domingo, 17 de novembro de 2019

Rinha de Galo


Já faz algum tempo que a peleja de galináceos tem sido amplamente discutida na internet. O que começou como um meme tem ganhado tons cada vez mais sérios, incluso lobbistas a lutar pela legalização da prática, apesar de todo o drama de uma geração fraca e efeminada. Tal qual rodeios e touradas, a rinha de galo é uma tradição que remonta a tempos imemoriáveis, encontrando entre seus admiradores desde o general grego Temístocles a Santo Agostinho de Hipona.

''A Ordem'' - Santo Agostinho de Hipona

O galo, animal viril com instinto dominador, tende a agressividade naturalmente. O ambiente da rinha é um local onde lhe permite expressar tal instinto, além de uma oportunidade econômica para os criadores lucrarem na luta de seus animais, bem como com o mercado de apostas. E ao fim da rinha, ainda é possível unir e integrar a comunidade rural com aquela galinhada.

Afinal, até quando tão ancestral tradição ficará relegada a ilegalidade, tratada como fosse uma aberração? Se rodeios e touradas são valorizados, que motivo há para desprezar a rinha? 

De todo o modo, pensemos na prática através de uma perspectiva arqueofutirsta. Em um futuro hipotético onde animais mutantes fruto de moderna transgenia duelam contra galos cyborg, em rinhas internacionais, com transmissão ao vivo via internet por todo o universo, com um frenético mercado de apostas. Novas regras deveriam, sem dúvida, ser elaboradas afim de se garantir a justiça nos duelos. Talvez uma categoria para especial para “galos orgânicos”, ou quem sabe a restrição de determinados genes ou modificações robóticas. Há que se atentar também ao uso de drogas que potencializam a agressividade. Quem sabe não precisemos de um antidoping aviário? 

Enquanto pensamos no futuro, fique o leitor com esta bela luta.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Força, Sabedoria e Gratidão

32ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (Sb 6,1-11)
Responsório (Sl 81)
Evangelho (Lc 17,11-19)

1. <A sabedoria é mais estimável do que a força e o homem prudente vale mais do que o valoroso. (Sb 6,1)>; A sabedoria é mais desejável que a força, é o que nos ensina hoje a primeira leitura. Ou seja, a força é desejável e tanto mais o é a sabedoria. Você deseja a força? Eu a desejo. Vou a academia três vezes por semana e me submeto a um rigoroso treinamento busca dela. Pois tanto mais deve ser nossa busca pela Sabedoria. E o princípio da sabedoria é o temor a Deus. Acontece, porém, nestes tempos amalucados uma coisa gozada: muitos, incluso muitos homens, não desejam a força e, tampouco a sabedoria. Se contentam em ser fracos, covardes e burros! Nada disso importa, desde que tenham luxo e conforto. É uma mentalidade desprezível, mentalidade de escravo, mentalidade de eunuco. Busquemos a força e a sabedoria. Que sejamos fortes como leões e astutos como gatos de rua, não mansos e fracos como cãezinhos de madame.

2. O Evangelho de hoje nos exorta a prática de uma virtude bastante impopular nessas terras. Talvez, não tão impopular quanto a castidade, mas ainda assim tão pouco praticada: a gratidão. Como nós somos ingratos, tanto para com Deus como para com nosso próximo. Não sabemos agradecer e, nem mais pedir, antes exigimos; cremos que temos "direitos". Precisamos ser mais gratos. Gratos por tantas benesses que recebemos sem o merecer. Parece exercício coach isso, mas vamos lá: pelo que eu sou grato? Como posso expressar minha gratidão? Como posso "pagar" tantos benefícios que tenho recebido de Deus, da Igreja, de minha paróquia, de minha cultura, de meu país, de minha família? Concretamente.

Pensou? Fica de tarefa :P ; expressar em gestos concretos a gratidão a todos quanto a merecem.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Calma e sossego d'alma

31ª Semana do Tempo Comum - Terça-feira
Primeira Leitura (Rm 12,5-16a)
Responsório (Sl 130)
Evangelho (Lc 14,15-24)

<Senhor, meu coração não se enche de orgulho, meu olhar não se levanta arrogante. Não procuro grandezas, nem coisas superiores a mim. (Sl 130, 1)>; é o que cantam os fiéis junto ao salmista na liturgia de hoje. Resta saber com quanta sinceridade... <Ao contrário, mantenho em calma e sossego a minha alma (Sl 130, 2a)>; continua o salmo... Nós não fazemos nada disso. A esterilidade de nossas obras assim o denuncia. Movidos pela agitação de nossa alma estamos a buscar nossa própria glória, nossa vã glória, ao invés da glória de Deus. É igualzinho os convidados da parábola do Evangelho de hoje, eles que não vão ao jantar porque estão ocupados demais buscando a felicidade sem Deus para ter tempo para Ele.

