sábado, 29 de dezembro de 2018

Sinopse dos erros imputados ao Concílio Vaticano II: Budismo e Hinduísmo

9.3 A falsa descrição do hinduísmo, porque se pode ler, em Nostra Aetate 2, que “no hinduísmo, os homens escrutam o mistério divino e o exprimem pela fecundidade inesgotável dos mitos e pelos esforços penetrantes da filosofia; procuram a libertação das angustias de nossa condição, seja pelas formas da via ascética, seja pela meditação profunda, seja pelo refugio em Deus com amor e confiança”.

Falsa descrição, porque induz o católico a considerar como validas a mitologia e a filosofia hindus, como se elas “escrutassem” efetivamente o “mistério divino” e como se a ascese e a meditação hindus realizassem alguma coisa de semelhante à ascese cristã. Sabemos ao contrário que a mistura de mitologia, de magia e de especulação que caracteriza a espiritualidade hindu desde a época dos Veda (séculos XVI –X a.C.) é responsável por uma concepção da divindade e do mundo completamente monista e panteísta pois, concebendo Deus como uma força cósmica impessoal, ignora a noção de criação e por consequência não faz a distinção entre a realidade sensível e a realidade sobrenatural, entre a realidade material e a realidade espiritual, entre o todo e os elementos particulares, dissolvendo toda existência individual na indistinção do Um cósmico, de onde tudo emana e ao qual tudo retorna na eternidade, enquanto que o eu individual seria em si uma pura aparência. O que falta a esse pensamento, “penetrante” segundo o texto conciliar, é, por força das circunstâncias, a noção da alma individual (bem conhecida dos gregos, em contrapartida) e do que nós chamamos vontade e livre arbítrio.

Acrescentemos a esta doutrina a noção de reencarnação, concepção particularmente perversa (explicitamente condenada no esquema de constituição dogmática De deposito fidei pure custodiendo, que foi elaborado durante a fase preparatória do Concilio e que os progressistas e João XXIII fizeram encalhar durante o Concilio por seu caráter pouco “ecumênico”), e o fato de que a dita “ascese” hindu não é mais do que uma forma de epicurismo para brâmanes, uma procura egoísta e requintada de uma indiferença espiritual superior em relação a todo desejo, mesmo o bom e em relação a toda responsabilidade, indiferença justificada pela ideia de que todo sofrimento purga as faltas de uma vida anterior, etc...O que podem aprender de bom os católicos com tal concepção do mundo? Gostaríamos realmente saber.

9.4 A falsa representação do budismo, variante autônoma parcialmente purificada do hinduísmo. Pode-se, com efeito, ler em Nostra Aetate 2, que no budismo “a insuficiência radical deste mundo mutante é reconhecida e se ensina uma via pela qual os homens, com um coração devoto e confiante, poderão ou adquirir o estado de liberdade perfeita, ou atingir a iluminação suprema por seu próprio esforço ou por um socorro vindo do alto”.

É a imagem de um budismo à la de Lubac, revista e corrigida para ser apreciada por católicos ignorantes que não sabem que “a insuficiência radical deste mundo” é enquadrada pelos budistas numa verdadeira “metafísica do nada”, segundo a qual o mundo e o eu são existências ilusórias e aparentes (e não simplesmente caducas e passageiras mas bem reais, como para o cristão). Para o budista, tudo “se compõe e se decompõe” ao mesmo tempo, a vida é um escoamento continuo cheio da dor universal e para ultrapassar esta dor é preciso se persuadir de que tudo é vão, é preciso se libertar de todo desejo e se fiar em uma iniciação intelectual, uma gnose semelhante à dos hindus (permitindo até o uso da “magia sexual” no budismo tântrico), gnose que deve fazer-nos chegar à indiferença completa de tudo, o Nirvana (“desaparecimento”, “extinção”): uma condição final de privação absoluta na qual só há o nada, o vazio, na qual o eu se extingue totalmente para se dissolver de modo anônimo no Tudo e no Um. Eis o “estado de libertação prefeita” ou de “iluminação suprema” que o Vaticano II ousou propor à atenção e ao respeito dos católicos!

