quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Ascese


21ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (Jr 1,17-19)
Responsório (Sl 70)
Evangelho (Mc 6,17-29)

São João Batista era um verdadeiro asceta, esse preparo da alma desde a tenra infância ajudou-lhe no cumprimento de sua difícil missão de entregar a vida pela verdade. Herodes era um homem dado aos vícios: gula, orgulho, luxúria; o que tornou-lhe um escravo, uma alma que perdeu-se e não teve a coragem de encarar e acolher a verdade.

Precisamos atentar a nossa ascese, ao nosso "treinamento espiritual", as virtudes não vão florescer magicamente em nós. Olhemos para São João Batista e para Herodes, e pensemos em como temos tratado nossa alma...

terça-feira, 28 de agosto de 2018

O Caminho da Verdade


21ª Semana do Tempo Comum - Terça-feira
Primeira Leitura (2Ts 2,1-3a.14-17)
Responsório (Sl 95)
Evangelho (Mt 23,23-26)

Hoje é dia de Santo Agostinho, grande doutor da Igreja. No meu caminho de conversão, de um mero católico de IBGE com a mente carregada e sincretismo para a busca de uma vivência mais coerente da Fé Católica, o livro Confissões foi um marco. A sinceridade de Agostinho, a radicalidade de sua busca pela Verdade, Verdade que é o próprio Deus, a coragem em publicar seus pecados, recordando desde a infância... Acho que faz uns cinco anos desde que li Santo Agostinho, e tenho pensado nisso até hoje.

Ainda mais hoje...

Em Santo Agostinho vi algo que até então não conhecia, uma coragem viril, intelectual, existencial; a busca da Verdade, e abertura para que está verdade transforme todo seu ser, toda sua vida, desde o interior. Coragem essa que não tiveram os fariseus do Evangelho de hoje, homens que receberam a Lei, as primícias da Revelação, mas não deixaram que ela os transformasse desde dentro, antes apenas interpretaram um papel social, um teatro exterior. Olho para mim e me pergunto, para onde vou? Quisera que fosse pelo caminho de Agostinho, mas tantas vezes é pelo lado dos fariseus...

Hoje, a Igreja vive uma crise terrível. As últimas notícias foram tenebrosas...E essa é a verdade.  O Concílio Vaticano II foi um desastre e essa é a verdade. A instruções de Nossa Senhora de Fátima foram ignoradas e essa, infelizmente, é a verdade. Aceitar a verdade como ela se apresente. Encará-la de frente e não construir um mundinho doce e ilusório, é o primeiro passo. E depois, agir conforme pede esta Verdade, pois aqueles que sabem não podem fingir ignorância para continuar como antes.

A Verdade pede uma resposta. Resposta difícil. Mas a verdade liberta e ilumina, de modo que não há caminho melhor.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

[Resumo] A Candeia Debaixo do Alqueire

Resumo da tese do Pe. Calderón, exposta no livro "A Candeia Debaixo do Alqueire":

A idéia central da tese do Pe. Calderón é a de que, desde o Concílio Vaticano II, não houve mais exercício formal do Magistério Eclesiástico. Este fato não é nada evidente, pois não faltam documentos emanados de Roma nos últimos 40 anos. Conseqüentemente, tal fato necessita ser demonstrado e foi preciso um livro inteiro para fazê-lo. O ideal é que se leia “A Candeia Debaixo do Alqueire”, mas pode-se falar do conteúdo do livro por aqui em linhas bem gerais.

Primeira distinção teológica: o Magistério Autêntico da Igreja tem por órgãos autênticos o Papa e os Bispos sob algumas modalidades (declaração ex-cathedra, concílio, etc.) e pode ser classificado em “infalível” e “meramente autêntico”. O infalível tem grau máximo de autoridade enquanto o meramente autêntico comporta diversos graus que equivalem ao grau de assistência do Espírito Santo ao magister. Mesmo possuindo eventualmente um grau de autoridade ínfimo, o Magistério Autêntico da Igreja exige submissão e docilidade da alma católica.

Segunda distinção teológica: uma mesma pessoa física pode comportar mais de uma pessoa moral. Assim, o mesmo Francisco, por exemplo, pode atuar enquanto Papa, enquanto bispo de Roma e enquanto teólogo privado.

