segunda-feira, 25 de junho de 2018

Gaudete et Exsultate (II): Uma Mensagem de Deus para o Mundo

Vimos anteriormente o caráter universal e ao mesmo tempo estritamente pessoal do chamado a santidade. A todos os cristãos se estende este chamado, porém cada um segundo o seu caminho. Mas, não é a santidade apenas um caminho de realização pessoal plenamente individual, como também um remédio espiritual para o mundo; ensina-nos Francisco: 
19. Para um cristão, não é possível imaginar a própria missão na terra, sem a conceber como um caminho de santidade, porque «esta é, na verdade, a vontade de Deus: a [nossa] santificação» (1 Ts 4, 3). Cada santo é uma missão; é um projeto do Pai que visa refletir e encarnar, num momento determinado da história, um aspeto do Evangelho.
[...]

21. O desígnio do Pai é Cristo, e nós n’Ele. Em última análise, é Cristo que ama em nós, porque a santidade «mais não é do que a caridade plenamente vivida». Por conseguinte, «a medida da santidade é dada pela estatura que Cristo alcança em nós, desde quando, com a força do Espírito Santo, modelamos toda a nossa vida sobre a Sua». Assim, cada santo é uma mensagem que o Espírito Santo extrai da riqueza de Jesus Cristo e dá ao seu povo.
[...]

23. Isto é um vigoroso apelo para todos nós. Também tu precisas de conceber a totalidade da tua vida como uma missão. Tenta fazê-lo, escutando a Deus na oração e identificando os sinais que Ele te dá. Pede sempre, ao Espírito Santo, o que espera Jesus de ti em cada momento da tua vida e em cada opção que tenhas de tomar, para discernir o lugar que isso ocupa na tua missão. E permite-Lhe plasmar em ti aquele mistério pessoal que possa refletir Jesus Cristo no mundo de hoje.

24. Oxalá consigas identificar a palavra, a mensagem de Jesus que Deus quer dizer ao mundo com a tua vida. Deixa-te transformar, deixa-te renovar pelo Espírito para que isso seja possível, e assim a tua preciosa missão não fracassará. O Senhor levá-la-á a cumprimento mesmo no meio dos teus erros e momentos negativos, desde que não abandones o caminho do amor e permaneças sempre aberto à sua ação sobrenatural que purifica e ilumina. 

Recordo-me que em "Como Vencer a Guerra Cultural", Peter Kreeft, ao abordar a questão da  guerra à verdade promovida pela modernidade, propõe uma solução inesperada: não fala o autor de manobras políticas, ou golpes midiáticos, mas a santidade:
A arma mais forte deste mundo é a santidade. Nada pode derrotá-la.

Pode parecer estranho a algumas pessoas falar de santidade quando se fala em guerra, até mesmo de guerra espiritual. Muitas “pessoas religiosas” gostam de pensar sobre a santidade porque a consideram o exato oposto da guera. Consideram santidade não apenas pacífica, mas “boazinha”: reconfortante, otimista, felicitadora.

Elas estão erradas. Cristo é, de fato, o Príncipe da Paz, mas a paz trazida por Cristo é radicalmente diferente,. Ela é dada “não como o mundo dá” (ver João 14:27). E certamente não é “boazinha”. Talvez a ideia que se faz popularmente dos santos é que sejam pessoas “boazinhas”, mas os santos de verdade não são bonzinhos. São guerreiros. Eles realmente incomodam os outros, tão profundamente, que são muitas vezes martirizados. Se eles não incomodarem ninguém, não são santos. (…) [1] 


O Papa insiste na santidade vista como missão, missão que exige atividade, o combate no mundo e não a fuga: 
25. Dado que não se pode conceber Cristo sem o Reino que Ele veio trazer, também a tua missão é inseparável da construção do Reino: «procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça» (Mt 6, 33). A tua identificação com Cristo e os seus desígnios requer o compromisso de construíres, com Ele, este Reino de amor, justiça e paz para todos. O próprio Cristo quer vivê-lo contigo em todos os esforços ou renúncias que isso implique e também nas alegrias e na fecundidade que te proporcione. Por isso, não te santificarás sem te entregares de corpo e alma, dando o melhor de ti neste compromisso.

26. Não é saudável amar o silêncio e esquivar o encontro com o outro, desejar o repouso e rejeitar a atividade, buscar a oração e menosprezar o serviço. Tudo pode ser recebido e integrado como parte da própria vida neste mundo, entrando a fazer parte do caminho de santificação. Somos chamados a viver a contemplação mesmo no meio da ação, e santificamo-nos no exercício responsável e generoso da nossa missão.

27. Poderá porventura o Espírito Santo enviar-nos para cumprir uma missão e, ao mesmo tempo, pedir-nos que fujamos dela ou que evitemos doar-nos totalmente para preservarmos a paz interior? Obviamente não; mas, às vezes, somos tentados a relegar para posição secundária a dedicação pastoral e o compromisso no mundo, como se fossem «distrações» no caminho da santificação e da paz interior. Esquecemo-nos disto: «não é que a vida tenha uma missão, mas a vida é uma missão».

Pensemos nisto: o remédio para nossa civilização decadente não são as manobras políticas ou os construtos ideológicos, mas a santidade. Precisamos de santos, homens e mulheres que ecoem na terra a voz de Cristo Jesus.
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[1] Como Vencer a Guerra Cultural - Peter Kreeft; pág. 12-130.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Karatê Kid, Orientalismo e um Apelo Identitário


Karatê Kid é um verdadeiro clássico dos anos 80; a obra inspirou uma sequência quase que infinita de filmes, impulsionou e popularizou o karatê, bem como volta hoje a ganhar destaque a partir da websérie Cobra Kai (que foi, aliás, o que me levou ao filme). A história segue mais ou menos a estrutura básica da “jornada do herói”: temos o protagonista que leva uma vida feliz até que, por conta do emprego de sua mãe, tem de se mudar; essa mudança de residência acaba por complicar-lhe a vida, arranja ele encrenca com uns carinhas bons de briga por conta de uma guriazinha bonitinha; daí recebe a ajuda de um “mentor” que lhe ajuda a superar seus problemas, onde o karatê é uma metáfora para o desenvolvimento pessoal e o autoaprimoramento; terminando o filme ganhando a briga e fazendo par romântico com a mocinha. 


O filme maneja bem o instrumento da analogia; é engraçado como Daniel-san aprende a lutar com atividades simples e bobas, como o pintar a cerca e encerar carros. Lindo de se ver na ficção, impraticável e inútil no mundo real das artes marciais

Uma coisa que me chamou atenção foi um aparente apelo tradicionalista: o moderno Daniel precisa recorrer a experiência do ancião asiático para aprender a ser gente. Todavia, digo aparente porque não há de fato uma linha de continuidade entre Daniel e Myagi. Daniel é americano e não asiático, a tradição que lhe comunica Myagi não é algo que lhe é devido, como uma herança, algo relacionado a identidade e as tradições de Daniel, aliás, o fato de no filme Daniel ser uma criança sem pai ilustra muito bem sua situação de alguém perdido no mundo, sem um passado que lhe oriente para o futuro. Daniel é então, como que enxertado nas tradições alheias, no mundo oriental do Sr. Myagi. 

E nós, somos como Daniel? Perdidos, gente “sem pai” que precisa implorar para serem integrados na cultura alheia? Ou aquela sabedoria ancestral está bem próxima de nós? Sou adepto da segunda opção, e creio que ao invés de se buscar alhures uma sabedoria exótica, precisamos antes redescobrir nossas tradições luso-católicas. 

Banzai!? 
Deus Vult!

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Breve História do Sionismo

O Sionismo: Um Messianismo Anticristão

Então o que é, exatamente, o sionismo? 

Para compreendê-lo é necessário entender o proto-sionismo. 

