causa da vida e da morte de todos os santos e mártires. E nós? O que temos pregado, a que temos dedicado nossas vidas? Ao Evangelho, ou as vãs ideologias? Estamos nós anunciando a Cristo, ou ao contrário, nos tornamos apologetas da liberdade de mercado, do regime político social perfeito, de tal ou qual guru da ocasião; de nossos tolos gostos pessoais? 

<E disse-lhes: "Ide por todo mundo, e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado. (Mc 16, 15-16)>; acreditamos nisso? Cremos realmente que o Evangelho é a única fonte de salvação? Olhemos então para nossas vidas, e observemos se nossas ações estão coerentes com aquilo que dizemos professar.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

A Palavra


3ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (2Sm 7,4-17)
Responsório (Sl 88)
Evangelho (Mc 4,1-20)

A Semente é a Palavra, e não há outra. Neste nosso tempo que abundam tantas doutrinas, tantos livros, tantas palavras; como uma multidão de plantas daninhas e competir por nossa atenção, sufocando a Semente, roubando o que lhe é devido. Não nos tornemos vítima de tal arapuca, é preciso ter bem claro, a Semente é a palavra, e precisamos nos alimentar dela frequentemente, precisamos conhecer e meditar nas verdades reveladas na Sagrada Escritura, e com o auxílio da Igreja, que qual como profeta Natan na primeira leitura, é oráculo do Senhor, Mãe e Mestra, que nos leva e nos ensina a Palavra do Senhor, Palavra de Salvação.

Avete il novo e 'l vecchio Testamento,
e 'l pastor de la Chiesa che vi guida;
questo vi basti a vostro salvamento

Tendes o Velho e o Novo Testamento
E da Igreja o pastor, que os passos guia:
Que mais quereis por vosso salvamento? 

– Dante Alighieri; A Divina Comédia; Paraíso; Canto V; 76-78.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Ensaio de síntese dos erros em curso no interior da Igreja desde o Concílio Vaticano II

Dom Lefebrve

Depois de doze anos de período pós-conciliar, é mais fácil de realizar um ensaio de síntese dos graves erros que já no Concílio e desde o Concílio infestam a Igreja e condicionam a atitude daqueles que têm as maiores responsabilidades na Igreja, a tal ponto que para bom número deles uma pessoa pode legitimamente se perguntar se ainda tem a fé católica e, em consequência, se ainda tem sua jurisdição.

Me parece que se pode, racional e objetivamente, pensar que os autores dessa mutação aparecida na Igreja com o Concílio Vaticano II buscaram com vigor esta mudança tendo como objetivo um novo humanismo, como já o queriam os pelagianos, como o fizeram os autores do Renascimento.

Essas pessoas, já antes do Concílio, Cardeais Montini, Bea, Frings, Liénart, etc., consideraram que se devia buscar uma nova via para universalizar a Igreja, para fazê-la aceitável ao mundo moderno tal como é com suas falsas filosofias, suas falsas religiões, seus falsos princípios políticos e sociais.

Preferiram deixar na sombra a via da Fé, demasiada intolerante para o erro e para o vício, demasiada vantajosa para a Igreja Católica Romana e, em consequência, demasiada exigente, que obriga a um combate e a uma vigilância contínuas ao colocar a Igreja e o “mundo” num estado de perpétua hostilidade.

Essa nova via não poderia ser senão um renascimento de um humanismo acolhedor para tudo o que é ou parece humanamente bom e aceitável no erro e no vício. Sob essa ótica, se poderia realizar uma união universal de todas as culturas e as ideologias sob a égide da Igreja.

Imagina-se imediatamente o que representa como distanciamento da Fé tal desígnio: se tem que esfumaçar o pecado original, abandonar a ideia de que unicamente a Igreja Católica é a Verdade e a possui, que Ela é a única via de salvação; que nenhum ato é meritório sem a união com Nosso Senhor.

A Verdade não será mais o critério da Unidade senão um “fundo comum de sentimento religioso”, de pacifismo, de liberdade, de reconhecimento dos direitos do homem...

