sábado, 6 de outubro de 2018

Fatos e Flautas


FATOS E FLAUTAS: A MÚSICA E SUA CAPACIDADE DE (A)TRAIR PARA O ABISMO 

A nossa época foi persuadida de ser o ápice da trajetória humana sobre a Terra. Igualmente está persuadida de que a próxima época será ainda melhor que a atual. Não importa que os suicídios estejam em alta, que os estudos demonstrem a queda do QI médio da humanidade, que a criação e disseminação de novas e velhas drogadições esteja a pleno vapor, ou que a multiplicação e a diversificação de armas capazes de devastar o planeta com o aperto de uma única tecla seja uma realidade das mais patentes: o credo dos nossos contemporâneos apregoa uma convicção inabalável nos dias melhores. Exceção feita, é claro, quando algum penetra se torna o centro das atenções na "festa da democracia": sujeitos menos escolados na etiqueta do utopismo humanitário pós-moderno como Trump, Kim Jong-un, Bolsonaro, Hourani, Assad, Duterte, Le Pen e similares são sempre a ameaça de um novo mergulho na idade das trevas quando prevalecem ou se supõe que estejam em vias de prevalecer sobre seus rivais ...

Um dos componentes que demonstram a popularidade desse dogma do "bom está sempre abrindo caminho para o melhor" é o discurso que atesta que não existem gêneros musicais bons ou ruins em si mesmos: o que importa é apenas o valor lúdico presumido em cada um deles por cada glóbulo fixado sobre uma cerviz. Não há uma escala de princípios éticos ou estéticos que seja apreensível e ensinável na apreciação da música: há apenas o caleidoscópio dos gostos, hoje propostos sobretudo pelas grandes cadeias anônimas de comando do mercado e do Estado, além dos entes supraestatais transnacionais a cargo do mundialismo - caleidoscópio esse aberto inclusive ao contributo de psicopatas e adoradores declarados de Satã eleitos por esse triplo mecenato. Não importa que hoje não exista um novo Bach; qualquer pessoa que insista na realidade de que não existem músicas acima do bem e do mal, e que todas estarão de algum modo servindo em medidas distintas ao que há de anterior e superior ao egoísmo imediatista do elemento unitário da espécie humana, são vistas como pessoas arcaicas cheias de pré-concepções estáticas e liberticidas. E eis que pessoas que jamais escutariam uma palavra vinda da boca de um celerado ou de um satanista caso ele batesse em sua porta não só os escutam quando sobem em cima de um palco, mas cantam em uníssono com ele no escárnio mais ou menos velado a tudo que é nobre e elevado: desde o sexo, aquele instinto gerador de uma instituição, nas palavras de Chesterton; passando pela pátria, família de famílias; não sem também golpear a Igreja, encarregada de transmitir e fixar o conhecimento das verdades imutáveis e necessárias para fazer desta vida o penhor da próxima.

O entranhamento firmíssimo do óbvio na mentalidade dos nossos antepassados a respeito da dimensão moral intrínseca e aliciante da música é evidente na facilidade com que exprimiam o fato da existência dessa dimensão mediante fábulas e mitos facilmente compreensíveis até mesmo para os iletrados de suas respectivas épocas. É o caso de recapitularmos alguns e explicitarmos mensagens aplicáveis aos diversos contextos, inclusive o de nossa insensata e presunçosa época; é o que será feito adiante.

Sem fazer muito esforço, recordamos prontamente do Flautista de Hamelin corrompendo as crianças e as induzindo a desobedecer não só à autoridade parental, mas aos ditames elementares da razão, o que é incompatível com a sobrevivência não só da sociedade em si, mas mesmo de cada homem tomado isoladamente.

Recuando um pouco mais na noite dos tempos, podemos contemplar o relato da cosmogonia asteca no qual o deus mau Texcatlipoca ganha acolhida calorosa em Tenochtitlán disfarçado de músico, onde entoa uma melodia vigorosa e febricitante que impede os habitantes da cidade de refrear seus próprios membros, o que os leva a dançar até a morte por extenuação; a música proveniente do Mal, caso propagada com sucesso, levará a cidade - inclusive a polis cristã - à autodestruição. Por algum poder mágico da música? Por certo que não, mas por corromper a ordem - filha da autoridade e da inteligência, nas palavras de Salazar - corrompendo antes a moral e o bem pensar que as sustentam. Ora, e como a má música produz essa dupla corrupção? Alçando a imaginação acima da memória que recorda o homem de seus deveres de justiça e de gratidão, o que quando não torna a autoridade esquecida dos compromissos com seus subalternos, torna estes indignos e sediciosos na medida que os faz ingratos (a gratidão depende da memória) e ávidos por gratificações pouco ou nada factíveis propostas por uma imaginação sem o contrapeso da memória.

Na Hélade, os povos da herança jônica registraram mitos interessantes sobre o aulo (instrumento de sopro) inventado por Atena: a deusa da sabedoria, notando o aspecto desfigurado que tomava sua face ao insuflar suas bochechas para tocar o instrumento, desgostou tanto do objeto que se desfez dele e o ocultou, além de tê-lo amaldiçoado; quem o reencontra para zombar da deusa é justamente um sátiro, Mársias, criatura conhecida no imaginário grego pelo comportamento animalesco evidenciado inclusive por seu corpo mesclado entre o humano e o caprino. No mito em questão, a criatura escrava dos baixos apetites (simbolizados pelo hemicorpo inferior de bode) acaba punida pela deusa por sua irreverência blasfema. Aqui a lição a ser colhida é que a música repudiada pela sabedoria a distorce e a contrista, ao passo que alegra aqueles elementos apartados dela - e essa preterição culpável da sabedoria não só expressa a infâmia daqueles que a praticam, como também o quão merecedores se tornam da cólera divina por isso.

Enquanto estamos sem as tocatas de um novo Bach e nos congratulamos mutuamente pelos sucessos apenas presumidos de nossa época, Mársias, Texcatlipoca e o Flautista de Hamelin aplaudem nosso exercício fútil de cronocentrismo triunfalista embalado pelos cânticos de louvor à contravenção e à blasfêmia transacionados pela indústria do entretenimento. Ao menos até que o Requiem de Mozart seja tocado sobre essa época ignominiosa sob o comando das trombetas do Arcanjo São Gabriel, arauto dos desígnios de Deus ...

Dies irae ....

#Victor Fernandes

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