quarta-feira, 11 de julho de 2018

De Volta ao Digimundo: Considerações sobre Adventure Zero Two (I)

Digimon Adventure Zero Two, ou simplesmente Digimon 02 é a sequência direta de Digimon Adventure massacrada pela crítica. Ninguém gosta muito de Zero Two, nem mesmo a Toei, uma vez que em Digimon Adventure Tri fez questão de ignorar os desenvolvimentos da temporada anterior, bem como sumir da maneira menos escandalosa possível, com os digiescolhidos da segunda geração. Seria justificada essa má vontade? Seria de fato Zero Two um desastre? 

De certo modo, em Zero Two alguns dos encantos da primeira temporada se perdem. O desconhecido e apavorante digimundo agora já é comum e amigável, a incerteza do vagar por um mudo desconhecido é substituída pela segurança de poder entrar e sair quando bem entender. A presença, dos digiescolhidos anteriores como tutores, alivia muito dos dramas e inseguranças dos novos escolhidos: Daisuke, Iori, Miyako. É interessante ver o desenvolvimento dos personagens iniciais após a jornada no mundo digital, seu amadurecimento e como os dramas de outrora foram totalmente superados. Uma das imagens mais marcantes desse desenvolvimento, a meu ver, é a cena em que Takeru sai no soco, literalmente, com o Digimon Kaiser; o antigo garoto chorão de fato se tornara um homem capaz de brigar para proteger a si mesmo e seus companheiros. Aliás, todo esse desenvolvimento dos personagens foi ignorado em Adventure Tri: no intuito de explorar a nostalgia da série primeva, muito esforço foi feito no intuito de aproximar a personalidade dos protagonistas ao drama da primeira temporada. Ainda sobre as transformações dos personagens, não é só as crianças que mudam, mas também os adultos, chamou-me atenção a figura do pai de Yamato, que na primeira temporada era retratado de forma heroica e estilosa, terminando a saga Vandemon/Myotismon evocando o arquétipos film noir, se mostra em Zero Two velho, cansado, e um tanto caricato. Seria uma representação do dramático processo da velhice, e das transformações da figura dos pais aos olhos dos filhos? Todavia, apenas as transformações dos personagens anteriores não bastam para sustentar o ritmo de Digimon… 

Os novos protagonistas, salvo Daisuke, não tem tanto carisma quanto os anteriores, e passam a maior parte da primeira saga como que apagados. Ao espectador importa mais rever os digiescolhidos originais do que empolgar-se com as novas gerações. As novas digievoluções “armor shinka” também decepcionam: são meio bobinhas e feias, tanto que assim como Takeru e Patamon, o espectador entra em euforia quando vê de volta a cena Angemon, ao invés do sem graça Pegasumon. O tom de comédia, porém, é mais presente, o amor juvenil de Daisuke por Hikari e sua disputa com Takeru realmente arranca boas rizadas, bem como o contraste entre as relações de irmandade de Daisuke. Se Takeru e Yamato, Taichi e Hikari, eram extremamente próximos, Daisuke é distante de sua irmã...Contraste esse que até provoca a ira de Yamato em um dos episódios, que ameça uma briga com Daisuke; estamos diante da difícil experiência da alteridade, onde a pessoa se dá conta de que as experiências e valores que recebeu em sua família, não são vividos e compartilhados por todos. 

Há pontos negativos fortes, faltas em relação a primeira temporada, e alguns poucos pontos positivos que tornam difícil a afirmação da identidade própria de Zero Two, mas durante a primeira saga da nova aventura, os roteiristas acertam com o vilão: Ichijougi Ken, o Digimon Kaiser (ou Imperador Digimon na versão brasileira). Temos agora um vilão humano e não um digimon; vilão esse extremamente cruel, que inspira a raiva do expectador. A arrogância de Ken e a insensibilidade ante a vida dos digimons, bem como sua posterior redenção com o sacrifício de seu parceiro Wormmon, prendem o expectador fazendo-o mergulhar na história. 

Suceder uma obra de sucesso, manter o a genialidade e o padrão de qualidade constante na ficção, não é algo fácil. Zero Two tem seus erros e acertos, é compreensível a visão negativa da crítica sobre a obra, todavia, embora inferior a primeira temporada, Zero Two ainda assim é uma boa história a qual vale a pena acompanhar.

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