Não saberia insistir mais para mostrar como este novo humanismo não é senão o término daquele do Renascimento; depois de vários séculos de naturalismo e, especialmente desde o século XVIII, os filósofos subjetivistas e ateus, ao rejeitar o pecado original e em consequência a necessidade da Redenção e da Encarnação, negaram a Divindade de Nosso Senhor, juntando-se a muitas seitas protestantes.

O liberalismo católico ou falso católico agiu como um “cavalo de Tróia” para que esses falsos princípios penetrassem no interior da Igreja. Quiseram “desposar a Igreja com a Revolução”. Esses esforços abriram caminho ajudados pelas sociedades secretas e pelos governos laicos e democráticos; os membros mais eminentes da Igreja foram contaminados: teólogos, Bispos, Cardeais, seminários, universidades foram atraídos pouco a pouco por essas ideias universalistas, opostas fundamentalmente à fé católica.

Para a realização desse universalismo, é preciso suprimir o que é específico da Fé católica, que se opõe necessariamente a esse “fundo comum” que permite a união universal.

O meio preconizado é “o ecumenismo”.

O ecumenismo permitirá a todos os grupos humanos importantes, representativos de uma religião ou ideologia, entrar em contato com a Igreja e manifestar à Igreja as condições que estimam que devem exigir da Igreja para uma união universal.

Os maiores obstáculos são aqueles que afirmam e expressam a Verdade da Igreja, sua unidade, a absoluta necessidade da unidade na Fé católica; que a Igreja é o único caminho de salvação; que possui o único Sacerdócio de Cristo; que proclama a necessária Realeza social de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Em consequência:
- é necessário modificar a Liturgia;
- é necessário modificar o Sacerdócio e a Hierarquia;
- é necessário modificar o ensino do catecismo, a concepção da Fé católica; daí a mudança do magistério nas universidades, seminários, escolas, etc.;
- é necessário modificar a Bíblia e constituir uma Bíblia “ecumênica”;
- é necessário suprimir os Estados católicos e aceitar o “direito comum”;
- é necessário atenuar o rigor moral substituindo a lei moral pela consciência.

O princípio que ajudará a reduzir os obstáculos será o da filosofia subjetiva, porque a filosofia do ser, a filosofia escolástica, obriga a inteligência a se submeter a uma realidade externa, a Deus, a suas leis, como a fé católica exige a adesão da inteligência às verdades reveladas, ao Credo, ao Decálogo, às instituições divinas.

A filosofia subjetiva deixa a Verdade e a moral à criatividade e à iniciativa pessoal de cada indivíduo. Ninguém pode ser obrigado a aderir à Verdade e a seguir sua lei.

Esta concepção da Verdade e da lei moral volta às realidades relativas às pessoas, às sociedades, às épocas. Ela está na base dos Direitos do homem. Pode-se advertir esta concepção nos documentos oficiais da Igreja e dos Episcopados.

A concepção desta Fé subjetiva, conforme a doutrina modernista, se encontra na maioria dos novos catecismos, nos documentos de catequese, na nova eclesiologia: Igreja viva submissa ao Espírito que a adapta às condições modernas. O Pentecostalismo é uma manifestação dela.

Taizé compartilha esta forma de conceber a religião.

O Espírito se manifesta em cada indivíduo de uma forma diferente.

As reformas que foram impostas à Igreja desde o Concílio foram realizadas com este novo espírito: a investigação, a criatividade, o pluralismo, a diversidade; espírito que se opõe radicalmente à verdadeira concepção da Verdade e da Fé, de tal forma, que unicamente esta concepção será combatida e considerada como inadmissível.

Porque é evidente que a Verdade é intolerante com o erro, que a virtude não tolera o vício, que a lei não tolera a licença. É preciso fazer uma eleição.

É necessário julgar desta forma todas as reformas cumpridas em nome do Concílio e a justo título em nome do Concílio, porque o Concílio abriu horizontes até então proibidos pela Igreja:
- admissão dos princípios de um falso humanismo;
- liberdade de cultura, de religião, de consciência;
- respeito, quando não é admissão do erro, ao mesmo título que a verdade.

