quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Aventuras Selvagens

24ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira leitura (1Tm 3,14-16)
Responsório (Sl 110)
Evangelho (Lc 7,31-35)

<Grandes são as obras do Senhor (Sl 110, 2b)>; é o que hoje se canta na liturgia junto ao salmista. Mas, até que ponto essa admiração é sincera? Em um mundo onde tantos vivem enfurnados nas cidades, longe da Criação, distante da imensidão do mar, da magnanimidade das montanhas, da beleza da fauna, dos aromas das flores; onde, não raro a iluminação urbana ofusca a luz das estrelas, e pouca atenção dedicamos observar a lua e os planetas; que grau de sinceridade há em nosso canto? Quantos de nós, de facto, estamos a contemplar as grandes obras do Senhor? E não fiquemos apenas nas maravilhas da criação, pensemos também nas grandes catedrais, na vida dos santos? Quantos destes homens e mulheres grandiosos não caminham sobre a terra, não seria algo sublime ter a graça de conhecê-los ainda em vida?

Há tanta gente buscando “reformar o mundo”, outros tantos se esforçam por “salvar o planeta”, e perdem tanto tempo em seus devaneios, em seu heroísmo de sofá, que se furtam desta grande aventura que se mostra ante nossos olhos, a missão de explorar o mundo, passear por sobre o jardim no qual estamos instalados. Já é tempo de nos afastarmos dessa poltronice e vivermos algumas aventuras selvagens!

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Sofrendo-vos uns aos outros


23ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (Cl 3,12-17)
Responsório (Sl 150)
Evangelho (Lc 6,27-38)

No Evangelho de hoje, Nosso Senhor Jesus Cristo ordena que amemos nossos inimigos. Missão difícil, sem dúvida! Comecemos, porém, pelo mais fácil, aquilo que alguns momentos antes escutamos na liturgia, na leitura da Carta de São Paulo aos Colossenses; o apóstolo nos exorta a perseverar:
sofrendo-vos uns aos outros e perdoado-vos mutuamente, se algum tem razão de queixa contra o outro: assim como o Senhor vos perdoou a vós, assim também vós (deveis perdoar uns aos outros). Sobretudo, porém, tende caridade, que é o vínculo da perfeição; triunfe em vossos corações a paz de Cristo, à qual também fostes chamados, para (formar) um só corpo, e sede agradecidos. (Cl 3 13-15)

Atente o leitor que São Paulo fala do amor devido aos irmãos de fé. Pensemos este como um “primeiro degrau” na escada da caridade, um primeiro passo até que consigamos de fato cumprir o que nos ordena o Evangelho a respeito de nossos inimigos. Parece fácil, mas não o é! Note a expressão do apóstolo: <<sofrendo-vos uns aos outros>>! A convivência é algo um tanto quanto incômodo, já é complicado lidarmos com nossos amigos, com nossos familiares, tanto mais com aqueles que, embora unidos pela fé, possuem tantas diferenças de temperamento, pensamento, costumes, classe social, nível intelectual, opção política e, não raro, perspectivas teológicas. Tanto mais nestes tempos de tormenta onde a Igreja vive uma das maiores crises de sua história. <Ihh, lá vai você de novo com seus tradicionalismos delirantes e apocalípticos> - diriam, talvez, alguns leitores; pois se lhes é sofrível suportar meus <<tradicionalismos apocalípticos>>, de igual modo me é sofrível suportar este pacifismo infeliz, este otimismo imbecil, esta cegueira voluntária afetada por um sentimentalismo efeminado ante os tempos que vivemos. Apesar disto, há que se obedecer o apóstolo: <<sofrendo-vos uns aos outros>>

O modo mais fácil de viver tal ensinamento é “cada um procurar sua turma”; a Igreja é sábia, sabe que por vezes isso se faz necessário, tanto que vemos certa variedade de ritos e estética litúrgica e arquitetônica; pensemos nos ritos orientais, pensemos no rito bizantino, no rito ucraniano, etc.. Mesmo vivendo em território latino, foi permitido a nossos irmãos se organizarem e agruparem segundo suas origens étnicas e seus ritos tradicionais. Isto, contudo, não deve impedir a colaboração com os demais membros da Igreja; cito agora São Josemaria Escrivá
Foge dos sectarismos que se opõe a uma colaboração leal. (Sulco 363) 

Se é certo que nos é lícito procurar, mesmo dentro da Igreja, aqueles que nos são semelhantes, conservando nossa identidade e evitando ser absorvidos por certa “cultura eclesial” que nos parece inadequada; por outro lado não devemos nos furtar de colaborar com nossos irmãos naquilo que é justo. Teoricamente é algo simples, mas na prática se mostra algo extremamente complicado, não raro tantos se anulam em uma mediocridade geral, em um provincianismo temporal, renunciando a uma visão mais ampla para se adequar a certo modismo eclesial;. ou, o que é mais comum, acontece que a as diferenças são hipertrofiadas de modo quase sectário, sendo o trato com o irmão reduzido a mínimo necessário. Vigiemos, <<sofrendo-vos uns aos outros>>, com inteligência e caridade sem renunciar, porém, a nossa identidade, tampouco a uma colaboração leal em justas batalhas.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Filosofia Inútil

23ª Semana do Tempo Comum - Terça-feira
Primeira Leitura (Cl 2,6-15)
Responsório (144)
Evangelho (Lc 6,12-19)

1. <Vede que ninguém vos engane por meio da filosofia inútil e enganadora, segunda a tradição dos homens, segundo os elementos do mundo, e não segundo Cristo (Cl 2,8)>; assim ensina o apóstolo São Paulo, o Beato Pio IX também ecoa esse precioso ensinamento quando condena em seu Syllabus a proposição segundo a qual: <A Igreja não só não deve repreender em coisa alguma a filosofia, mas tolerar os erros da mesma e deixar que ela se corrija dos mesmos>. Infelizmente, tantos cristãos abandonam tão sublimes ensinamentos para se apegar ao lodo dos erros mundanos. Com quanta facilidade tantos de nossos irmão abandonam os ensinamentos de Cristo e da Igreja, acolhendo a tolas e errôneas filosofias, e numa inversão demoníaca, subordinando a autoridade da revelação ao clive de seus mestres mundanos? Rezemos por esses nossos irmãos desviados, e combatamos com coragem tais filosofias enganadoras, mesmo que por vezes, tais erros venham, tristemente, a ser proclamadas até mesmo por Papas e Cardeais, como têm ocorrido desde o Concílio Vaticano II.

2. Antes de escolher os doze, Cristo sobe a montanha e passa toda a noite em oração. Também nós deveríamos fazer o mesmo antes de tomar importantes decisões: nos colocar na presença de Deus e rezar pedindo luzes a fim de decidir corretamente. 

3. Pergunto ao leitor, já subiu a montanha? Não falo metaforicamente, mas real e de facto. Não raro nos confinamos nos limites da cidade, subtraindo todo o contato com a criação. O Papa Francisco nos exorta: <Este é o tempo para voltar a habituarmo-nos a rezar imersos na natureza, onde espontaneamente nasce a gratidão a Deus criador >. Quem sabe nas próximas férias não reservemos algum tempo para algumas aventuras selvagens, como fazia o Beato Pier Giorgio Frassati.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Épica Pescaria


22ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (Cl 1,9-14)
Responsório (Sl 97)
Evangelho (Lc 5,1-11)

