domingo, 11 de março de 2018

Um Cântico para Leibowitz: Uma Igreja Pós-Guerra Nuclear

Sabemos pela Escritura que Deus, justo juiz, há de, ainda nesta terra, castigar aquelas nações que se apartam de sua Lei. Pensemos no Dilúvio, em Babel, na destruição de Sodoma e Gomorra, bem como no cativeiro babilônico do antigo Israel; pensemos na civilização Asteca que por sua iniquidade foi entregue a espada de Hernán Cortés. De igual modo perecerá nossa civilização iníqua, conforme já profetizado em Fátima e La Sallete

É evidente a necessidade do castigo, porém se corre o risco da ilusão, quem sabe não estamos alimentando expectativas irreais pensando, talvez, que tudo se resolverá do dia para noite e a Igreja logo após um breve tempo de caos, erga-se vitoriosa e resplandecente. Também a Igreja há de sofrer, como sofreu com as invasões bárbaras após a queda do Império Romano, antes do alvorecer da Idade Média. 

Afim de auxiliar o irmão a preparar-se de alguma forma para este tempo vindouro, adequando o imaginário a este futuro terrível, recorro a ficção de Walter M. Miller. Júnior; em "Um Cântico para Leibowitz" o autor se tanta imaginar a sobrevivência da Igreja em um mundo pós-guerra nuclear: 
Dizia-se que Deus, para provar a humanidade que se tinha enchido de orgulho como no tempo de Noé, mandara que os sábios da época, entre os quais o Beato Leibowitz, inventassem grandes máquinas de guerra nunca antes vistas na Terra, providas de tal poder que continham o próprio fogo do Inferno, e que permitira que os magos as colocassem nas mãos dos príncipes dizendo a cada um: "Somente porque os inimigos possuem essas coisas, inventamos essas armas para teu uso, a fim de que saibam que tu também as possuis, e temam atacar. Cuida, meu senhor, de temê-los tanto quanto temem a ti, de modo que nenhum desencadeie essa horrível coisa que construímos".

Mas os príncipes, não fazendo caso do que diziam os sábios, pensaram cada um de si para si: se eu atacar depressa e em segredo, destruirei os outros enquanto dormem e não haverá luta; a Terra será minha.

Essa foi a loucura dos príncipes e seguiu-se o Dilúvio de Fogo.

Dentro de algumas semanas — há quem diga dias — tudo terminou, depois de desencadeado o fogo do Inferno. As cidades ficaram reduzidas a montões de vidro rodeados por vastas extensões de estilhaços de pedras. As nações desapareceram do mundo e a terra cobriu-se de corpos de homens e de bestas de toda espécie, de pássaros e de tudo quanto voa; tudo o que nadava nos rios subiu para a relva ou escondeu-se em tocas; tendo adoecido e perecido, cobriram a terra, mas naqueles lugares em que os demônios do Dilúvio infestavam os campos, os corpos não apodreciam, a não ser quando em contato com a terra fértil. As grandes nuvens da ira engolfaram as florestas e os campos, ressecando as árvores e matando as colheitas. Havia grandes desertos onde já houvera vida e, nesses lugares, onde ainda existiam homens, todos sofreram com o ar envenenado e muitos morreram; e até nas terras não atingidas pelas armas houve muitas mortes causadas pelo veneno do ar.

Em todas as partes do mundo os homens fugiram de um lugar para outro e houve confusão de línguas. Muita ira acendeu-se contra os príncipes e seus servos e contra os magos que tinham inventado as armas. Passaram-se os anos e a Terra não foi purificada. Assim estava bem registrado na Memorabilia.

Da confusão das línguas, da mistura dos remanescentes de muitas nações, do medo, nasceu o ódio. E o ódio disse: "Apedrejemos e estripemos e queimemos os que fizeram isso. Façamos um holocausto dos que deram causa a esse crime, e de seus criados e seus sábios; que pereçam pelo fogo, com suas obras, seus nomes, e até a lembrança deles desapareça. Destruamo-los todos, e ensinemos a nossos filhos que o mundo é novo, de modo que nada saibam do que aconteceu antes. Façamos uma grande simplificação, e então o mundo começará outra vez".

Assim foi que, depois do Dilúvio Nuclear, da peste, da loucura, da confusão das línguas, da fúria, começou a sangria da Simplificação, depois de os remanescentes da humanidade se terem dilacerado uns aos outros, matando os governantes, cientistas, líderes, técnicos, professores e todos aqueles que os chefes das turbas enlouquecidas diziam que mereciam a morte por terem concorrido para fazer da Terra o que ela agora era. Nada fora tão detestável aos olhos dessa população como os homens de saber, a princípio porque estavam a serviço dos príncipes e, depois, porque se recusavam a aderir ao derramamento de sangue e tentavam se opor a ela, qualificando os que a compunham de "simplórios sanguinários".

Alegremente aceitaram o apelido e começaram a gritar: "Simplórios! Sim, sim! Sou um simplório! Você é um simplório? Construiremos uma cidade que se chamará Cidade Simples, porque então todos os espertalhões que causaram tudo isso já estarão mortos! Simplórios! Vamos! Mostremos a eles quem somos! Alguém aqui não é simplório? Que morra!"

