quarta-feira, 20 de junho de 2018

Breve História do Sionismo

O Sionismo: Um Messianismo Anticristão

Então o que é, exatamente, o sionismo? 

Para compreendê-lo é necessário entender o proto-sionismo. 

Durante os anos de exílio judaico - do ano 70 D.C. em diante - os israelitas experimentaram um desejo de retorno a Canaã. Pensadores e religiosos judeus que se expressaram em obras escritas, mostravam o desejo ancestral de retornar às suas raízes históricas através da volta para Canaã. A "nostalgia de Sião" se manifestou claramente nos discursos de diversos místicos judeus surgidos ao longo dos séculos de duração da Diáspora, como Sabbatai Zevi, no século XVII, passando pelos poemas de Yehudah Halevi e por vários místicos. Todos tendiam a dizer que o exílio vivido pelo povo seria similar ao da Babilônia, uma grande provação onde, depois de um grande sofrimento, o povo voltaria a Canaã, o que inauguraria a era messiânica. Cabe dizer que os judeus, por negarem a Jesus a condição divina de Filho de Deus, rechaçam que já estaríamos em plena era messiânica, na era da graça onde se prepara a terra definitiva, o reino celestial do Pai para os fiéis em Cristo. Eles esperam, portanto, o desencadear de uma salvação e de um redentor. No passado os judeus chegaram mesmo a crer que Zevi era o Messias. Mas sua conversão ao Islão em 1666 frustrou as expectativas. 

O sionismo se delineou de vez com o nacionalismo judaico do século 19, onde pensadores judeus secularizados - para os quais a prática religiosa já não tinha tamanha importância e que insistiam numa identidade judaica com base nos pressupostos da liberdade/igualdade da revolução francesa e americana - começaram a defender um lar judeu, um Estado como base de autoafirmação do povo. Moses Hess, neste sentido, teve um papel muito destacado. Hess focava a história da humanidade a partir das noções de luta de raças e nacionalidades. Preconizou um socialismo sionista - Hess foi colaborador de Karl Marx - onde idealizava uma sociedade futura perfeita, em que terra seria colonizada por judeus operosos, um Estado Ideal, a Israel Restaurada mas sob os auspícios socialistas. Segundo Hess esse novo Estado seria a forma futura da sociedade humana na sua mais elevada perfeição. E este Estado seria Israel. Israel - o Estado - seria então o Messias da Humanidade. Hess afirmou que a história marcha sobre a influência do Espírito para um novo Éden. Quem teria o papel de realizar este feito seria nada mais que o povo judeu organizado num Estado. Estas idéias foram absorvidas por Theodor Herzl, fundador do movimento sionista em 1897 com o fito de criar tal Estado. A idéia era organizá-lo em torno da migração possibilitada pela compra de terrenos na Palestina e, depois, criar os Kibutz, terras comunais que misturavam elementos socialistas e nacionalistas. Os kibutz foram a base da migração e da colonização judia da Palestina a partir de 1900 quando judeus começaram a colonizar a região para forçar a criação de um Estado Judeu na área. 