Postas as premissas, o livro está dividido em quatro artigos em forma de disputatio. Pe. Calderón demonstra primeiramente que o magistério conciliar não foi infalível. Depois, que o magistério conciliar pode ser posto em discussão por ter sido exercido ao modo dialogado e não impositivo, mas disso decorre a terceira demonstração que é a de que o magistério conciliar possui zero grau de autoridade. Ele não é nem mesmo Magistério meramente autêntico. Não há nele a mais ínfima assistência do Espírito Santo e este fato tem importantes conseqüências:

– O magistério conciliar não exige submissão dos fiéis;
– Os fiéis não só tem o direito de negarem submissão a tal magistério, mas o dever de se lhe opor à medida que ele contraria o que a Igreja sempre ensinou;
– O papa e os bispos não atuam enquanto tais, mas enquanto teólogos privados ao exercerem o magistério conciliar;
– O magistério conciliar não pode ser formalmente atribuído à Igreja Católica.

Isto corrige a problemática postura teológica daqueles que o Pe. Calderón chama de “tradicionalistas críticos”, ou seja, aqueles que reconhecem o concílio como magistério autêntico, mas que se acham no direito de criticá-lo pelo simples fato de que ele não é infalível. Tal postura só dá margem para que os modernistas ponham em discussão todo o magistério ordinário das Encíclicas anti-liberais, desde a Mirari Vos, de Gregório XVI, à Humani Generis, de Pio XII, passando pela Pascendi, de São Pio X. O magistério das Encíclicas é, via de regra meramente autêntico.

A tese também é contrária ao sedevacantismo pois, se o magistério conciliar é uma espécie de exercício material (mas não formal) do Magistério da Igreja, isto se deve apenas ao modo dialogado de tal exercício e não do suposto fato de que o papado é material ou coisas do gênero. O Papa não perdeu sua autoridade. Ele apenas não a exerce efetivamente e sim de modo aparente.

O último artigo do livro é bem interessante, pois trata de um eventual comprometimento indireto da autoridade do magistério conciliar. Assim, Pe. Calderón fala sobre a Missa Nova, os movimentos eclesiais, as supostas aparições marianas, as canonizações, o Código de Direito Canônico, entre outros.
#Leonardo Brum

domingo, 26 de agosto de 2018

Benzedeiras? O que diz a Igreja?

Multiplicam-se assustadoramente pelo Brasil os curandeiros e benzedeiros de tôda espécie. Qual deverá ser a atitude do católico diante das pessoas que pretendem curar doentes sem nenhum título reconhecido de habilitação? Para podermos tomar uma posição justa, será necessário distinguir quatro tipos diferentes de curandeiros: 

1) O curandeiro espírita, que pretende ou alega curar por meio da evocação de espíritos, pouco importa se dentro ou fora do centro espírita ou do terreiro de Umbanda, se ligado a uma entidade espírita ou isolado e inteiramente por conta própria. O essencial dêste tipo é que êle diz receber um "espírito curador" ou outro qualquer "médico do espaço". Nossa posição diante dêste tipo de curandeiro deve ser total e energicamente negativa. Diz o Senhor: "Não vos dirijais aos magos!" (Lev 19, 31). O mandamento divino que proíbe a evocação dos espíritos é claro, severo e insistente. E ainda que bem provavelmente a evocação como tal não seja possível, existe todavia o desejo, a vontade ou o propósito da evocação. E isso basta para o pecado. Querer matar ou roubar já é pecado, ainda que de fato não se mate ou roube. Assim também já é pecado o querer evocar um espírito, ainda que de fato o espírito não compareça. E êste é o pecado do Espiritismo e dos que vão aos centros, aos terreiros, às tendas ou aos curandeiros espíritas. 

2) O curandeiro supersticioso, que usa meios completamente inadequados e desproporcionados, envolvidos numa atmosfera de crendice e mistificação. E' verdade que êste tipo de curandeiro não é nem quer ser "médium", nem faz evocação, mas reza orações ridículas e absurdas e faz gestos e trejeitos sem sentido nem fundamento. Inspira-se geralmente em livros supersticiosos e condenáveis, como: "O Antigo e Verdadeiro Livro de São Cipriano", "O Livro da Bruxa", "Cruz de Cara vaca", "Enquiridião do Papa Leão", "O Dragão Vermelho" e outros dêste tipo, da mais baixa e indigna bruxaria. Os fiéis de Cristo não podem conviver com semelhante literatura, nem praticar as superstições aí recomendadas. Não merecem, por isso, os curandeiros supersticiosos a atenção e a benevolência dos católicos. Rezemos por êles para que se convertam. 