Para escapar da fúria dos bandos, os poucos homens instruídos que sobreviveram refugiaram-se nos santuários que encontraram em seus caminhos. A Santa Igreja, ao recebê-los, vestiu-os de monges e procurou escondê-los nos mosteiros e conventos que tinham escapado da destruição e podiam ser habitados, pois os religiosos eram menos desprezados pela multidão, exceto quando abertamente a desafiavam e aceitavam o martírio. Algumas vezes tais santuários eram respeitados, outras, não. Os mosteiros eram invadidos, os registros e os livros sagrados queimados, os refugiados aprisionados e sumariamente enforcados ou mortos na fogueira. A Simplificação cessara de obedecer a qualquer plano ou propósito logo depois de ter começado, e tornou-se um frenesi insano de assassinato e destruição das massas, como só ocorre quando já não há mais vestígio de ordem social. A loucura foi transmitida às crianças que tinham aprendido não só a esquecer, mas a odiar, e vagas de fúria reapareceram esporadicamente até na quarta geração depois do Dilúvio. Então, não mais se destruíam os sábios, que já não existiam, mas os simples alfabetizados.

Isaac Edward Leibowitz, depois de procurar em vão sua mulher, fugira para o convento dos cistercienses, onde ficou escondido durante os anos que se seguiram ao Dilúvio. Passados seis anos, mais uma vez saíra à procura de Emily ou de seu túmulo, no distante sudoeste. Lá, afinal, convenceu-se de que ela morrera, pois a morte triunfara totalmente naquele lugar. Ali, no deserto, tranquilamente, fez um juramento. Depois regressou aos cistercienses, tomou o hábito deles e, passados alguns anos, foi ordenado sacerdote. Reuniu alguns companheiros em volta de si e propôs-lhes seus planos. Passados mais alguns anos, esses planos chegaram a "Roma", que não mais era Roma (a cidade não mais existia), tendo-se mudado para outros lugares muitas e muitas vezes, em menos de duas décadas, depois de ter ficado no mesmo lugar durante dois milênios. Doze anos depois de formular seus planos, o Padre Isaac Edward Leibowitz recebera da Santa Sé a permissão para fundar uma nova comunidade de religiosos a ser conhecida pelo nome de Alberto Magno, professor de Santo Tomás e patrono dos homens de ciência. A finalidade da nova ordem, se bem que não anunciada e, a princípio, apenas vagamente definida, seria conservar a história da humanidade para os descendentes dos filhos daqueles mesmos simplórios que a queriam destruir. Seu hábito primitivo consistiu em sacos esfarrapados e um alforje — o uniforme dos simplórios. Seus membros eram "coletores de livros" ou "memorizadores", conforme as tarefas que lhes eram atribuídas. Os coletores arrebanhavam livros, fugiam para o deserto do sudoeste e os enterravam em pequenos barris. Os memorizadores decoravam volumes inteiros de história, escritura sagrada, literatura e ciência, caso um dos coletores fosse preso, torturado e forçado a revelar a localização dos barris. Enquanto isso, outros membros da ordem encontraram uma nascente de água pura a três dias de viagem do esconderijo dos livros e começaram a construir um mosteiro. O projeto, destinado a salvar um pequeno remanescente da cultura da humanidade que a queria destruir, começava então a se delinear.

Leibowitz, enquanto desempenhava suas funções de coletor de livros, foi aprisionado pelos simplórios. Um técnico, que aderira à multidão e a quem o padre logo perdoou, identificou-o não só como homem de ciência, mas como especialista na fabricação de armas. Coberto com um saco, foi martirizado por estrangulamento com uma corda cujo nó corria lentamente e, ao mesmo tempo, queimado vivo — o que deu lugar a uma discussão entre a turba sobre a melhor maneira de executá-lo.

Os memorizadores eram poucos e suas memórias, limitadas.

Alguns dos barris de livros foram encontrados e queimados, como também o foram vários outros monges coletores. O próprio mosteiro foi atacado três vezes antes que a loucura esmorecesse.

De todo o vasto acervo de conhecimentos humanos, somente uns poucos barris com originais e uma pobre coleção de textos ditados pelos memorizadores e escritos à mão sobraram na biblioteca da ordem, quando a fúria passou.

Agora, depois de seis séculos de trevas, os monges ainda conservavam essa Memorabilia que estudavam, copiavam e recopiavam, aguardando pacientemente. No princípio, ainda no tempo de Leibowitz, esperara-se — e mesmo antecipara-se como provável — que a quarta ou quinta geração quisesse reaver a sua herança. Mas os monges daqueles dias não tinham contado com a habilidade humana de construir uma nova herança cultural no espaço de duas gerações, quando as que passaram foram totalmente destruídas, e formá-la por meio de legisladores e profetas, gênios e maníacos; através de um Moisés ou de um Hitler, ou de um ancestral ignorante e tirânico, pode-se adquirir uma herança cultural da noite para o dia, e muitas foram assim adquiridas. Mas a nova "cultura" era uma herança das trevas e nela "simplório" tinha o mesmo significado que "cidadão" ou "escravo". Os monges aguardavam. Não importava que os conhecimentos que tinham conservado fossem inúteis e que nem eles próprios os compreendessem mais, como não os compreenderiam os jovens iletrados e selvagens que habitavam os montes; esses conhecimentos já nada significavam. No entanto, eles tinham a estrutura simbólica característica, e essa, ao menos, podia ser seguida. Observar a maneira pela qual é construído um sistema de conhecimentos já era aprender um mínimo daqueles conhecimentos, até que um dia — um dia ou um século — um Integrador aparecesse e tudo ganhasse sentido outra vez. Por isso, não importava que o tempo passasse. A Memorabilia ali estava e era dever dos monges conservá-la, e eles a conservariam mesmo que as trevas durassem mais dez séculos ou dez mil anos, pois, apesar de nascidos na mais obscura das épocas, ainda eram os coletores de livros e memorizadores instituí- dos pelo Beato Leibowitz; e quando se afastavam da abadia em viagem, cada um dos professores da ordem — fosse ele ajudante no estábulo ou o Dom Abade — levava, como parte do hábito, um livro, em geral um breviário, amarrado no alforje.

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