FSSPX; Sinopse dos erros imputados ao Concílio Vaticano II, pág 47-50.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Fazendas Verticais e a falência do seu João

Não sou nenhum grande consumidor de hortaliças, carne frutas e cereais fazem mais o meu gosto, todavia suspeito que o leitor deva comer algum alface, rúcula, almeirão, vagem ou coisa do tipo. Se o leitor reside no Brasil, provavelmente a hortaliça consumida provém de uma pequena propriedade rural ou urbana com mão de obra familiar. Sim, as hortas urbanas estão cada vez mais populares, e se até aqui neste fim de mundo onde moro há algumas, não creio ser muito difícil encontrá-las nas grandes capitais. Porém, este tipo de empreendimento está com os dias contados. Na Europa e nos EUA têm se popularizado um sistema de cultivo conhecido como aerofarms, ou fazendas verticais; onde mesclando técnicas modernas como a hidroponia e a iluminação led, se produz hortaliças em quantidade avassaladora sem a necessidade de agroquímicos (abastecendo assim parcela considerável do mercado “orgânico” no estrangeiro).

Pois é caro amigo hippie, você que entrou nessa onda orgânica em busca de algo mais “natural” pode no futuro consumir hortaliças produzidas em laboratórios, que jamais tiveram sequer algum contato com o a terra ou o sol. Irônico, não?

O sistema ainda está em seus inícios, mas a tendencia é popularizar-se cada vez mais, sobretudo nas grandes metrópoles, tendo como consequência social imediata a expulsão dos pequenos agricultores do mercado. Ora, como a hortinha de seu João poderá competir com o volume e a complexidade destas verdadeiras fábricas vegetais? Entretanto, por agora, a técnica está restrita a espécies de ciclo curto, mais especificamente hortaliças. Não é ainda lucrativo a produção de frutas (culturas perenes) e cereais longe daquilo que chamamos natureza.

Bom, para além de meu pessimismo distópico, mencionemos algumas vantagens da técnica: a viabilidade financeira da produção de hortaliças em grande escala, bem como economia nos gastos decorrentes ao transporte uma vez que é a produção é instalada nas imediações do centro consumidor (dentro das cidades). Porém, não se afobe, no Brasil existe apenas uma unidade a adotar o modelo, creio que resta ainda um prazo de 5 a 7 anos até que a técnica venha a tornar-se relevante no país, sorte pro seu João.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Nem o dinheiro é riqueza...

Dinheiro, riqueza, fortuna, prosperidade; são nomes diferentes para o grande ídolo de nosso tempo. Com o avanço da cultura capitalista, a relação dos indivíduos para com os bens materiais se torna cada vez mais insana. Neste tempo de fim de ano, sobretudo no Brasil, essa insanidade se mescla a macumbarias tropicais com a cultura das chamadas “simpatias”.