Havia, é verdade, várias facções entre os Kibutzim - membros dos Kibutz, judeus que vinham de vários lugares do mundo para colonizar a terra dentro de um modelo de terra comunal - mas a maioria era socialista; em 1927, alguns novos Kibutzim fundados pelo Hashomer Hatzair uniram-se para formar uma associação de alcance nacional, Kibutz Artzi. Por décadas, Kibutz Artzi seria a esquerda dos Kibutzim. Em 1936, a Federação do Kibutz Artzi fundou seu próprio partido político chamado a Liga Socialista da Palestina mas popularmente conhecida como Hashomer Hatzair. Fundiu-se com outro partido de esquerda para se tornar Mapam (o atual Meretz) tão logo o Estado de Israel se estabeleceu. Os Kibutzim da Artzi eram devotados à igualdade dos sexos. Uma mulher de um Kibutz da era dos anos 1920-1930 chamaria seu marido ishi — "Meu homem" — ao invés da palavra usual hebraica, ba'ali, que, literalmente, significa "Meu mestre". Os Kibutzim do Kibutz Artzi eram seculares, mesmo firmemente ateus, orgulhosamente tentando ser "monastérios sem Deus". A maioria dos Kibutzim da corrente principal também desdenhavam o Judaísmo Ortodoxo de seus pais, mas eles queriam que suas novas comunidades tivessem características judaicas mesmo assim. As noites de Sexta-feira ainda eram Shabat, com um pano de mesa branco e comida de qualidade, e trabalho não era feito aos sábados se pudesse ser evitado. Mais tarde, alguns Kibutzim adotaram o Yom Kipur como o dia para discutir receios em relação ao futuro do kibutz. Os Kibutzim também tinham bar mitzvá coletivos para suas crianças. Embora os kibutzniks não rezassem diversas vezes ao dia, marcavam festividades como Shavuot, Sucot e Pessach com danças, banquetes e celebrações. Um feriado judaico, Tu B'shvat, o "aniversário das árvores" era substancialmente revivido por Kibutzim. Em todos eles, feriados com algum componente natural, como Pessach e Sucot, eram os mais importantes para os Kibutzim. Logo, os Kibutzim era uma síntese de secularismo, religião e socialismo. Neste sentido a ideologia dos Kibutzim tendia ao Utopismo Comunista. O espiritualismo dos pioneiros do movimento Kibutz consistiam de sentimentos místicos sobre trabalho judaico, articulados por sionistas como Berl Katznelson, que disse, "onde quer que o trabalhador judeu vai, a divina presença vai com ele." É redenção pelo trabalho. Em adição à redenção da nação judaica através do trabalho, também havia um elemento de redenção de Eretz Yisrael, Palestina, na ideologia do Kibutz. Os membros do Kibutz tinham prazer em trazer a terra de volta à vida plantando árvores, drenando pântanos e incontáveis outras atividades que fizeram com que a terra ficasse mais fértil. Quando solicitavam doações, os Kibutzim e outras atividades de assentamento sionistas apresentavam a si mesmas como "fazendo o deserto florescer". A idéia do deserto que floresce é fundada na benção que o trabalho da mão judaica traz ao mundo: seria como se só esta mão pudesse trazer a redenção a terra e mais nenhuma. 

Logo podemos ver que a base fulcral da organização social dos judeus na Palestina antes da fundação do Estado de Israel é uma estrutura utopista de fundo socialista. O que é bastante interessante pois a nova direita brasileira que postula uma defesa férrea de Israel, considera qualquer relação com o socialismo como abjeção política, como totalitarismo, identificando-o com o império do mal; porém quando se trata do socialismo subjacente à formação de Israel há um silêncio absoluto. A pergunta é: por quê? 

A Teologia do Sionismo

Os religiosos que aderem ao sionismo consideram o projeto de Herzl não um objetivo humano mas expressão da vontade divina. Segundo a teologia do sionismo o movimento trouxe uma nova época para a história humana, ligada a liberação dos três juramentos e pelo fim da passividade política dos judeus. Segundo tal teologia o Estado de Israel é a materialização das promessas dos profetas do AT. Vejam que, dentro de uma visão cristã, tais promessas se efetivaram em Jesus Cristo e na Igreja. Deste modo um cristão que adere e apoia o Estado Israelita, flerta com a apostasia. O rabino Avraham Kook, que foi o primeiro rabino chefe da comunidade local que se formava no meio dos Kibutz, antes da fundação do Estado, chegou a dizer que “o Estado de Israel será a base do trono de Deus no mundo”. Segundo Kook mesmo os sionistas seculares, que não compartilhavam da visão religiosa dele, ajudavam na redenção pois construíam a base material para a era messiânica. Comparou-os aos pedreiros estrangeiros do Templo de Salomão, que construíam sem saber a verdadeira função do santuário. Ainda para Kook a redenção só se desencadearia quando os sionistas reconhecerem o sentido espiritual de sua atividade. Com o Holocausto e a criação de Israel os religiosos sionistas, antes marginalizados dentro da religião judia, passaram a ter respeitabilidade e a receber apoio de outros setores religiosos do judaísmo talmúdico. 

O filho de Kook, Yehuda Kook, virou o líder do processo de colonização judaica da Cisjordânia. Para Yehuda, que virou a liderança espiritual dos colonos, incentivou a não retirada já que “estando na era messiânica, não se pode ceder nenhum quilômetro de terra, devemos acumular conquistas”. Desde a ocupação em 1967 até 1993, os palestinos da Cisjordânia estiveram sob a administração militar israelense. Sobre a Cisjordânia, em diversas ocasiões, Israel instaurou a plena administração militar sobre a área que é disputada com os palestinos. Após a Segunda Intifada, o governo israelense iniciou a construção do chamado "Muro da Cisjordânia", que avança sobre o território da Cisjordânia. A posição de Yehuda foi muito importante para legitimar as ações violentas de Israel na região o que mostra que o fundo teológico do sionismo trabalha para justificar as pretensões do Estado de Israel e o massacre e expulsão de populações palestinas.

