sexta-feira, 20 de julho de 2018

Da tal "vida intelectual"

Não gosto muito do termo “vida intelectual”, parece-me sugerir uma vida alternativa desconexa com o mundo real. É certo que para muitos escritores, como bem observou Mishima, as letras tornam-se uma espécie de terapia, ora uma fuga da realidade, ora uma máscara para lidar com ela. É a literatura dos românticos, depressiva, patética, não todavia destituída de qualidades; por vezes nesse deleitar-se na própria miséria há o manifestar de uma paradoxal beleza da alma humana. 

Alguns falam da intelectualidade de modo místico, quase que religioso, a função desta “outra vida” seria a busca e contemplação da verdade por si mesma. Poético, não? Diria eu quase que “monástico”. Mas, não nasci monge, e a esta pura contemplação, faz-se necessário a meus tolos ouvidos laicais certa inquietude do agir. Mas como seria tal agir? Para tantos o caminho óbvio é a política, que no atual contexto cultural e civilizacional se mostra um empolgante campo de batalha, uma arena de guerra. Nesse front, porém, a ação vem primeiro, e as letras tantas vezes devem resignar-se ao pragmático, ao possível, ao conveniente. Só há lugar para o ideólogo e o marqueteiro; vez ou outra para o jornalista xereta, quando este intrometido expõe as chagas do inimigo. Por mais úteis que sejam ao partido, tais figuras maltratam este instrumento criado para tornar manifesto o real. 

Existe ainda um terceiro caminho, a formação, o caminho do ensino, onde as palavras formam o novo homem, dão sentido, rumo e direção a vida e a existência. Um grande serviço à civilização, digno de louvores e honrarias. A emoção do combate, todavia, é a maior das honrarias que se pode esperar neste lugar de desterro…

Contemplo a figura dos profetas do Antigo Israel. Que eram estes homens? Encrenqueiros Sagrados. Homens escolhidos por Deus para manifestar o real, para com o uso do verbo dissipar as trevas da mentira, derrubar os ídolos e aborrecer os poderosos. Não, um escritor não é um profeta, sua missão é bem mais modesta, seus escritos serão consumidos pelas areais do tempo e seu nome esquecido, diferente daqueles israelitas, os quais ecoam sua voz pelos séculos a anunciar o Cristo que veio, e virá ainda uma vez mais. Mas, esse serviço à verdade, e tal disposição a arrumar encrenca, quem sabe isso não possa ser imitado? De fato é o que busco para a minha tal “vida intelectual”: o serviço a Cristo na expressão da verdade e destruição da idolatria ideológica. Um objetivo demasiado grande e ambicioso para esse pobre miserável que sou, mas vamos ver onde isso termina...

Kyrie Eleison...

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