Afim de trazer maior lucidez as relações econômicas, recorramos a sabedoria grega, a Sócrates, segundo descrito por Xenofonte em seu ''Econômico''.
- É que pensávamos que patrimônio de um homem fosse o mesmo que propriedade.
- E é! Por Zeus! disse Critobulo. Mas o que de bom ele possui... Não, por Zeus! eu não chamo propriedade, se é algo mau.
- Acho que chamas propriedade o que é proveitoso para cada um.
- É bem assim, disse. O que prejudica mais eu considero perda que riqueza.
- Ah! E, se alguém compra um cavalo, não sabe usá-lo e, caindo, dá-se mal? Para ele o cavalo não é uma riqueza?
- Não, se é que a riqueza é um bem.
- Ah! nem a terra é riqueza para um homem que a trabalha de tal forma que, mesmo trabalhando, sofre perda?
- Mesmo a terra não é riqueza, se, ao invés de nutrir, faz com que se passe fome.
- Então com as ovelhas acontece o mesmo. Se alguém, por não saber usar as ovelhas, sofresse perda, nem as ovelhas seriam riqueza para ele?
- Penso que não.
- Então, acho eu, consideras o que traz proveito riqueza, o que prejudica, não-riqueza.
- É isso.
- Ah! As mesmas coisas são riqueza para quem sabe usá-las e não são riqueza para quem não sabe. Flautas, por exemplo, para quem sabe tocar bem são riqueza e, para quem não sabe, nada mais que pedras inúteis.
- A não ser que as venda ...
- O que nos parece, então, é que para os que as vendem são riqueza, mas, para os que não as vendem e ficam na posse delas, não são, se não sabem usá-las.
- E não há discordância, Sócrates, no andamento de nossa discussão, já que está dito que o proveitoso é riqueza. Se não são vendidas, as flautas não são riqueza, pois não são úteis, mas, se vendidas, são riqueza.
A isso Sócrates respondeu:
- Se é que ele sabe vender... Se, por sua vez, vendesse a quem não soubesse usá-las, mesmo quando vendidas, de acordo com o que estás dizendo, não seriam riqueza.
- Acho, Sócrates, que estás dizendo que nem o dinheiro é riqueza para quem não sabe usá-lo.
- Penso que concordas até este ponto: aquilo de que alguém pode tirar proveito é riqueza. Em todo caso, se alguém usasse o dinheiro para comprar, por exemplo, uma amante, por causa dela, pior ficaria seu corpo, pior sua alma e pior seu patrimônio. Mesmo assim tiraria proveito do dinheiro? Como?
- De forma alguma, a não ser que afirmemos que é riqueza a erva chamada hióscimo, cuja ação faz quem as come ficar louco.
- Então o dinheiro, se alguém não sabe usá-lo, que ele o afaste tão longe de si, Critobulo, que não lhe seja riqueza! Mas e os amigos? Se alguém sabe usá-los de forma que tire proveito deles, o que diremos que são?
- Riqueza, por Zeus! disse Critobulo. E muito mais que os bois, se forem mais proveitosos que os bois.
Eis, pois, uma importante lição vinda dos antigos: só podemos chamar riqueza aquilo que nos faz bem. Se o dinheiro e a posse em demasia dos bens materiais nos fazem mal, não a razão para que o busquemos. Pensemos em nossa alma e, a luz dos ensinamentos Socráticos e de nossa fé católica, moderemos nosso apetite ante o dinheiro, para o bem de nossa alma.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Ingratidão


 
Estamos nos aproximando do Santo Natal, do acontecimento que mudou a história, que mudou nossa história, que mudou minha história. O menino Deus nasce, nasce e uma gruta, junto aos animais sobre o frio do luar na escuridão da noite. Não havia lugar para ele nas casas dos seus e, não bastasse a rejeição inicial, tão logo é obrigado a fugir, refugiar-se no Egito afim de escapar da perseguição de Herodes.

Nós temos um teto, temos uma cama, temos relativa paz, temos uma farta ceia. Não sentimos o frio e a escuridão nas trevas do anoitecer, não estamos obrigados a deixar nossa pátria, fugir ao estrangeiro devido a perseguição dos poderosos. Deus nos deu aquilo que não teve enquanto homem e ainda assim somos tão ingratos.

Que são nossas dificuldades, nossas pequenas irritações, ante a situação em Belém? Somos demasiado dramáticos, diante da mínima intempérie murmuramos como crianças mimadas. Ao olhar o presépio que se calem nossos murmúrios e reclamações. Não temos esse direito! Quando o menino Deus não teve sequer um teto, quando a nobre descendência de Davi teve de viver a pobreza e o exílio. como ousamos nós murmurar e maldizer nossa sorte?

Olhemos para o presépio, olhemos para nós! Não sente vergonha? Vergonha de si mesmo?

Que Deus perdoe nossa ingratidão, nosso orgulho, nossa avareza.

Kyrie Eleison...
Christi Eleison....

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Digimon Frontier: Demasiado subestimado...