Durante os anos de exílio judaico - do ano 70 D.C. em diante - os israelitas experimentaram um desejo de retorno a Canaã. Pensadores e religiosos judeus que se expressaram em obras escritas, mostravam o desejo ancestral de retornar às suas raízes históricas através da volta para Canaã. A "nostalgia de Sião" se manifestou claramente nos discursos de diversos místicos judeus surgidos ao longo dos séculos de duração da Diáspora, como Sabbatai Zevi, no século XVII, passando pelos poemas de Yehudah Halevi e por vários místicos. Todos tendiam a dizer que o exílio vivido pelo povo seria similar ao da Babilônia, uma grande provação onde, depois de um grande sofrimento, o povo voltaria a Canaã, o que inauguraria a era messiânica. Cabe dizer que os judeus, por negarem a Jesus a condição divina de Filho de Deus, rechaçam que já estaríamos em plena era messiânica, na era da graça onde se prepara a terra definitiva, o reino celestial do Pai para os fiéis em Cristo. Eles esperam, portanto, o desencadear de uma salvação e de um redentor. No passado os judeus chegaram mesmo a crer que Zevi era o Messias. Mas sua conversão ao Islão em 1666 frustrou as expectativas. 

O sionismo se delineou de vez com o nacionalismo judaico do século 19, onde pensadores judeus secularizados - para os quais a prática religiosa já não tinha tamanha importância e que insistiam numa identidade judaica com base nos pressupostos da liberdade/igualdade da revolução francesa e americana - começaram a defender um lar judeu, um Estado como base de autoafirmação do povo. Moses Hess, neste sentido, teve um papel muito destacado. Hess focava a história da humanidade a partir das noções de luta de raças e nacionalidades. Preconizou um socialismo sionista - Hess foi colaborador de Karl Marx - onde idealizava uma sociedade futura perfeita, em que terra seria colonizada por judeus operosos, um Estado Ideal, a Israel Restaurada mas sob os auspícios socialistas. Segundo Hess esse novo Estado seria a forma futura da sociedade humana na sua mais elevada perfeição. E este Estado seria Israel. Israel - o Estado - seria então o Messias da Humanidade. Hess afirmou que a história marcha sobre a influência do Espírito para um novo Éden. Quem teria o papel de realizar este feito seria nada mais que o povo judeu organizado num Estado. Estas idéias foram absorvidas por Theodor Herzl, fundador do movimento sionista em 1897 com o fito de criar tal Estado. A idéia era organizá-lo em torno da migração possibilitada pela compra de terrenos na Palestina e, depois, criar os Kibutz, terras comunais que misturavam elementos socialistas e nacionalistas. Os kibutz foram a base da migração e da colonização judia da Palestina a partir de 1900 quando judeus começaram a colonizar a região para forçar a criação de um Estado Judeu na área. 

Havia, é verdade, várias facções entre os Kibutzim - membros dos Kibutz, judeus que vinham de vários lugares do mundo para colonizar a terra dentro de um modelo de terra comunal - mas a maioria era socialista; em 1927, alguns novos Kibutzim fundados pelo Hashomer Hatzair uniram-se para formar uma associação de alcance nacional, Kibutz Artzi. Por décadas, Kibutz Artzi seria a esquerda dos Kibutzim. Em 1936, a Federação do Kibutz Artzi fundou seu próprio partido político chamado a Liga Socialista da Palestina mas popularmente conhecida como Hashomer Hatzair. Fundiu-se com outro partido de esquerda para se tornar Mapam (o atual Meretz) tão logo o Estado de Israel se estabeleceu. Os Kibutzim da Artzi eram devotados à igualdade dos sexos. Uma mulher de um Kibutz da era dos anos 1920-1930 chamaria seu marido ishi — "Meu homem" — ao invés da palavra usual hebraica, ba'ali, que, literalmente, significa "Meu mestre". Os Kibutzim do Kibutz Artzi eram seculares, mesmo firmemente ateus, orgulhosamente tentando ser "monastérios sem Deus". A maioria dos Kibutzim da corrente principal também desdenhavam o Judaísmo Ortodoxo de seus pais, mas eles queriam que suas novas comunidades tivessem características judaicas mesmo assim. As noites de Sexta-feira ainda eram Shabat, com um pano de mesa branco e comida de qualidade, e trabalho não era feito aos sábados se pudesse ser evitado. Mais tarde, alguns Kibutzim adotaram o Yom Kipur como o dia para discutir receios em relação ao futuro do kibutz. Os Kibutzim também tinham bar mitzvá coletivos para suas crianças. Embora os kibutzniks não rezassem diversas vezes ao dia, marcavam festividades como Shavuot, Sucot e Pessach com danças, banquetes e celebrações. Um feriado judaico, Tu B'shvat, o "aniversário das árvores" era substancialmente revivido por Kibutzim. Em todos eles, feriados com algum componente natural, como Pessach e Sucot, eram os mais importantes para os Kibutzim. Logo, os Kibutzim era uma síntese de secularismo, religião e socialismo. Neste sentido a ideologia dos Kibutzim tendia ao Utopismo Comunista. O espiritualismo dos pioneiros do movimento Kibutz consistiam de sentimentos místicos sobre trabalho judaico, articulados por sionistas como Berl Katznelson, que disse, "onde quer que o trabalhador judeu vai, a divina presença vai com ele." É redenção pelo trabalho. Em adição à redenção da nação judaica através do trabalho, também havia um elemento de redenção de Eretz Yisrael, Palestina, na ideologia do Kibutz. Os membros do Kibutz tinham prazer em trazer a terra de volta à vida plantando árvores, drenando pântanos e incontáveis outras atividades que fizeram com que a terra ficasse mais fértil. Quando solicitavam doações, os Kibutzim e outras atividades de assentamento sionistas apresentavam a si mesmas como "fazendo o deserto florescer". A idéia do deserto que floresce é fundada na benção que o trabalho da mão judaica traz ao mundo: seria como se só esta mão pudesse trazer a redenção a terra e mais nenhuma. 

Logo podemos ver que a base fulcral da organização social dos judeus na Palestina antes da fundação do Estado de Israel é uma estrutura utopista de fundo socialista. O que é bastante interessante pois a nova direita brasileira que postula uma defesa férrea de Israel, considera qualquer relação com o socialismo como abjeção política, como totalitarismo, identificando-o com o império do mal; porém quando se trata do socialismo subjacente à formação de Israel há um silêncio absoluto. A pergunta é: por quê? 

A Teologia do Sionismo

Os religiosos que aderem ao sionismo consideram o projeto de Herzl não um objetivo humano mas expressão da vontade divina. Segundo a teologia do sionismo o movimento trouxe uma nova época para a história humana, ligada a liberação dos três juramentos e pelo fim da passividade política dos judeus. Segundo tal teologia o Estado de Israel é a materialização das promessas dos profetas do AT. Vejam que, dentro de uma visão cristã, tais promessas se efetivaram em Jesus Cristo e na Igreja. Deste modo um cristão que adere e apoia o Estado Israelita, flerta com a apostasia. O rabino Avraham Kook, que foi o primeiro rabino chefe da comunidade local que se formava no meio dos Kibutz, antes da fundação do Estado, chegou a dizer que “o Estado de Israel será a base do trono de Deus no mundo”. Segundo Kook mesmo os sionistas seculares, que não compartilhavam da visão religiosa dele, ajudavam na redenção pois construíam a base material para a era messiânica. Comparou-os aos pedreiros estrangeiros do Templo de Salomão, que construíam sem saber a verdadeira função do santuário. Ainda para Kook a redenção só se desencadearia quando os sionistas reconhecerem o sentido espiritual de sua atividade. Com o Holocausto e a criação de Israel os religiosos sionistas, antes marginalizados dentro da religião judia, passaram a ter respeitabilidade e a receber apoio de outros setores religiosos do judaísmo talmúdico. 

