domingo, 26 de agosto de 2018

Benzedeiras? O que diz a Igreja?

Multiplicam-se assustadoramente pelo Brasil os curandeiros e benzedeiros de tôda espécie. Qual deverá ser a atitude do católico diante das pessoas que pretendem curar doentes sem nenhum título reconhecido de habilitação? Para podermos tomar uma posição justa, será necessário distinguir quatro tipos diferentes de curandeiros: 

1) O curandeiro espírita, que pretende ou alega curar por meio da evocação de espíritos, pouco importa se dentro ou fora do centro espírita ou do terreiro de Umbanda, se ligado a uma entidade espírita ou isolado e inteiramente por conta própria. O essencial dêste tipo é que êle diz receber um "espírito curador" ou outro qualquer "médico do espaço". Nossa posição diante dêste tipo de curandeiro deve ser total e energicamente negativa. Diz o Senhor: "Não vos dirijais aos magos!" (Lev 19, 31). O mandamento divino que proíbe a evocação dos espíritos é claro, severo e insistente. E ainda que bem provavelmente a evocação como tal não seja possível, existe todavia o desejo, a vontade ou o propósito da evocação. E isso basta para o pecado. Querer matar ou roubar já é pecado, ainda que de fato não se mate ou roube. Assim também já é pecado o querer evocar um espírito, ainda que de fato o espírito não compareça. E êste é o pecado do Espiritismo e dos que vão aos centros, aos terreiros, às tendas ou aos curandeiros espíritas. 

2) O curandeiro supersticioso, que usa meios completamente inadequados e desproporcionados, envolvidos numa atmosfera de crendice e mistificação. E' verdade que êste tipo de curandeiro não é nem quer ser "médium", nem faz evocação, mas reza orações ridículas e absurdas e faz gestos e trejeitos sem sentido nem fundamento. Inspira-se geralmente em livros supersticiosos e condenáveis, como: "O Antigo e Verdadeiro Livro de São Cipriano", "O Livro da Bruxa", "Cruz de Cara vaca", "Enquiridião do Papa Leão", "O Dragão Vermelho" e outros dêste tipo, da mais baixa e indigna bruxaria. Os fiéis de Cristo não podem conviver com semelhante literatura, nem praticar as superstições aí recomendadas. Não merecem, por isso, os curandeiros supersticiosos a atenção e a benevolência dos católicos. Rezemos por êles para que se convertam. 

3) O curandeiro prático ou curioso, que entende algo de doença e medicina, de psicologia e de sugestão. São muitas vêzes pessoas bem intencionadas. As mais das vêzes aprenderam o curandeirismo nos livros ou cursos do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento, duma organização rosacruciana ou de outras sociedades "ocultistas". Em alguns casos de doenças puramente funcionais podem ter resultados apreciáveis. Entretanto, geralmente não têm competência para diagnosticar doenças orgânicas. Por meio de hábeis sugestões são capazes de tirar a dor e produzir a ilusão da cura, quando na realidade a lesão interna continua seu trabalho de destruição dos tecidos. Este é, na verdade, o grande perigo e pode mesmo ser o grande crime do curandeirismo. E' por isso que o Código Penal Brasileiro proíbe semelhantes práticas. Mas êste terceiro tipo de curandeiro é, sobretudo, um problema da alçada da Polícia ou do Ministério da Saúde e não própriamente da Igreja. Mas os católicos devem respeitar também as disposições do Código Penal que, no artigo 284, determina o seguinte: "Exercer o curandeirismo: 1 - prescrevendo, ministrando ou aplicando, habitualmente, qualquer substância; II - usando gestos, palavras ou qualquer outro meio; III - fazendo diagnósticos. Pena: Detenção de 6 meses a 2 anos"

4) O curandeiro carismático. E' São Paulo quem nos fala do "dom de curar" (1 Cor 13, 9). Não podemos excluir a possibilidade do carisma, principalmente em lugares abandonados, no interior, onde não há médicos. Entretanto, devemos ter muita prudência na afirmação positiva do carisma. Haverá sempre necessidade de investigar com cuidado tôdas as circunstâncias: sujeito, objeto, lugar, meios, finalidade, modo e tempo e ver se em uma ou outra ocorre algo de positivamente suspeito ou supersticioso. Se tudo fôr bom e cristão, não vemos razão por que impedir os fiéis na consulta. 

Em resumo, pois, nossa atitude será esta: Diante do curandeiro espírita: vigorosa interdição, sob pena de excomunhão; diante do curandeiro supersticioso: absoluta proibição, sob pena de pecado; diante do curandeiro prático: prudente reserva; diante do curandeiro carismático: discreta aprovação.

Nossas Superstições - Frei Boaventura O.F.M; 1959; pág. 34-35.

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