quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Nem o dinheiro é riqueza...

Dinheiro, riqueza, fortuna, prosperidade; são nomes diferentes para o grande ídolo de nosso tempo. Com o avanço da cultura capitalista, a relação dos indivíduos para com os bens materiais se torna cada vez mais insana. Neste tempo de fim de ano, sobretudo no Brasil, essa insanidade se mescla a macumbarias tropicais com a cultura das chamadas “simpatias”.

Afim de trazer maior lucidez as relações econômicas, recorramos a sabedoria grega, a Sócrates, segundo descrito por Xenofonte em seu ''Econômico''.
- É que pensávamos que patrimônio de um homem fosse o mesmo que propriedade.
- E é! Por Zeus! disse Critobulo. Mas o que de bom ele possui... Não, por Zeus! eu não chamo propriedade, se é algo mau.
- Acho que chamas propriedade o que é proveitoso para cada um.
- É bem assim, disse. O que prejudica mais eu considero perda que riqueza.
- Ah! E, se alguém compra um cavalo, não sabe usá-lo e, caindo, dá-se mal? Para ele o cavalo não é uma riqueza?
- Não, se é que a riqueza é um bem.
- Ah! nem a terra é riqueza para um homem que a trabalha de tal forma que, mesmo trabalhando, sofre perda?
- Mesmo a terra não é riqueza, se, ao invés de nutrir, faz com que se passe fome.
- Então com as ovelhas acontece o mesmo. Se alguém, por não saber usar as ovelhas, sofresse perda, nem as ovelhas seriam riqueza para ele?
- Penso que não.
- Então, acho eu, consideras o que traz proveito riqueza, o que prejudica, não-riqueza.
- É isso.
- Ah! As mesmas coisas são riqueza para quem sabe usá-las e não são riqueza para quem não sabe. Flautas, por exemplo, para quem sabe tocar bem são riqueza e, para quem não sabe, nada mais que pedras inúteis.
- A não ser que as venda ...
- O que nos parece, então, é que para os que as vendem são riqueza, mas, para os que não as vendem e ficam na posse delas, não são, se não sabem usá-las.
- E não há discordância, Sócrates, no andamento de nossa discussão, já que está dito que o proveitoso é riqueza. Se não são vendidas, as flautas não são riqueza, pois não são úteis, mas, se vendidas, são riqueza.
A isso Sócrates respondeu:
- Se é que ele sabe vender... Se, por sua vez, vendesse a quem não soubesse usá-las, mesmo quando vendidas, de acordo com o que estás dizendo, não seriam riqueza.
- Acho, Sócrates, que estás dizendo que nem o dinheiro é riqueza para quem não sabe usá-lo.
- Penso que concordas até este ponto: aquilo de que alguém pode tirar proveito é riqueza. Em todo caso, se alguém usasse o dinheiro para comprar, por exemplo, uma amante, por causa dela, pior ficaria seu corpo, pior sua alma e pior seu patrimônio. Mesmo assim tiraria proveito do dinheiro? Como?
- De forma alguma, a não ser que afirmemos que é riqueza a erva chamada hióscimo, cuja ação faz quem as come ficar louco.
- Então o dinheiro, se alguém não sabe usá-lo, que ele o afaste tão longe de si, Critobulo, que não lhe seja riqueza! Mas e os amigos? Se alguém sabe usá-los de forma que tire proveito deles, o que diremos que são?
- Riqueza, por Zeus! disse Critobulo. E muito mais que os bois, se forem mais proveitosos que os bois.
Eis, pois, uma importante lição vinda dos antigos: só podemos chamar riqueza aquilo que nos faz bem. Se o dinheiro e a posse em demasia dos bens materiais nos fazem mal, não a razão para que o busquemos. Pensemos em nossa alma e, a luz dos ensinamentos Socráticos e de nossa fé católica, moderemos nosso apetite ante o dinheiro, para o bem de nossa alma.

Nenhum comentário:

Postar um comentário