A suspensão das excomunhões concernentes ao erro e à imoralidade públicas é um estímulo cujas consequências são incalculáveis.

Seria necessário estudar cada reforma em particular para descobrir a aplicação desses falsos princípios no concreto.

Uma das mais graves e mais características é a mudança de atitude da Santa Sé diante da Realeza Social de Nosso Senhor Jesus Cristo. A modificação dos textos litúrgicos da festa de Cristo Rei é significativa. O alento à laicidade da Sociedade civil é uma consequência imediata disso.

Ecône, 20 de junho de 1977
Dom Marcel Lefebvre

domingo, 21 de janeiro de 2018

Da Estudiosidade e o vício oposto: a Curiosidade


Que entendeis por estudiosidade, segunda virtude anexa à temperança, sob a influência da modéstia?
A que preside e modera a afeição ao estudo e ao desejo de saber (CLXVI, 1).

Como se chama o vício oposto?
Curiosidade (CLXVII).

Em que consiste?
No desejo imoderado de saber o que nos não interessa, ou o que nos pode ser prejudicial (CLXVII, 1, 2).

Comete-se este pecado com muita freqüência?
Sim, Senhor; quer na aquisição de toda classe de conhecimentos, quer na daqueles que só podem servir para procurar prazeres para os sentidos e fomentar as paixões (Ibid).

Logo, é pecado de curiosidade a afeição desmedida à leitura, sobretudo à leitura de novelas e romances, o assistir a festas profanas e espetáculos como teatros, cinematógrafos e outros do mesmo gênero?
Sim, Senhor; e costuma ser também pecado de luxúria e sensualidade. 

R. P. Tomás Pègues, O. P. - A Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino em forma de Catecismo;; Segunda Parte - O Homem procede de Deus e para Deus deve voltar; Segunda Secção: Estudo concreto dos meios que o homem deve empregar para voltar para Deus.; LV - Da Estudiosidade. - O vício oposto: a curiosidade

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

"Não levantarei a mão contra o meu senhor, pois ele é o ungido do Senhor"


2ª Semana do Tempo Comum - Sexta-feira
Primeira Leitura (1Sm 24,3-21)
Responsório (Sl 56(57),2-4.6.11(R/.2a))
Evangelho (Mc 3,13-19)

Vivemos em nosso país uma época de colonização ideológica onde, após o anos de fuzarca dentro da Igreja promovidas por parte da esquerda, a direita, filial do partido republicano, entra de vez na guerra cultural, ludibriando e iludindo os católicos. Movido por tais artimanhas ideológicas, não é raro vermos uma atitude de rebeldia e desrespeito para com a autoridade eclesiástica; seja paroquial, diocesana, ou mesmo o próprio Papa. Por mais que se divirja do pensamento do Sumo Pontífice, ou que este, hipoteticamente, venha a ser o pior dos pecadores, ainda assim, por conta da unção e do ministério que recebeu, lhe é devido o respeito e a reverência por parte de todo o fiel. A liturgia de hoje muito nos instrui sobre o respeito devido a autoridade religiosa, Saul inicia uma infundada perseguição contra Davi, a este, é dada uma oportunidade de ouro: matar Saul e finalmente assumir o trono de Israel, mas o que faz Davi?

<Mas logo o seu coração se encheu de remorsos por ter feito aquilo, e disse aos seus homens: “Que o Senhor me livre de fazer uma coisa dessas ao ungido do Senhor, levantando a minha mão contra ele, o ungido do Senhor”. Com essas palavras, Davi conteve os seus homens, e não permitiu que se lançassem sobre Saul. Este deixou a gruta e seguiu seu caminho. (1Sm 24, 6-8)>

Pensemos nisto, e moderemos nossas palavras com respeito aqueles aos quais o Senhor ungiu.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

RPG Existencial


“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.” 