Fronteir é a quarta temporada da franquia Digimon e a mais subestimada, tanto pela crítica quanto pelo público em geral. Rememorando a infância, os poucos capítulos que assisti de "Digimon 4" não me empolgaram. A transformação dos protagonistas em digimon ao invés do tradicional parceiro digital fez com parte do carisma da narrativa se perdesse; além disso, as novas crianças escolhidas não tinham lá nada de muito marcante que as destacasse frente aos das temporadas anteriores. Já mais velho, especificamente a poucos meses atrás, rever o anime, sobretudo os capítulos iniciais não foi lá muito prazeroso; a carga dramática é extremamente mitigada em comparação as narrativas anteriores, todavia, no decorrer da história é possível vislumbrar uma explicação: o roteiro de Digimon Fronteir é um dos mais sombrios do universo digital, sendo a abordagem superficial da história necessária para que esta se torne apetecível ao público infanto juvenil. 

Uma guerra religiosa, inúmeras referências bíblicas e esotéricas, um verdadeiro genocídio digital com o sacrifício de inúmeros e inclusive a dúvida a respeito da morte de uma das crianças escolhidas. Olhemos para os gêmeos Koichi e Kouji, irmãos que até então não se conheciam devido a um divórcio traumático, o pai abandonara a mãe e um dos filhos, casando-se com outra mulher; não apenas isso, mas disse ao gêmeo mais novo que sua mãe havia morrido e guardou segredo sobre a existência do filho mais velho. E a história se torna ainda mais sombria quando descobrimos que Koichi morrera no caminho para o mundo digital, tendo apenas sua alma atravessado a fronteira entre os dois mundos, enquanto seu corpo estava em um leito de hospital. Fosse aprofundado e abordado em toda a sua complexidade e dramaticidade, a trama viria a causar pesadelos ao público infantil. 

Na temporada anterior, Digimon Tamers, a melhor da franquia em minha humilde opinião, esse mesmo contraste estava presente, por um lado os diretores e roteiristas buscando aprofundar a complexidade da narrativa, desenvolvendo aspectos psicológicos e dramáticos, por outro a necessidade de mitigar tais aspectos afim de que a obra fosse adequada ao publico visado. Todavia, creio que o resultado final foi bem mais adequado.

Fronteir, o nome chega a ser simbólico, de fato a trama está na fronteira entre o adulto e o infantil e, é devidamente por isso que por fim a impressão que fica é a de que o roteiro foi mal adaptado; ainda assim vale a pena conferir, mas cuidado com as crianças.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Ambições Políticas

Para tantos, a vida intelectual, a contemplação da verdade, não é mais um fim em si mesmo, mas torna-se instrumento, um meio para a conquista de glória, fama e poder. Quantos mal iniciados aos estudos filosóficos já se apressam em abandonar as lições para militar em tal ou qual movimento? Quantos outros não prostituem seu saber, colocando sua retórica a serviço dos poderosos em busca de cargos, dinheiro e poder. Não se busca mais servir a verdade, mas servir-se desta....Quão contrante está a prática moderna com o ideal dos filósofos, o ideal de Sócrates, o ideal de Santo Tomás. A respeito do mais santo dos sábios, diz-nos J. Ferreira Fontes[1]:
Quem escreveu, como Santo Tomás, sobre os mais intrincados problemas políticos e sociais, era certamente capaz de governar. Pois bem, apesar de ser previamente consultado por S. Luís em todos os negócios delicados do governo do Estado, nunca, depois de ter mandado por escrito o seu parecer ao Santo Rei, cedeu à tentação de se ingerir nos enredos políticos; não obstante ter vivido tão perto do Papa e dos Cardiais, como teólogo da Cúria romana, jamais se deixou dominar do pensamento de influir nos negócios eclesiásticos. «Nunca serei mais que um simples Pregador», respondia êle singelamente ao seu amigo Fr. Reginaldo, que lhe dissera um dia: «Sereis nomeado Cardial com Fr. Boaventura e toda a ordem se alegrará com isso». Assim mortificava Santo Tomás todo apetite da vontade ou da inteligência que o pudesse distrair da sua vocação intelectual.
A luz da vida de Santo Tomás, refreemos nossos apetites, mortifiquemos nossas paixões e abandonemos as vaidosas ambições. Que a vaidade, a fama e o poder não venham a cegar-nos para verdade, o qual é o objeto de nosso estudo.
 
