terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Ensaio de síntese dos erros em curso no interior da Igreja desde o Concílio Vaticano II

Dom Lefebrve

Depois de doze anos de período pós-conciliar, é mais fácil de realizar um ensaio de síntese dos graves erros que já no Concílio e desde o Concílio infestam a Igreja e condicionam a atitude daqueles que têm as maiores responsabilidades na Igreja, a tal ponto que para bom número deles uma pessoa pode legitimamente se perguntar se ainda tem a fé católica e, em consequência, se ainda tem sua jurisdição.

Me parece que se pode, racional e objetivamente, pensar que os autores dessa mutação aparecida na Igreja com o Concílio Vaticano II buscaram com vigor esta mudança tendo como objetivo um novo humanismo, como já o queriam os pelagianos, como o fizeram os autores do Renascimento.

Essas pessoas, já antes do Concílio, Cardeais Montini, Bea, Frings, Liénart, etc., consideraram que se devia buscar uma nova via para universalizar a Igreja, para fazê-la aceitável ao mundo moderno tal como é com suas falsas filosofias, suas falsas religiões, seus falsos princípios políticos e sociais.

Preferiram deixar na sombra a via da Fé, demasiada intolerante para o erro e para o vício, demasiada vantajosa para a Igreja Católica Romana e, em consequência, demasiada exigente, que obriga a um combate e a uma vigilância contínuas ao colocar a Igreja e o “mundo” num estado de perpétua hostilidade.

Essa nova via não poderia ser senão um renascimento de um humanismo acolhedor para tudo o que é ou parece humanamente bom e aceitável no erro e no vício. Sob essa ótica, se poderia realizar uma união universal de todas as culturas e as ideologias sob a égide da Igreja.

Imagina-se imediatamente o que representa como distanciamento da Fé tal desígnio: se tem que esfumaçar o pecado original, abandonar a ideia de que unicamente a Igreja Católica é a Verdade e a possui, que Ela é a única via de salvação; que nenhum ato é meritório sem a união com Nosso Senhor.

A Verdade não será mais o critério da Unidade senão um “fundo comum de sentimento religioso”, de pacifismo, de liberdade, de reconhecimento dos direitos do homem...

Não saberia insistir mais para mostrar como este novo humanismo não é senão o término daquele do Renascimento; depois de vários séculos de naturalismo e, especialmente desde o século XVIII, os filósofos subjetivistas e ateus, ao rejeitar o pecado original e em consequência a necessidade da Redenção e da Encarnação, negaram a Divindade de Nosso Senhor, juntando-se a muitas seitas protestantes.

O liberalismo católico ou falso católico agiu como um “cavalo de Tróia” para que esses falsos princípios penetrassem no interior da Igreja. Quiseram “desposar a Igreja com a Revolução”. Esses esforços abriram caminho ajudados pelas sociedades secretas e pelos governos laicos e democráticos; os membros mais eminentes da Igreja foram contaminados: teólogos, Bispos, Cardeais, seminários, universidades foram atraídos pouco a pouco por essas ideias universalistas, opostas fundamentalmente à fé católica.

Para a realização desse universalismo, é preciso suprimir o que é específico da Fé católica, que se opõe necessariamente a esse “fundo comum” que permite a união universal.

O meio preconizado é “o ecumenismo”.

O ecumenismo permitirá a todos os grupos humanos importantes, representativos de uma religião ou ideologia, entrar em contato com a Igreja e manifestar à Igreja as condições que estimam que devem exigir da Igreja para uma união universal.

Os maiores obstáculos são aqueles que afirmam e expressam a Verdade da Igreja, sua unidade, a absoluta necessidade da unidade na Fé católica; que a Igreja é o único caminho de salvação; que possui o único Sacerdócio de Cristo; que proclama a necessária Realeza social de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Em consequência:
- é necessário modificar a Liturgia;
- é necessário modificar o Sacerdócio e a Hierarquia;
- é necessário modificar o ensino do catecismo, a concepção da Fé católica; daí a mudança do magistério nas universidades, seminários, escolas, etc.;
- é necessário modificar a Bíblia e constituir uma Bíblia “ecumênica”;
- é necessário suprimir os Estados católicos e aceitar o “direito comum”;
- é necessário atenuar o rigor moral substituindo a lei moral pela consciência.

O princípio que ajudará a reduzir os obstáculos será o da filosofia subjetiva, porque a filosofia do ser, a filosofia escolástica, obriga a inteligência a se submeter a uma realidade externa, a Deus, a suas leis, como a fé católica exige a adesão da inteligência às verdades reveladas, ao Credo, ao Decálogo, às instituições divinas.

A filosofia subjetiva deixa a Verdade e a moral à criatividade e à iniciativa pessoal de cada indivíduo. Ninguém pode ser obrigado a aderir à Verdade e a seguir sua lei.

Esta concepção da Verdade e da lei moral volta às realidades relativas às pessoas, às sociedades, às épocas. Ela está na base dos Direitos do homem. Pode-se advertir esta concepção nos documentos oficiais da Igreja e dos Episcopados.

A concepção desta Fé subjetiva, conforme a doutrina modernista, se encontra na maioria dos novos catecismos, nos documentos de catequese, na nova eclesiologia: Igreja viva submissa ao Espírito que a adapta às condições modernas. O Pentecostalismo é uma manifestação dela.

Taizé compartilha esta forma de conceber a religião.

O Espírito se manifesta em cada indivíduo de uma forma diferente.

As reformas que foram impostas à Igreja desde o Concílio foram realizadas com este novo espírito: a investigação, a criatividade, o pluralismo, a diversidade; espírito que se opõe radicalmente à verdadeira concepção da Verdade e da Fé, de tal forma, que unicamente esta concepção será combatida e considerada como inadmissível.

Porque é evidente que a Verdade é intolerante com o erro, que a virtude não tolera o vício, que a lei não tolera a licença. É preciso fazer uma eleição.

É necessário julgar desta forma todas as reformas cumpridas em nome do Concílio e a justo título em nome do Concílio, porque o Concílio abriu horizontes até então proibidos pela Igreja:
- admissão dos princípios de um falso humanismo;
- liberdade de cultura, de religião, de consciência;
- respeito, quando não é admissão do erro, ao mesmo título que a verdade.

A suspensão das excomunhões concernentes ao erro e à imoralidade públicas é um estímulo cujas consequências são incalculáveis.

Seria necessário estudar cada reforma em particular para descobrir a aplicação desses falsos princípios no concreto.

Uma das mais graves e mais características é a mudança de atitude da Santa Sé diante da Realeza Social de Nosso Senhor Jesus Cristo. A modificação dos textos litúrgicos da festa de Cristo Rei é significativa. O alento à laicidade da Sociedade civil é uma consequência imediata disso.

Ecône, 20 de junho de 1977
Dom Marcel Lefebvre

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ATENÇÃO: Valorizo em demasia o aspecto artístico do texto, recorrendo com frequência a hipérboles e metáforas. Cuidado com interpretações literalistas, não me vá fazer nenhuma besteira!