Com estes versos o gênio português Fernando Pessoa inicia seu “Poema em Linha Reta, talvez hoje, em tempos de Facebook, mais pertinente que outrora. Creio eu que o leitor ao rondar pela timeline de seus “amigos” virtuais deve ter tido a mesma sensação; uma multidão de personagens todos perfeitos, bonitos, ricos e inteligentes, semi-deuses encarnados; é aquilo que meu amigo (sem as aspas) Augusto costuma chamar de Pose, ou se preferirem, a velha hipocrisia burguesa. Todavia, há um fenômeno ainda mais curioso e ridículo que a própria pose, é aquilo que chamo em termos lúdicos de rpg existencial. Em que consiste? Se nosso “poser” está fingindo para enganar os coleguinhas, o praticante do rpg existencial toma seu personagem como fosse real.

Neste jogo existencial, cuja a matéria é a própria vida, o Facebook figura como o principal tabuleiro, é onde nosso jogador expõe suas habilidades e trava suas batalhas virtuais, normalmente sob a forma de “debates” e “shiposts”; a maioria das fichas, porém, é um tanto quanto clichê; temos nosso gênio incompreendido, um intelectual de alto gabarito a analisar e palpitar sobre tudo e todos; há os generais de sofá, novos Mussolini, líderes natos, dotados de planos infalíveis para salvar a nação, quiçá o mundo, pena que há cacique demais para pouco índio, e ninguém dá a mínima aos planos infalíveis de nossos amiguinhos virtuais; poderia citar também a pouco numerosa, porém muito barulhenta, burocracia inquisitorial do Santo Oficio .com, leigos piedosíssimos (ao menos nas fotos cosplay católico vintage) a julgar cada passo da hierarquia eclesial, desde a cor dos sapatos do Papa a validade das canonizações, sempre com um ar de piedosa indignação; e não poderia encerrar esta pequena lista, sem citar nossos economistas de kitnet, especialistas em finanças governamentais, pobres por pura e simplesmente culpa do Estado. Mas, não se engane o leitor diante de aparentes diferenças, nossos personagens possuem muito em comum, levam-se demasiado a sério, tanto que o destino do mundo repousa sobre suas frágeis e delicadas mãos.

Que o leitor, porém, não se precipite, nem sempre o jogo está associado à fakes e pseudônimos (embora este que vos escreve use de tal artificio, ainda assim não me afiguro entre participantes do “game”), mas sobretudo a uma personalidade pré-fabricada com base em estereótipos grupais, grupais, pois, tanto mais divertido é jogo, quanto maior o número de seus competidores; e qual será o prêmio de tal empreitada? Vaidade. 

***
“Arre, estou farto de semideuses! 
Onde é que há gente no mundo?” 


Gente comum, com sua vidinha comum, seu emprego comum, sua comum insignificância diante do curso da história, do governo dos povos e a economia das nações; gente comum, sem ideias geniais ou planos infalíveis; não a gangue da gravata borboleta, não bonde de alta cultura, mas a galera de bermuna e havianas, gente capaz de rir de si mesmo, gente que passa as noites brincando com o gato ao invés de forjar alianças políticas continentais, gente que tem nas mãos não o destino do universo, mas a própria alma, alma esta mais preciosa e valiosa que míseros likes, ou a própria história das nações.

***

Poema em linha reta


Fernando Pessoa

(Álvaro de Campos)
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

"Levantai, ó Senhor!"


2ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (1Sm 17,32-33.37.40-51)
Responsório (Sl 143(144),1-2.9-10(R/.1a))
Evangelho (Mc 3,1-6)

Nestes últimos dias a liturgia nos convida a meditar a partir do primeiro livro de Samuel; hoje contemplamos o famoso episódio em que o pequeno Davi vence o gigante Golias. Não foi por sua força ou astúcia, pela espada ou pela lança, que Davi conseguiu a vitória, mas pela graça do Senhor, ele mesmo nos disse: <E toda esta multidão de homens conhecerá que não é pela espada nem pela lança que o Senhor concede a vitória; porque o Senhor é o árbitro da guerra, e ele vos entregará em nossas mãos. (1Sm 17, 47)>. Ainda hoje, tantos gigantes oprimem os filhos de Deus, na Índia, pagãos adoradores de demônios tem usado da máquina estatal para oprimir a Igreja; na Venezuela a besta comunista liderada por Maduro tem atacado padres e bispos; diante destes tiranos e seus portentosos exércitos, os cristãos estão acuados, como o pequenino Davi diante de Golias, mas se confiarmos na graça de Deus, a Igreja há de ser vitoriosa.