O filho de Kook, Yehuda Kook, virou o líder do processo de colonização judaica da Cisjordânia. Para Yehuda, que virou a liderança espiritual dos colonos, incentivou a não retirada já que “estando na era messiânica, não se pode ceder nenhum quilômetro de terra, devemos acumular conquistas”. Desde a ocupação em 1967 até 1993, os palestinos da Cisjordânia estiveram sob a administração militar israelense. Sobre a Cisjordânia, em diversas ocasiões, Israel instaurou a plena administração militar sobre a área que é disputada com os palestinos. Após a Segunda Intifada, o governo israelense iniciou a construção do chamado "Muro da Cisjordânia", que avança sobre o território da Cisjordânia. A posição de Yehuda foi muito importante para legitimar as ações violentas de Israel na região o que mostra que o fundo teológico do sionismo trabalha para justificar as pretensões do Estado de Israel e o massacre e expulsão de populações palestinas.

O Holocausto também influenciou na transformação da postura ortodoxa frente ao sionismo. Primeiro é preciso que se diga que segundo o Talmud e outras fonte rabínicas, o povo judeu e as nações do mundo fizeram três juramentos ante Deus, no início do exílio judaico do ano 70: os judeus prometeram não forçar a volta à Terra do Israel antes do tempo messiânico (“não subir os muros”) e não se revoltar contra os povos entre o quais viviam exilados; já as demais nações juraram não maltratar os judeus “em demasia”. O Talmud da Babilônia, Tratado Ketubot 111a, traz o seguinte: “Três Juramentos: Um, que Israel não suba os muros; o segundo, que [Deus] fez Israel jurar que não se rebelaria contra as nações do mundo; e o terceiro, que [Deus] fez os idólatras jurarem que não oprimiriam Israel em demasia”. Os Três Juramentos, foi o que, durante os séculos de exílio, barrou a migração judia de duas maneiras: como consolo para a difícil situação existencial vivida pelos judeus e como bloqueio moral contra movimentos messiânicos de imigração em massa para a Terra de Israel. No judaísmo medieval em terras muçulmanas, entre os anos 600 e 1100 DC, a imigração judaica para a Terra de Israel foi fenômeno raro. Porém, logo em seguida, vemos Maimônides utilizando os Três Juramentos para tentar impedir um movimento de imigração de tendência messiânica que aflorou na comunidade judaica do Iêmen. No século XIII, outro rabino de renome, Moshe ben Nachman, o Nachmânides, deixou sua comunidade em Girona (Espanha) e imigrou para a Terra de Israel. Ele foi o primeiro a legislar que assentar-se na Terra Santa era um mandamento divino para o indivíduo judeu. De tendência cabalista, Nachmânides sublinhou o significado místico da vida religiosa na Terra de Israel e decretou que a imigração era uma “mitzvah positiva que todos estão obrigados, para todas as gerações, mesmo em época de exílio”. Assim surgiu no judaísmo a distinção entre a louvável imigração individual à Terra de Israel por motivos religiosos e a condenável imigração coletiva, que desafiava os Três Juramentos. No século XV, uma nova onda de imigração judaica, levou a uma repetida condenação baseada nos Três Juramentos. Apesar de tudo isso é para ressaltar que a proibição de imigração derivada dos Três Juramentos sempre teve caráter mais ideológico e teológico do que legal no judaísmo. A proibição não chegou a ser incorporada realmente no corpus legal rabínico. Diga-se que o precursor da posição da ortodoxia anti-sionista foi o rabino húngaro Chaim Elazar Shapira (1872-1937). Para ele, a imigração de judeus em massa para a Terra de Israel, ainda mais sob a liderança de não-religiosos como os sionistas, representava a condenável ação de forçar o Final dos Tempos; em sua visão, os judeus deveriam esperar pacientemente por intervenção divina e ser totalmente passivos do ponto-de-vista político. A imigração à Terra de Israel somente poderia acontecer na era messiânica, quando ocorreria de forma supranatural. O rabino Shapira 322 via a Terra de Israel como um lugar único no mundo, dotado de uma sacralidade imensa. Inspirado pela mística judaica, afirmou que a Terra Santa é um lugar especial onde acontece uma luta frontal entre forças divinas e satânicas. Viver ali representaria até um perigo de vida para o judeu “mediano”. Se este pecasse na Terra de Israel, deveria esperar um castigo divino bem mais rigoroso do que se transgredisse fora dela. Nem mesmo seus discípulos tinham estatura moral para viver ali e Shapira advertiu-os, em 1937, a não imigrar para a Palestina. 

Mas tudo mudou quando os judeus começaram a se questionar se a criação de Israel estaria assinalando, pelo menos, o começo da redenção. O Holocausto aumentou ainda mais a perplexidade ortodoxa frente ao fenômeno sionista. Haveria algum significado religioso entre a destruição do judaísmo europeu e a criação do Estado de Israel, logo em seguida? O massacre dos judeus europeus poderia ter sido um castigo divino motivado justamente pela proibição de “subir os muros” ou antes uma recompensa pelo sofrimento do holocausto? Então começou a nascer – como mostramos acima – uma linha de pensamento que passou a ver o “holocausto” como o sofrimento que prepara a redenção e a era messiânica; desta forma o “holocausto” passou a ser considerado como um sinal escatológico. 

O rabino Zvi Yehuda Hacohen Kook (1891-1981) continuou a linha do pai Avraham Kook e levou-a até seus limites. Em 30 anos de atuação, influenciou a formação do grupo político-religioso Gush Emunim (“Bloco dos Fiéis”). Yehuda vai se valer do conceito teológico para justificar o apoio ao Estado de Israel que diz respeito ao processo messiânico. Sobre a era messiânica o judaísmo traz dentro de si diferentes visões sobre este processo e a ala ortodoxa sionista esposou uma delas, segundo a qual não há necessidade de um Messias na etapa inicial do processo. A redenção acontecerá em etapas, afirmam, culminando no aparecimento desta personalidade histórica (Messias) apenas num estágio posterior, após uma série de fases vencidas, para fechar o processo. Nesta etapa inicial o Estado de Israel é fulcral, dizem. 

Aqui entra uma questão importante: a de que a linha de Yehuda virou a fonte basal da política de Estado de todos os governos de Israel no que tange a não concessão de territórios aos árabes-palestinos. Para Zvi Yehuda, os Três Juramentos talmúdicos que proibiam a imigração em massa à Terra de Israel foram abolidos por decreto divino. Ele afirmou: “Não somos nós, de carne-e-osso, que agimos para forçar o Final dos Tempo, mas sim o Dono da Casa, o Senhor do Mundo, que está nos forçando; não é a voz de uma pessoa de carne-e-osso, mas sim a voz do Deus Vivo que destruiu o muro que deixou de nos separar de nossa terra, convocando-nos: ‘Subam’. 

Segundo o rabino, já não se trata mais de discutir se o Estado de Israel representa ou não o início da redenção. Numa declaração feita após a Guerra do Yom Kipur (1973), o rabino afirmou que a humanidade já se encontrava no interior do processo messiânico: “Há pessoas que falam que vivemos o início da redenção (…) mas temos que ver com olhos abertos que já estamos no meio da redenção (…) O início foi há mais de cem anos, quando recomeçou o assentamento judaico na Terra de Israel”. Na concepção de Zvi Yehuda, o Estado de Israel, como elemento fundamental do processo de redenção, ganha contornos extraordinários. “O Estado (de Israel) é todo santo, sem nenhum defeito. O valor deste Estado não está condicionado à quantidade de observantes dos mandamentos que vivem em seu interior. Claro, a aspiração é que todo o povo se ligue à Torá e aos mandamentos, mas este Estado é sagrado de qualquer maneira”. 