Não raro acontece algo pior: se usa a própria Igreja como desculpa, como instrumento para própria vanglória. Tal ou qual apostolado parece tão humano e tão pouco divino, mais preocupado em conquistar a boa fama para seus membros do que arrebanhar almas. O "apóstolo" mais preocupado em ser famosinho e tido em conta de sábio ou bom moço, que em de  facto ajudar os irmãos a chegarem a Deus. Deve ter pensado em um monte de gente nesse momento, certo? E você é diferente? Realmente diferente? Profundamente diferente? Ou, para usar uma analogia agrícola, o nematoide que mata a lavoura dos demais também não está presente no solo de sua alma, e pode causar o mesmo estrago na falta de um manejo adequado, na falta da oração e da penitencia? Gostamos de pensar que os maus nascem assim e que nós somos diferentes, somos pessoas de bem. No fundo somos feitos do mesmo barro, e não raro somos tão ruins quanto aqueles contra os quais nos revoltamos. Ninguém nasce bom, antes deve tornar-se bom...

Que Deus nos ajude a aquietar nossa alma, para que busquemos não a vanglória, mas os desígnios do Senhor!

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

''Ser-te-á retribuído na ressurreição dos mortos''


31ª Semana do Tempo Comum - Segunda-feira
Primeira Leitura (Rm 11,29-36)
Responsório (Sl 68)
Evangelho (Lc 14,12-14)

1. As pessoas ficam tristes por não ter seu talento reconhecido e seus méritos louvados: <Poxa, fulano é um bostinha e é rico e famoso enquanto eu sou legal, mas pobre e anônimo>; não devemos alimentar esse tipo de pensamento orgulhoso. Nos ensina o Evangelho de hoje que é até bom que não sejamos recompensados na terra, pois daí nossa recompensa fica guardada para eternidade. Aliás, é pra se temer se as coisas na terra começarem a dar certo demais. Ensina Santo Agostinho que Deus recompensa as virtudes do justo na eternidade, enquanto as eventuais virtudes do ímpio são recompensadas no tempo, pois após a morte ele há de sofrer o castigo eterno.

2. A intensa atividade de São Carlos Borromeu não deixa vocês com medo? O santo bispo fez tanta coisa, produziu tanto realizou tantas obras, enfrentou tantos desafios.... E eu aqui nessa esterilidade preguiçosa.

Como pretender ir para o mesmo lugar que ele sem viver uma vida semelhante?



Miserere nobis, Domine!

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

A cultura pop não nos compreende...

Acabo de assistir Caça as Bruxas (Season of the Witch); o filme foi lançado em 2011 (baixei via Torrent) e na época nem dei muita atenção. Quase todos os filmes que tratam deste período histórico se encarregam de difamar a Igreja,  pensei se tratar mais do mesmo. Estava enganado, o filme é bom, e é até simpático a Igreja (motivo pelo qual foi massacrado pela mídia progressista). Mas é só isso. Um filme pop, legal e levemente simpático a Igreja. Não é nenhuma obra prima, tanto menos um filme católico.

E como digo que não é um filme católico? Simples: o elemento mais importante da narrativa, o que da sentido a história (lá vem spolier...) é um fictício livro de preces e rituais escritos por Salomão, a única arma capaz de derrotar bruxas e demônios. Se valoriza em demasia um "texto secreto em latim" enquanto  os sacramentos, as relíquias dos santos, nada disso tem lugar no épico combate contra bruxas e demônios, salvo a água benta, que (em fidelidade ao clichê hollywoodiano) queima o capeta.

Queria escrever mais coisa, mas não tem, é isso. Só isso. A cultura pop não entende o catolicismo. Nem o de hoje, quiçá o medieval. Não é triste? Não é triste que não consigamos sequer transmitir uma visão correta de nossa identidade ao mundo de hoje?

De todo o modo, o filme é legal e serve para entreter.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Paradoxos da Vida Espiritual


30ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (Rm 8,26-30)
Responsório (Sl 12)
Evangelho (Lc 13,22-30)

As leituras de hoje parecem um tanto quanto paradoxais. São Paulo nós ensina que o Espírito vem em socorro de nossa fraqueza; afirma ainda o apóstolo que a Providência conduz a história, de modo que tudo conspira para o bem dos que temem a Deus. Mas, no Evangelho, Nosso Senhor Jesus Cristo fala da necessidade de esforço para entrarmos pela porta estreita. Afinal, como é a vida do cristão? Uma postura passiva onde se deixa conduzir pelo sopro do Espírito, como o velejar de uma caravela, ou antes uma postura ativa que exige esforço e vontade, como uma dura escalada? A resposta é simples: ambos.