Rezemos:
Esmagai, Senhor, sob os nossos pés Satanás e toda a sua perversa influencia. Humilhai agora, como em todos os tempos, os inimigos da Vossa Igreja. Revelai o orgulho deles. Mostrai-lhes sua fraqueza. Arruinai as maldosas intrigas que eles planejam contra nós. Levantai, ó Senhor e fazei com que vossos inimigos se dispersem e todos os que odeiam Vosso santo nome sejam postos em fuga. Amém.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Distinções da Gravidade dos Pecados e seus correspondentes Castigos

Têm os mesmos caracteres de gravidade todos os pecados cometidos pelos homens?
Não, Senhor.

A que se atende para determinar a gravidade de um pecado?
A categoria e necessidade do bem de que priva, e à maior ou menor liberdade com que se executa (LXXIII, 1-8).

Merecem castigo todos os atos pecaminosos?
Sim, Senhor (LXXXVII, 1).

Por que?
Porque, todo pecado é usurpação do direito alheio, e o castigo é à maneira de restituição do que injustamente se tomou (Ibid).

Logo, o castigo do pecado é ato de rigorosa Justiça?
Sim, Senhor.

Quem pode impor a pena devida pelo pecado?
Os encarregados de velar pela ordem e pela justiça, contra os atentados do pecador (Ibid).

Quais são?
Primeiramente Deus, depois, a autoridade humana, nos assuntos de sua competência; e, por último, o mesmo pecador (Ibid).

Como pode o pecador castigar o seu próprio pecado?
De duas maneiras; por meio da penitência e do remorso da consciência (Ibid).

Como intervém a autoridade humana?
Impondo castigos (Ibid).

Como pode castigar Deus?
De duas maneiras, mediata ou imediatamente (Ibid).

Quando dizemos que castiga mediatamente?
Quando o faz mediante a autoridade humana ou a consciência do pecador (Ibid).

Por que chamais castigos divinos aos impostos pela autoridade humana e pela consciência do pecador?
Porque a autoridade humana e a própria consciência participam do poder de Deus, de quem são de algum modo instrumentos (Ibid).

Emprega Deus algum outro meio para castigar o pecado?
Sim, Senhor; utiliza as próprias criaturas, que a Ele pertencem e cuja subordinação e harmonia o pecador procura perturbar (Ibid).

Podemos neste sentido dizer que há uma justiça imanente?
Sim, Senhor; e em virtude dela as mesmas coisas inanimadas servem como de instrumento à Justiça divina para castigar o pecado, fazendo padecer o pecador as conseqüências de sua culpa (Ibid).

Que entendeis por intervenção imediata de Deus no castigo do pecado?
Uma intervenção particular e sobrenatural, em virtude da qual Ele mesmo castiga os atentados do pecador contra a ordem sobrenatural por Ele estabelecida (LXXXVII, 3, 5).

Em que se diferencia o castigo imposto imediatamente por Deus, na ordem sobrenatural, dos impostos pelas criaturas?
Em que Deus castiga alguns pecados com penas que durarão eternamente (LXXXVII, 3).

R. P. Tomás Pègues, O. P. - A Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino em forma de Catecismo; Segunda Parte - O Homem procede de Deus e para Deus deve voltar; Secção Primeira: Noções gerais acerca do modo como o homem tem de voltar para Deus; XIII Distinções da Gravidade dos Pecados e seus correspondentes Castigos.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Judaico-Cristão?