3) O curandeiro prático ou curioso, que entende algo de doença e medicina, de psicologia e de sugestão. São muitas vêzes pessoas bem intencionadas. As mais das vêzes aprenderam o curandeirismo nos livros ou cursos do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento, duma organização rosacruciana ou de outras sociedades "ocultistas". Em alguns casos de doenças puramente funcionais podem ter resultados apreciáveis. Entretanto, geralmente não têm competência para diagnosticar doenças orgânicas. Por meio de hábeis sugestões são capazes de tirar a dor e produzir a ilusão da cura, quando na realidade a lesão interna continua seu trabalho de destruição dos tecidos. Este é, na verdade, o grande perigo e pode mesmo ser o grande crime do curandeirismo. E' por isso que o Código Penal Brasileiro proíbe semelhantes práticas. Mas êste terceiro tipo de curandeiro é, sobretudo, um problema da alçada da Polícia ou do Ministério da Saúde e não própriamente da Igreja. Mas os católicos devem respeitar também as disposições do Código Penal que, no artigo 284, determina o seguinte: "Exercer o curandeirismo: 1 - prescrevendo, ministrando ou aplicando, habitualmente, qualquer substância; II - usando gestos, palavras ou qualquer outro meio; III - fazendo diagnósticos. Pena: Detenção de 6 meses a 2 anos"

4) O curandeiro carismático. E' São Paulo quem nos fala do "dom de curar" (1 Cor 13, 9). Não podemos excluir a possibilidade do carisma, principalmente em lugares abandonados, no interior, onde não há médicos. Entretanto, devemos ter muita prudência na afirmação positiva do carisma. Haverá sempre necessidade de investigar com cuidado tôdas as circunstâncias: sujeito, objeto, lugar, meios, finalidade, modo e tempo e ver se em uma ou outra ocorre algo de positivamente suspeito ou supersticioso. Se tudo fôr bom e cristão, não vemos razão por que impedir os fiéis na consulta. 

Em resumo, pois, nossa atitude será esta: Diante do curandeiro espírita: vigorosa interdição, sob pena de excomunhão; diante do curandeiro supersticioso: absoluta proibição, sob pena de pecado; diante do curandeiro prático: prudente reserva; diante do curandeiro carismático: discreta aprovação.

Nossas Superstições - Frei Boaventura O.F.M; 1959; pág. 34-35.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Autocrítica


Relendo algumas postagens antigas do blog a luz do atual contexto de eleições presidenciais, vejo como mergulhei no mesmo erro que hoje vejo manifesto por todo o submundo facebookino, certo voluntarismo delirante neopelagiano, a crença de que com trabalho duro bem direcionado seria possível restaurar a força e a influência da Igreja sobre a sociedade. O auge de tais delírios tomaram forma em minhas próprias quimeras ideológicas naquilo que nomeei como arqueofuturismo. Qual o problema de tudo isso? O problema está que uma possível restauração da cristandade não se dará como uma construção humana, mas virá de um favor do céu e, por agora, os céus apontam antes uma longa tempestade. Em Fátima, a Virgem avisou sobre o Castigo, e pediu a Consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração. A consagração não foi feita, Sua mensagem foi ignorada e ocultada pela própria Igreja, em uma faz maiores farsas religiosas da história. Daquilo que chegou até nós, sabemos de uma visão: o martírio de um Papa, uma cidade em ruínas... Dias de guerra virão antes do triunfo. Dias terríveis, dos quais as duas grandes guerras não era mais que figuras. Diante desse cenário, como posso classificar a hipótese otimista de uma restauração senão como delírio? Sim, virá o triunfo do Imaculado Coração, a esperada primavera da Igreja, mas antes ainda temos um grande tempestade pela frente. 

Conscientes disso, atentos as profecias, qual deve ser a atitude dos fiéis católicos? Qual deve ser a minha atitude? Sobreviver, observar as indicações da Virgem e abandonar toda e qualquer esperança humana. 

Lutemos, rezemos, mas não esperemos uma vitória por mãos humanas, não nos iludamos com sonhos de dias melhores, o futuro exigirá ainda mais de cada um de nós.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

O anticatolicismo EDGY de Hellsing


Edgy é um termo um tanto pejorativo usado na crítica para definir aquelas obras que tentam ser “adultas” e explorar o sombrio, o depressivo, o horrendo, mas ao final de modo involuntário acabam no cômico; é o caso de obras como Tokyo Ghoul, Elfen Lied. Mas, o edgy não fica restrito apenas ao terreno da animação, a moda dos headbanders, onde juvenis procuram ”chocar a sociedade” com um visual trevoso (cabelos longos, roupas pretas, maquiagem forte, etc) mas terminam no ridículo, é um exemplo típico. Hellsing é basicamente a mesma coisa. 