A teologia de Zvi Yehuda levou-o a se posicionar contra qualquer concessão territorial aos vizinhos árabes. Para o rabino, sua posição política era reflexo do desejo de Deus. “O Todo-Poderoso tem uma política própria. E, de acordo com ela, processa-se a política aqui de baixo. Parte da redenção é a conquista da terra e o assentamento nela. Esta é a determinação da política divina, que nenhuma política aqui de baixo pode contrariá-la”. Exatamente esta política que o Estado de Israel vem aplicando faz décadas, inclusive afastando cristãos de cidades sagradas como Belém onde, há 20 anos atrás, tínhamos 80 por cento de população cristã. Hoje são só 35 por cento. Em Jerusalém a seis décadas os cristãos eram 20 por cento da população. Agora são 2 por cento apenas. 

Embora ourtos grupos ortodoxos como o Agudat e o Lubavitch não partilhem da mesma visão dos seguidores de Yehuda, ambos legitimam o Estado de Israel como algo que melhora o estado material dos judeus embora não liguem o Estado de Israel, diretamente, a redenção. O Agudat – que virou um partido - desde a década de 90, têm se aproximado da direita política em Israel. Porém posição do Lubavitch e do Agudat não devem ser entendidas como um distanciamento absoluto da posição de Yehuda. Para estes grupos, os eventos políticos do último século podem ser vistos como sinais de intervenção divina e até mesmo uma janela de oportunidade para a tão-esperada redenção, de modo que, queiram ou não, o Estado de Israel passa a ser visto, mesmo pelos judeus ortodoxos como ou um elemento da redenção, ou algo que abre caminho para ela: em suma, algo que diz respeito ao DOMÍNIO UNIVERSAL DOS JUDEUS E DO SEU FALSO MESSIAS. 

#Rafael Queiroz

*Texto originalmente publicado no site Catolicidade em 02/06/18 e, parcialmente, aqui transcrito com pontuais alterações.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

O Direito de Propriedade e a ameça do Estado e do Grande Capital


11ª Semana do Tempo Comum - Segunda-feira
Primeira Leitura (1Rs 21,1-16)
Responsório (Sl 5)
Evangelho (Mt 5,38-42)

Nabot não quis vender sua vinha, nem por um preço justo e lucrativo, nem trocá-la por outra melhor. A vinha era a herança de seus pais, tinha um valor inestimável, algo que não pode ser quantificado. Em tempos de capitalismo selvagem é difícil para nós compreendermos isso, compreendermos que alguém possa dispor de seus bens, conservando-os mesmo contra a lógica do lucro; mas isso é parte inerente do direito de propriedade, e temos de respeitá-lo, é um mandamento divino. Quantos ''Acabs'' existem hoje devorando os bens alheios? Pensemos nos ricos empresários e grandes corporações, pensemos nas realidades simples também, onde ''empreendedores imobiliários'' destroem o patrimônio arquitetônico secular da cidade em nome do lucro; aqui onde moro mesmo, a lógica do lucro causou a destruição de um belíssimo e antiquíssimo casarão, rico em histórias e tradições. 

Rezemos para que Deus nos livre dessa lógica maldita do lucro a todo custo e para que proteja os direitos dos injustiçados, o direito de propriedade e herança dos pobres e pequeninos, contra a lógica do lucro, o monstruoso e usurpador ''grande capital''; bem como dos poderes iníquos, que usam da autoridade Estatal contra o bem comum, em favor de interesses particulares e injustos, violando a propriedade alheia.

sábado, 16 de junho de 2018

Ciência de Garagem e o Pós-Humano


O filósofo russo Aleksandr Dugin em sua obra ''A Quarta Teoria Política'' fora capaz de prever as novas abominações decorrentes da lógica interna do liberalismo. Depois de “libertar” o homem de seus compromissos com a tradição, com a família, com Deus e religião, depois da monstruosidade da ideologia de gênero, que busca abolir as diferenças entre os sexos, o próximo passo é o pós-humano, a “superação” das fronteiras entre as espécies, e a criação de quimeras humanas e cyborgs.
Politicamente: há tendências muito importantes na política global que definem a transição. O ápice do pensamento político da Modernidade foi a vitória do liberalismo sobre as doutrinas políticas alternativas da Modernidade: fascismo e socialismo. O liberalismo foi global e se tornou o único sistema político possível. Está progredindo agora em direção ao conceito pós-moderno e pós-individual de política, geralmente descrito como pós-humanismo. Os EUA novamente desempenham aqui o papel fundamental. A forma de política promovida globalmente pelos EUA é democracia liberal. Os EUA apoiam a globalização do liberalismo, assim preparando o próximo passo para o pós-modernismo político como descrito em Império, o famoso livro de Negri e Hardt. Subsiste alguma distância entre o ultraindividualismo liberal e o pós-humanismo propriamente pós-moderno, promovendo a cibernética, modificações genéticas, clonagem e as quimeras. 
Os primeiros passos desta monstruosidade “pós-humana” já começam a ser trilhados: nos EUA têm crescido e se popularizado cada vez mais o movimento conhecido como "biohacking"[1], em que jovens realizam experiencias moleculares avançadas, até então restritas a grandes laboratórios, na garagem de casa, usando a si mesmo como cobaias. A ''biohacker'' Jésika Foxx, por exemplo, alterou a cor de seus olhos para roxo, bem como deu a suas orelhas um formato pontudo, como de ''elfos'' em seus bizarros experimentos. Já Aaron Traywick, uma celebridade no meio, acabou não tendo tanto sucesso, morrendo vítima de suas próprias experiências[2].

Lâmpadas LED implantas por baixo da pele por biohackers.

Apesar do perigo, a ideia de uma ciência não acadêmica é extremamente empolgante! Tirar da burocracia universitária o monopólio laboratorial e dar ao homem comum a possibilidade de explorar as potencialidades da técnica, vai bem de encontro a minha proposta de democratização da tecnologia[3]. O caso de 2013, em que uma missão para se criar uma planta brilhante através de engenharia genética conseguiu arrecadar quase meio milhão de dólares pelo Kickstarter (um site de financiamento coletivo)[1], é um feliz exemplo das oportunidades que oferecem este incipiente arranjo (não)institucional. Todavia, ainda é algo distante da realidade brasileira, onde os equipamentos são caros e sua comercialização altamente regulamentada, diferente do que tem ocorrido nos EUA, além é claro, do fato de que , em geral, o brasileiro não tem está cultura cientifica autodidata bem desenvolvida.

O preocupante, porém, é essa ideia de superar o humano, brincar de Criador. Se a tatuagem já e visto por muitos como um pecado de profanação do próprio corpo, o que dizer dessas modificações a nível mais avançado? Me parece um reencenar do pecado de nossos primeiros pais, que na busca de sua autodivinação, acabaram por destruir-se a si mesmos, e repassar a chaga a seus descendentes. Todavia é uma realidade complexa, a qual o juízo moral não é tão fácil quanto aparenta. Se a Igreja permite modificações cirúrgicas humanas com fins de saúde, e mesmo não estabeleceu nenhum anátema contra a transgênia vegetal, condenaria a priori o biohacking? Não seria possível separar a técnica da ideologia; ou ambas estão tão simbioticamente associadas, que uma implica a outra? Até que os teólogos concluam seus estudos a respeito e o magistério se pronuncie, continuemos nós a observar, com cautela e apreensão.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

A Monstruosidade dos Métodos Abortivos

24. Como é praticado o aborto?
— Os métodos de aborto são de extrema crueldade. Quando executados por “profissionais”, assumem as seguintes modalidades principais:

• Aborto por envenenamento salino
— Extrai-se o líquido amniótico de dentro da bolsa que protege o bebê; introduz-se uma longa agulha através do abdômen da mãe, até a bolsa amniótica, e injeta-se em seu lugar uma solução salina concentrada; o bebê ingere esta solução, que lhe causará a morte em 12 horas por envenenamento, desidratação, hemorragia do cérebro e de outros órgãos. A solução salina produz queimaduras graves na pele do bebê. Algumas horas mais tarde inicia-se “o parto”, e a mulher dá à luz um bebê morto ou moribundo, muitas vezes ainda com movimentos.