O uso do termo "moral judaico-cristã" é errado por três motivos:

1. MOTIVO TEOLÓGICO: Jesus Cristo cumpriu a antiga lei dos judeus, e sendo assim a velha aliança caducou para dar lugar a nova aliança, como diz São Paulo:

Hebreus 8:13: "Assim sendo, ao falar de nova aliança, tornou velha a primeira. Ora, o que se torna antigo e envelhece está prestes a desaparecer.”

Hebreus 8:8-9: "... realizarei com a casa de Israel e com a casa de Judá uma nova aliança. Não como a aliança que fiz com os pais deles..."

A nova aliança é com a Israel eterna [Pátria Celeste], da qual a antiga Israel, temporal e terrena, é apenas uma pré-figura. O Deus da antiga Israel era Deus-Pai, porque assim Ele se quis revelar; o Deus da nova Israel é também Deus-Filho e Deus-Espírito Santo. Os judeus que depois de Cristo continuam obstinadamente a praticar a antiga religião caduca rejeitam Deus-Filho, e todo aquele que nega o Deus-Filho por consequência nega o Deus-Pai, pois o Filho é consubstancial ao Pai.

1 João 2:22: “Quem é o mentiroso, senão o que nega que Jesus é o Cristo? Eis o Anticristo, o que nega o Pai e o Filho.”

A religião judaica, que nega que Jesus é o Cristo, é a religião do Anticristo. Então temos um problema teológico em associar a moral católica a essa tal moral "judaico-cristã", pois o antigo judaísmo caducou e o novo judaísmo é anti-cristão.

2. MOTIVO SEMÂNTICO: se tudo o que era moralmente bom da antiga religião dos hebreus foi incorporado ou absorvido pelo catolicismo (e não poderia ser diferente pois o catolicismo é a continuação natural do antigo judaísmo), então semanticamente também temos um problema, visto que moral "judaico-cristã" seria uma redundância. Tudo o que ensinaram os patriarcas e profetas se cumpriu em Nosso Senhor Jesus Cristo; basta então dizer moral cristã, ou melhor ainda, moral católica.

3. MOTIVO IDEOLÓGICO: Não é difícil perceber que esse termo é bastante usado pelas seitas protestantes judaizantes e por "católicos" neoconservadores que apoiam a ideologia sionista. No caso dos protestantes se pode esperar tudo, pois teologicamente são um saco de gatos. No caso de neoconservadores, deixaram de ser católicos quando trocaram o Catecismo pela mídia neocon norte-americana, o Papa pelo Benjamin Netanyahu e a Igreja pelo estado de Israel.

#Marcos Vinicius

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Nossa Senhora e a Conversão dos Judeus

Afonso Ratisbonne pertencia a uma rica família israelita de grande projeção social e muito estimada na cidade francesa de Estrasburgo. Jovem e boêmio, não tinha crença nenhuma e só pensava em festas e prazeres.

Após longa viagem ao Oriente, movido pela curiosidade de conhecer a ‘Cidade Eterna’, resolveu passar alguns dias em Roma. Quando desceu o Capitólio, seu ódio contra os cristãos foi avivado ao presenciar a miséria e a degradação dos judeus do ‘ghetto’ romano.

Tendo já percorrido todos os pontos históricos e artísticos da bela capital italiana, resolveu certo dia visitar um amigo protestante, que há muito tempo não via. Ao entrar, porém, em sua residência, o empregado equivocou-se e levou-o à presença do irmão desse amigo, o barão de Bussières, fervoroso católico, há pouco convertido do protestantismo.

Após alguns minutos de conversa amigável, travou se entre ambos forte discussão sobre religião e subitamente o barão teve uma ideia: lançou lhe ao pescoço uma medalha milagrosa, e, apesar dos protestos de Ratisbonne, disse-lhe que era apenas para testar suas teorias antirreligiosas. Afonso por educação, aceitou o presente e concordou ainda em copiar a famosa oração à Virgem, o ‘Lembrai-vos’.

