sábado, 10 de novembro de 2018

Hildegard, a santa pop que cura dos males de hoje

“Eu sou um ser sem instrução e não sei nada sobre as coisas do mundo exterior, mas é interiormente na minha alma que sou instruída...”, escrevia em 1146 Hildegard de Bingen a São Bernardo. Ela tinha o dom da modéstia, como todos os santos. Essa monja autoproclamada ignorante, nascida em Bermersheim, perto de Mainz, em 1098, frágil de constituição, levou uma vida nada comum: fundou mosteiros, reuniu-se com bispos, políticos, foi conselheira (e opositora) de Frederico Barba-Ruiva, teóloga, poetisa, artista, mística, ambientalista, filósofa, filóloga, naturalista, musicóloga, curandeira, exorcista, pregadora.

A reportagem é de Annachiara Sacchi, publicada no caderno La Lettura, do jornal Corriere della Sera, 14-10-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em 2012, o Papa Bento XVI proclamou-a Doutora da Igreja Universal. Há alguns anos, Santa Hildegard de Bingen, “a Sibila do Reno”, é objeto de um renovado interesse. Dos historiadores, mas especialmente dos médicos: os seus tratamentos tornam-na uma pioneira das terapias integradas.

Ar, água, terra, fogo. De acordo com as teorias de Santa Hildegard (e dos seus ilustres antecessores da antiguidade), o ser humano é composto por esses quatro elementos: do seu equilíbrio, dependem “a manutenção dos humores”, o bem-estar, o mal-estar.

A primeira naturopata da Idade Média escrevia (ou ditava a um monge de confiança): “Em toda a criação – árvores, plantas, animais, pedras preciosas – estão escondidas virtudes secretas curativas”. Problema: “Ninguém pode conhece-las, senão por revelação de Deus”.

É por isso que a Hildegard, marcado por visões desde os cinco anos de idade, só restou “servir de mediação” e traduzir no papel o conteúdo desses encontros com o divino, milhares de páginas reunidas nos livros Subtilitates diversarum naturarum creaturarum, Liber simplicis medicinae, Liber compositae medicinae (essa é apenas uma pequena parte da sua produção literária).

A mística – provavelmente sofrendo de terríveis dores de cabeça, como teorizou Oliver Sacks – identificou 6.000 doenças e 2.000 remédios, indicou como uma das causas da enfermidade as toxinas que são produzidas sobretudo “pelo nosso estado emocional e, portanto, pelos nossos pensamentos”, elencou uma lista de 35 causas da cólera “que desgasta o sistema nervoso”, deu indicações sobre a alimentação e estilos de vida: o suficiente para dar origem à “Hildegard-mania” deste século (e milênio), mas também para continuar investigando a medicina da “santa nutricionista”.

Em Stresa, no Lago Maggiore, quem faz isso é o congresso A Discretio de Santa Hildegard na abordagem integrada às doenças crônicas, com pesquisadores, filósofos, bioquímicos, oncologistas envolvidos na discussão sobre discernimento e sabedoria – a discretio beneditino, justamente – de remédios e tratamentos: “Os pensamentos entram como que do fígado”, dizia a abadessa (cargo assumido com apenas 38 anos de idade), que, no seu visionário, introduziu o neologismo viriditas, isto é, aquela energia vital, luminosa e “musical” que move o mundo. A mesma que transparece através dos seus textos, fantásticos e iluminados. Capazes de falar até mesmo (ou principalmente) ao ser humano do século XXI, “intoxicado” pelos ritmos de vida, pelo ambiente que o rodeia, pelo alimento que come. Capazes de olhar para a doença sem esquecer a pessoa, de estudar o ser humano como um sistema complexo.

Christiane Ernst-Paregger formou-se em Medicina em Innsbruck e em Bolonha. Há 25 anos, dirige, em Bolzano, um estudo sobre a “medicina hildegardiana”. Ela é uma das conferencistas do congresso de Stresa e falou nesse domingo de manhã, 14, sobre “Remoção dos venenos e do ‘Lívido Muco’: a base de toda terapia”.

Pouco antes dela, foi a vez de Wighard Strehlow, fundador da Sociedade Alemã de Fitoterapia, supervisor científico da German Food and Drug Administration, aluno do austríaco Gottfried Hertzka (1913-1997), o primeiro a praticar a medicina de Santa Hildegard.

“Por muito tempo – explica Ernst-Paregger – Hildegard de Bingen foi esquecida, mas os seus remédios são excepcionais, especialmente hoje: nos alimentos que comemos, na água que bebemos, no ar que respiramos, existem substâncias nocivas, e o ser humano não faz mais nada além de espalhá-las no ambiente. Confiar nos tratamentos da santa é um dom”. A objeção é imediata: parecem remédios eficazes apenas para pessoas que creem. “Muitos me dizem isso, mas eu dou o exemplo do meu cavalo: ele estava muito doente, mas se curou com os medicamentos da abadessa. Obviamente, um cavalo não crê...”.

Tratamentos para reumatismo, bronquite, olhos vermelhos, depressão, conselhos de alimentação. Cromoterapia – as monjas de Hildegard vestiam hábitos claros, esverdeados, não sem alguma polêmica – fitoterapia, aromaterapia, cristaloterapia. São muitas as perspectivas de desenvolvimento em uma abordagem integrada no tratamento das doenças. Mérito de uma pequena mulher nascida há 920 anos na Alemanha, que não se trancou entre os muros de um mosteiro, mas pregou nas praças e nas igrejas de Colônia, Trier, Liège, Mainz, Metz, Bamberg, Würzburg. Que soube renovar, com as suas visões e o seu senso prático, a teologia, a liturgia, as ciências. Que, com o seu exemplo, soube valorizar o papel da mulher na “sombria” Idade Média, até poder discutir sobre sexualidade feminina.

Nobre e “pop”, audaz (ao “maltratar” Barba-Ruiva quando o imperador se envolveu no cisma que começou em 1159), terrivelmente ortodoxa, embora anticonformista, decisionista, grafômana (ela inventou uma escrita indecifrável), autora de melodias , desenhista, Hildegard morreu no dia 17 de setembro de 1179, aos 81 anos, no mosteiro de Rupertsberg, perto de Bingen. Defensora daquela viriditas que tanto havia pregado na sua longa vida. E que, ainda hoje, talvez, é o traço mais esplêndido e fascinante dessa alma poliédrica, venerada desde sempre, mas declarada oficialmente santa apenas em 2012.

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