[1]  J. Ferreira Fontes. Santo Tomás de Aquino e a Crise Contemporânea; pág.10.

sábado, 15 de dezembro de 2018

O Castigo de Fátima e a Singularidade Tecnológica

O constante avanço técnico-científico não é uma lei histórica absoluta e irreversível como creem os devotos do progresso; antes depende de um frágil e complexo arranjo civilizacional sociopolítico. Tendo isto em vista, gostaria de tecer algumas considerações sobre a teoria da singularidade tecnológica, mais especificamente no que diz respeito a possibilidade de que a inteligência artificial venha a revoltar-se contra os homens, pesadelo este descrito em diversas obras de ficção científica, a exemplo da trilogia Matrix.

Conforme já mencionei antes, a máquina não é capaz de desenvolver algo como fosse uma alma ou uma consciência. Todavia, em correção a anteriores reflexões, é preciso dizer que isso não significa que a máquina não possa vir a ferir o homem, ou atentar pela extinção da raça. A dinâmica interna de sua programação pode levar a i.a. a adotar medidas visando o fim da humanidade. É questão de lógica, o programador estabelece os princípios e a máquina extrai as consequências últimas, se princípios errôneos forem estabelecidos, consequências desastrosas serão resultantes. Assim, por sua programação e lógica interna, é uma possibilidade factível que máquinas venham a representar um risco, todavia isso se deve não ao desenvolvimento de alma e consciência, mas a falhas de programação. Entretanto, creio eu que as desordens internas do atual arranjo civilizacional levarão ao regresso no desenvolvimento técnico-científico antes que sejamos capazes de construir robôs que venham a causar problemas.

Que tipo de desordem poderia ocasionar um regresso tecnológico? Pensemos em um conflito nuclear de proporções mundiais, não restam dúvidas que após tão fatídico episódio os sobreviventes estariam reduzidos a padrões pré-revolução industrial. A temática “pós-apocalíptica”, aliás, já foi também trabalhada em diversas obras sci-fi como “O Livro de Eli” e em “Um Cântico para Leibowitz”.

Dito isto, a luz ainda das profecias de Fátima, gostaria de dar prosseguimento a autocrítica de meus devaneios arqueofuturistas. (Recordo, porém, ao leitor que é um raciocínio próprio, assentado sobre uma <<revelação privada>>, e mais ainda sobre determinada interpretação daquilo que nos chegou das palavras da profecia. Estou a especular sobre o futuro em bases epistemologicamente frágeis. Ainda assim, continuemos...)

Creio nas profecias de Fátima, e penso que a interpretação desta segundo exposto pelo padre Paul Kramer em ''O Derradeiro Combate do Demônio'' seja aquilo que de mais seguro há sobre o assunto. Desta forma, creio que antes do fim dos tempos haverá ainda um período de paz e restauração do poderio temporal da Igreja. SE, porém, esta nova era de ouro se dará em moldes civilizacionais e tecnológicos semelhantes aos nossos, ou se após o castigo regrediremos a técnica da era pré-revolução industrial é algo ainda mais nebuloso. Inicialmente sonhava com uma hipótese high tech pós-castigo, todavia tenho-me inclinado, nos últimos tempos, a tese do regressista, análogo ao que ocorreu com a durante queda do Império Romano. Sendo assim, talvez fosse mais prudente revisitar a literatura pós-apocalíptica.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

O Primitivismo de Unabomber

Entre 1959 até a primavera de 1962 o governo norte-americano realizou uma série de experimentos psicológicos com civis em Harvard; o projeto denominado o MKULTRA visava desenvolver técnicas de lavagem cerebral para lidar com espiões soviéticos. O jovem prodígio Ted Kaczynski foi uma das cobaias selecionadas para tais experiências, os traumas do episódio foram tamanhos que no futuro o genial matemático viria a se tornar o terrorista conhecido como Unabomber.

