quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Especulações Obscuras sobre o Futuro da Internet


Muitas pessoas se iludem com a internet pensando que a relativa liberdade que goza o usuário é a natureza mesma da rede, ledo engano. Basta uma reflexão sobre as recentes transformações no “oceano virtual” para intuirmos um futuro nada promissor.

Recordo-me que na época em que comecei a desbravar esses mares, o que hoje se chama de “conta fake” era prática comum sob a alcunha de nickname, ou simplesmente nick. A lógica por detrás era simples, a rede era uma espécie de jogo, um lugar para diversão, um universo a parte. Era quando se esquecia da vida comum, do trabalho, dos estudos, do teatro dos papeis sociais e se podia expressar-se de forma espontânea, além de que os nicknames e avatares cultivavam certo mistério entre os usuários, o que tornava o jogo ainda mais divertido. Quem seria a pessoa por trás daquele pseudônimo? Como seria no “mundo real”?

Naquela época em que a rede era um jogo, marcado por suas próprias regras internas, as garras do capital pouco interferiam sobre estes mares. Quase não havia produtos pagos, comércio. Pelo contrário, reinava a lógica do compartilhamento (chamado pelos donos do mundo de pirataria[1]); era possível encontrar facilmente filmes, músicas, jogos, programas, aulas e tudo mais. Os links de download eram quase como Roma, eternos, raramente algum caia ou quebrava, raramente algum conteúdo era excluído, mesmo de plataformas de massa como o Youtube. Foi o tempo dos pioneiros, dos desbravadores, dos homens livres.

Tudo bem, não sou tão velho assim (acho), e não peguei os primórdios da internet, a era pré-windows, onde era praticamente tudo mato (ou códigos binários), mas mesmo assim foi um tempo substancialmente diferente de hoje, e do amanhã que se desenha. Seria impensável naquela época que alguém viesse a pagar por serviços como o Netflix ou o Spotfy; porque raios eu devo pagar para ver filmes e escutar músicas que posso encontrar facilmente de forma gratuita? E o tal do Crunchyroll? Como algo assim pode ser concebido na epidemia dos .rmvb legendado? Mas as empresas hoje tem fechado o cerco, não prenderam o gordinho do Megaupload e fecharam o Mega Filmes HD? Não submeteram o Youtube a tirânica censura do politicamente correto? E o tempo dos videogames: com 20 dinheiros conseguia diversão pro ano todo no PS1 e PS2, hoje você não encontra nada por menos de R$ 200,00. Não duvido daqui há alguns anos abolirem de vez a prática dos nicknames, exigindo o CPF para conexão e cadastro. Nos países do primeiro mundo, tais práticas totalitárias já estão em pleno vigor. Na França você recebe multas onerosas por “download ilegal” e na Alemanha pode tem seu computador confiscado. Existem países onde você pode ser ”banido” da internet. Já é comum que a militância politicamente correta pressione punições aos usuários no mundo profissional, chegando até a demissão, por opiniões dissonantes a ideologia dominante manifestas no Facebook. Há inclusive teóricos a defender uma nacionalização da internet, controlada como fronteiras nacionais, e dificultando acesso a sites estrangeiros.

Por quanto tempo irá durar a liberdade do homem comum no que diz respeito ao uso da internet?30….40 anos? Talvez nem isso...E quando as garras totalitárias desta união entre o Estado e as grandes corporações completarem o cerco sobre este oceano de bytes, para onde vai o leitor? Como fará para manter-se são, “fora da matrix” e, não um escravo novordista? É algo a se pensar, não para si, mas para as gerações que o sucederão. 
__________________________________
[1] Para uma visão mais detalhada da Teologia Moral católica sobre a licitude da pirataria digital, recomendo este texto extremamente lúcido do professor Carlos Ramalhete.

Nenhum comentário:

Postar um comentário