No Evangelho de hoje contemplamos o episódio da pesca milagrosa. A cena impressiona tanto em seu aspecto sobrenatural, mas também nos seus contornos mais naturais. São Pedro menciona que trabalhara a noite inteira sem resultados, jogara as redes pelas escuras madrugadas da idade antiga sem conseguir pescar nada… Pergunto ao leitor, consegue imaginar a cena em toda sua riqueza?  Em minha curta vida não conheço ainda o mar; vi apenas alguns poucos rios, o Rio Grande, na “fronteira” entre Minas Gerais e São Paulo e o Rio do Peixe em Goiás. Percorri um pequeno trecho do Rio do Peixe durante o período de seca em um barquinho de pesca, que suponho eu, muito difere da barca de Pedro. O barco era pequeno, mas motorizado, todavia como o rio estava extremamente raso, houve necessidade de remar, o que se mostrou uma experiência bem mais difícil do que imaginava… Essas minhas insignificâncias porém, nem de longe ecoam a intensidade da experiência de Pedro. As águas que percorreu eram profundas e a pescaria se deu durante a noite, em um tempo onde sequer existia energia elétrica. A noite já é um mistério ainda hoje, com todas as bugigangas tecnológicas, quanto mais antes, isto ainda em meio as águas profundas, longe da terra firme! Há certo tom épico, determinado contorno heroico nesta simples pescaria de outrora. Imaginemos o barco levado pela correnteza, o sereno da madrugada, a profundeza das águas a refletir a escuridão da noite, iluminada talvez pela lua e as estrelas. Tão somente em seus contornos naturais a cena é belíssima… E após essa noite poética, todavia inútil, obedecendo a ordem do Salvador os pescadores lançam as redes uma vez mais, e a pesca é abundante. Quanto alegria e espanto não devem ter sentido aqueles homens? Dois mil anos depois ainda lemos essa história, mas não raro com tanta má vontade… Nos furtamos do esforço imaginativo de reconstruir mentalmente toda a maravilha do ocorrido, pulando diretamente as consequências morais e teológicas. Mas antes da teologia houve a experiência real e concreta! Quão longe estamos nós deste contato com o real, não digo apenas da experiência com o divino, mas com o simples contato com a criação. O mundo é uma aventura épica e nós o transformamos numa monotonia chata e rotineira. 

Termino estas reflexões com está bela pintura de Caspar David Frederich; "Barco de Pesca no Mar Báltico". A obra ajuda-nos maravilhar-nos ante criação, a imaginar toda a poesia de uma pesca noturna e, quem sabe, não nos inspire em futuras aventuras.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

"Cala-te"


22ª Semana do Tempo Comum - Terça-feira
Primeira Leitura (1Ts 5,1-6.9-11)
Responsório (Sl 26)
Evangelho (Lc 4,31-37)

Nosso Senhor Jesus Cristo manda aos demônios que se calem. Todavia, muitas vezes, nós procedemos de maneira oposta, movidos por vã curiosidade a dar ouvidos a conversa do Diabo. Tal qual Eva, procuram  dialogar com a serpente. Tantos se achegam a astrologia, a magia e tantas outras imundices que sobem a terra como vapor do inferno, conscientes de sua malícia, mas procurando de alguma forma ganhar poder sobre elas, obter algum conhecimento oculto e enganar a Satanás em seu próprio jogo. Quanta petulância! E de tal se serve o inimigo para os escravizar.  Hoje pululam publicações e mais publicações de exorcistas que, não raro, afetados por alguma imprudência reproduzem longos diálogos com os espíritos infernais, tentando extrair deles juízos sobre os acontecimentos terrestres. Quantos dessas supostas revelações não contradizem a diametralmente a doutrina revelada, como quando em um deles se afirma que a alma de um defunto deixara o purgatório para possuir um vivente? Ou certo afago a uma teologia pacifista a afirmar que Deus não criara o inferno? Sem falar de tantas bajulações, quando se afirma que tal ou qual Papa ou clérigo inspiraria medo e temor ao capetas?

“Cala-te”; que os demônios se calem. No diálogo com tais criaturas há grande perigo ao homem. Fujamos desta vã curiosidade que pavimenta o caminho para o inferno.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

"Nenhum profeta é (bem) recebido na sua Pátria"


22ª Semana do Tempo Comum - Segunda-feira 
Primeira Leitura (1Ts 4,13-18)
Responsório (Sl 95)
Evangelho (Lc 4,16-30)

<Ele, porém, disse-lhes: Na verdade vos digo que nenhum profeta é (bem) recebido na sua pátria (Lc 4 24)>; tal fato parece uma espécie de lei de nossa natureza humana decaída. Vemos isto em nós mesmos, vejo isto em mim… Quão mais fácil é louvar os tesouros vindos do estrangeiro, quão difícil é acolher aqueles que se manifestam em nosso entorno imediato. Que sei eu dê minha cidade, de meu país, de seus santos, heróis e profetas, de suas paisagens e épicos episódios, de sua literatura e poesia? Muito pouco. E (talvez de forma arrogante) não me julgo um simples homem comum, mas um intelectual que se esforça por conhecer… Li eu hagiografias de Santo Antônio, São Pio X, Carlo Acutis, Pier Giorgio Frassati, mas não de São José de Anchieta, São Frei Galvão ou da irmã Dulce. Tenho em meu oratório imagens da Virgem de La Salete, mas não de Nossa Senhora Aparecida. Aqui na cidade a diocese se mobiliza pela canonização de um sacerdote falecido em 2010, o padre André Bortolameotti, do qual sei muito pouco… 

Pergunto ao leitor, estaria ele em melhor situação?

Façamos o propósito de um sincero esforço para fugir desta tendência a desprezar os nossos. Que da próxima vez que ouvirmos tal Evangelho, estejamos nós em uma situação um pouco melhor no que diz respeito a valorização dos tesouros locais. 

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

"Minha boca anunciará sua justiça"

21ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Martírio de São João Batista
Primeira Leitura (Jr 1,17-19)
Responsório (Sl 70)
Evangelho (Mc 6,17-29)

São João Batista não liderava fortes exércitos, tampouco realizou em vida grandes milagres. Sua única arma fora a palavra, sua língua como uma espada de dois gumes penetrava os corações. Suas palavras despertaram tanto ódio que Herodíades não podia suportar que continuasse a viver. 

Como meras palavras podem ter tanto poder? Poder tamanho que ecoam ainda hoje quase dois mil anos. E passados milênios as mesmas palavras perturbam tantos corações entregues ao pecado e ao demônio? As palavras de João eram verdade e justiça, o poder da verdade é tremendo. Se nossas palavras fossem como a de São João Batista, colocaríamos “fogo no mundo”; perturbaríamos esta modernidade apóstata e iníqua. Para tal, porém, teríamos de estar dispostos a pagar com a vida se fosse necessário. A verdade é uma arma poderosa, mas exigente. 

São João Batista é um mártir, um herói da fé, e a maioria de nós um bando de covardes. O estado do mundo de hoje dá testemunha de nossa covardia, de nossa fraqueza. Mais do que apenas admirar as virtudes de João, imploremos a Deus a graça de imitá-lo, a coragem de desembainhar a espada da verdade; para então podermos de facto viver aquilo que cantamos no salmo: “Minha boca anunciará sua justiça” (Sl 70, 15a)

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

"Porque as trevas não são escuras para ti"


21ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (1Ts 2,9-13)
Responsório (Sl 138)
Evangelho (Mt 23,27-32)

1. A liturgia de hoje é tão providencialmente harmônica que se assemelha a uma sinfonia clássica. O salmo que hoje cantamos é de uma beleza ímpar; trata-se do Salmo 138, bem conhecido em nossas terras nestes tempos, dado que o Padre Marcelo Rossi escreveu uma bela música nele inspirado: Sonda-me


A parte que hoje cantamos, porém, não se encontra na canção carismática. Os versículos narram de forma poética o drama de uma alma que tenta fugir e esconder-se de Deus, subindo aos altos céus, descendo ao fundo do abismo, envolvendo-se em trevas profundas, mas tudo isso é inútil. Ninguém pode ocultar-se do olhar divino, que enxerga toda a verdade de nosso ser. 
E disse: Talvez me ocultarão as trevas; mas a noite converte-se em claridade para me descobrir no meio dos meus prazeres.

Porque as trevas não são escuras para ti; e a noite brilha como o dia, e a escuridão como a claridade; (Sl 138. 11-12)

Tal verdade descobriram, de modo amargo os fariseus, que buscavam tão somente simular piedade diante dos homens, enquanto praticavam seus pecados no escondido. Foram eles, pois, desmascarados por Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim acontece também conosco quando procedemos de modo semelhante. Podemos enganar nosso próximo, até mesmo a nós mesmos por alguns instantes, mas a Deus ninguém engana. 

