segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Diálogos para com o entretenimento barato...

Quando mais novo acompanhei durante algum tempo as histórias em quadrinhos da Marvel; nunca fui um grande e profundo fã, mas gastei uns bons trocados com algumas centenas de revistinhas. Acompanhei algumas aventuras dos Vingadores, do Capitão América, do Cavaleiro da Lua, do Justiceiro, e do Demolidor... Demolidor; foi vendo a série da Netflix que resolvi dar uma chance ao universo de Punho de Ferro, personagem que, pouco ou nada conheço. Como diria o Pica-Pau: “fui tapeado!”, diferente de Demolidor, Punho de Ferro é uma chatice! Fora a estética bacana que mistura a modernidade metropolitana com a fantasia chinesa e artes marciais, a série não tem muito a oferecer; estilo sem substância, e a segunda temporada consegue ser ainda pior; todavia, por vezes mesmo o entretenimento barato nos trás algumas boas intuições... 

Tendo recebido um treinamento kung fu shaolin hard old school secreto, ao mesmo tempo em que é podre de rico, Rand consegue ser um “BETA”, um “macho inferior”, um homem pós-moderno confuso, perdido e inconstante. Danny fracassou para cada uma das missões que lhe fora legado por seus antepassados, da administração das empresas Rand a defesa de K'un Lun; confesso que passei a temporada inteira torcendo pelo vilão, Davos, que ao menos tinha um sentido na vida. Dany é patético, mas de certa forma “real”. O drama do personagem, da maioria dos personagens do bairro chinês, é palpável, embora mal conduzido pelos roteiristas. É o drama do herdeiro, do escolhido, inserido nas dinâmicas relações entre tradição e modernidade. Em meus comentários sobre Karatê Kid, falei sobre como o protagonista fora enxertado em um universo de costumes que não lhe era próprio; em Punho de Ferro a dinâmica é inversa, é a dinâmica do migrante que é forçado a abandonar seu mundo, sua cultura e, se adaptar a um novo mundo, absorver um novo ethos. No estrangeiro, o migrante então toma alguns hábitos modernos, ao mesmo tempo em que procura preservar suas raízes, mas já não é nem um nem outro. Pensemos nos sino-americanos da obra analisada, já não são de fato orientais, a cultura que habitavam se transformou desde que saíram, e ao mesmo tempo não se encaixam como plenamente americanos, a herança que receberam dos antigos impede sua assimilação. Sob um ponto de vista tradicionalista estrito, certo bairrismo amalucado, tais homens seriam um desastre civilizacional que só encontrariam sentido quando ao longo das gerações fossem assimilados, seja a sua nova cultura, seja devolvendo seus filhos para o mundo do qual saíram; mas esse é um raciocínio inadequado. A cultura humana tem junto das nuances regionais, um tom universal. Deste ramo cortado pode surgir uma nova ordem, de um grupo de migrantes longe de suas tradições e de difícil assimilação pode ter origem um novo povo, novas comunidades, uma nova tradição! Sim, eu sei, o assunto é complexo demais para ser tratado a partir de entretenimento ruim, retornarei ao tema algum dia, de todo o modo, fica registrado os esboços desta reflexão para além de um clichê ideológico-tradicionalista demasiado simplista.

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