quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

RPG Existencial


“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.” 

Com estes versos o gênio português Fernando Pessoa inicia seu “Poema em Linha Reta, talvez hoje, em tempos de Facebook, mais pertinente que outrora. Creio eu que o leitor ao rondar pela timeline de seus “amigos” virtuais deve ter tido a mesma sensação; uma multidão de personagens todos perfeitos, bonitos, ricos e inteligentes, semi-deuses encarnados; é aquilo que meu amigo (sem as aspas) Augusto costuma chamar de Pose, ou se preferirem, a velha hipocrisia burguesa. Todavia, há um fenômeno ainda mais curioso e ridículo que a própria pose, é aquilo que chamo em termos lúdicos de rpg existencial. Em que consiste? Se nosso “poser” está fingindo para enganar os coleguinhas, o praticante do rpg existencial toma seu personagem como fosse real.

Neste jogo existencial, cuja a matéria é a própria vida, o Facebook figura como o principal tabuleiro, é onde nosso jogador expõe suas habilidades e trava suas batalhas virtuais, normalmente sob a forma de “debates” e “shiposts”; a maioria das fichas, porém, é um tanto quanto clichê; temos nosso gênio incompreendido, um intelectual de alto gabarito a analisar e palpitar sobre tudo e todos; há os generais de sofá, novos Mussolini, líderes natos, dotados de planos infalíveis para salvar a nação, quiçá o mundo, pena que há cacique demais para pouco índio, e ninguém dá a mínima aos planos infalíveis de nossos amiguinhos virtuais; poderia citar também a pouco numerosa, porém muito barulhenta, burocracia inquisitorial do Santo Oficio .com, leigos piedosíssimos (ao menos nas fotos cosplay católico vintage) a julgar cada passo da hierarquia eclesial, desde a cor dos sapatos do Papa a validade das canonizações, sempre com um ar de piedosa indignação; e não poderia encerrar esta pequena lista, sem citar nossos economistas de kitnet, especialistas em finanças governamentais, pobres por pura e simplesmente culpa do Estado. Mas, não se engane o leitor diante de aparentes diferenças, nossos personagens possuem muito em comum, levam-se demasiado a sério, tanto que o destino do mundo repousa sobre suas frágeis e delicadas mãos.

Que o leitor, porém, não se precipite, nem sempre o jogo está associado à fakes e pseudônimos (embora este que vos escreve use de tal artificio, ainda assim não me afiguro entre participantes do “game”), mas sobretudo a uma personalidade pré-fabricada com base em estereótipos grupais, grupais, pois, tanto mais divertido é jogo, quanto maior o número de seus competidores; e qual será o prêmio de tal empreitada? Vaidade. 

***
“Arre, estou farto de semideuses! 
Onde é que há gente no mundo?” 


Gente comum, com sua vidinha comum, seu emprego comum, sua comum insignificância diante do curso da história, do governo dos povos e a economia das nações; gente comum, sem ideias geniais ou planos infalíveis; não a gangue da gravata borboleta, não bonde de alta cultura, mas a galera de bermuna e havianas, gente capaz de rir de si mesmo, gente que passa as noites brincando com o gato ao invés de forjar alianças políticas continentais, gente que tem nas mãos não o destino do universo, mas a própria alma, alma esta mais preciosa e valiosa que míseros likes, ou a própria história das nações.

***

Poema em linha reta


Fernando Pessoa

(Álvaro de Campos)
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

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