sábado, 12 de maio de 2018

A Crise na Igreja

1. Há hoje uma crise na Igreja?
Seria preciso cobrir os olhos para não ver que a Igreja Católica sofre uma grave crise. Esperava-se, nos anos sessenta, na época do Concílio Vaticano II, uma nova primavera para a Igreja, mas foi o contrário que aconteceu. Milhares de padres abandonaram seu sacerdócio; milhares de religiosos e de religiosas retornaram à vida secular. Na Europa e na América do Norte, as vocações se tornam raras, e não se pode nem mais computar o número de seminários, conventos e casas religiosas que tiveram que fechar. Muitas paróquias permanecem sem padre e as congregações religiosas devem abandonar escolas, hospitais e asilos para idosos. “Por alguma fissura, a fumaça de Satanás entrou no Templo de Deus” – essa era a queixa do Papa Paulo VI em 29 de junho de 1972.

+ Sabe-se quantos padres abandonaram seu sacerdócio nos anos sessenta?
No conjunto da Igreja, entre 1962 e 1972, 21.320 padres foram reduzidos ao estado leigo. Não estão incluídos neste número aqueles que negligenciaram pedir uma redução oficial ao estado leigo. Entre 1967 e 1974, trinta a quarenta mil padres teriam abandonado sua vocação. Esses fatos catastróficos podem, com algum esforço, ser comparados com os acontecimentos que acompanharam a auto-intitulada “Reforma” protestante do século XVI.

+ Há um desastre análogo nas congregações religiosas?
Quebec, província francófona do Canadá, era, no início dos anos sessenta, a região que contava, proporcionalmente, com mais religiosas no mundo. O Cardeal Ratzinger conta, precisando que é só um exemplo: “Entre 1961 e 1981, por causa das saídas, dos falecimentos e da paralisação do recrutamento, o número de religiosas passou de 46933 para 26294. Uma queda de 44%, que parece impossível de frear. As novas vocações, com efeito, diminuíram durante o mesmo período ao menos 98,5%. Verifica-se então que uma boa parte dos 1,5% restante e´constituída por “vocações tardias”, e não por jovenzinhos. Ao ponto que as simples previsões permitem a todos os sociólogos se porem de acordo sobre esta conclusão brutal, porém objetiva: Daqui a pouco (salvo reversão de tendência muito improvável, ao menos ao olhar humano), a vida religiosa feminina tal como conhecemos não será mais que um souvenir do Canadá”.

+ A situação não melhora hoje, e não se poderia considerar que a crise agora ficou para trás?
Havia na França, nos anos cinqüenta, por volta de mil ordenações sacerdotais por ano. Desde os anos noventa, não há mais de cem por ano. Havia 41000 padres diocesanos na França em 1965. Não havia mais de 16859 em 2004, e a maioria tem mais de 60 anos. O número de religiosos no mundo continua a diminuir.

+ Esta crise atinge também aos fiéis?
Em 1958, 35% dos franceses assistiam à missa dominical: hoje, são menos de 5%, e freqüentemente são idosos. Em 1950, mais de 90% das crianças nascidas na França eram batizadas; hoje, menos de 50% o são.

+ Não há, porém, um aumento, na França, de Batismos de adulto?
Alguns milhares de Batismos de adultos não seriam capazes de compensar uma baixa de centenas de milhares de Batismos de crianças (ainda mais porque a perseverança dos novos batizados deixa normalmente muito a desejar).

+ O caso da França é realmente característico?
Encontra-se o mesmo desinteresse pela Igreja pela Europa. Entre 1970 e 1993, 1.9 milhões de alemães oficialmente abandonaram a Igreja Católica. O ódio ou a cólera não são os motivos mais freqüentes, mas tão simplesmente a indiferença. A Igreja não quer dizer mais nada aos homens, não tem mais importância em suas vidas; abandona-se a Igreja, para economizar o imposto eclesiástico. Neste ritmo, a religião católica vai virar a religião de uma pequena minoria. A Alemanha, segundo um dito de Karl Rahner, corre o perigo de virar uma terra pagã de passado cristão com alguns vestígios de Cristianismo.

+ Não se pode dizer que esta terrível crise é apenas local, atingindo a Europa Ocidental e a América do Norte, mas poupando a América Latina, a África e a Ásia, onde, ao contrário, o Catolicismo parece particularmente dinâmico?
Algumas cifras poderiam fazer crer que a crise é só local. O Anuário Pontifício sublinha que o aumento de ordenações e de seminaristas nos países de Terceiro Mundo compensa grandemente a baixa constatada nos países ocidentais. Na realidade, a crise é universal, mesmo se não se manifeste por toda parte do mesmo modo (os países pobres, onde o sacerdócio representa ascensão social, recrutam muito facilmente vocações; mas de qual qualidade ?). A América Latina, por exemplo, que passa por bastião do Catolicismo, está atualmente em vias de passar ao protestantismo, mais rapidamente do que a Alemanha do século XVI.