2. Hoje recordamos a memória de Santo Agostinho de Hipona. Agostinho é o autor de Confissões. Nesta obra autobiográfica o bispo de Hipona confessa a Deus, a si mesmo e a seus leitores as misérias mais íntimas de sua alma, seus pecados cometidos desde a tenra infância, bem como todo o seu processo de conversão. A sinceridade do autor salta aos olhos, a obra tocou-me profundamente quando o li nos inícios de meu retorno a Igreja, de minha conversão pessoal. Deveríamos nós imitá-lo; não que fosse necessário publicar aos quatro ventos nossos pecados de hoje ou outrora, mas ser sinceros ao admitir que, afinal, não somos lá grande coisa. Um bom começo seria a prática do exame de consciência de modo mais frequente, quiça até diariamente. Que ao anoitecer contemos a Deus nosso dia, com profunda sinceridade, relatando nossos feitos, nossas omissões, nossos erros e pensamentos, relatando a causa profunda de cada um de nossos atos. É preciso que isto seja feito com profunda sinceridade, afinal estamos a falar diretamente a Deus a quem ninguém pode enganar. Nesta confissão diária, Deus nos mostrara algo sobre nós mesmos, e assim iluminados pela luz divina, poderemos, quem sabe corrigir nossa conduta. Mas, não se iluda o leitor, é uma dificuldade tremenda corrigir-se a si mesmo ainda que ciente das próprias misérias, todavia não desanimemos, Deus é mais!

3. Por fim, gostaria de citar a São Josemaria Escrivá
Com a tua conduta de cidadão cristão, mostra às pessoas a diferença que há entre viver triste e viver alegre; entre sentir-se tímido e sentir-se audaz; entre agir com cautela, com duplicidade - com hipocrisia! -, e agir como homem simples e de uma só peça. - Numa palavra, entre ser mundano e ser filho de Deus. - Sulco 306 
Note o contraste entre a conduta mundana (triste, tímida, dissimulada, hipócrita) e a conduta cristã (alegre, audaz, simples). O proceder mundano é uma conduta “noturna”, de alguém que como no salmo de hoje, busca ocultar-se nas trevas. O proceder cristão é uma atitude “solar”, dos filhos da luz, de quem não tem nada a esconder. A audácia do cristão nasce da consciência da própria miséria e de que está é conhecida por Deus. Se assim o é, de que vale ocultar-nos, dissimularmos diante de nós mesmos e de nosso próximo? Confessemos nossas misérias e sigamos adiante.

domingo, 25 de agosto de 2019

Indigna Plebe

Orgulho é um termo polissêmico. Por um lado a palavra pode ser usada para designar o pecado de Lúcifer que inebriado em uma adoração de si mesmo, rejeitou curvar-se ante a majestade divina. O termo, entretanto, também pode designar uma consciência de elevada dignidade e um compromisso existencial em não maculá-la com atos vis. Nesse sentido, podemos citar o orgulho guerreiro ou o orgulho nobiliárquico. Tal realidade parece inexistir em tempos democráticos, sobretudo neste país tropical, como ilustra tristemente a breve coletânea de contos de Alcântara Machado: Brás, Bexiga e Barra Funda.

O livreto caiu em minhas mãos no mais absoluto acaso, e comecei a leitura sem saber o que esperar. O autor busca retratar o cotidiano daqueles por ele chamados de “novos mamelucos” a nova “raça” brasileira que se gestava na mistura com os imigrantes italianos. Mas, é curioso, diria até incômodo, como os personagens de três destas histórias renunciam a crenças arraigadas em prol de vantagens imediatas. 

Em “A Sociedade”, a esposa do Conselheiro José Bonifácio inicialmente se mostra intransigente em seu preconceito anti-italiano: “-Filha minha não casa com filho de carcamano!”. Não compartilho das restrições étnicas da dona, até por que sou descendente de italianos, mas não os condeno. É normal entre as sociedades tradicionais que se crie restrições e barreiras a fim de moldar certa identidade familiar. Que as famílias coloquem restrições étnicas, econômicas e religiosas, não faz com que o jogo do amor se torne extremamente complexo e vida social algo bem mas interessante? A intransigência da dona, todavia, não vai longe, o “carcamano” enriquece e o dinheiro deste faz a senhora mudar de ideia e o casamento logo se concretiza, para a alegria da filha. 

"Corinthians (2) vs. Palestra (1)", temos uma história bem mais vulgar, Miquelina, verdadeira maria chuteira, troca de time de futebol e de namorado conforme o resultado da partida. Se no início da história a moça é palestina (palmeirense) fanática, após a partida se torna corintiana e volta a se engraçar com o atacante do time vitorioso, rejeitando seu romance de até então, o palmeirense derrotado.

Por fim, em "Nacionalidade", acompanhamos a trajetória de um imigrante italiano apaixonado por seu país de origem, com sonhos de retornar a sua pátria, que vai pouco a pouco sufocando seu amor nacionalista conforme vai prosperando em terras tropicais, até que por fim, de forma simbólica, renuncia a suas pretensões nacionalistas se naturalizando brasileiro.

Apesar de bobinhas, as histórias mostram personagens apequenados, homens e mulheres sem fibra, sem crenças profundas, que renunciam aquilo que outrora lhes era importante com extrema facilidade. Não é assim até hoje entre nossos conterrâneos? Raro é encontrar alguém dotado de crenças profundas, disposto a sofrer por aquilo que acredita, e manter-se fiel, perseverando, pelejando até a morte.

Esta pátria de geleia precisa de heróis, de homens de fibra, para ensinar a seu povo a virtude. Serás tu, caro leitor, este tipo de herói? Ou ainda teremos de esperar por mais algumas gerações?

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

A caráter aristocrático da Igreja


20ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (Is 9,1-6)
Responsório (Sl 112)
Evangelho (Lc 1,26-38)

A festa de hoje incomoda as alminhas adoentadas pelo espírito igualitário. Nossa Senhora é rainha. Nosso Senhor Jesus Cristo é rei, descendente da nobre estirpe de Davi. A Igreja é uma monarquia. Tal realidade tem muitas consequências: a busca da excelência e magnanimidade, sobretudo no que diz respeito a celebração litúrgica, como ensina o Papa São Pio X, cuja memória ontem celebramos: <Nada deverá ter lugar na igreja que seja indigno de uma casa de oração e da majestade de Deus>; assim escreve em motu próprio onde estabelecia bases para uma reforma na música litúrgica. Entre as medidas estabelecidas estavam a implantação de escolas de música dentro dos seminários, bem como nas cidades e paróquias rurais. Infelizmente, tal prática foi abandonada desde o Concílio Vaticano II e a música no templo nunca esteve em pior estado; assim como a arquitetura sacra, onde proliferam horrorosas catedrais, absolutamente indignas da casa de Deus. 

“Mas tudo esse esplendor torna a Igreja elitista e nos afasta do cuidado para com os pobres” - poderão alguns objetar. A resposta quem nos dá e a própria liturgia; canta hoje o salmista: <Levanta (do pó) da terra o desvalido e tira da imundice o pobre, para o colocar com os príncipes, com os príncipes de seu povo. (Sl 112, 7-8)>; note o leitor que há uma elevação dos humildes e não uma abolição das hierarquias e principados. A Igreja deve elevar o pobre para fazê-lo sentar junto aos nobres. Seria uma sandice propor a ela renunciar a nobreza e aderir a uma massificação do medíocre. 

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Basta dessa idolatria populista!


20ª Semana do Tempo Comum - Segunda-feira
Primeira Leitura (Jz 2,11-19)
Responsório (Sl 105,34-44)
Evangelho (Mt 19,16-22)

De fato, Deus liberta o seu povo; mas essa libertação, bem como a durabilidade de sua benção e proteção está condicionada a fidelidade a Sua aliança. Foi o que escutamos hoje na leitura extraída do livro dos Juízes. Em nosso continente latino-americano desenvolveu-se uma espécie de idolatria do povo. O povo, sobretudo os simples e desfavorecidos, seriam sempre vítimas inocentes, oprimidas pelos poderosos, caberia então a Igreja ser-lhe o instrumento de Deus para sua Libertação. Nada poderia ser mais prejudicial a alma dos filhos desta terra, se o povo se acredita vítima, inocente, este não fará mea culpa por seus pecados, nem abandonará suas condutas iníquas. E sejamos sinceros, nosso povo está longe da fidelidade a aliança. Não é evidente como a luxúria a inveja e a avareza dominam sobre essas terras? Como a superstição e a heresia crescem verdejantes, como os interesses materiais são sempre colocados a frente dos deveres espirituais? 

