sábado, 16 de junho de 2018

Ciência de Garagem e o Pós-Humano


O filósofo russo Aleksandr Dugin em sua obra ''A Quarta Teoria Política'' fora capaz de prever as novas abominações decorrentes da lógica interna do liberalismo. Depois de “libertar” o homem de seus compromissos com a tradição, com a família, com Deus e religião, depois da monstruosidade da ideologia de gênero, que busca abolir as diferenças entre os sexos, o próximo passo é o pós-humano, a “superação” das fronteiras entre as espécies, e a criação de quimeras humanas e cyborgs.
Politicamente: há tendências muito importantes na política global que definem a transição. O ápice do pensamento político da Modernidade foi a vitória do liberalismo sobre as doutrinas políticas alternativas da Modernidade: fascismo e socialismo. O liberalismo foi global e se tornou o único sistema político possível. Está progredindo agora em direção ao conceito pós-moderno e pós-individual de política, geralmente descrito como pós-humanismo. Os EUA novamente desempenham aqui o papel fundamental. A forma de política promovida globalmente pelos EUA é democracia liberal. Os EUA apoiam a globalização do liberalismo, assim preparando o próximo passo para o pós-modernismo político como descrito em Império, o famoso livro de Negri e Hardt. Subsiste alguma distância entre o ultraindividualismo liberal e o pós-humanismo propriamente pós-moderno, promovendo a cibernética, modificações genéticas, clonagem e as quimeras. 
Os primeiros passos desta monstruosidade “pós-humana” já começam a ser trilhados: nos EUA têm crescido e se popularizado cada vez mais o movimento conhecido como "biohacking"[1], em que jovens realizam experiencias moleculares avançadas, até então restritas a grandes laboratórios, na garagem de casa, usando a si mesmo como cobaias. A ''biohacker'' Jésika Foxx, por exemplo, alterou a cor de seus olhos para roxo, bem como deu a suas orelhas um formato pontudo, como de ''elfos'' em seus bizarros experimentos. Já Aaron Traywick, uma celebridade no meio, acabou não tendo tanto sucesso, morrendo vítima de suas próprias experiências[2].

Lâmpadas LED implantas por baixo da pele por biohackers.

Apesar do perigo, a ideia de uma ciência não acadêmica é extremamente empolgante! Tirar da burocracia universitária o monopólio laboratorial e dar ao homem comum a possibilidade de explorar as potencialidades da técnica, vai bem de encontro a minha proposta de democratização da tecnologia[3]. O caso de 2013, em que uma missão para se criar uma planta brilhante através de engenharia genética conseguiu arrecadar quase meio milhão de dólares pelo Kickstarter (um site de financiamento coletivo)[1], é um feliz exemplo das oportunidades que oferecem este incipiente arranjo (não)institucional. Todavia, ainda é algo distante da realidade brasileira, onde os equipamentos são caros e sua comercialização altamente regulamentada, diferente do que tem ocorrido nos EUA, além é claro, do fato de que , em geral, o brasileiro não tem está cultura cientifica autodidata bem desenvolvida.

O preocupante, porém, é essa ideia de superar o humano, brincar de Criador. Se a tatuagem já e visto por muitos como um pecado de profanação do próprio corpo, o que dizer dessas modificações a nível mais avançado? Me parece um reencenar do pecado de nossos primeiros pais, que na busca de sua autodivinação, acabaram por destruir-se a si mesmos, e repassar a chaga a seus descendentes. Todavia é uma realidade complexa, a qual o juízo moral não é tão fácil quanto aparenta. Se a Igreja permite modificações cirúrgicas humanas com fins de saúde, e mesmo não estabeleceu nenhum anátema contra a transgênia vegetal, condenaria a priori o biohacking? Não seria possível separar a técnica da ideologia; ou ambas estão tão simbioticamente associadas, que uma implica a outra? Até que os teólogos concluam seus estudos a respeito e o magistério se pronuncie, continuemos nós a observar, com cautela e apreensão.

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