sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Vin Diesel, Bruxaria e Catolicismo


Há alguns anos, para ser mais exato por volta do ano de 2015, a Igreja Católica passa a ocupar espaço nas telas de cinema no subgênero viril dos filmes de ação. Ás vésperas do lançamento de ''O Último Caçador de Bruxas'', Vin Diesel se mostrava extremamente empolgado já prometendo uma sequência; todavia, o esperado projeto se mostrou um fracasso de crítica e bilheteria. Não que o filme seja ruim, mas também não é nenhuma obra prima. O roteiro gira em torno da luta quase que eterna entre os homens e as bruxas, onde nosso protagonista, Kaulder, um bárbaro europeu da nascente cristandade, é amaldiçoado com a imortalidade pela rainha das bruxas; daí para frente passa os séculos a combater a influência nefasta da magia sobre o mundo dos humanos á serviço da Igreja Católica na organização conhecida como “O Machado e a Cruz”. Ao longo da jornada nosso protagonista imortal é sempre acompanhado e dirigido por um padre que leva o título de ''Dolan'', na trama estamos ante o momento da aposentadoria do 36° Dolan. Ou seja, há um salto temporal da nascente cristandade para os nossos dias. Com isso o filme ganha tons de “gothic punk”[1], o que lhe dá uma identidade estética interessante, porém já saturada em Hollywood. Se eu contar o resto da história fica chato e você não vai querer assistir, então vamos parar de enrolação e ir direto ao assunto do texto que é a bruxaria…



Bruxaria? Sim bruxaria. Na premissa do filme temos bruxas "superpoderosas" atuando sobre o mundo, e numa espécie de fanatismo panteísta esforçando-se por livrar a terra da espécie humana, que tem na Igreja sua principal defesa. A premissa é bacana, mas “teologicamente incorreta”. Diferente do consenso da ficção, a magia não existe. As bruxas criavam mais problemas por seu comportamento doentio e suas doutrinas heréticas do que por suas macumbarias, eram como que feministas medievais; ainda mais insuportáveis que sua versão pós-moderna. Eis algumas palavras de Dom Boaventura Kloppenburg a respeito da eficácia dos feitiços, encantamentos e macumbarias: 
Para nós cristãos, pois, não há dúvida: o demônio existe e atua realmente entre os homens. Mas daí não se pode inferir sem mais nem menos que o demônio está também à disposição dos feiticeiros e malfeitores para executar fielmente suas perversas vontades. A questão de eficácia dos feitiços deve ser resolvida numa outra base: Terá o homem a faculdade ou a possibilidade de provocar por sua própria iniciativa e de modo eficaz uma atuação ou intervenção destas fôrças do mal? O homem pode, não há dúvida, querer ou desejar a presença do demônio, pode mesmo consciente e deliberadamente entregar-se a êle, pode ajoelhar-se perante satanás, adorá-lo e oferecer-lhe sacrifícios. Tudo isso, por mais deplorável, repugnante e pavoroso que seja, pode estar no abuso da liberdade humana. E' o "mistério da iniqüidade", o tremendo mistério da desgraçada possibilidade de pecar, de revoltar-se contra o Criador e de pactuar com o mal. Outra, todavia, é a questão de saber se o demônio pode ser como que forçado ou obrigado pelo homem mau a comparecer e a executar suas ordens: Bastará a má vontade de um feiticeiro ou babalaô para lançar a ação diabólica contra uma outra pessoa?

Nossa firme resposta é totalmente negativa: O homem não tem a faculdade ou a possibilidade de provocar por sua própria iniciativa 'e de modo eficiente uma atuação perceptível do demônio ou de qualquer outro espírito do além. Esta é a razão por que sustentamos que o feitiço, o malefício, o despacho ou a magia são, como tais, ineficazes. O verdadeiro cristão não precisa ter mêdo do feitiço.[2]
Todavia, apesar das diretivas da Igreja, da ciência, e do bom senso a respeito da irracionalidade da crença na eficácia de macumbarias, essa superstição persiste ao longo dos séculos, encontrando ecos na piedade popular (o que chamo de “catolicismo folk”) e nas pregações de alguns clérigos não muito estudados. Começando do fim, basta lembrarmos do Malleus Maleficarum, ou ''O Martelo das Feiticeiras'', uma espécie de manual para caçadores de bruxas, elaborado por monges católicos, mas prontamente recusado pelo bispo local, que ante a pertinácia dos autores em continuar a difundir a obra, castigou-os com a excomunhão[3]. Voltando ao começo, basta lembrarmos de algumas superstições bastante difundida por essas terras com as chamadas benzedeiras, os banhos de ervas e outros remédios para ditas doenças espirituais como o "mal olhado" e por aí vai… Infelizmente algumas tolices, tal qual pertinazes ervas daninhas, são um tanto difíceis de se extirpar.

Concluindo, pelo visto ainda teremos de esperar um bom tempo até encontrarmos uma representação satisfatória da Igreja Católica na ficção cinematográfica, quando não a difamação aberta, os filmes caem em preconceitos vulgares e ideias não muito acertadas a respeito de sua doutrina, organização e função neste mundo que passa. Se nossa influência sobre Hollywood é nula, ao menos temos alguma sobre nosso próximo, e nossos irmãos de Fé, desta forma lutemos para dissipar as trevas do erro e as confusões da superstição, que ainda atuam dentro da Igreja.
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[1] Fantasia Urbana ou Gothic Punk é o nome que se dá ao subgênero narrativo que busca retratar as realidades sobrenaturais inseridas em um contexto moderno e urbano.
[2] Nossas Superstições - Frei Boaventura O.F.M; 1959; pág. 22-23.
[3] Para maiores informações, recomendo a leitura do artigo ''O que foi o Malleus Maleficarum? A Igreja e a Inquisição o aprovaram?'' no Logos Apologética.

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