O anime tem estilo, e isso ninguém pode negar: o jogo de cores, a trilha sonora, a referência simbólica apelativa....Mas, é na psicologia das personagens que a obra arranca o humor involuntário; heróis, vilões, protagonistas, coadjuvantes e figurantes, são todos ecos de uma mesma personalidade insana e assassina. É um mundo de monstros, de modo que expectador não consegue conectar-se com os personagens, tomá-los a sério, ou sentir qualquer coisa ante os dramas e mortes na trama. A violência gráfica e simbólica é tamanha que já não choca, tal qual acontece com um medicamento usado de forma inadequada, o alvo cria resistência. Neste contexto que um católico frente a trama não tem outra reação senão boas gargalhadas ante a tentativa falha de retratar a Igreja como uma instituição perversa, fanática e monstruosa. Não atoa que o Padre Anderson, um dos vilões do anime,  tornou-se meme nas comunidades católicas de internet. 


Aí está, talvez, a grande pegadinha da obra, se tomá-la a sério como faz um adolescente juvenil, você se torna a piada tal como a trama, se porém tiver a maturidade para rir desse absurdo, capaz de se divertir. 

***

Deixemos o anime de lado, e voltemos a questão do edgy, curiosamente o estilo tem sido adotado por católicos tradicionalistas na internet como uma grande zombaria. A ideia é simples, absorver o esterótipo anti-católico, o personagem das lendas negras protestantes e, fingir tomá-lo a sério. Tal atitude causa um verdadeiro choque nos inimigos da Igreja, o qual não sabem como reagir quando seu adversário não se ofende com tais acusações, antes as absorve como fossem elogios; os caras entram em parafuso rsrs. 

O curioso é quando essa moda sai da internet, e acaba sendo assimilada pelo próprio clero, como no caso do calendário da FSSPX (Fraternidade Sacerdotal São Pio X): 



Vemos ao fundo da imagem de São Pio V um torturado da inquisição (recorte de uma velha difamatória confeccionada para alimentar a ficção negra sobre a instituição). 

Será que a brincadeira não acabou indo um pouco longe demais?

terça-feira, 21 de agosto de 2018

www.bunkersub.com


É com grande alegria, caros leitores, que venho anunciar que no dia de hoje, logo hoje, memória litúrgica de São Pio X, o blog ganha seu domínio personalizado www.bunkersub.com; eis o novo endereço desta iniciativa que se pretende um verdadeiro bunker anti-moderno em defesa da fé católica e das tradições milenares da Santa Igreja Católica.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Vin Diesel, Bruxaria e Catolicismo


Há alguns anos, para ser mais exato por volta do ano de 2015, a Igreja Católica passa a ocupar espaço nas telas de cinema no subgênero viril dos filmes de ação. Ás vésperas do lançamento de ''O Último Caçador de Bruxas'', Vin Diesel se mostrava extremamente empolgado já prometendo uma sequência; todavia, o esperado projeto se mostrou um fracasso de crítica e bilheteria. Não que o filme seja ruim, mas também não é nenhuma obra prima. O roteiro gira em torno da luta quase que eterna entre os homens e as bruxas, onde nosso protagonista, Kaulder, um bárbaro europeu da nascente cristandade, é amaldiçoado com a imortalidade pela rainha das bruxas; daí para frente passa os séculos a combater a influência nefasta da magia sobre o mundo dos humanos á serviço da Igreja Católica na organização conhecida como “O Machado e a Cruz”. Ao longo da jornada nosso protagonista imortal é sempre acompanhado e dirigido por um padre que leva o título de ''Dolan'', na trama estamos ante o momento da aposentadoria do 36° Dolan. Ou seja, há um salto temporal da nascente cristandade para os nossos dias. Com isso o filme ganha tons de “gothic punk”[1], o que lhe dá uma identidade estética interessante, porém já saturada em Hollywood. Se eu contar o resto da história fica chato e você não vai querer assistir, então vamos parar de enrolação e ir direto ao assunto do texto que é a bruxaria…