O Holocausto também influenciou na transformação da postura ortodoxa frente ao sionismo. Primeiro é preciso que se diga que segundo o Talmud e outras fonte rabínicas, o povo judeu e as nações do mundo fizeram três juramentos ante Deus, no início do exílio judaico do ano 70: os judeus prometeram não forçar a volta à Terra do Israel antes do tempo messiânico (“não subir os muros”) e não se revoltar contra os povos entre o quais viviam exilados; já as demais nações juraram não maltratar os judeus “em demasia”. O Talmud da Babilônia, Tratado Ketubot 111a, traz o seguinte: “Três Juramentos: Um, que Israel não suba os muros; o segundo, que [Deus] fez Israel jurar que não se rebelaria contra as nações do mundo; e o terceiro, que [Deus] fez os idólatras jurarem que não oprimiriam Israel em demasia”. Os Três Juramentos, foi o que, durante os séculos de exílio, barrou a migração judia de duas maneiras: como consolo para a difícil situação existencial vivida pelos judeus e como bloqueio moral contra movimentos messiânicos de imigração em massa para a Terra de Israel. No judaísmo medieval em terras muçulmanas, entre os anos 600 e 1100 DC, a imigração judaica para a Terra de Israel foi fenômeno raro. Porém, logo em seguida, vemos Maimônides utilizando os Três Juramentos para tentar impedir um movimento de imigração de tendência messiânica que aflorou na comunidade judaica do Iêmen. No século XIII, outro rabino de renome, Moshe ben Nachman, o Nachmânides, deixou sua comunidade em Girona (Espanha) e imigrou para a Terra de Israel. Ele foi o primeiro a legislar que assentar-se na Terra Santa era um mandamento divino para o indivíduo judeu. De tendência cabalista, Nachmânides sublinhou o significado místico da vida religiosa na Terra de Israel e decretou que a imigração era uma “mitzvah positiva que todos estão obrigados, para todas as gerações, mesmo em época de exílio”. Assim surgiu no judaísmo a distinção entre a louvável imigração individual à Terra de Israel por motivos religiosos e a condenável imigração coletiva, que desafiava os Três Juramentos. No século XV, uma nova onda de imigração judaica, levou a uma repetida condenação baseada nos Três Juramentos. Apesar de tudo isso é para ressaltar que a proibição de imigração derivada dos Três Juramentos sempre teve caráter mais ideológico e teológico do que legal no judaísmo. A proibição não chegou a ser incorporada realmente no corpus legal rabínico. Diga-se que o precursor da posição da ortodoxia anti-sionista foi o rabino húngaro Chaim Elazar Shapira (1872-1937). Para ele, a imigração de judeus em massa para a Terra de Israel, ainda mais sob a liderança de não-religiosos como os sionistas, representava a condenável ação de forçar o Final dos Tempos; em sua visão, os judeus deveriam esperar pacientemente por intervenção divina e ser totalmente passivos do ponto-de-vista político. A imigração à Terra de Israel somente poderia acontecer na era messiânica, quando ocorreria de forma supranatural. O rabino Shapira 322 via a Terra de Israel como um lugar único no mundo, dotado de uma sacralidade imensa. Inspirado pela mística judaica, afirmou que a Terra Santa é um lugar especial onde acontece uma luta frontal entre forças divinas e satânicas. Viver ali representaria até um perigo de vida para o judeu “mediano”. Se este pecasse na Terra de Israel, deveria esperar um castigo divino bem mais rigoroso do que se transgredisse fora dela. Nem mesmo seus discípulos tinham estatura moral para viver ali e Shapira advertiu-os, em 1937, a não imigrar para a Palestina. 

Mas tudo mudou quando os judeus começaram a se questionar se a criação de Israel estaria assinalando, pelo menos, o começo da redenção. O Holocausto aumentou ainda mais a perplexidade ortodoxa frente ao fenômeno sionista. Haveria algum significado religioso entre a destruição do judaísmo europeu e a criação do Estado de Israel, logo em seguida? O massacre dos judeus europeus poderia ter sido um castigo divino motivado justamente pela proibição de “subir os muros” ou antes uma recompensa pelo sofrimento do holocausto? Então começou a nascer – como mostramos acima – uma linha de pensamento que passou a ver o “holocausto” como o sofrimento que prepara a redenção e a era messiânica; desta forma o “holocausto” passou a ser considerado como um sinal escatológico. 