• Aborto por sucção
— Insere-se no útero um tubo com uma ponta afiada. Uma forte sucção (28 vezes mais forte que a de um aspirador doméstico) despedaça o corpo do bebê que estava se desenvolvendo, assim como a placenta, e absorve “o produto da gravidez”. A placenta é um órgão localizado no útero e que estabelece, através do cordão umbilical, a comunicação biológica entre a mãe e o filho. O crânio, que
costuma não sair pelo tubo de sucção, é extraído por meio de uma pinça. Partes menores do corpo do bebê podem algumas vezes ser identificadas no material succionado. Quase 95% dos abortos, nos países desenvolvidos, são realizados desta forma.

• Aborto por curetagem e dilatação
— Neste método é utilizada uma cureta (tipo de faca, provida na sua ponta com uma colher de bordas afiadas), com a qual se vai cortando o bebê em pedaços para permitir a sua extração. Durante o segundo e terceiro trimestres da gestação, o bebê já é grande demais para ser extraído por sucção, então utiliza-se este método. A cureta é empregada para desmembrar o bebê, tirando-se em seguida os pedaços com ajuda de um fórceps para dilatar o colo uterino. Este método está se tornando mais usual.

• Aborto por “nascimento parcial”
— Costuma ser designado como aborto por D&X, e é usado a partir da 32ª semana. Este é o método mais espantoso de todos. Costuma ser feito quando o bebê se encontra já muito próximo de seu nascimento. Depois de ter dilatado o colo uterino durante três dias, e guiando-se por ecografia, o executante do aborto introduz algumas pinças que agarram uma perninha do bebê, depois a outra, em seguida o corpo, até chegar aos ombros e braços. Assim se extrai parcialmente o corpo do bebê, como se este fosse nascer, deixando-se a cabeça dentro do útero. Como a cabeça é grande demais para
ser extraída intacta, introduzem-se tesouras na base do crânio do bebê, ainda vivo, e com elas se abre um orifício que dá acesso ao interior do crânio. Então se insere um catéter para succionar o cérebro. Este procedimento faz com que o bebê morra e sua cabeça desabe. Em seguida extrai-se o que resta do bebê, e lhe é cortada a placenta.

• Aborto por operação cesárea ou histerotomia
— Este método é exatamente igual a uma operação cesárea até o momento em que se corta o cordão umbilical; porém, em vez dar os devidos cuidados à criança extraída, deixa-se que ela morra. A cesárea, neste caso, não tem, pois, o objetivo de extrair a criança viva, mas sim de matá-la.

• Aborto com o uso de prostaglandinas
— Esta droga provoca um parto prematuro em qualquer etapa da gravidez. É usado para produzir o aborto desde a metade da gravidez até suas últimas etapas. A principal “complicação” é que às vezes o bebê sai vivo... Também pode causar graves danos à mãe. Recentemente as prostaglandinas têm sido usadas com a RU-486, para aumentar a “eficácia” destas.

• Aborto por pílula RU-486
— Trata-se de uma pílula abortiva — a RU-486 — empregada conjuntamente com uma prostaglandina, que é eficiente se for empregada entre a primeira e a terceira semana depois de faltar a primeira menstruação da mãe. Por este motivo é conhecida também como pílula do dia seguinte. Essa pílula age evitando que o embrião se instale no útero materno, matando-o de fome por privá-lo de um elemento vital, o hormônio progesterona. O aborto acontece depois de vários dias de dolorosas contrações.

25. Existem outras técnicas abortivas?
— Sim, há outras técnicas abortivas mais caseiras, que podem dividir-se em três grupos:
•Por substâncias químicas que variam ao infinito, como a sabina, o fumo, o quinino, as cantáridas, o chumbo, o fósforo e outros que podem levar ao abortamento;
Agentes físicos como o calor e a eletricidade, muito pouco eficientes, e que na maioria das vezes queimam a gestante;
Agentes mecânicos por traumas diretos (quedas, pancadas, massagens, podendo a gestante nesses casos resistir à grande violência, já que seu organismo foi adaptado para proteger o feto, e não para expulsá-lo); ou por traumas indiretos, como “lavagem vaginal”, punção das membranas do ovo, raspagens e aspirações.

Catecismo Contra o Aborto - Pe. David Francisquini; Cap. III: Os métodos de realização do aborto se caracterizam por extrema crueldade.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

''Vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão''


10ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (1Rs 18,41-46)
Responsório (Sl 64)
Evangelho (Mt 5,20-26)

1. <Portanto, quando tu estiveres levando a tua oferta para o altar, e ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão (Mt 5,23)>; eis o que nos ensina o Senhor no Evangelho de hoje.  Foi este trecho que motivou o Papa Paulo VI a (re)introduzir na Santa Missa o rito do "abraço da paz"; não é por formalidades, ou para passear na Igreja, mas para nas proximidades do sublime momento da comunhão, reconciliar-se com o irmão, afim de unir-se ao Senhor de consciência limpa.
(...) no rito da paz: em primeiro lugar, invoca-se de Cristo que o dom da sua paz (cf. Jo 14, 27) — tão diferente da paz do mundo — faça crescer a Igreja na unidade e na paz, segundo a sua vontade; portanto, com o gesto concreto trocado entre nós, expressamos «a comunhão eclesial e o amor recíproco, antes de receber o Sacramento» (OGMR, 82). No Rito romano a troca do sinal de paz, colocado desde a antiguidade antes da Comunhão, visa a Comunhão eucarística. Segundo a admoestação de São Paulo, não é possível comungar o único Pão que nos torna um só Corpo em Cristo, sem nos reconhecermos pacificados pelo amor fraterno (cf. 1 Cor 10, 16-17; 11, 29). A paz de Cristo não pode enraizar-se num coração incapaz de viver a fraternidade e de a reparar depois de a ter ferido. É o Senhor quem concede a paz: Ele dá-nos a graça de perdoar a quem nos tem ofendido. [1]
2. Hoje celebramos a memória de Santa Clotilde; esta santa mulher, que no silêncio mudará a história do mundo. Por intercessão desta piedosa mulher, seu marido, Clóvis rei dos francos, se converteu e, ante as ruínas do Império Romano, gestou aquilo que viria a ser a Cristandade Medieval.


Quantas mocinhas ditas cristãs não largam do marido na primeira dificuldade, e vão aventurar-se em segundas, terceiras, e quartas ''uniões''? Santa Clotilde aguentou o marido até o fim, e fez daquele bruto pagão, um cristão, um rei cristão, sob o qual se edificou uma nova era para a Igreja.

E nós homens? Somos cristãos, honrados, em nada comparados com o animal que era Clóvis pagão? Hum...Mas temos nós, digamos 1% do brio e da coragem daquele homem? Pensemos neste casal francês, atentemos as suas virtudes, e busquemos imitá-las.

Santa Clotilde, rogai por nós!

terça-feira, 12 de junho de 2018

Ecos do Brasil Profundo: Procissão do Santo Viático em Machado de Assis


No Brasil de Machado de Assis o transporte público parava para que os fiéis prestassem honras ao Santíssimo, quando viam o padre sair para levar o Santo Viático para algum moribundo. Nesse país que outrora foi o nosso, após dar a esmola se pedia ao mendigo que orasse ao bem feitor. Se alguém faltasse da missa ao domingo já era mal falado. As elites frequentavam teatros, e discutiam as ópera, traçando analogias entre a música é a revelação. Transcrevo um trecho do romance "Dom Casmurro", onde se descreve alguns destes antigos e piedosos costumes: 
Dom Casmurro - Machado de Assis
Capítulo XXX: O Santíssimo

(...)

