terça-feira, 11 de dezembro de 2018

O Primitivismo de Unabomber

Entre 1959 até a primavera de 1962 o governo norte-americano realizou uma série de experimentos psicológicos com civis em Harvard; o projeto denominado o MKULTRA visava desenvolver técnicas de lavagem cerebral para lidar com espiões soviéticos. O jovem prodígio Ted Kaczynski foi uma das cobaias selecionadas para tais experiências, os traumas do episódio foram tamanhos que no futuro o genial matemático viria a se tornar o terrorista conhecido como Unabomber.

Ainda hoje Kaczynski goza de grande popularidade, sobretudo em certas comunidades online, sendo visto por muitos como um visionário embora suas ideias políticas no geral sejam bem juvenis (o que revela muita coisa sobre seus admiradores), mas creio que estou me adiantando, antes de discorrer sobre A Sociedade Industrial e seu Futuro é preciso comentar sobre Manhunt: Unabomber.

A série, como o próprio nome sugere, trata de mostrar ao espectador a curiosa história do terrorista Unabomber, sendo a investigação que culminou em sua prisão a técnica narrativa utilizada para nos apresentar o personagem. Além de Kaczynski, Jim Fitzgerald, perfilhador do FBI especialista em linguística florense é personagem de destaque na trama de apenas oito episódios. É perturbador notar a obsessão de Fritz com a investigação, de modo a abandonar sua esposa e filhos, e descartar como marionetes seus colegas de trabalho. E tudo isso em vão, uma vez que todo o crédito pela conclusão do caso ficará com seus superiores, sendo todo o trabalho do perfilhador e sua genialidade ignorado pelo grande público. No que diz respeito a Ted, o roteirista maneja bem a história, fazendo o espectador hora admirar a “genialidade” do vilão [como naquela cena introdutória sobre as “vacas de presépio”], ora solidarizar-se com sua vida sofrida, ora estabelecer um juízo mais severo tendo em vista a crueldade do dano que infligiu a inocentes. Em meu juízo, a culpa sobre os crimes de Kaczynski deveria recair sobre o governo dos EUA, mais especificamente sobre, Henry Murray, psicólogo responsável pelos experimentos desumanos do MK Ultra em Harvard, que vieram a deformar a mente de Ted.

Retornemos as ideias do autor, a tese central de seu manifesto de pouco mais que 70 páginas é uma severa crítica a sociedade industrial e o modo como a tecnologia está a transformar os homens em escravos, retirando-lhes a liberdade e a dignidade:
66. Hoje em dia as pessoas vivem mais em função do que o sistema faz PARA elas, ou do que o sistema LHES faz, do que em função do que fazem por si próprias. E o que fazem por si próprias é cada vez mais condicionado às vias estabelecidas pelo sistema. As oportunidades tendem a ser aquelas que o sistema abre, e têm de ser aproveitadas de acordo com regras e regulamentos, e têm de seguir-se métodos prescritos por peritos para ter-se alguma hipótese de sucesso.
A tese é correta, bem como é feliz em sua percepção das manifestações da decadência desta era apóstata:
145. Imagine uma sociedade submetendo pessoas a condições que as tornam terrivelmente infelizes e que depois lhes dá drogas para retirar esta infelicidade. Ficção científica? Em certo grau isso já está ocorrendo em nossa sociedade. É bem sabido que a taxa de pessoas clinicamente deprimidas aumentou muito nas últimas décadas. (...) Salvo engano, o incremento da taxa de pessoas que sofrem de depressão é certamente o resultado de ALGUMAS condições existentes na sociedade de hoje. Em vez de extirpar as condições que geram depressão, a sociedade moderna disponibiliza drogas antidepresivas. Na realidade, os antidepressivos são um meio de modificar o estado interno de um indivíduo de tal maneira que lhe permita suportar condições sociais intoleráveis. (...)
Todavia, não vai muito além de qualquer ficcionista de uma distopia sic-fi. Kaczynski reduz toda a questão da degeneração social ao avanço imoderado da técnica, e propõe uma revolução ludista com vistas a um retorno primitivista as condições pré-industriais como a solução final ante os problemas civilizacionais modernos. A tecnologia para Kaczynski é como um demônio incriado que cresce e se alimenta da liberdade humana, tendo pouca relação com o substrato ideológico na qual se gestou. O avanço da técnica seria um mal em si mesmo, e não algo neutro que pode vir a tornar-se perigoso dado a seu uso inadequado.
50. Os conservadores iludem-se: enquanto se queixam da perda progressiva dos valores tradicionais, apoiam entusiasticamente o progresso e o crescimento da economia. Aparentemente nunca lhes ocorreu que não se pode mudar rápida e drasticamente a tecnologia e a economia da sociedade sem também causar mudanças rápidas em todos os outros aspectos da sociedade, e que tais mudanças acabam inevitavelmente por sacrificar os valores tradicionais.

51. A perda dos valores tradicionais implica de certa maneira a quebra dos elos que unem os pequenos agrupamentos tradicionais. A desintegração destes grupos também é promovida pelo fato de as pessoas, nas condições modernas, terem frequentemente de mudar-se (por exigência ou tentação) para outras terras, separando-se das suas comunidades. Além disso, uma sociedade tecnológica TEM DE enfraquecer os laços familiares e as comunidades locais para poder funcionar eficientemente. Nas sociedades modernas a lealdade de cada indivíduo tem de ser primeiro ao sistema e só secundariamente à pequena comunidade, porque se as lealdades internas das pequenas comunidades fossem mais fortes do que a lealdade ao sistema, essas comunidades actuariam para se favorecerem à custa do sistema.
No meu modesto entendimento, a alternativa arqueofuturista faz-se muito mais interessante que a revolução primitivista de Ted. Uma vez que a sociedade seja mais organizada de forma teocêntrica, limites concretos e seguros seriam estabelecidos ao uso da técnica, afim de que está não viesse a profanar o sagrado, violar a dignidade humana, e desrespeitar a harmonia da criação, sem a necessidade de voltarmos ao tempo das cavernas.

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