O povo sofre sob o jugo dos opressores? Nossa nação é dominada e saqueada por potências estrangeiras? De algum modo assim o é, mas no mais das vezes isto é consequência de nossa fraqueza, covardia, estultice e iniquidade. 

Basta dessa idolatria populista! Olhemos para nós como somos, cumpramos nossa parte na aliança, e então poderemos clamar a Deus em espírito e verdade.

sábado, 17 de agosto de 2019

Não basta, afinal, levar uma vida honesta, é preciso que seja autêntica

Terminei eu a leitura de "A Morte de Ivan Ilich" de Liev Tolstói. Uma história verdadeiramente agonizante. Ter finalizado a leitura não muito depois de "O Triste Fim de Policarpo Quaresma" me faz pensar que a Rússia de Tolstói não é lá muito diferente do Brasil de Lima Barreto. Se bem o tema também ecoa em O Nó das Víboras de François Mauriac, que por sua vez é francês; a ideia de uma existência inautêntica. Conforme destaca José Monir Nasser, Ivan Ilich não é um homem mal, se trata de um trabalhador dedicado que fez carreira no serviço público, conquistou certa condição financeira invejável, constituiu uma família respeitável e é querido em seu círculo de amigos; entretanto, na agonia da morte, Ivan sofre solitário, é vítima da indiferença de todos os que o cercam, e passa a questionar o sentido e os rumos que imprimiu a própria vida. É estranho como normalmente vivemos seguindo uma receita de bolo: “precisamos estudar, trabalhar, casar, constituir família e fortuna” e só paramos a pensar a respeito do sentido da vida quando a morte bate à porta. Aliás, apenas quando bate às nossa própria porta, pois como destaca o autor, não raro a morte dos demais nos parece algo distante, que não nos diz respeito. Tema este, aliás, de um belo poema de Manuel Bandeira: 

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta. 

(BANDEIRA, Manuel. Estrela da Manhã) 

Ivan levou a vida no piloto automático, na carreira buscou antes o interesse financeiro que a vocação (o que não necessariamente é ruim, se este interesse financeiro tiver algum sentido existencial. Uma coisa é suportar um emprego infeliz afim de acumular fortuna com vistas a realizar algo: financiar uma guerra, auxiliar uma causa nobre, edificar uma bela obra arquitetônica; outra é fazer por fazer tomando o dinheiro como fim em si mesmo destituído de sentido); casou por casar sem grande amor ou paixão (uma visão extremamente rasa do matrimônio, tal qual Olga e Ismênia de Lima Barreto); e passados os prazeres inicias da lua de mel, tão logo se viu infeliz e em eternas brigas com a esposa, de modo que se refugiou no trabalho, tendo a sua vida familiar se resumido em mera imagem, mero “decoro”, destituída de toda e qualquer substância. Não que os amigos e familiares o tenham abandonado ao desterro durante a doença, se trata de um drama de natureza diferente e um tanto mais sutil, aparentemente estes se dedicavam a cuidar dele, mas era um cuidado apenas formal, tendo em vista a imagem, os deveres sociais, sem qualquer consideração para com a pessoa de Ivan. Praskovya (esses nomes russos são terríveis!) estava antes preocupada em aparecer aos olhos de todos como uma esposa fiel e dedicada e tão logo esfriou o cadáver, deu graças por se ver livre de tal estorvo; seus amigos, quando souberam de sua morte, puseram-se a discutir as promoções e alterações na hierarquia do funcionalismo estatal derivado de tal fato e, assim que viram-se livres dos deveres sociais associados ao velório, lá continuaram com seu jogo de cartas semanal. 

Tolstói era cristão, mas uma espécie de herege anarquista que rompeu com a Igreja Ortodoxa e fundou sua própria seita munida de doutrinas próprias um tanto quanto bizarras. De tal forma que, na obra, a Igreja institucional ([t] ortodoxa) aparece apenas como mais um ator daquele teatrinho social, do decoro, das formalidades inúteis, sendo a comunhão do protagonista moribundo apenas uma adesão a um capricho da esposa. 

É triste o fim de Ivan Ilicth, a escuridão da morte, de modo paradoxal, vem a clarear os erros de sua vida. Embora sinta o leitor profunda piedade para com o moribundo, as linhas de causalidade entre as atitudes de Ivan e as frutos amargos colhidos saltam aos olhos. Não basta, afinal, levar uma vida honesta, é preciso que seja autêntica. 

Pensaremos nós no sentido de nossa vida apenas em nossos últimos suspiros? Inspirado no autor russo, recomenda José Monir Nasser o exercício do necrológio, exercício este também ensinado pelo filósofo Olavo de Carvalho. Pensemos em nossa morte, que estamos agora sendo velados, e um amigo conta a nossa vida a um terceiro… Como gostaríamos de ter vivido? Confesso que tenho grande dificuldade com tal exercício, aos 24 anos não me considero com capacidade para traçar os rumos de uma existência que pode durar até os 70 (ou se encerrar amanhã, só Deus sabe...), entretanto, consigo ter alguns vislumbres do que fazer, e sobretudo do que não fazer… Não gostaria de terminar meus dias tal qual Ivan Ilich… 

Todavia, Ivan não é o único personagem da novela, e nem nós somos um universo isolado. Pensemos também em nosso próximo, que pode estar a terminar seus dias como infeliz protagonista, e nós, tantas vezes estamos a imitar o formalismo estéril daqueles que o rodeavam.

*** 

O artigo terminaria logo acima não fosse um acaso do destino (ou um desígnio da Providência?). Acontece que resolvi continuar minhas incursões pelas obras de Tolstoi, e qual não foi minha surpresa e perturbação com a riqueza de “Padre Sérgio”? Recomendo avidamente que se leia esta obra, a qual considero a melhor da literatura russa (embora minha amostragem não seja lá muita ampla, não tendo eu lido, até o presente momento, mais que três obras de Tolstói e uma de Dostoiévski). Esta breve novela nos traz a história de Stepán Kasatski, um militar de carreira que abandona tudo para por-se a serviço de Deus, ou assim se pensava. Não pretendo aqui entrar em maiores detalhes a respeito do enredo, todavia há que se dizer que Tolstói consegue demonstrar de forma magistral como a Igreja e a vida religiosa podem tomar parte em todo o teatro social descrito anteriormente, sendo as estruturas eclesiásticas convertidas antes em obstáculo, que uma ponte, na conexão do homem para com Deus. Longe da aderir as anárquicas heresias do autor, ou a moda iníqua de uma espiritualidade deísta e desigrejada, a obra contudo nos alerta da necessidade de que está “vida autêntica” a qual acima me referi, ecoe pelas estruturas institucionais da Igreja. A fé não se pode resumir a uma adequação da personalidade a certos esterótipos, como que arquétipos, da sociedade intraeclesial. Encerro, pois, estas linhas virtuais com uma paráfase do título do artigo: Não basta, afinal, levar uma vida piedosa, é preciso que seja autêntica.

"Se abandonardes o Senhor ele vos destruirá"



19ª Semana do Tempo Comum - Sábado
Primeira Leitura (Js 24,14-29)
Responsório (Sl 15)
Evangelho (Mt 19,13-15)


<Se abandonardes o Senhor e servirdes a deuses estranhos, ele se voltará contra vós, vos afligirá e destruirá, depois de vos ter feito bem. (Js 24, 20)>; assim diz Josué ao antigo Israel. E assim se fez! Enquanto permaneciam fiéis ao Senhor os israelitas eram abençoados e prosperavam, quando o abandonaram foram castigados, exilados e escravizados. O mesmo ocorreu também a Portugal, “nosso pai”. Enquanto movidos pelo zelo missionário de levar a fé aos confins da terra, a nação cruzada nascida da espada de Dom Afonso Henriques tornou-se um vasto e poderoso império, porém, quando colocaram o dinheiro acima da religião, quanto mais envolviam-se nos tentáculos da pérfida maçonaria, aquela grande império implodiu, restando hoje não mais que uma pequeno e insignificante país. Tal processo não está restrito a povos e nações, mas também se aplica em cada existência, em cada família, em cada indivíduo. Enquanto servimos ao Senhor, em meio as dificuldades e a cruz de cada dia, vemos, também, numerosas vitórias, crescemos na virtude, realizamos obras belas e numerosas! Todavia, se abandonamos o Senhor, nossa vida desaba, e no devido tempo Ele nos destruirá. Recordemos a história de Sansão, sua força era um dom do Senhor. Ao distanciar-se do Senhor e confiar em si mesmo, o herói bíblico foi vergonhosamente humilhado, mas quando no momento de angústia voltou seu coração a Deus, recebeu uma vez mais a força necessária para aniquilar seus inimigos. 