No dia seguinte, Ratisbonne encontrou-se por acaso com o Barão em frente a igreja de Santo André e, para fazer-lhe companhia, penetrou no templo. Ao cabo de alguns minutos, cansado de esperar pelo amigo que se dirigia à sacristia, o judeu correu a igreja como os olhos para ver se encontrava alguma obra de arte, mas, de repente, uma visão deslumbrante prendeu-lhe a atenção.

Uma senhora de porte majestoso, adornada de roupas alvíssimas e com um manto azul sobre os ombros, mais luminosa do que o sol e olhando-o com inefável doçura, parecia ter os braços abertos inclinados para ele. Sem saber como, o ateu ajoelhou-se junto à balaustrada da capela. Procurou erguer os olhos, mas a Virgem da Medalha levantou por duas vezes a sua mão e colocou-a sobre a cabeça de Afonso, obrigando-o a baixa-la. Nesse ínterim, o Barão de Bussiéres, apreensivo por ter feito seu companheiro esperar por muito tempo, procurou-o pela igreja e viu Ratisbonne de joelhos e imóvel. Impressionado, olhou-o de perto e percebeu que seu rosto estava pálido e banhado em lágrimas. O barão chamou-o e Afonso abraçou-o soluçando e pediu para falar com um sacerdote.

Após alguns dias de instrução religiosa, Afonso Ratisbonne foi batizado solenemente e, quando o padre lhe perguntou o nome, respondeu humildemente: - Maria.

Uma senhora de porte majestoso, adornada de roupas alvíssimas e com um manto azul sobre os ombros, mais luminosa do que o sol e olhando-o com inefável doçura, parecia ter os braços abertos inclinados para ele.

Este fato ocorrido em 1842 não permaneceu isolado, pois devido a conversão de seu irmão Afonso o padre Teodoro Ratisbonne, que há muito pertencia ao redil de cristo, teve a ideia de fundar uma congregação religiosa destinada especialmente a trabalhar pela conversão do povo de Israel.

Unindo seus esforços nesta instituição missionária e movidos pelo mútuo e supremo ideal de salvar as almas, os dois irmãos ficaram imaginando qual o nome que dariam à sua ordem religiosa, fundada sob a inspiração de Maria Santíssima. Debalde procurava o padre Teodoro imaginar um novo título para a Rainha do Céu, quando certo dia, após celebrar a santa missa, ao abrir um livrinho para rezar a sua ‘ação de graças’, a primeira palavra que viu foi: SION (Sião). Esse nome essencialmente bíblico harmonizava-se tão bem com a obra iniciada pelos irmãos Ratisbonne, que logo foi adotado, criando-se assim para a nova congregação o título de Nossa Senhora do Sion. [1]

Pode-se adivinhar a impressão profunda que causou no mundo católico, a repentina conversão deste jovem judeu. Tanto que a Igreja não tardou em declarar, após pesquisa canônica exigente, que a conversão de Afonso foi um milagre obtido pela intercessão da Bem Aventurada Virgem Maria. [2]

"Falai, Senhor, que vosso servo escuta!"


1ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (1Sm 3,1-10.19-20)
Responsório (Sl 39(40),2.5.7-10(R/.8a.9a))
Evangelho (Mc 1,29-39)

Na primeira leitura, Deus chama a Samuel,e Heli o ensina-o a responder: <Falai, Senhor, que vosso servo escuta! ( 1Sm 3, 9c)>. Está deve ser nossa atitude diante do Senhor, de escuta e obediência. Porém, são raras as ocasiões em que o Senhor fala-nos diretamente, em alta voz, como fora com Samuel; no mais das vezes Ele nos fala de forma discreta, através dos acontecimentos de nossa vida, através da boca de Seus servos e ministros, mas sobretudo durante a oração e a meditação das Sagradas Escrituras. No Santo Evangelho vimos que: <De manhã, tendo-se levantado muito antes do amanhecer, ele saiu e foi para um lugar deserto, e ali se pôs em oração. (Mc 1, 35)>; assim fez nosso Mestre, desta forma devemos imitá-lo, ao acordarmos, recolhermo-nos na solidão, orar, meditar em Sua palavra, inclinar nossos ouvidos para ouvir a Sua voz.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Santos Reis: Sabedoria e Humildade