— Parece que vai sair o Santíssimo, disse alguém no ônibus. Ouço um sino; é, creio que é em Santo Antônio dos Pobres. Pare, Sr. recebedor!

O recebedor das passagens puxou a correia que ia ter ao braço do cocheiro, o ônibus parou, e o homem desceu. José Dias deu duas voltas rápidas à cabeça, pegou-me no braço e fez-me descer consigo. Iríamos também acompanhar o Santíssimo. Efetivamente, o sino chamava os fiéis àquele serviço da última hora.

Já havia algumas pessoas na sacristia. Era a primeira vez que me achava em momento tão grave; obedeci, a princípio constrangido, mas logo depois satisfeito, menos pela caridade do serviço que por me dar um ofício de homem. Quando o sacristão começou a distribuir as opas, entrou um sujeito esbaforido; era o meu vizinho Pádua, que também ia acompanhar o Santíssimo. Deu conosco, veio cumprimentar-nos. José Dias fez um gesto de aborrecido, e apenas lhe respondeu com uma palavra seca, olhando para o padre, que lavava as mãos. Depois, como Pádua falasse ao sacristão, baixinho, aproximou-se deles; eu fiz a mesma coisa.

Pádua solicitava ao sacristão uma das varas do pálio. José Dias pediu uma para si.

— Há só uma disponível, disse o sacristão.

— Pois essa, disse José Dias.

— Mas eu tinha pedido primeiro, aventurou Pádua.

— Pediu primeiro, mas entrou tarde, retorquiu José Dias; eu já cá estava. Leve uma tocha.

Pádua, apesar do medo que tinha ao outro, teimava em querer a vara, tudo isto em voz baixa e surda. O sacristão achou meio de conciliar a rivalidade, tomando a si obter de um dos outros seguradores do pálio que cedesse a vara ao Pádua, conhecido na paróquia, como José Dias. Assim fez; mas José Dias transtornou ainda esta combinação. Não, uma vez que tínhamos outra vara disponível, pedia-a para mim, "jovem seminarista", a quem esta distinção cabia mais diretamente.

Pádua ficou pálido, como as tochas. Era pôr à prova o coração de um pai. O sacristão, que me conhecia de me ver ali com minha mãe, aos domingos, perguntou de curioso se eu era deveras seminarista.

— Ainda não, mais vai sê-lo, respondeu José Dias, piscando o olho esquerdo para mim, que, apesar do aviso, fiquei zangado.

— Bem, cedo ao nosso Bentinho, suspirou o pai de Capitu.

Pela minha parte, quis ceder-lhe a vara; lembrou-me que ele costumava acompanhar o Santíssimo Sacramento aos moribundos, levando uma tocha, mas que a última vez conseguira uma vara do pálio. A distinção especial do pálio vinha de cobrir o vigário e o sacramento; para tocha qualquer pessoa servia. Foi ele mesmo que me contou e explicou isto, cheio de uma glória pia e risonha. Assim fica entendido o alvoroço com que entrara na igreja; era a segunda vez do pálio, tanto que cuidou logo de ir pedi-lo. E nada! E tornava à tocha comum, outra vez a interinidade interrompida; o administrador regressava ao antigo cargo... Quis ceder-lhe a vara; o agregado tolheu-me esse ato de generosidade, e pediu ao sacristão que nos pusesse, a ele e a mim, com as duas varas da frente, rompendo a marcha do pálio.

Opas enfiadas, tochas distribuídas e acesas, padre e cibório prontos, o sacristão de hissope e campainha nas mãos, saiu o préstito à rua. Quando me vi com uma das varas, passando pelos fiéis, que se ajoelhavam, fiquei comovido. Pádua roía a tocha amargamente. É uma metáfora, não acho outra forma mais viva de dizer a dor e a humilhação do meu vizinho. De resto, não pude mirá-lo por muito tempo, nem ao agregado, que, paralelamente a mim, erguia a cabeça com o ar de ser ele próprio o Deus dos exércitos. Com pouco, senti-me me cansado; os braços caíam-me, felizmente a casa era perto, na Rua do Senado.

A enferma era uma senhora viúva, tísica, tinha uma filha de quinze ou dezesseis anos, que estava chorando à porta do quarto. A moça não era formosa, talvez nem tivesse graça; os cabelos caíam despenteados, e as lágrimas faziam-lhe encarquilhar os olhos. Não obstante, o total falava e cativava o coração. O vigário confessou a doente, deu-lhe a comunhão e os santos óleos. O pranto da moça redobrou tanto que senti os meus olhos molhados e fugi. Vim para perto de uma janela. Pobre criatura! A dor era comunicativa em si mesma; complicada da lembrança de minha mãe, doeu-me mais, e, quando enfim pensei em Capitu, senti um ímpeto de soluçar também, enfiei pelo corredor, e ouvi alguém dizer-me:

— Não chore assim!

A imagem de Capitu ia comigo, e a minha imaginação, assim como lhe atribuíra lágrimas, há pouco, assim lhe encheu a boca de riso agora; vi-a escrever no muro, falar-me, andar à volta, com os braços no ar; ouvi distintamente o meu nome, de uma doçura que me embriagou, e a voz era dela. As tochas acesas, tão lúgubres na ocasião, tinham-me ares de um lustre nupcial... Que era lustre nupcial? Não sei; era alguma coisa contrária à morte, e não vejo outra mais que bodas. Esta nova sensação me dominou tanto que José Dias veio a mim, e me disse ao ouvido, em voz baixa:

— Não ria assim!

Fiquei sério depressa. Era o momento da saída. Peguei da minha vara; e, como já conhecia a distância, e agora voltávamos para a igreja, o que fazia a distância  menor, — o peso da vara era muito pequeno. Demais, o sol cá fora, a animação da rua, os rapazes da minha idade que me fitavam cheios de inveja, as devotas que chegavam às janelas ou entravam nos corredores e se ajoelhavam à nossa passagem, tudo me enchia a alma de lepidez nova.

Pádua, ao contrário, ia mais humilhado. Apesar de substituído por mim, não acabava de se consolar da tocha, da miserável tocha. E contudo havia outros que também traziam tocha, e apenas mostravam a compostura do ato; não iam garridos, mas também não iam tristes. Via-se que caminhavam com honra. 
E pensar que um dia a honra de levar o pálio na procissão do viático causava brigas e disputas. Hoje, tantos morrem sem receber os sacramentos, e mesmo nas procissões públicas do Santíssimo, o povo que acorre é cada vez mais diminuto...Triste saber o quanto decaímos como nação, mas a Fé Naquele que ressuscitou dos mortos, pode também ressuscitar nossa pátria, rezemos e trabalhemos, para que o Brasil Católico de ontem, seja revivificado e transfigurado na realidade do amanhã.

domingo, 10 de junho de 2018

40 Princípios que o tornarão mais inteligente

A maioria desses livrinhos de autoajuda são bem bocós, trazem asneira empacotada para engabelar leitores inexperientes; todavia, fui surpreendido com a obra de I. C. Robledo que, apesar da brevidade e simplicidade da linguagem, trouxe dicas realmente interessantes, para além da baboseira de sempre. 