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Adivinhação, Astrologia, Yoga e Reiki

8. Que formas de adivinhação existem? 
Existem mutias, as quais se podem agrupar em dois grandes tipos: "Um primeiro tipo é aquela forma de adivinhação em que se faz uma invocação ou pacto expresso com o demônio, que se denomina genericamente espiritismo (necromantia), e que se dá quando o demônio ensina por meio de adivinhos, [...] sob a aparência de pessoas mortas ou vivas, ou por meio de outros sinais no ar, na água, no fogo ou nos espelhos. A outra forma de adivinhação é aquela na qual existe uma invocação ou um pacto apenas tácito [com o demônio], também designada por adivinhação interpretativa, na qual a partir das linhas do corpo, da voz, do sons das aves e coisas semelhantes, nas quais o demônio mutias vezes interfere, se busca um conhecimento para o qual tais coisas são desproporcionadas.

9. Atualmente, qual é a posição da Igreja Católica?
É a mesma há dois mil anos. Diz o Catecismo: "Todas as formas de adivinhação hão de ser rejeitadas: recurso a Satanás ou aos demônios, evocação dos mortos ou outras práticas que erroneamente se supõe 'descobrir' o futuro. A consulta aos horóscopos, a astrologia, a quiromancia, a interpretação dos presságios e da sorte, os fenômenos de visão, o recurso a médiuns escondem uma vontade de poder sobre o tempo, sobre a historia e, finalmente sobre os homens, ao mesmo tempo que e um desejo de ganhar para si os poderes ocultos". "Todas as praticas de magia ou de feitiçaria com as quais a pessoa pretende domesticar os poderes ocultos, para colocá-los a seu serviço e obter um poder sobrenatural sobre o próximo - mesmo que seja para proporcionar a este a saúde - são gravemente contrárias à virtude da religião. Essas praticas são ainda mais condenáveis quando acompanhadas de uma intenção de prejudicar a outrem, ou quando recorcem ou não a intervenção dos demônios".

10. Sendo assim, um cristão não pode recorrer a magia para alcançar coisas boas, tais como curar uma doença, restabelecer a paz num casamento, arranjar emprego, ou ter um filho?
Não, porque qualquer forma de magia ou adivinhação implica sempre em um pacto com o demônio e ''de nenhum modo e licito aos homens recorrer a ajuda dos demônios por meio de pactos tácitos ou expressos''.

11. Um cristão pode usar amuletos?
Não. ''O uso de amuletos também e repreensível'', porque e uma forma de superstição e, portanto, um pecado que ofende a Deus.

12. Um cristão pode recorrer à astrologia?
Não. A astrologia é uma falsa ciência (pseudociência) que não passa de mais uma forma de adivinhação, por meio da qual se pretende, a partir da posição relativa dos astros celestes, obter informações desconhecidas ou futuras, mediante a um pacto implícito com o demônio. A comunidade científica é unanime na critica negativa que faz do caráter supostamente cientifico da astrologia.

13. Um cristão pode recorrer ás cartas do tarô?
Não. O tarô é mais uma forma de adivinhação que pretende, a partir da interpretação de certas cartas especiais, obter informações desconhecidas ou futuras mediante um pacto implícito com o demônio.

14. Um cristão pode praticar o reiki?
Não. O reiki é uma "medicina alternativa", de inspiração oriental, em que se pretende, por meio da imposição das mãos e da invocação de certas "forças espirituais" curar as doenças e aliviar os sofrimentos humanos. A eficácia das terapias de reiki continua por demonstrar e explicar a nível cientifico, contudo, na verdade, não passa de mais uma forma de magia branca. Muitas pessoas que praticam o reiki acabam por ficar possuídas pelo demônio.

15. Um cristão pode praticar yoga?
Não. O conjunto de crenças do yoga é indissociável do hinduísmo. O yoga, que significa literalmente ''união'', pretende levar o homem a união com a divindade impessoal (iluminação) por meio de determinados ritos e invocações (entoação de mantras) aos quais vem atribuída uma eficácia ''espiritual''. Não se tratam apenas de determinadas técnicas de relaxamento como pensam muitos; são na realidade gestos carregados de significados espirituais que afastam as pessoas da verdade e da graça que Jesus nos trouxe e abrem o seu coração a ação diabólica, como se pode constatar em tantos casos de exorcismo.

- Pe. Duarte Sousa Lara. Demônio, Exorcismo e Oração de Libertação em 40 Questões.

“Yo soy yo y mis circunstancias”


19ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (Dt 34,1-12)
Responsório (Sl 65)
Evangelho (Mt 18,15-20)

Moisés morreu sem ver Israel adentrar a terra de Israel. Morreu com 120 anos e com toda esta idade sua visão nunca se obscureceu e seus dentes sempre se mantiverem saudáveis. A maioria de nós, por volta dos 70-80 já está desdentado e meio cego da catarata. A doença, ensina Santa Hildegarda, é filha da morte e do pecado e, se manifesta quando por nossos hábitos contrariamos de algum o equilíbrio de nossa natureza e os limites da criação. Ensina a Teologia que a graça aperfeiçoa a natureza; teria, assim, a vida reta de Moisés abençoada pela graça conservado sua longevidade e sua saúde mesmo no clima hostil do deserto. Mas, o cerne da leitura se dá pelo fato de que morreu o profeta sem adentrar a terra prometida.

Não somos nós profetas, mas vivemos em um contexto de crise na Igreja. Sonhamos com sua solução miraculosa, quado Deus colocará ordem na barca de Pedro. Todavia, é bem capaz que morramos antes de poder desfrutar desta calmaria. Se assim foi com Moisés que era justo, nós que somos injustos teríamos privilégio maior?

O que isso significa concretamente? Significa que devemos desenvolver nossa vida, nosso apostolado, realizar nossa existência nas circunstâncias as quais estamos submetidos. É nesta crise que devemos agir  e não fugir e dar a desculpa de que quando a tempestade passar nos colocaremos a serviço. São Maximiliano Kolbe, o qual hoje o martírio recordamos, exerceu seu ministério sacerdotal nas mais adversas circunstância: lá estava a ouvir confissões e animar os moribundos, enquanto sofria como prisioneiro no campo de concentração de Auschwitz. Ele realizou sua vocação em um contexto absolutamente hostil. E nós?

terça-feira, 13 de agosto de 2019

''Procedei varonilmente e tende coragem''


19ª Semana do Tempo Comum - Terça-feira
Primeira Leitura (Dt 31,1-8)
Responsório (Dt 32,3-12)
Evangelho (Mt 18,1-5.10.12-14)

1. <Procedei varonilmente e tende coragem; não temais nem vos atemorizais à vista deles, porque o Senhor, teu Deus, é ele mesmo o teu guia e não te deixará nem te desamparará. (Dt 31, 6)>; assim exorta Moisés, já velho, a beira da morte em seus 120 anos, a Josué, que deveria sucedê-lo como o líder de Israel. Josué deveria lutar contra os povos pagãos, seria ele o instrumento do Senhor, o gládio usado para extinguir as civilizações malditas que manchavam a terra de Canaã com seus pecados abomináveis. A maioria de nós não tem pela frente tão exigente missão, tão renhido combate. Mas de algum modo, temos também uma guerra a lutar. Além da guerra de todo homem contra suas paixões desordenadas, contra o mundo o demônio e a carne, temos que combater contra os filhos da serpente que, dentro e fora da Igreja, procuram instaurar o inferno na terra e mergulhar as nações a mesma imundice dos povos que outrora habitaram Canaã. Porém, no momento atual, esta guerra é de natureza cultural. A batalha não se dá pelo fio da espada, mas pela disseminação de ideias, pelo uso das mídias, pela ocupação de espaço, e pela organização política, seja partidária, seja em grupos de pressão. A exortação de Moisés a Josué, de algum modo, vale também para nós. Lutemos varonilmente, sem temor, confiantes no Senhor; ao fim, estes parasitas que corrompem nossa civilização serão extirpados face da terra e <O Senhor fará com estes povos, como fez com Seon e Og, reis dos amorreus, e ao seu país, e os exterminará. (Dt 31, 4)>.