Bruxaria? Sim bruxaria. Na premissa do filme temos bruxas "superpoderosas" atuando sobre o mundo, e numa espécie de fanatismo panteísta esforçando-se por livrar a terra da espécie humana, que tem na Igreja sua principal defesa. A premissa é bacana, mas “teologicamente incorreta”. Diferente do consenso da ficção, a magia não existe. As bruxas criavam mais problemas por seu comportamento doentio e suas doutrinas heréticas do que por suas macumbarias, eram como que feministas medievais; ainda mais insuportáveis que sua versão pós-moderna. Eis algumas palavras de Dom Boaventura Kloppenburg a respeito da eficácia dos feitiços, encantamentos e macumbarias: 
Para nós cristãos, pois, não há dúvida: o demônio existe e atua realmente entre os homens. Mas daí não se pode inferir sem mais nem menos que o demônio está também à disposição dos feiticeiros e malfeitores para executar fielmente suas perversas vontades. A questão de eficácia dos feitiços deve ser resolvida numa outra base: Terá o homem a faculdade ou a possibilidade de provocar por sua própria iniciativa e de modo eficaz uma atuação ou intervenção destas fôrças do mal? O homem pode, não há dúvida, querer ou desejar a presença do demônio, pode mesmo consciente e deliberadamente entregar-se a êle, pode ajoelhar-se perante satanás, adorá-lo e oferecer-lhe sacrifícios. Tudo isso, por mais deplorável, repugnante e pavoroso que seja, pode estar no abuso da liberdade humana. E' o "mistério da iniqüidade", o tremendo mistério da desgraçada possibilidade de pecar, de revoltar-se contra o Criador e de pactuar com o mal. Outra, todavia, é a questão de saber se o demônio pode ser como que forçado ou obrigado pelo homem mau a comparecer e a executar suas ordens: Bastará a má vontade de um feiticeiro ou babalaô para lançar a ação diabólica contra uma outra pessoa?

Nossa firme resposta é totalmente negativa: O homem não tem a faculdade ou a possibilidade de provocar por sua própria iniciativa 'e de modo eficiente uma atuação perceptível do demônio ou de qualquer outro espírito do além. Esta é a razão por que sustentamos que o feitiço, o malefício, o despacho ou a magia são, como tais, ineficazes. O verdadeiro cristão não precisa ter mêdo do feitiço.[2]
Todavia, apesar das diretivas da Igreja, da ciência, e do bom senso a respeito da irracionalidade da crença na eficácia de macumbarias, essa superstição persiste ao longo dos séculos, encontrando ecos na piedade popular (o que chamo de “catolicismo folk”) e nas pregações de alguns clérigos não muito estudados. Começando do fim, basta lembrarmos do Malleus Maleficarum, ou ''O Martelo das Feiticeiras'', uma espécie de manual para caçadores de bruxas, elaborado por monges católicos, mas prontamente recusado pelo bispo local, que ante a pertinácia dos autores em continuar a difundir a obra, castigou-os com a excomunhão[3]. Voltando ao começo, basta lembrarmos de algumas superstições bastante difundida por essas terras com as chamadas benzedeiras, os banhos de ervas e outros remédios para ditas doenças espirituais como o "mal olhado" e por aí vai… Infelizmente algumas tolices, tal qual pertinazes ervas daninhas, são um tanto difíceis de se extirpar.

Concluindo, pelo visto ainda teremos de esperar um bom tempo até encontrarmos uma representação satisfatória da Igreja Católica na ficção cinematográfica, quando não a difamação aberta, os filmes caem em preconceitos vulgares e ideias não muito acertadas a respeito de sua doutrina, organização e função neste mundo que passa. Se nossa influência sobre Hollywood é nula, ao menos temos alguma sobre nosso próximo, e nossos irmãos de Fé, desta forma lutemos para dissipar as trevas do erro e as confusões da superstição, que ainda atuam dentro da Igreja.
____________________________________________
[1] Fantasia Urbana ou Gothic Punk é o nome que se dá ao subgênero narrativo que busca retratar as realidades sobrenaturais inseridas em um contexto moderno e urbano.
[2] Nossas Superstições - Frei Boaventura O.F.M; 1959; pág. 22-23.
[3] Para maiores informações, recomendo a leitura do artigo ''O que foi o Malleus Maleficarum? A Igreja e a Inquisição o aprovaram?'' no Logos Apologética.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Basta de porcarias!


“Se os homens soubessem como são produzidas a lei e a salsicha, não respeitariam a primeira e não comeriam a segunda” - Otto Von Bismarck 

Mais do qualquer das gerações que nos precederam, nós somos abarrotados de informações sobre os malefícios da moderna dieta “ocidental” (muitas aspas neste ocidental, uma vez que a origem desta dieta não está no medievo cristão europeu, e sim na América maçônica capitalista). Da sabedoria popular dos simples à casta acadêmica, passando até mesmo pela grande mídia, a conclusão é unânime: estamos sendo envenenados diariamente pela indústria alimentícia