Ainda hoje Kaczynski goza de grande popularidade, sobretudo em certas comunidades online, sendo visto por muitos como um visionário embora suas ideias políticas no geral sejam bem juvenis (o que revela muita coisa sobre seus admiradores), mas creio que estou me adiantando, antes de discorrer sobre A Sociedade Industrial e seu Futuro é preciso comentar sobre Manhunt: Unabomber.

A série, como o próprio nome sugere, trata de mostrar ao espectador a curiosa história do terrorista Unabomber, sendo a investigação que culminou em sua prisão a técnica narrativa utilizada para nos apresentar o personagem. Além de Kaczynski, Jim Fitzgerald, perfilhador do FBI especialista em linguística florense é personagem de destaque na trama de apenas oito episódios. É perturbador notar a obsessão de Fritz com a investigação, de modo a abandonar sua esposa e filhos, e descartar como marionetes seus colegas de trabalho. E tudo isso em vão, uma vez que todo o crédito pela conclusão do caso ficará com seus superiores, sendo todo o trabalho do perfilhador e sua genialidade ignorado pelo grande público. No que diz respeito a Ted, o roteirista maneja bem a história, fazendo o espectador hora admirar a “genialidade” do vilão [como naquela cena introdutória sobre as “vacas de presépio”], ora solidarizar-se com sua vida sofrida, ora estabelecer um juízo mais severo tendo em vista a crueldade do dano que infligiu a inocentes. Em meu juízo, a culpa sobre os crimes de Kaczynski deveria recair sobre o governo dos EUA, mais especificamente sobre, Henry Murray, psicólogo responsável pelos experimentos desumanos do MK Ultra em Harvard, que vieram a deformar a mente de Ted.

Retornemos as ideias do autor, a tese central de seu manifesto de pouco mais que 70 páginas é uma severa crítica a sociedade industrial e o modo como a tecnologia está a transformar os homens em escravos, retirando-lhes a liberdade e a dignidade:
66. Hoje em dia as pessoas vivem mais em função do que o sistema faz PARA elas, ou do que o sistema LHES faz, do que em função do que fazem por si próprias. E o que fazem por si próprias é cada vez mais condicionado às vias estabelecidas pelo sistema. As oportunidades tendem a ser aquelas que o sistema abre, e têm de ser aproveitadas de acordo com regras e regulamentos, e têm de seguir-se métodos prescritos por peritos para ter-se alguma hipótese de sucesso.
A tese é correta, bem como é feliz em sua percepção das manifestações da decadência desta era apóstata:
145. Imagine uma sociedade submetendo pessoas a condições que as tornam terrivelmente infelizes e que depois lhes dá drogas para retirar esta infelicidade. Ficção científica? Em certo grau isso já está ocorrendo em nossa sociedade. É bem sabido que a taxa de pessoas clinicamente deprimidas aumentou muito nas últimas décadas. (...) Salvo engano, o incremento da taxa de pessoas que sofrem de depressão é certamente o resultado de ALGUMAS condições existentes na sociedade de hoje. Em vez de extirpar as condições que geram depressão, a sociedade moderna disponibiliza drogas antidepresivas. Na realidade, os antidepressivos são um meio de modificar o estado interno de um indivíduo de tal maneira que lhe permita suportar condições sociais intoleráveis. (...)
Todavia, não vai muito além de qualquer ficcionista de uma distopia sic-fi. Kaczynski reduz toda a questão da degeneração social ao avanço imoderado da técnica, e propõe uma revolução ludista com vistas a um retorno primitivista as condições pré-industriais como a solução final ante os problemas civilizacionais modernos. A tecnologia para Kaczynski é como um demônio incriado que cresce e se alimenta da liberdade humana, tendo pouca relação com o substrato ideológico na qual se gestou. O avanço da técnica seria um mal em si mesmo, e não algo neutro que pode vir a tornar-se perigoso dado a seu uso inadequado.
50. Os conservadores iludem-se: enquanto se queixam da perda progressiva dos valores tradicionais, apoiam entusiasticamente o progresso e o crescimento da economia. Aparentemente nunca lhes ocorreu que não se pode mudar rápida e drasticamente a tecnologia e a economia da sociedade sem também causar mudanças rápidas em todos os outros aspectos da sociedade, e que tais mudanças acabam inevitavelmente por sacrificar os valores tradicionais.