Com o título “As Ferramentas Intelectuais dos Gênios”, o livro se propõe a expor “40 Princípios que o tornarão mais inteligente”; segue, pois, a listagem dos princípios, que se observados, realmente lhe auxiliarão em sua caminhada intelectual. 
1º Princípio: Não faça suposições.
2º Princípio: Aprenda de vários modos e métodos diferentes.
3º Princípio: Aprenda a ser autossuficiente e a priorizar o que é mais importante.
4º Princípio: Ninguém pesa a importância dos fatos para você. Faça-o sozinho.
5º Princípio: Leia literatura e livros clássicos. 
6º Princípio: Todo mundo está constantemente tentando te vender algo.
7º Princípio: Hábitos de inteligência e aprendizagem podem sempre ser aprimorados.
8º Princípio: O conhecimento que você adquire por conta própria é o mais valioso.
9º Princípio: Leia uma vasta gama de materiais e aprenda amplamente.
10º Princípio: Esteja ciente de onde está vindo o conselho recebido.
11º Princípio: Envolva-se em experiências pessoais com o mundo ao seu redor.
12º Princípio: Valorize o conhecimento e as práticas que têm resistido ao teste do tempo. 
13º Princípio: Pratique o questionamento das coisas da vida que nós tendemos a tomar como certas, normais e sensatas.
14º Princípio: Nós quase sempre temos informações incompletas nas mãos ao tomar decisões.
15º Princípio: Considere perspectivas antagônicas às quais você normalmente possui.
16º Princípio: Você tem responsabilidade total sobre si mesmo. 
17º Princípio: Compare sistemas diferentes e se pergunte como eles são semelhantes ou diferentes.
18º Princípio: Saiba a diferença entre erros e fracassos.
19º Princípio: Não restrinja o seu próprio potencial.
20º Princípio: Use os seus talentos e habilidades para o seu próprio propósito. 
21º Princípio: Muitas ideias são ótimas na teoria, mas falham miseravelmente na prática.
22º Princípio: Todos os pensamentos e planejamentos do mundo são de uso limitado.
23º Princípio: Se você costuma pensar abstratamente, considere a realidade concreta tangível. Se você costuma pensar concretamente, considere o mundo das ideias.
24º Princípio: Esteja consciente dos seus arredores.
25º Princípio: Exercite seu cérebro, agindo como se tudo fosse importante.
26º Princípio: Quando você se deparar com uma palavra ou termo que você não sabe, procure-a. 
27º Princípio: Todos nós acolhemos nossas próprias falsas maneiras de ver o mundo.
28º Princípio: O cérebro precisa de desafios para crescer.
29º Princípio: A vida é emocionante, fascinante e mágica.
30º Princípio: Foque em obter um conhecimento profundo e não apenas na aquisição de partes superficiais. 
31º Princípio: Pense em como você afeta pessoalmente o mundo ao seu redor.
32º Princípio: Registre seus pensamentos e observações.
33º Princípio: Aprenda a praticar de forma eficaz para uma aprendizagem mais eficiente.
34º Princípio: Não sobrecarregue a sua capacidade natural de aprender.
35º Princípio: Quando você obtém uma grande idea, pergunte-se se é a hora certa para executá-la.
36º Princípio: Conheça os seus pontos fortes e fracos, e como fazê-los trabalhar para você.
37º Princípio: Preste atenção nos padrões globais, e nas anomalias que não se encaixam.
38º Princípio: Resista ao desejo de desistir de suas ambições.
39º Princípio: Quando você desiste de um problema e para de procurar as soluções muitas vezes é quando você encontrará a resposta.
40º Princípio: Espalhe o conhecimento, a importância do mesmo, e o amor por ele. 

sábado, 9 de junho de 2018

Quem fundou o Brasil?


Quem fundou o Brasil? A resposta correta: a Coroa portuguesa e a Igreja Católica. O erro: os heróicos líderes das milícias nativas que triunfaram na Batalha de Guararapes. O erro crasso: José Bonifácio, Patriarca da Independência.

A Coroa portuguesa semeou neste território as instituições jurídico-burocráticas existentes no quadrilátero europeu. A Igreja Católica alfabetizou e evangelizou as populações autóctones, os grupos de recém-chegados e a descendência comum de ambos. São esses os fundadores institucionais do País: caso façam questão de cultuar fundadores pessoais imediatos do Brasil, olhem para Martim Afonso de Sousa e para o Apóstolo do Brasil, o jesuíta Dom José de Anchieta. Caso busquem os fundadores pessoais remotos, olhem para Dom Afonso Henriques e para Nosso Senhor Jesus Cristo em Ourique.

A seu turno, o grandioso porém mais limitado papel histórico dos líderes nativos vitoriosos em Guararapes foi a expulsão do alógeno judaico-batavo-calvinista, e com ele do monopolismo predatório e anticatólico do Brasil, impedindo que nossa terra se tornasse um Suriname continental.

Se é assim, por que a neodireita quer vender a tese de que José Bonifácio é o Pai da Pátria? Além do costumeiro revisionismo caça-níqueis que é uma tara entre essa gentalha, o que está por trás de tudo é a pretensão de identificar as origens do País e de seu povo com o mais bem-sucedido pioneiro da utopia vira-lata de inserir o Brasil no paradigma cultural e institucional angloiluminista. Afinal, se convencerem as pessoas de que o passado brilhante do Brasil foi análogo ao dos Estados Unidos, por que a americanização - leia-se protestantização e liberalização -, o suposto retorno às raízes, não poderia vir a ser o antídoto salvador do futuro brasileiro?

Não se enganem: a oposição de Bonifácio ao projeto de subalternização e reengenharia do Brasil acalentado pelas lideranças da Revolução do Porto não estava lastreado na defesa de uma civilização lusocatólica pluricontinental, mas no projeto revolucionário - menos nocivo que o dos liberais exaltados do Porto, certamente - de erigir uma nova civilização brasílica norteada pelo espírito do Iluminismo anglo-saxão. Em outras palavras, Bonifácio queria uma democracia coroada filomaçônica subcontinental em vez do império mercante salvífico lusotropical cujas perspectivas eram pouco conhecidas dos portugueses de além e aquém-mar, mas muito conhecidas (e temidas) pelo avatar britânico da Anglosfera Protestante, o qual não economizou apoios por meio da Maçonaria às manobras que visavam criar distanciamento entre Brasil e Portugal.

#Victor Fernandes

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Contendas Inúteis


9ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (2Tm 2,8-15)
Responsório (Sl 24)
Evangelho (Mc 12, 28-34)

<Recorda-lhes isso, exortando-os diante de Deus a deixarem de discutir com palavras, coisa que não traz proveito, mas só a perdição para os que escutam (2Tm 2,14)>; é o que diz São Paulo a São Timóteo. A tradução do Pe. Matos Soares[1] fala do evitar contendas, discussões inúteis e infrutíferas. Tantas vezes nos metemos nisso, não? Sobretudo em tempos de Facebook, quantas horas já não gastei em “tretas”, algumas vezes sobre assuntos vãos, que proveito algum traz a ninguém. Evitar as contendas inúteis, as discussões que não trazem proveito, uma recomendação simples, eis pois a ordem que nos dá a liturgia hoje, uma tarefa extremamente prática e concreta para ser aplicada a ser aplicada no agora de nossa vida cotidiana. 

[1] Costumo usar a tradução da Vulgata do André Pe. Matos Soares nas meditações, mas optei hoje por citar no post o texto da Bíblia do Peregrino, pela maior clareza com que as palavras esclarecem o versículo em questão.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Escândalo para os românticos


9ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (2Tm 1,1-3.6-12)
Responsório (Sl 122)
Evangelho (Mc 12,18-27)

1.<(…) e me lembro de ti sem cessar nas minhas orações, de noite e de dia. (2Tm 1, 3b)>; São Paulo reza por Timóteo. Assim deveria ser conosco, com todos nós irmãos de Fé, devemos sempre nos recordar uns dos outros e rezar, precisamos rezar, precisamos da intercessão de nossos irmãos para que Deus nos dê a sua graça, pois por nossas forças apenas vacilaremos, cairemos, seremos inconstante na aliança e nos precipitaremos por nossa própria culpa no fogo do inferno. Precisamos portanto de ajuda, não é atoa que Igreja se organiza em comunidades.