+ Temos estatísticas para ilustrar essa protestantização da América Latina?
Às vésperas de Vaticano II, 94% dos brasileiros eram católicos. Não eram mais que 89% em 1980; 83% em 1991; 74% em 2000 (e menos de 60% nas grandes cidades: São Paulo e Rio). Os protestantes, que representavam 3% da população em 1900, são atualmente 18% e seu número não pára de crescer! Cinco igrejas pentecostais são criadas em média no Rio de Janeiro a cada semana. O padre Franc Rodé, Secretário do Conselho Pontifical para o Diálogo com os não-crentes, estimava que em 1993 a Igreja perdia 600.000 fiéis latino-americanos a cada ano. Outras fontes fornecem estimativas mais graves ainda: 8000 católicos passariam a cada dia para as seitas. Considera-se que, no Chile, desde 1960, 20% da população entrou para seitas protestantes; e, na Guatemala, cerca de 30% !

2. Esta crise é uma crise de Fé?
A Fé cristã parece em vias de desaparecer da Europa. As verdades fundamentais, como a fé em Deus, a Divindade de Jesus Cristo, o Céu, o Purgatório e o Inferno são cada vez menos aceitas. O mais inquietante é que esses artigos de Fé são negados mesmo por pessoas que se dizem católicas e freqüentam regularmente a igreja.

+ Temos números mais precisos para ilustrar esta crise de Fé?
Sem ser perfeitamente confiáveis, as sondagens são representativas das grandes tendências da sociedade. Segundo uma sondagem recente, 58% dos franceses somente crêem na existência certa ou provável de Deus (contra 61% em 1994); 65% (e 80% entre os jovens de 18 a 24 anos) dizem não crer de jeito nenhum num Deus em três Pessoas; e 67% não crêem de nenhum modo no Inferno (contra 48% em 1994); 12% apenas dos católicos dizem ainda crer completamente no Inferno (16% crêem um pouquinho; 72% não crêem nele). Mesmo entre os católicos praticantes regulares, os números são catastróficos: 23% apenas crêem firmemente no Inferno, enquanto 54% não crêem; ainda por cima, 34% desses praticantes regulares crêem completamente que Maomé é um profeta, enquanto que somente 28% não o crêem (35% crêem um pouquinho; os outros não sabem). Em 2006, apenas 7% dos católicos franceses achavam que sua religião era a única verdadeira. “Mede-se a amplitude da mudança se sabemos que a metade dos católicos pensavam em 1952 que existia uma só verdadeira religião” sublinha o sociólogo Yves Lambert. Assim mesmo, 81, 3% dos católicos do Valais acham que todas as religiões levam à salvação eterna.

+ Que lição tirar das estatísticas?
Esses números manifestam que a crise é primeiro uma crise de Fé. Não somente o número daqueles que pensam pertencer à Igreja diminui, mas até a maioria daqueles que são oficialmente seus membros não possui mais a Fé Católica !!! Aquele que nega uma Verdade de Fé, perdeu a Fé, pois esta é um todo e deve ser recebida como um todo. Se, então, 72% se recusam a crer no Inferno, não há mesmo nem um católico para cada três que tenha a Fé.

3. Esta crise é também uma crise moral?
A crise dos costumes acompanha a crise de Fé. Enquanto São Paulo lembra aos cristãos que devem pela sua maneira de viver brilhar em meio a uma geração corrupta assim como as estrelas brilham no Universo (Fl 2,15), pode-se dizer que o gênero de vida dos cristãos atuais não difere em nada daquele dos filhos deste mundo, daquele dos incrédulos. Sua Fé fraca e esvaziada em sua substância não tem mais força para influenciar sua vida, ainda menos para transformá-la.

+ Qual é a ligação normal entre a Fé e a Moral?
O homem enfraquecido pelo pecado original tem tendência de se abandonar a suas paixões, perdendo assim o domínio de si. A fé cristã, ao contrário, mostra-lhe o que Deus espera dele e como se deve conduzir a vida conforme Sua Vontade. O homem sabe pela Fé o que ele pode esperar se observar os Mandamentos de Deus, mas também as penas com as quais Deus o punirá se ele se desviar. A Fé e os Sacramentos dão-lhe a força para vencer suas más inclinações e para se entregar todo inteiro ao Bem e ao amor de Deus.

+ Quais são as conseqüências morais de uma crise de Fé?
Se a Fé desaparece, o homem não se vê mais chamado à perfeição moral e à vida eterna ao lado de Deus. Entregar-se-á sempre mais aos prazeres desregrados desta vida.

+ A atual crise dos costumes também atinge aos católicos ?
É o que nós experimentamos hoje. Fidelidade, pureza, justiça, espírito de sacrifício, etc. não são mais, até entre os cristãos, valores incontestáveis. Um casamento em três acaba hoje em divórcio depois de cinco ou de dez anos; é sabido que a segunda união depois do divórcio é demandada por um número cada vez maior de católicos. A revista Herderkorrespondenz de março de 1984 dava a conhecer que, no Tyrol católico, 84% da população rejeita o ensinamento da Igreja sobre a contracepção,e, que, dentre as pessoas de 18 a 30 anos, a plena adesão é quase nula (1,8%). No Valais, 81,5% dos católicos acham que as pessoas divorciadas e recasadas devem poder comungar. Na França, em 2003, um quarto dos católicos praticantes declaram que, para eles, “ a idéia de pecado não significa mais grande coisa”.