Salgadinhos, Refrigerantes, Doces...A lista de guloseimas alimentícias disfarçada de comida é quase tão grande quando os nomes químicos dos conservantes, estimulantes, aromatizantes e outras gambiarras usadas para vender a ilusão de que tal o ou qual bugiganga é comível. “Em Defesa da Comida” do jornalista Michael Pollan é talvez uma das melhores obras sobre o assunto destinada ao público leigo, embora também o famoso “Sugar Blues’’ ainda venha a chocar décadas depois de sua publicação. Com tudo isso pergunto ao leitor, e também a mim: como podemos ignorar tudo isso, todos esses dados e evidências e, continuar comendo esse tipo de porcaria? Esperamos magicamente que tudo venha a terminar bem, ignoramos a nossa razão para atender nossos desejos, nossa vontade, nossa gula; as vezes até criando quimeras ideológicas para justificar tais ou quais vícios. 

O já citado Michael Pollan em seu sugestivo “Regras da Comida’’  propõe algumas orientações simples que podem nos ajudar a fugir dos malefícios da dieta ocidental, sem a necessidade de mergulharmos no confuso oceano do nutricionismo ou confiarmos aos laboratórios a confecção de nossa dieta. 
O QUE DEVO COMER?
1. Coma comida.
2. Não coma nada que sua avó não reconheceria como comida.
3. Evite produtos alimentares que contenham ingredientes que nenhum ser humano normal teria na despensa.
4. Evite produtos alimentícios que contenham xarope de milho com alto teor de frutose.
5. Evite alimentos que contenham alguma forma de açúcar (ou adoçante) listada entre os três primeiros ingredientes.
6. Evite produtos alimentícios que contenham mais de cinco ingredientes.
7. Evite produtos alimentícios que contenham ingredientes que um aluno do terceiro ano não consiga pronunciar.
8. Evite produtos alimentícios com propaganda de propriedades saudáveis.
9. Evite produtos alimentícios que tenham no nome os termos "light", "baixo teor de gordura" ou "sem gordura".
10. Evite alimentos que estejam fingindo ser o que não são.
11. Evite alimentos que você vê anunciados na televisão.
12. Compre nos corredores ao longo das paredes do supermercado e fique longe do centro.
13. Só coma alimentos que acabarão apodrecendo.
14. Coma alimentos feitos com ingredientes que você pode imaginar crus ou crescendo na natureza.
15. Fuja do supermercado sempre que puder.
16. Compre seus lanches na feira.
17. Só coma alimentos que tenham sido preparados por humanos.
18. Não ingira alimentos preparados em locais nos quais se exige que todo mundo use touca cirúrgica.
19. Se veio de um vegetal, coma; se foi fabricado, não coma.
20. Não é comida se chegou pela janela de seu carro.
21. Não é comida se tem o mesmo nome em todas as línguas (Pense em Bic Mac, Cheetos ou Pringles.)

QUE TIPO DE COMIDA DEVO COMER?
22. Coma principalmente vegetais. Sobretudo folhas.
23. Trate a carne como um ingrediente extra ou um alimento para ocasiões especiais.
24. "Comer o que fica em pé numa perna só [cogumelos e vegetais] é melhor que comer o que fica em pé em duas patas [aves], que é melhor que comer o que fica em pé em quatro patas [vacas, porcos e outros mamíferos]."
25. Faça refeições coloridas.
26. Beba a água do espinafre.
27. Coma animais que se alimentaram bem.
28. Se tiver espaço, compre um freezer.
29. Coma como um onívoro.
30. Coma alimentos cultivados em solo saudável.
31. Coma alimentos silvestres quando puder.
32. Não se esqueça dos peixinhos oleosos.
33. Coma alguns alimentos que foram pré-digeridos por bactérias ou fungos.
34. Adoce e salgue sua comida você mesmo.
35. Coma os alimentos doces como você os encontra na natureza.
36. Não coma cereais matinais que alterem a cor do leite.
37. "Quanto mais branco o pão, mais depressa você vai para o caixão."
38. Dê preferência aos tipos de óleo e de grãos tradicionalmente moídos em mós.
39. Coma todas as besteiras que quiser, desde que você mesmo as cozinhe.
40. Seja o tipo de pessoa que toma suplementos - depois retire os suplementos.
41. Coma mais como os franceses. Ou os japoneses. Ou os italianos. Ou os gregos.
42. Olhe com ceticismo para os alimentos não tradicionais.
43. Tome um copo de vinho durante o jantar.