2. No salmo de hoje, extraído do livro do Deuteronômio, cantamos: <Quando o Altíssimo  dividiu as nações, quando separou os filhos de Adão, fixou os limites dos povos segundo os números dos filhos de Israel. (Dt 37, 7)>; o Senhor mesmo fixou os limites dos povos e definiu as fronteiras das nações. E há quem pense ser uma ideia cristã a tolice de "um mundo sem fronteiras". Isso é uma quimera, uma nova Torre de Babel que só há de causar ainda mais confusão.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Questões sobre Demonologia

25. Que tipo de ação exercem os demônios sobre o mundo?
A maléfica e adversa ação do Diabo e dos demônios afeta pessoas, coisas e lugares, manifestando-se de diversos modos.

26. Que tipo de capacidades naturais têm os anjos e demônios?
Têm um certo domínio sobre as realidades materiais, por exemplo, podem mover objetos e têm capacidade de atuar sobre os nossos sentidos externos ou internos.

27. Os demônios podem fazer verdadeiros milagres?
Não, só Deus pode fazer milagres propriamente ditos, mas os demônios, em decorrência de suas capacidades naturais, podem fazer coisas prodigiosas e extraordinárias que parecem milagres aos homens. De fato, por vezes, "quando os demônios realizam algo pelo seu poder natural, nós o chamamos de milagre, não de modo absoluto, mas em relação à nossa capacidade [humana], e é assim que os bruxos realizam milagres graças aos demônios."

30. Que sinais podem indicar a presença de distúrbios diabólicos?
Conhecer línguas desconhecidas à pessoa, bem como fatos ocultos, manifestar uma força acima do normal e ter aversão às coisas sagradas. Ver, ouvir, sentir, cheirar e imaginar coisas inexplicáveis à luz das ciências psicológicas. Ter doenças ou distúrbios somáticos inexplicáveis a luz das ciências médicas. Acontecimentos estranhos com objetos e animais inexplicáveis a luz da ciência, como, por exemplo, coisas que se movem do lugar sozinhas, eletrodomésticos que se acendem e desligam sozinhos etc.

31. O que é um malefício?
"O malefício é o poder de fazer o mal a outros. graças a um pacto e com a ajuda dos demônios. Distingue-se da magia que tem como objetivo realizar prodígios enquanto este vem direcionado a fazer mal a alguém". "O malefício contém uma dupla malícia. Por um lado é contrário à virtude da religião, pois trata-se de culto ao demônio, por outro é contrário à caridade e à justiça, pois causa um dano injusto ao próximo."

32. Como se pode destruir um malefício?
Por meio de uma vida construída na graça de Deus, da frequência dos sacramentos, principalmente da Eucaristia e da Reconciliação, dos sacramentais, de modo especial dos exorcismos, dos objetos religiosos abençoados, das peregrinações a lugares santos, da invocação dos santos, da destruição dos objetos utilizados no malefício e das orações de libertação.

- Pe. Duarte Sousa Lara. Demônio, Exorcismo e Oração de Libertação em 40 Questões.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Sobre a Autoridade (I)


18ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (Nm 20,1-13)
Responsório (Sl 94)
Evangelho (Mt 16,13-23)

Há quem pense ser dever de um servo fiel mascarar os erros de seus superiores. Usar das mais variadas estripulias para encobrir e justificar suas falhas, criando uma imagem ideal do hierarca. Tal prática é o exato oposto da escritura, que não se cala ante os erros dos superiores instituídos pelo próprio Deus. Que lemos hoje? A queda de Moisés e Arão, bem como a queda de São Pedro.

Sim, os líderes erram. Se Moisés fraquejou, se Pedro fraquejou, que dirá tantos e tantos superiores civis ou religiosos. Nossos líderes erram, e por vezes erram vergonhosamente. Mas, nem por isso são imediatamente destituídos. Apesar da incredulidade em Meriba, Moisés e Arão continuaram responsáveis pelo povo de Israel. Apesar dos pensamentos mundanos e de tentar dissuadir a Nosso Senhor Jesus Cristo de abraçar sua cruz, São Pedro não teve seu pontificado revogado, a pedra não fora substituída por outra. Assim ocorre porque o fundamento da autoridade não é a virtude ou a santidade pessoal, tampouco a sabedoria do líder, mas a vontade do Senhor.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Os bastidores da Indústria Cultural

Se o cinema americano é o mais rico em termos técnicos, diria que em termos de técnica narrativa ninguém supera os japoneses, o longa Perfect Blue, de Satoshi Kon, apesar da sua relativa antiguidade (fora lançado em 1997), não deixa de surpreender ainda hoje. O roteiro, inicialmente simples, vai se bifurcando até um final surpreende, e um tanto quanto misterioso.

Acompanhamos a virada da carreira de Mima Kirigoe, uma idol japonesa. Cabe aqui algumas explicações: no Japão o termo idol designa grupos musicais femininos com trejeitos infantis em músicas bobinhas e inocentes.; algo semelhante a Eliana ou a Xuxa em início de carreira, com uma diferença um tanto quanto bizarra: os fãs de tais grupos não são crianças, mas homens adultos. Mima pretende dar um salto na carreira, deixar a vida de cantora para se tornar atriz de televisão, todavia o mundo artístico se mostra um lugar nada saudável. Voltemos ao roteiro; para alavancar sua carreira, a moça tem de abandonar a imagem infantil e se transformar em um símbolo sexual. Com o desenrolar da história Mima aceita posar nua e gravar cenas de estupro em séries de televisão. Tal mudança gera uma crise de identidade na atriz, bem como a ira de um de seus antigos fãs, que não aceitam de maneira nenhuma tal transformação. Conforme a trama avança, os corresponsáveis pela mudança de Mima são assassinados um a um, a coisa se torna ainda mais misteriosa uma vez que na série de TV, a atriz interpreta uma serial killer. Daí em diante, o diretor maneja bem o roteiro de modo a deixar o expectador completamente perdido. Tal ou qual cena seria ''real'' (isto é, real dentro do universo da narrativa) ou um recorte da atuação da Mima na série de televisão? Qual seria a história real? A atriz em mudança de carreira ou a assassina da televisão? Concomitante a isso, a moça passa a ver uma outra versão de si mesma, uma espécie de alter ego, tal se diz a verdadeira Mima e afirma que existe para combater essa farsante que está a sujar a sua imagem. Nesta confusão entre o “real” e o ficcional, vemos também a ação de Me-Mania, um asqueroso fã da antiga cantora, a perpetrar crimes. De tal forma que fica ainda a dúvida no espectador, seria Me-Mania o responsável pelos assassinatos? Teria ele alguma existência real, ou seria apenas uma ilusão, uma criação mental de Mima? 

Apenas nos instantes finais do longa é que o mistério é desvendado. Rumi, a assessora de Mima, uma mulher de meia idade que no passado teve também sua carreira como idol, seria a responsável pelos assassinatos. A assessora, indignada com a mudança da imagem da atriz, teria enlouquecido, desenvolvido uma espécie de transtorno de personalidade e confabulado junto com Me-Mania todos aqueles crimes. 

Além da técnica narrativa, é interessante o modo como filme retrata toda a podridão do mundo artístico, cujo o preço do sucesso é a corrupção da alma por parte das celebridades, bem como a relação doentia para com os ídolos desenvolvidas por alguns dos fãs. Aliás,  os termos ídolo e fã (do latim do latim fanaticus) são conceitos religiosos; curioso que tais sejam empregados em uma realidade tão vulgar quanto a cultura midiática, não? Tal aplicação não é inadequada, antes mostra uma realidade iníqua, que o tipo de relação entre os “famosos” e seu público, não raro passa longe daquilo que poderíamos chamar de algo saudável.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Olavismo Cultural: Filosofia, Experiência e Unidade

Que para alguns a opinião de um blogueiro falido a respeito da vida e obra de um escritor de renome tenha alguma relevância é um dos mistérios da internet, mas afinal, cá estou eu protagonizando essa irônica situação. Como o leitor já deve adivinhar, hoje sou o blogueiro falido; algum dia serei o escritor de renome? Pouco provável, mas adiante! Venho a tratar a respeito do filósofo Olavo de Carvalho, mais propriamente comentar algumas questões levantadas pelo escritor em recente entrevista, mas antes de falar do Olavo, vamos dar margem para algumas digressões, falemos sobre este blogueiro falido…. 