O rabino Zvi Yehuda Hacohen Kook (1891-1981) continuou a linha do pai Avraham Kook e levou-a até seus limites. Em 30 anos de atuação, influenciou a formação do grupo político-religioso Gush Emunim (“Bloco dos Fiéis”). Yehuda vai se valer do conceito teológico para justificar o apoio ao Estado de Israel que diz respeito ao processo messiânico. Sobre a era messiânica o judaísmo traz dentro de si diferentes visões sobre este processo e a ala ortodoxa sionista esposou uma delas, segundo a qual não há necessidade de um Messias na etapa inicial do processo. A redenção acontecerá em etapas, afirmam, culminando no aparecimento desta personalidade histórica (Messias) apenas num estágio posterior, após uma série de fases vencidas, para fechar o processo. Nesta etapa inicial o Estado de Israel é fulcral, dizem. 

Aqui entra uma questão importante: a de que a linha de Yehuda virou a fonte basal da política de Estado de todos os governos de Israel no que tange a não concessão de territórios aos árabes-palestinos. Para Zvi Yehuda, os Três Juramentos talmúdicos que proibiam a imigração em massa à Terra de Israel foram abolidos por decreto divino. Ele afirmou: “Não somos nós, de carne-e-osso, que agimos para forçar o Final dos Tempo, mas sim o Dono da Casa, o Senhor do Mundo, que está nos forçando; não é a voz de uma pessoa de carne-e-osso, mas sim a voz do Deus Vivo que destruiu o muro que deixou de nos separar de nossa terra, convocando-nos: ‘Subam’. 

Segundo o rabino, já não se trata mais de discutir se o Estado de Israel representa ou não o início da redenção. Numa declaração feita após a Guerra do Yom Kipur (1973), o rabino afirmou que a humanidade já se encontrava no interior do processo messiânico: “Há pessoas que falam que vivemos o início da redenção (…) mas temos que ver com olhos abertos que já estamos no meio da redenção (…) O início foi há mais de cem anos, quando recomeçou o assentamento judaico na Terra de Israel”. Na concepção de Zvi Yehuda, o Estado de Israel, como elemento fundamental do processo de redenção, ganha contornos extraordinários. “O Estado (de Israel) é todo santo, sem nenhum defeito. O valor deste Estado não está condicionado à quantidade de observantes dos mandamentos que vivem em seu interior. Claro, a aspiração é que todo o povo se ligue à Torá e aos mandamentos, mas este Estado é sagrado de qualquer maneira”. 

A teologia de Zvi Yehuda levou-o a se posicionar contra qualquer concessão territorial aos vizinhos árabes. Para o rabino, sua posição política era reflexo do desejo de Deus. “O Todo-Poderoso tem uma política própria. E, de acordo com ela, processa-se a política aqui de baixo. Parte da redenção é a conquista da terra e o assentamento nela. Esta é a determinação da política divina, que nenhuma política aqui de baixo pode contrariá-la”. Exatamente esta política que o Estado de Israel vem aplicando faz décadas, inclusive afastando cristãos de cidades sagradas como Belém onde, há 20 anos atrás, tínhamos 80 por cento de população cristã. Hoje são só 35 por cento. Em Jerusalém a seis décadas os cristãos eram 20 por cento da população. Agora são 2 por cento apenas. 

Embora ourtos grupos ortodoxos como o Agudat e o Lubavitch não partilhem da mesma visão dos seguidores de Yehuda, ambos legitimam o Estado de Israel como algo que melhora o estado material dos judeus embora não liguem o Estado de Israel, diretamente, a redenção. O Agudat – que virou um partido - desde a década de 90, têm se aproximado da direita política em Israel. Porém posição do Lubavitch e do Agudat não devem ser entendidas como um distanciamento absoluto da posição de Yehuda. Para estes grupos, os eventos políticos do último século podem ser vistos como sinais de intervenção divina e até mesmo uma janela de oportunidade para a tão-esperada redenção, de modo que, queiram ou não, o Estado de Israel passa a ser visto, mesmo pelos judeus ortodoxos como ou um elemento da redenção, ou algo que abre caminho para ela: em suma, algo que diz respeito ao DOMÍNIO UNIVERSAL DOS JUDEUS E DO SEU FALSO MESSIAS. 

#Rafael Queiroz

*Texto originalmente publicado no site Catolicidade em 02/06/18 e, parcialmente, aqui transcrito com pontuais alterações.

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