2. O Evangelho de hoje é um escândalo para os românticos: <Na ressurreição dos mortos, os homens não tomarão mulheres, nem as mulheres maridos, mas serão como anjos nos céus (Mc 12, 25)>. Normalmente quando se é jovem, tende a se idealizar os relacionamentos afetivos, o mito pagão da alma gêmea ainda inspira tantos poemas e músiquinhas bobocas; o jovem adora sua amada quase como uma divindade; tolas ilusões da juventude! A aliança aqui forjada e santificada entre homem e mulher no sagrado matrimônio tem um fim: o céu. Como companheiros de viagem, que se encontram pelo meio do caminho da vida, e formam um pacto para prosseguir juntos. O marido deve ajudar sua mulher a chegar ao céu, e a mulher ajudar seu marido, e ambos ajudarem seus filhos; o céu é o destino final, é importante ter isso em vista, pois, uma vez que se esquece das realidades eternas, e essa vida temporal passa a ser um fim em si mesmo, o resultado não será outro senão a frustração, pois essa terra de exílio jamais será como o paraíso que ansiamos, e a companhia dos mortais jamais será tão reconfortante quanto o convívio com o Divino. 

Pensemos nisso, no recado dado hoje pela liturgia, rezemos pelos nossos irmãos, e aqueles vocacionados a vida familiar, rezem, rezem muito por seu conjugue, para que cumpram a finalidade do matrimônio, santificando-se mutuamente, e cheguem juntos ao céu.

terça-feira, 5 de junho de 2018

“Digamos que eu prefiro o cardeal Burke”

Enquanto a Inglaterra continua a atuar como filial do inferno na Terra, agora obrigando garotos a usarem saias afim de promover o feminismo nas escolas, vemos indícios de uma restauração tradicional ecoando sobre o globo. Na Rússia, um grupo organizado de patriotas anunciou que não irá permitir que a Copa do Mundo seja usado pelo lobby gayzista, e que voluntariamente colaborará com as autoridades locais afim de impedir manifestações públicas de sodomia durante o evento

Mas a melhor notícia da semana veio da Itália. Lorenzo Fontana, o novo ministro italiano da Família, têm deixado os globalistas em desespero. Católico, adepto de uma espiritualidade tradicional, Lorezo teve a coragem de bater de frente ante a agenda gayzista: "Sou católico, não escondo isso. E por esse motivo acredito e digo que as famílias são as naturais, onde uma criança deve ter um papai e uma mamãe"; o novo ministro também declarou ser uma de suas prioridades "convencer as mulheres a não abortarem". Nos meios intraeclesiais as declarações de Lorenzo tem ecoado e causado certo rebuliço; quando perguntado se gostava do Papa Francisco, Fontana disse: “Digamos que eu prefiro o cardeal Burke”

Que o exemplo italiano e russo impulsione também a luta católica pela reconquista desta Terra de Santa Cruz, pelo Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo. 
Viva Cristo Rei!

***

Para maiores detalhes sobre o lobby gayzista e sua ação no globo, convido o leitor a acompanhar o vídeo abaixo; SODOMA um documentário russo proibído em diversos países que descreve o papel do movimento gayzista para a agenda da Nova Ordem Mundial e seus efeitos nefastos sobre a sociedade.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Quatro expectativas ante à intelectualidade católica

Recentemente estava lendo a obra “Natureza e Missão da Teologia” do outrora Cardeal Joseph Ratzinger; embora destinada propriamente a teólogos, há ali muitos preciosos conselhos úteis a todo “intelectual” católico. 

Comecemos por definir a Teologia. A Teologia é um discurso sobre o todo, assim como a filosofia, diferindo porém pelo fato da aceitação íntegra da Revelação; desta forma é a Teologia uma reflexão sobre o todo a partir do dado revelado. Há, pois, dois movimentos no interior da ciência sagrada, por um lado interno, dessa Fé que busca melhor compreender a si mesma, penetrar mais profundamente em seus mistérios; por outro externo, o qual seguindo o conselho de São Pedro (1Pd 3, 15), busca responder aos questionamentos dos não crentes a respeito das razões de nossa fé. Ratzinger também elenca as expectativas do mundo com relação ao teólogo, espera-se ao mesmo tempo que este possa contribuir para o diálogo entre as religiões, na confecção de uma espécie de moral global por um mundo melhor e de paz, bem como que possa trazer algum consolo as almas com sua palavra e seus estudos.

Pensemos um pouco sobre estes pontos:
1. Aprofundar a compreensão de nossa Fé;
2. Responder aos questionamentos “do mundo”;
3. Contribuir para o diálogo em prol de um “mundo melhor”;
4. Oferecer consolo as almas.

O primeiro ponto é, pois, uma vocação de todo o católico; a Fé é um mistério tão grande, tão sublime, tão belo, que sentimo-nos impelidos a melhor compreendê-la a fim de vivê-la melhor, a própria natureza do amor pede isso, quanto mais se ama, mais se quer conhecer o amado. Esta compreensão não é apenas uma intelectualidade seca, mas uma forma também de espiritualidade. Neste sentido se compreende que não existe verdadeiro teólogo, verdadeiro intelectual cristão, sem uma vida espiritual, sem uma “experiência de fé”. E dessa experiência, desse conhecimento contemplado, surge a necessidade da partilha, de colocá-lo a serviço, primeiro a comunidade, aqueles que estão mais próximos de nós, daí que o quarto ponto, o oferecer consolo as almas, é consequência direta do primeiro. 

O segundo ponto marca nossa caminhada e combate sobre a terra. Sabemos que a Revelação é verdadeira, a mais profunda verdade sobre o Ser, e temos o dever de comunicar essa verdade, de disputar com aqueles que não creem, responder suas vãs objeções e dar as razões de nossa fé. É a Apologética Cristã. Mas esse responder as indagações não diz respeito apenas a apologética, muitas vezes essas indagações questionam não os motivos de nossa Fé, mas nosso agir, como deveria ser o agir cristão diante de novas situações que se apresentam, como por exemplo o advento de novas tecnologias como a Genética e a Robótica, as propostas político-ideológicas, etc.

O terceiro ponto diz respeito as exigências de César. São as ideologias que governam o mundo querendo a resposta da religião, não em termos de Verdade, mas em termos de utilidade. Como a Igreja pode contribuir para “construir um mundo melhor”; e mais, a questão em Ratzinger se coloca de forma restrita, exige a aceitação do pluralismo religioso, não se põe em questão se deve ou não haver um diálogo entre as religiões, mas se afirma, e se pede da Igreja, do teólogo, do intelectual cristão, sua contribuição. Ratizinger acredita que é possível responder a estas indagações de César, esse ”ultimato” político, sem sacrificar a verdade, é possível dialogar, conviver neste mundo pluralista sem renunciar a nossa identidade, sem a cair na tentação do relativismo, defende o cardeal, embora reconheça as dificuldades desta missão. Diferente do Cardeal Ratzinger, eu (que não sou grande coisa) penso que não se pode aderir a este projeto pluralista, antes deve-se buscar a hegemonia católica, a extinção das falsas religiões; neste sentido tal diálogo deveria ter em vista sempre a conversão dos infiéis, e não uma diplomacia estéril, nem a adesão à um projeto de mundo liberal-maçônico. Mas, seja como for, ainda permanece o questionamento sobre o papel civilizacional da Igreja; como ela pode contribuir para a sociedade, seja a sociedade moderna, ou quem sabe um projeto de sociedade futura e tradicional.

Mesmo fora do rigor do método teológico, estas quatro questões são uma constante na vida intelectual de qualquer católico, seja qual a for sua especialidade ou área de atuação, e a resposta a elas define os rumos de nossa vida e nosso pensamento.