COMO DEVO COMER?
44. Pague mais, coma menos.
45....Coma menos.
46. Pare de comer antes de se sentir satisfeito.
47. Coma quando tiver fome, não quando estiver entediado.
48. Consulte sua barriga.
49. Coma devagar.
50. "O banquete está na primeira garfada."
51. Passe curtindo uma refeição o mesmo tempo que o investido em prepará-la.
52. Compre pratos e copos menores.
53. Sirva-se de uma boa porção e não repita.
54. "Coma como um rei no café da manhã, como um príncipe no almoço e como um mendigo no jantar."
55. Coma refeições.
56. Restrinja seus lanches a alimentos vegetais não processados.
57. Não compre seu combustível no mesmo lugar em que compra o de seu carro.
58. Só coma à mesa.
59. Tente não comer sozinho.
60. Trate as guloseimas como guloseimas.
61. Deixe alguma coisa no prato.
62. Plante uma horta, se tiver espaço, e uma jardineira na janela, se não tiver.
63. Cozinhe.
64. Quebre as regras de vez em quando. 
Não basta libertarmos nossa mente da mediocridade moderna se continuarmos a manter nossos corpos no cocho dos mesmos doutrinadores novordistas, já é hora de dar um basta nas porcarias!

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Restauremos a alta nobreza!

A nobreza é uma instituição social extremamente necessária. Uma sociedade sem nobres, é aquela em que faz do dinheiro o critério último de valoração social, desestimulando a prática da virtude e do autossacrifício em favor da pátria e da religião. Uma casta nobre, instituída com base no mérito e na virtude, serve para instaurar nas sociedades humanas uma verdadeira meritocracia (ao menos na medida do possível neste vale de lágrimas); não atoa que é presença constante em praticamente todas as sociedades tradicionais.

Um projeto alternativo à modernidade, um mundo arqueofurista, católico e tradicionalista deve restaurar a nobreza corrigindo, porém, alguns erros medievais, entre eles a hereditariedade dos títulos nobiliárquicos, e seu comércio. Ao homem que se destacar dentre os demais por suas virtudes na vida civil, militar, social e religiosa devem ser dados alguns privilégios tais quais: terras, isenção de impostos, acesso exclusivo a cargos da administração pública, etc. É também desejável que exista certa hierarquia nobiliárquica de modo a incentivar o premiado a crescer ainda mais na prática das boas obras; de igual modo se faz necessário a existência de conselhos e tribunais capazes de retirar tais privilégios daqueles homens envergonham tal estado com a práticas indignas e vergonhosas. Homens sem religião e hereges condenados devem ter seus privilégios cassados. Desta forma é importante que este conselho goze de certa independência para julgar inclusive o Rei se necessário. Tal conselho deveria ser constituído de veneráveis anciãos, pertencentes a nobreza; tendo porém o Cardeal Primaz da nação assento permanente, como observador a serviço do Sumo Pontífice, e voto de minerva, afim de evitar abusos e injustiças.

Entre as obras premidas com tal Estado, poderíamos listar: a bravura militar, grandes feitos na arte e no desporto, a excelência no exercício da profissão, a genialidade técnica (grandes inventores),o emprego da própria fortuna em favor da Igreja e da caridade para com os pobres. Uma vez que tais títulos seriam pessoais e intransferíveis, vícios “de casta” como por exemplo a proibição do casamento entre membros de nobreza e da plebe, o comércio dos títulos, e a existência de nobres parasitas vivendo dos méritos de seus antepassados; seriam reduzidos e evitados.

Para uma compreensão mais aprofundada da instituição nobiliárquica e sua correlação com a teologia católica recomendo, por fim, ao leitor a obra "Nobreza e elites tradicionais análogas  nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana" de Plínio Corrêa de Oliveira.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

O Mistério do Humano


Transfiguração do Senhor - Segunda-Feira
Primeira Leitura (Dn 7,9-10.13-14)
Responsório (Sl 96(97))
Evangelho (Mt 9,2-10)

Hoje, Festa da Transfiguração, contemplamos no Evangelho o momento em que Nosso Senhor Jesus Cristo mostra aos apóstolos sua natureza divina. Mistério sublime, grandioso! Mas, tão incompreensível para nós hoje, que mal compreendemos a natureza humana; escrevo olhando para mim, e quão distorcida me é a imagem do humano. Tanto poluí meu imaginário com ficção ruim que comprei a ideia do “super-homem”, de um homem com capacidades extraordinárias de domino sobre si, razão clara, fôlego infinito, físico perfeito...Não faz nem muito tempo, em que vendo as cenas de ação de Demolidor, improvisei alguns treinos caseiros de parkur, e constatei afinal, o esgotamento logo antes do completar as primeiras acrobacias. Não só no corpo, também na mente somos tão limitados, vejo o quanto ignorava outrora, e o tanto que ignoro ainda hoje, vejo o quanto minha vontade é frágil, e quão fácil me é abandonar a jornada aos primeiros sinais de cansaço e fracassar em tantos objetivos traçados. Isso é o humano chagado pelo pecado original. Não só eu sou assim, mas também meu próximo, motivo pelo qual deveria compreendê-lo melhor, ao invés de esperar dele também um outro “super homem”, de caráter fixo, e personalidade fechada como uma sinfonia clássica. Nessa procura por super-homens, quantas vezes esquecemos de valorizar nesses nossos irmãos de carne e osso grandes virtudes manifestas?