51. A perda dos valores tradicionais implica de certa maneira a quebra dos elos que unem os pequenos agrupamentos tradicionais. A desintegração destes grupos também é promovida pelo fato de as pessoas, nas condições modernas, terem frequentemente de mudar-se (por exigência ou tentação) para outras terras, separando-se das suas comunidades. Além disso, uma sociedade tecnológica TEM DE enfraquecer os laços familiares e as comunidades locais para poder funcionar eficientemente. Nas sociedades modernas a lealdade de cada indivíduo tem de ser primeiro ao sistema e só secundariamente à pequena comunidade, porque se as lealdades internas das pequenas comunidades fossem mais fortes do que a lealdade ao sistema, essas comunidades actuariam para se favorecerem à custa do sistema.
No meu modesto entendimento, a alternativa arqueofuturista faz-se muito mais interessante que a revolução primitivista de Ted. Uma vez que a sociedade seja mais organizada de forma teocêntrica, limites concretos e seguros seriam estabelecidos ao uso da técnica, afim de que está não viesse a profanar o sagrado, violar a dignidade humana, e desrespeitar a harmonia da criação, sem a necessidade de voltarmos ao tempo das cavernas.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Verdaderios Israelitas

Tenho lido nos últimos dias “El Judio en el Misterio de La Historia” de autoria do renomado Padre Julio Meinvielle; obra interessantíssima e deveras polêmica, a qual se encontra apenas disponível em .pdf; dificilmente encontrará o leitor uma edição física e creio que nenhum editor terá a audácia de publicar uma tradução em português do livro; eu mesmo fico receoso em transcrever aqui os trechos mais polêmicos (e sem dúvida os mais interessantes) do grande distributivista argentino; limito-me aqui a indicar sua leitura, e expor algumas considerações iniciais:

EL JUDÍO SEGÚN LA TEOLOGÍA CATÓLICA

El judío no es como los demás pueblos, que hoy nacen y mañana fenecen; que crean una civilización admirable restringida a un punto del tiempo y del espacio. Recordemos los grandes imperios de los egipcios, de los asirios, de los persas, de los griegos y romanos. Su gloria fue gloria de un día.

El pueblo judío, porción minúscula enclavada en la encrucijada del Oriente y del Occidente, está hecho de pequeñez para llevar el misterio de Dios a través de los siglos. Y para llevar este misterio grabado en su carne.

No debe crear una civilización porque esto es humano, y a él está reservado lo divino. Es el pueblo teológico, que Dios crea para sí. Moisés nos refiere en el Génesis cómo el Señor Dios, 2.000 años A. C., llama al Patriarca Abrahán, que vivía en Ur de Caldea, en la Mesopotámia, y le dice:

l. Sal de tu tierra, y de tu parentela; y de la casa de tu padre, y ven a la tierra que te mostraré.

2. Y hacerte he en gran gente, y te bendeciré, y engrandeceré tu nombre, y serás bendito.

3. Bendeciré a los que te bendigan y maldeciré a los que te maldigan, y en ti serán benditos todos los linajes de la tierra. (Cap. 12).

El pueblo judío, hijo de Abrahán, tiene entonces su origen en Dios, porque Él lo selecciona del resto de la humanidad y porque a Él le promete su bendición en forma tal que en él serán benditos todos los linajes de la tierra. Israel, entonces, es grande, y grande con grandeza teológica.

¿Pero esta grandeza de Israel estriba puramente en su descendencia carnal de Abrahán, en que este pueblo está formado en los lomos del Patriarca, o en cambio estriba en la fe que tiene Abrahán en la Promesa de Dios?

Esto es sumamente importante; porque si las bendiciones de Dios son para la descendencia carnal de Abrahán, para la pura descendencia carnal, entonces por el hecho de ser hijo de Abrahán, el pueblo judío será elegido y bendito entre todos los linajes de la tierra.