Não sou eu aluno do COF COF COF!!, leitor assíduo da obra olavista  tampouco, entusiasta de suas teses políticas. Além de que, tenho certo asco para com a sua fandom. Todavia, não raro aprendo muito com o infeliz, seja por meio da leitura de uma ou outra obra aleatória, seja em alguns de seus vídeos, que proliferam pela internet, como se pode atestar desde os primórdios do blog. Dito isto, sigamos! 

Tanto na entrevista em questão como no livro A Filosofia e seu Inverso, ensina Olavo de Carvalho que a filosofia é: 
a elaboração intelectual da experiência com vistas a alcançar, na máxima medida possível num dado momento histórico, a unidade do conhecimento, na unidade da consciência e vice-versa.

Note o leitor dois aspectos fundamentais nesta definição: experiência e unidade. A questão da experiência tem me inquietado fortemente, sobretudo após a leitura de Sol e Aço de Yukio Mishima. Quantos e quantos ditos intelectuais vivem no mundo da fantasia, a repetir conceitos e abstrações que ouviram ou leram sem jamais traspor tais conceitos ao mudo real, sem testá-los em sua própria vida? Quantos vezes nós não repetimos tal ou qual ensinamento apenas porque “soa bem”, para impressionar os demais? Deixemos o exame de consciência para o anoitecer e exemplifiquemos com a internet, as redes sociais, este bizarro zoológico da natureza humana. É comum vermos jovens entusiastas do liberalismo e escrever textos eloquentes em defesa do livre mercado, a exaltar o empreendedorismo a vociferar contra o Estado… Mas, que vale este hino de louvor a iniciativa privada quando os mesmos autores dela fogem procurando carreira na política? Falam tanto contra o Estado mas vão viver as custas dele, exaltam o empreendedorismo sem nunca praticá-lo. É ridículo, não? Nem sei de fato se sou ou quero ser um filósofo, mas não posso me resignar a uma vida de aparências, a uma jornada intelectual dissociada da experiência, do real. 

Falemos agora da unidade, a “unidade do conhecimento, na unidade da consciência e vice-versa.” Tal unidade é o que mais impressiona na personalidade do Olavo. É interessante o modo como ele transita em uma grande gama de assuntos, ora está a falar sobre a política cotidiana, ora sobre psicologia, ora sobre a Igreja, ora sobre a história, ora sobre medicina, ora sobre artes marciais, ora sobre sua vida pessoal, temas tão diversos, mas perfeitamente unidos em seu discurso filosófico de modo que cada assunto é examinado de forma ampla, sob vários aspectos e perspectivas. Isto é tão mais interessante do que tantos “doutores de minúcias” que não sabem falar mais do que um único tema, quando não reduzindo toda a complexidade do real a uma causa única, coincidentemente tal causa o seu objeto de estudos. 

Da definição retornemos a entrevista onde em determinado momento diz o Olavo que em tal unidade procura de algum modo: “juntar o injuntável”, usando uma linguagem que mistura o popular com o erudito, onde se torna possível falar de altas questões “do jeito que se fala em casa”, com sinceridade, “com o coração na mão”. Tal é o método que busco de algum modo imitar neste bunKer, onde junto as Sagradas Escrituras comento desde a literatura universal os grandes filósofos e pensadores como a discorro sobre a animes, games, esportes, artes marciais o que mais me der na telha, buscando em tal diversidade estabelecer uma unidade, que é como um eco da minha própria existência. 

Como disse outrora, não sei de fato se tenho lá alguma pretensão filosófica, mas tal método, se não me torna um escritor renomado, ao menos me ajuda a viver de um modo mais divertido e verdadeiro.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

De fato: triste foi o fim de Policarpo Quaresma



Ao encerrar a leitura fica um aperto no coração. Policarpo era um homem honesto e sonhador, um intelectual, uma alma de grandes horizontes e aspirações. Tinha ideias um tanto quanto ousadas, mas não se limitava a repeti-las como filósofo de gabinete, antes procurava colocá-las em prática, sua crença na fertilidade de nossa terra, por exemplo, o levou até o interior afim de com seu suor dedicar-se a agricultura. A épica saga de Quaresma em seu “Sossego”  é uma das mais belas linhas de nossa literatura, e tão atual se mostra nessa era onde tantos quais nunca plantaram sequer a hortelã para o preparo do chá, se colocam a idealizar a prática agrícola e a mitificar a chamada agricultora orgânica...

Todavia, é uma pena, este homem acaba por sucumbir. De fato: triste foi o fim de Policarpo Quaresma; nos capítulos finais desta obra magna da literatura brasileira o herói renuncia a seu credo nacionalista, morre como uma espécie de apóstata, maldizendo sua existência e aquilo que um dia havia amado:
Iria morrer, quem sabe se naquela noite mesmo? E que tinha ele feito de sua vida? Nada. Levara toda ela atrás da miragem de estudar a pátria, por amá-la e querê-la muito, no intuito de contribuir para a sua felicidade e prosperidade. Gastara sua mocidade nisso, a sua virilidade também; e, agora que estava na velhice, como ela o recompensava, como ela o premiava, como ela o condecorava? Matando-o. E o que não deixara de ver, de gozar, de fruir, na sua vida? Tudo. Não brincara, não pandegara, não amara – todo esse lado da existência que parece fugir um pouco à sua tristeza necessária, ele não vira, ele não provara, ele não experimentara.

Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem... Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada... O importante é que ele tivesse sido feliz. Foi? Não.

Lembrou-se das suas cousas de tupi, do folklore, das suas tentativas agrícolas... Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma! O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio; e levou-o à loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferazes e ela não era fácil como diziam os livros. Outra decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois ele não a viu combater como feras? Pois não a via matar prisioneiros, inúmeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma série, melhor, um encadeamento de decepções. 

Errou Quaresma em sonhar, em buscar uma existência para além da vulgaridade, da mediocridade do parecer? De forma alguma. Entretanto, se podemos imputar um erro de nosso herói foi ter negligenciado a força, o poder. A esse respeito o próprio autor, Lima Barreto,  nos esclarece ao citar a amigo do major, o ex-quitandeiro e imigrante italiano Vicente Coloeni
Sendo bom de fundo, quando lutava pela fortuna se fez duro e áspero, mas logo que se viu rico, perdeu a dureza de que se revestira, pois percebia bem que só se pode ser bom quando se é forte de algum modo. 

Repito: <só se pode ser bom quando se é forte de algum modo>!!! Se o leitor marca presença frequente neste bunker, de fato tem algo em sua alma que se assemelha ao herói nacionalista Policarpo Quaresma, tem suas idéias ousadas, suas fantasias artísticas e civilizacionais. Não há porque abandonar tais sonhos, tais aspirações heroicas e belas, mesmo que um tanto românticas. Entretanto deve-se ter em mente que a sociedade nos é hostil. Não há modo de vencer tal hostilidade senão adquirindo força e poder. Torne-se forte caro leitor, tal também o farei, e então, como um imperador romano, edificaremos, ao menos em nosso redor, uma obra de arte a ser admirada pelas gerações posteriores, e assim o faremos apesar da oposição dos néscios e tolos.

A vida é uma aventura e não devemos nos contentar com uma existência medíocre! Que não terminemos nós como o major Policarpo Quaresma, mas antes, que tal qual Nosso Senhor Jesus Cristo, vençamos o mundo!