Solenidade da Epifania do Senhor - Domingo 
Primeira Leitura (Is 60,1-6) 
Responsório (Sl 71) 
Segunda Leitura (Ef 3,2-3a.5-6) 
Evangelho (Mt 2,1-12)

Os sábios reis do Oriente deixaram seus palácios suntuosos, a erudição de sua corte, e foram em caminho, montados em camelos por dias e dias seguindo a estrela. Além de que, foram buscar instrução com os sábios do antigo Israel a respeito das profecias, e então, continuaram sua jornada, parando, por fim, para adorar o Deus Menino em um estábulo.

O que isto nos ensina? Sobretudo que a base da verdadeira sabedoria é a humildade, não a pose. Fosse hoje, nós faríamos o mesmo? Sairíamos de nosso conforto para colocarmo-nos em caminho? Teríamos nós a humildade de desconfiar de nossa sabedoria e buscar a instrução no templo, nas escrituras? Estamos dispostos a acolher a manifestação de Deus nas mais pequeninas realidades?

Eis a diferença entre a verdadeira sabedoria e a erudição demoníaca; a primeira nos leva a Deus, a outra, faz com fechamo-nos em nós mesmos, colocando-nos no lugar de Deus. Pensemos, por exemplo, em outro mago relatado na escritura: Simão, Simão Mago um ''sábio'' a serviço do demônio.

Sem dúvida a história dos três reis não acabou naquele estábulo, depois de adorar o menino Deus, quanto não deve te-los iluminado a Divina Luz? Voltando ao Oriente, talvez teriam eles mandado derrubar antigos ídolos, talvez vendido seus bens e dado aos pobres; quem sabe queimado alguns antigos grimórios blasfemos. Bom, o resto da história dos magos permanece misteriosa ao nossos olhos, ao menos por hora; mas resta-nos a nossa história, como o encontro com o Menino Deus mudou e tem mudado a nossa vida? Eis uma interessante narrativa da qual somos de alguma forma co-autores; que façamos o que estiver ao nosso alcance para que esta não tenha um final trágico: a condenação.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

''Não amemos só com palavras''


Sexta-feira antes da Epifania
Primeira Leitura (1Jo 3,11-21)
Responsório (Sl 99(100), 2-5 (R/2a)) 
Evangelho (Jo 1,43-51) 

Neste tempo natalício, na proximidade da solenidade da Epifania, estamos lendo a primeira carta do Apóstolo São João; o trecho que hoje lemos é belíssimo e nos traz importantes lições. No início, São João traz-nos a memória o episódio de Caim e Abel, por inveja de suas obras, Caim assassinou Abel. E nós, como lidamos com a tentação da inveja? Sabemos alegramo-nos com os sucessos, com as obras e conquistas de nossos irmãos, ou só temos palavras ásperas, duras, uma crítica amarga e invejosa?

Continua o Apóstolo: <Nisto conhecemos o amor: Jesus deu a sua vida por nós. Portanto, também nós devemos dar a vida pelos irmãos. (1Jo 3, 16) >; o cristão não vive para si, mas para o próximo, por amor a seu Senhor, e deve manifestar isso através de obras concretas: <Filhinhos, não amemos só com palavras e de boca, mas com ações e de verdade! (1Jo 3, 18)>; pois <Se alguém possui riquezas neste mundo e vê o seu irmão passar necessidade, mas, diante dele fecha o seu coração, como pode o amor de Deus permanecer nele? (1Jo 3, 17)>. A necessidade do irmão nem sempre se resume ao bem-estar material, pensemos por exemplo quantos não carecem da sólida e verdadeira doutrina, pensemos concretamente no estado da catequese em nossa paróquia, do coral em nossas igrejas, não podemos nós, ali, manifestar nosso amor e serviço pelo próximo, por amor a Deus?

<Filhinhos, não amemos só com palavras e de boca, mas com ações e de verdade! (1Jo 2, 16)>

Apóstolo São João, rogai por nós!