Si en cambio las bendiciones están reservadas a la fe en la Divina Promesa, la pura descendencia carnal no vale; es necesaria la descendencia de Abrahán por la fe en la Promesa, o sea una descendencia espiritual fundada en la fe.

ISMAEL E ISAAC

¿En qué estriba, entonces, la grandeza de Israel, según los divinos designios? Para mostrarlo Dios le da a Abrahán dos hijos. Uno, de su esclava Agar, que nace en forma corriente y natural, y recibe el nombre de Ismael. El otro que contra toda esperanza le pare su mujer Sara en la vejez, de acuerdo a la Promesa de Dios, y que es llamado Isaac.

Con Isaac y con su descendencia después de él confirma Dios el pacto celebrado con Abrahán. A Ismael le otorga el Señor también una bendición puramente material, prometiéndole hacerle caudillo de un gran pueblo. De este Ismael descienden los actuales árabes, que tan reciamente se han opuesto a la entrada de los judíos en Palestina. Como Ismael, el hijo de la esclava, se burlase y persiguiese a Isaac, Abrahán, a instancia de Sara, su mujer, y de acuerdo a la orden de Dios, tuvo que echarlo de su casa. (Ver Génesis, cap. 21,-9-21).

¿Qué significado tienen estos dos hijos de Abrahán, Ismael e Isaac? San Pablo, el gran Apóstol de los Misterios de Dios, nos explica que en Ismael e Isaac están prefigurados dos pueblos. (San Pablo ad. Gal. 4, 22-31).

Ismael, que nace primero de Abrahán, como fruto natural de su esclava Agar, figura la Sinagoga de los judíos, que se gloría de venir de la carne de Abrahán. Isaac, en cambio, que nace milagrosamente de acuerdo a la promesa divina, de Sara la estéril, representa y figura a la Iglesia, que ha surgido, como Isaac, por la fe en la Promesa de Cristo.

No es, por tanto, la descendencia carnal de Abrahán lo que salva, sino su unión espiritual por la fe en Cristo.

El pueblo judío, formado en Abrahán, no es precisamente por su unión carnal con Abrahán, sino asemejándosele en la fe, creyendo en Cristo, como puede lograr su salud.

Todos los que se unen con Cristo forman la descendencia bienaventurada de Abrahán y de los Patriarcas, y son el objeto de las Divinas Promesas. La Iglesia es Sara hecha fecunda por la virtud de Dios. El espíritu vivifica, y la carne, en cambio, nada vale, decía más tarde Jesucristo. (S. Juan 6, 64).

¿Podría suceder que este pueblo, o parte de este pueblo, unido por lazos carnales con Abrahán, creyese que esta pura unión genealógica es la que justifica y salva?

Sí podría suceder, y sucedió... Y para prefigurarlo, comenta el Apóstol San Pablo, dispuso Dios que Abrahán tuviese dos hijos, uno de la esclava y otro de la libre. Mas el de la esclava nació según la carne; al contrario, el de la libre nació en virtud de la Promesa. Todo lo cual fue dicho por alegoría para significar que el hecho de una pura unión carnal con Abrahán está representado en Ismael, el hijo de la esclava, y la imitación de Abrahán por la fe en Jesucristo figurada en Isaac, el hijo de la Promesa.

De aquí que haya que distinguir entre los verdaderos israelitas porque imitaron su fe en Dios creyendo en Jesucristo, y éstos están figurados en Isaac, y los israelitas que descienden de Abrahán por la carne sin imitar su fe, y éstos están figurados en Ismael.

Ismael perseguía a Isaac. Y San Pablo, comentando, añade: Mas así como entonces el que había nacido según la carne perseguía al nacido según el espíritu, así sucede también ahora. (Gál.4.29).

Y aquí está expresada la necesidad teológica de que Ismael persiga a Isaac, la Sinagoga persiga a la Iglesia, los judíos que están unidos con Abrahán por sólo una unión carnal persigan a los cristianos, verdaderos israelitas, unidos por la fe en Cristo.