Peçamos a Deus a graça de ver o humano, e então, quem sabe um dia, possamos ter um vislumbre da compreensão do divino.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Especulações Obscuras sobre o Futuro da Internet


Muitas pessoas se iludem com a internet pensando que a relativa liberdade que goza o usuário é a natureza mesma da rede, ledo engano. Basta uma reflexão sobre as recentes transformações no “oceano virtual” para intuirmos um futuro nada promissor.

Recordo-me que na época em que comecei a desbravar esses mares, o que hoje se chama de “conta fake” era prática comum sob a alcunha de nickname, ou simplesmente nick. A lógica por detrás era simples, a rede era uma espécie de jogo, um lugar para diversão, um universo a parte. Era quando se esquecia da vida comum, do trabalho, dos estudos, do teatro dos papeis sociais e se podia expressar-se de forma espontânea, além de que os nicknames e avatares cultivavam certo mistério entre os usuários, o que tornava o jogo ainda mais divertido. Quem seria a pessoa por trás daquele pseudônimo? Como seria no “mundo real”?

Naquela época em que a rede era um jogo, marcado por suas próprias regras internas, as garras do capital pouco interferiam sobre estes mares. Quase não havia produtos pagos, comércio. Pelo contrário, reinava a lógica do compartilhamento (chamado pelos donos do mundo de pirataria[1]); era possível encontrar facilmente filmes, músicas, jogos, programas, aulas e tudo mais. Os links de download eram quase como Roma, eternos, raramente algum caia ou quebrava, raramente algum conteúdo era excluído, mesmo de plataformas de massa como o Youtube. Foi o tempo dos pioneiros, dos desbravadores, dos homens livres.

Tudo bem, não sou tão velho assim (acho), e não peguei os primórdios da internet, a era pré-windows, onde era praticamente tudo mato (ou códigos binários), mas mesmo assim foi um tempo substancialmente diferente de hoje, e do amanhã que se desenha. Seria impensável naquela época que alguém viesse a pagar por serviços como o Netflix ou o Spotfy; porque raios eu devo pagar para ver filmes e escutar músicas que posso encontrar facilmente de forma gratuita? E o tal do Crunchyroll? Como algo assim pode ser concebido na epidemia dos .rmvb legendado? Mas as empresas hoje tem fechado o cerco, não prenderam o gordinho do Megaupload e fecharam o Mega Filmes HD? Não submeteram o Youtube a tirânica censura do politicamente correto? E o tempo dos videogames: com 20 dinheiros conseguia diversão pro ano todo no PS1 e PS2, hoje você não encontra nada por menos de R$ 200,00. Não duvido daqui há alguns anos abolirem de vez a prática dos nicknames, exigindo o CPF para conexão e cadastro. Nos países do primeiro mundo, tais práticas totalitárias já estão em pleno vigor. Na França você recebe multas onerosas por “download ilegal” e na Alemanha pode tem seu computador confiscado. Existem países onde você pode ser ”banido” da internet. Já é comum que a militância politicamente correta pressione punições aos usuários no mundo profissional, chegando até a demissão, por opiniões dissonantes a ideologia dominante manifestas no Facebook. Há inclusive teóricos a defender uma nacionalização da internet, controlada como fronteiras nacionais, e dificultando acesso a sites estrangeiros.

Por quanto tempo irá durar a liberdade do homem comum no que diz respeito ao uso da internet?30….40 anos? Talvez nem isso...E quando as garras totalitárias desta união entre o Estado e as grandes corporações completarem o cerco sobre este oceano de bytes, para onde vai o leitor? Como fará para manter-se são, “fora da matrix” e, não um escravo novordista? É algo a se pensar, não para si, mas para as gerações que o sucederão. 
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[1] Para uma visão mais detalhada da Teologia Moral católica sobre a licitude da pirataria digital, recomendo este texto extremamente lúcido do professor Carlos Ramalhete.