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Caridade, Santos e Lobisomens


16ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (2Cor 4,7-15)
Responsório (Sl 125)
Evangelho (Mt 20,20-28)

1. Na primeira leitura, após descrever as circunstâncias de seu ministério em meio a sofrimentos e tribulações, conclui o apóstolo: <Tudo, com efeito, é por amor de vós, para que a graça que abunda redunde em glória de Deus pela ação de graças de muito. (2Cor 4, 15)>; curioso, não? Ao menos para mim o é. Ecoa nestas linhas o mistério de uma caridade verdadeiramente sobrenatural. Que alguém sofra por amor a Deus é compreensível, que o faça por aqueles que lhe são intimamente próximos, talvez por sua esposa e seus filhos, é heroico, mas igualmente compreensível. Que o faça por aqueles com os quais não tem nenhum laço de parentesco ou matrimônio, isto não é curioso? Como consegue o apóstolo entregar seu sofrimento pelos outros? Como consegue de fato amar um desconhecido? Pergunto com sinceridade ao irmão, consegue suportar sofrimentos e tribulações por aquele homem sentado lá no fundo do banco de sua paróquia? Confesso que com frequência me falta até a mínima paciência para explicar verdades a alguém com certa dificuldade intelectual, que me falta ânimo a ensinar ignorantes, que me aborrece de sobremaneira ser injustiçado, contrariado ou ceder quando estou absolutamente certo. Por essas e outras que o Santo é São Paulo e eu um miserável pecador; não sei eu amar. Pergunto ao leitor, consegue amar? Está disposto servir e dar sua vida em favor de muitos? Não? Então me acompanhe nesta prece, peçamos ao senhor o dom da caridade, a graça de por seu amor amar a nosso próximo verdadeiramente. 


2. Hoje é dia do Apóstolo São Tiago, irmão de São João Evangelista. Também celebramos a memória de São Cristóvão. Cristóvão é  padroeiro dos viajantes, motoristas (em especial os caminhoneiros) e, segundo uma velha lenda medieval, dos lobisomens.

É uma ótima oportunidade para uma aventura, sob o luar buscar uma capelinha interiorana, em meio estradas de terra na zona rural, para lá assistir aos ofícios divinos. Quem sabe encontramos um lobisomem devoto pelo caminho?

quarta-feira, 24 de julho de 2019

''(...) você e seu saber vindo de livros''

No entanto, como minhas aventuras intelectuais tinham me familiarizado com as regiões mais altas do céu! Meu espírito voava mais alto que qualquer pássaro, sem temer falta de oxigênio. Quem sabe nem necessitasse de algo tão rico de vida quanto o oxigênio. Como eu ria deles todos, os pobres gafanhotos que não conseguiam ir a cima do que seu corpo podia saltar! Só olhar para eles, lá embaixo na grama, me fazia estourar de rir.

Mas eu tinha algo a aprender, até dos gafanhotos. Comecei a lamentar que não tivesse trazido comigo meu corpo até as regiões mais elevadas, e sempre o deixasse lá embaixo da terra, dentro dos seus pesados feixes de músculos.

(....)

-Olhe aqui,corpo. Hoje você vai comigo, quietinho, até os mais altos limites do espírito.

-Errou, meu amigo - o corpo respondeu com desprezo. Se eu for com você, por mais alto que seja o limite, são também os limites do corpo. Você só diz isso, você e seu saber vindo de livros, porque você nunca me levou com você antes.

- Yukio Mishima. Sol e Aço ;Epólogo: F104; pág. 91-92.

sábado, 20 de julho de 2019

Burton, Quaresma, Casamento e Vida Intelectual



Já faz alguns dias que estou a ler o Triste Fim de Policarpo Quaresma”, um clássico da literatura brasileira de autoria do escritor Lima Barreto. Recordo-me de ter estudado o romance há tempos imemoriais quando estava no ensino médio, bem como de ter visto um filme, de péssima qualidade, inspirado na obra. Sim, o filme era terrível! Fora incapaz de captar toda a carga dramática da obra, que faz-me lembrar a Tim Burton. Nos filmes de Burton há sempre um contraste entre um protagonista estranho, mas, ao mesmo tempo, sensível, inocente e ingênuo, que busca se adaptar a uma sociedade medíocre que não o compreende. Tal é a premissa desse clássico nacional; o major Policarpo é um homem de estudo, um intelectual e alguém apaixonado pelo país, ao mesmo tempo encontra a incompreensão de uma sociedade apática e mesquinha, sociedade esta que valoriza mais os símbolos de conhecimento que o próprio conhecimento, que se ira contra tudo aquilo que destoa da mediocridade cotidiana. Logo no primeiro capítulo temos notícias de que o velho major: 
Se não tinha amigos na redondeza, não tinha inimigos, e a única desafeição que merecera fora a do Doutor Segadas, um clínico afamado no lugar, que não podia admitir que Quaresma tivesse livros: “Se não era formado, para quê? Pedantismo! 

O estudo e a leitura de Quaresma também são motivos de troça no terceiro capítulo, e para seus contemporâneos, causa de sua loucura: 
-Quaresma está doido.
(…)
-Nem se podia esperar outra cousa, disse o doutor Florêncio. Aqueles livros, aquela mania de leitura…
-Pra que ele lia tanto? Indagou Caldas?
-Telha de menos, disse Florêncio.
Genelício atalhou com autoridade:
-Ele não era formado, para que meter-se em livos?
-É verdade, fez Florêncio.
-Isto de livros é bom para sábios, para doutores, observou Sigismundo.
-Devia até ser proibido, disse Genelício, a quem não possuísse um título “acadêmico” ter livros. Evitavam-se assim essas desgraças. Não acham? 
Esse ódio ao conhecimento acompanhado pela veneração dos títulos acadêmicos persiste até hoje, desde as troças injustas para com o filósofo Olavo de Carvalho (cuja filosofia tem seus problemas, mas nem por isso é absolutamente desprezível) pelo fato deste ter feito carreira a margem da academia. Recordo-me ainda uma situação pessoal, onde em um grupo paroquial instava o público a ler nas Sagradas Escrituras, alguns dos chamados livros sapienciais: Provérbios, Eclesiastes e Eclesiástico, livros simples e ao mesmo tempo interessantíssimos, mas fui repreendido pela padre, segundo o qual não se devia estudar isso fora de uma faculdade de teologia...

Não é apenas na sua relação com a vida intelectual que se vê a mesquinhez da sociedade brasileira, chama-me a atenção a atonia da vida afetiva das moças, conforme a descrição do autor: 
(…) Casar, para ela, não era negócio de paixão, nem se inserira no sentimento ou nos sentidos; era uma ideia, uma pura ideia. Aquela sua inteligência rudimentar tinha separado da ideia de casar o amor, o prazer dos sentidos, uma tal ou qual liberdade, a maternidade, até o noivo. Desde menina, ouvia a mamãe dizer: “Aprenda a fazer isso, porque quando você se casar”… ou senão: “Você precisa aprender a pregar botões, porque quando você se casar..”
 A todo instante e a toda hora, lá vinha aquele - “porque, quando você se casar...” - e a menina foi se convencendo que toda a existência só tendia para o casamento. A instrução, as satisfações íntimas, a alegria, tudo isso era inútil; a vida se resumia numa cousa: casar.
 De resto, não era só dentro de sua família que ela encontrava aquela preocupação. No colégio, na rua, em casa das famílias conhecidas, só se falava em casar. “Sabe, Dona Maricota, a Lili casou-se, não fez grande negócio, pois parece que o noivo não é la grande cousa”; ou então: “ A Zezé está doida para arranjar casamento, mas é tão feia, meu Deus!...”
 A vida, o mundo, a variedade intensa dos sentimentos, das ideias, o nosso próprio direito á felicidade, foram parecendo ninharias para quele cerebrozinho; e , de tal forma casar-se lhe representou cousa importante, que uma espécie de dever, que não se casar, ficar solteira, “tia”, parecia-lhe um crime uma vergonha. 
Como é triste que uma vocação tão sublime como o matrimônio se converta em uma mera obrigação social, pobrezinha a Ismênia, a mocinha da ficção, que afinal foi o retrato de tantas outras, e ainda o é (cheguei a conhecer gente semelhante em minhas andanças, mas isso é outra história…). 

Enfim, a obra é interessantíssima, prende o leitor e revela muitos dos vícios da alma brasileira que persistem ainda hoje. Talvez ainda retorne ao assunto em postagens futuras, de todo o modo, fica a indicação.