4. Não há hoje também uma crise no clero?
A falta de vocações sacerdotais e religiosas, tanto quanto as defecções manifestam uma crise profunda no clero. Muitos padres perderam a Fé; eles não estão mais em condições de comunicá-la e de entusiasmar os homens por ela.

+ Qual é a real ligação entre a crise de Fé e a Crise do clero?
A crise do clero é a causa da crise de Fé entre os fiéis. Se a Fé dos católicos que assistem regularmente à missa dominical está num estado tão lamentável, a causa só pode vir duma pregação defeituosa. Se os padres ensinassem regularmente a Fé Católica, a situação seria toda outra. Os homens não perderam sozinhos a Fé, esta foi-lhes arrancada no catecismo e do alto do púlpito. Quando, no sermão, durante anos e anos, as Verdades de Fé são postas em xeque, relativizadas ou até negadas abertamente, como se surpreender se os simples fiéis perdem a Fé? Os mais jovens até mesmo nunca a conheceram.

+ Podeis dar um exemplo desse mau ensinamento dispensado pelo clero?
Hoje, não é raro que uma criança, ao fazer sua primeira Comunhão, ignora que Nosso Senhor Jesus Cristo está verdadeira, real e substancialmente presente na Eucaristia; ignora porque seu pároco ele mesmo não crê mais neste Mistério. No “Como nós vivemos”, livro de instrução religiosa na Alemanha, pode-se ler: "Quando os cristãos partilham sua refeição com Jesus, vão ao altar. O padre lhes dá um pequeno pedaço de pão. Eles comem o pão." Esse livro de ensino religioso recebeu o imprimatur dos Bispos alemães e por eles foi autorizado!

+ A situação não é melhor na França?
Se 34% dos católicos praticantes regulares franceses crêem completamente que Maomé seja um profeta e 35% o creiam um pouquinho ( temos um total de 69%), nota-se que a cifra está muito mais baixa entre os católicos não praticantes ( 21% e 22% somando 43%). Sobre esse ponto, os não praticantes são então mais católicos do que os praticantes. Isso vem evidentemente do ensino dispensado nas igrejas. De fato, vários Bispos franceses deram igrejas aos muçulmanos e o Papa João Paulo II beijou o Corão em 14 de maio de 1999.

+ A crise do clero é também uma crise moral?
A crise é antes uma crise de Fé, mas um clero cuja Fé é fraca não tem evidentemente mais a força de guardar o celibato, pois isso só é possível àquele que está animado de fé viva e de um grande amor de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não é um mistério para ninguém que grande número de padres entretenham hoje relações pecaminosas com uma mulher, de modo mais ou menos público; ouve-se regularmente que um padre abandonou seu posto, confessando que não guardava mais o celibato há anos. Nesse aspecto, a situação do clero do Terceiro Mundo, cujo número está em crescimento, não é, enfim, melhor...

+ Essas defecções de padres não são voluntariamente propagandeadas pela mídia a fim de obter a supressão do celibato dos padres?
É evidente que o celibato afasta muitos jovens do sacerdócio; mas em lugar de polemizar esse assunto, seria preciso se perguntar por que numerosos homens ofereciam antigamente com alegria este sacrifício, enquanto que não é mais o caso hoje em dia.

5. Em que a presente crise difere daquelas que a Igreja sofreu no passado?
A presente crise na Igreja se distingue das precedentes, principalmente no fato de serem as mais altas autoridades da Igreja seus deflagadores, empreendedores e aqueles que impedem que medidas eficazes sejam tomadas para resolvê-la.

+ Não houve já grandes crises na Igreja?
Sempre houve crises na Igreja. Padres, bispos até e mesmo Papas às vezes levaram uma vida contrária ao Evangelho. A imoralidade e a indisciplina do clero freqüentemente prejudicaram a Igreja. De tempos em tempos, padres e bispos se separaram da verdadeira Fé. Mas nunca os erros e a negação pública das Verdades de Fé foram propagadas como hoje em dia, graças à tolerância, à aprovação e até à atividade das autoridades romanas e do episcopado mundial. Esta é a nota particular da crise atual, que é favorecida pelas mais altas autoridades da Igreja; Papa incluso.

+ Essa nota singular da crise atual foi reconhecida pelas autoridades da Igreja?
Paulo VI mesmo pronunciou em 1968 a frase bem famosa, falando de uma Igreja em estado de “autodemolição”: “A Igreja se acha em uma hora de inquietude, de auto-crítica, diríamos mesmo de auto-demolição. É como uma instabilidade interior, aguda e complexa, ao qual ninguém teria esperado depois do Concílio.(...). É como a Igreja se golpeasse a si mesma.”


Catecismo Católico da Crise na Igreja - Pe. Matthias Gaudron, FSSPX; Cap. I: Crise na Fé, pág. 7-15.

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