Já andaram se bicicleta, não? Pois o terreno nem sempre é plano, na subida é preciso fazer um esforço hercúleo a ponto de doer as pernas, é necessário força, ritmo constante, resistência para suportar o calor do sol, o suor e o mau cheiro; mas na decida, tudo é mais fácil: não é preciso pedalar antes somos que conduzidos pela inércia, não raro em a alta velocidade, sentimos o vento refrescando o corpo, tudo isso torna o passeio agradável. A vida espiritual funciona mais ou menos assim, há momentos de esforço e momentos onde o Espírito nos conduz. Precisamos viver bem ambas as ocasiões afim de completar a corrida e passar pela porta estreita, pois a derrota significa o inferno.

domingo, 27 de outubro de 2019

Reflexões Eucarísticas (I)

Recentemente, fiz o propósito de reservar algum tempo aos domingos para meditar a respeito dos documentos eucarísticos, em preparação para a Santa Missa. Por agora, tem me acompanhado a encíclica Ecclesia de Eucharistia de João Paulo II; gostaria de compartilhar com o leitor algumas de minhas reflexões a respeito deste belíssimo documento. 

I. Aventuras Pontifícias
(...) Pude celebrar a Santa Missa em capelas situadas em caminhos de montanha, nas margens dos lagos, à beira do mar; celebrei-a em altares construídos nos estádios, nas praças das cidades... Este cenário tão variado das minhas celebrações eucarísticas faz-me experimentar intensamente o seu carácter universal e, por assim dizer, cósmico. Sim, cósmico! Porque mesmo quando tem lugar no pequeno altar duma igreja da aldeia, a Eucaristia é sempre celebrada, de certo modo, sobre o altar do mundo. Une o céu e a terra. Abraça e impregna toda a criação. O Filho de Deus fez-Se homem para, num supremo acto de louvor, devolver toda a criação Àquele que a fez surgir do nada. Assim, Ele, o sumo e eterno Sacerdote, entrando com o sangue da sua cruz no santuário eterno, devolve ao Criador e Pai toda a criação redimida. Fá-lo através do ministério sacerdotal da Igreja, para glória da Santíssima Trindade. Verdadeiramente este é o mysterium fidei que se realiza na Eucaristia: o mundo saído das mãos de Deus criador volta a Ele redimido por Cristo.
O Papa inicia o documento contando sua experiência de celebrar a Eucarística no Cenáculo de Jerusalém, e segue (no trecho acima destacado) contando suas aventuras onde celebrou a Santa Missa nos mais diversos cenários. Anos antes de eu propor a perspectiva das ''aventuras selvagens'', o Papa polaco já as vivia! Visitar diferentes igrejas, contemplar os múltiplos estilos artísticos, escutar melodias variadas, sob diversos cenários e climas, e ainda assim saber que estamos em casa, na casa de Deus. Um protestante nunca vai saber o que é isso, sua seita não tem filiais em todo o mundo; um (t)ortodoxo (cismático oriental) jamais entenderá, está preso demais a bairrismos étnico-regionais; mas nós católicos podemos! Seu estilo de vida talvez não lhe proporcione tantas viagens quanto gostaria, todavia ainda assim pode percorrer as paróquias de sua diocese, e vivenciando a seu modo essa aventura da universalidade da Igreja.

II. A minha parte no acordo... 
Ao entregar à Igreja o seu sacrifício, Cristo quis também assumir o sacrifício espiritual da Igreja, chamada por sua vez a oferecer-se a si própria juntamente com o sacrifício de Cristo. Assim no-lo ensina o Concílio Vaticano II: « Pela participação no sacrifício eucarístico de Cristo, fonte e centro de toda a vida cristã, [os fiéis] oferecem a Deus a vítima divina e a si mesmos juntamente com ela ».
Creio que o leitor já deve ter consciência de que a santa missa é o sacrifício por excelência, todavia, nem sempre nos lembramos de nossa parte nessa história.  Cristo se entregou por nós, e assim devemos oferecer-nos por Ele. De algum modo, nossa vida deve ser uma entrega, um sacrífico a Deus. E um sacrífico é algo que custa, é algo doloroso, é fazer algo que nem sempre queremos fazer... Tendo em vista esta realidade, nossa existência assuma uma perspectiva completamente diferente, que nos instiga a deixarmos a poltronice do comodismo.

III. O Céu na Terra
A tensão escatológica suscitada pela Eucaristia exprime e consolida a comunhão com a Igreja celeste. Não é por acaso que, nas Anáforas orientais e nas Orações Eucarísticas latinas, se lembra com veneração Maria sempre Virgem, Mãe do nosso Deus e Senhor Jesus Cristo, os anjos, os santos apóstolos, os gloriosos mártires e todos os santos. Trata-se dum aspecto da Eucaristia que merece ser assinalado: ao celebrarmos o sacrifício do Cordeiro unimo-nos à liturgia celeste, associando-nos àquela multidão imensa que grita: « A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro » (Ap 7, 10). A Eucaristia é verdadeiramente um pedaço de céu que se abre sobre a terra; é um raio de glória da Jerusalém celeste, que atravessa as nuvens da nossa história e vem iluminar o nosso caminho.
Durante a Santa Missa, é como se um portal se abrisse, conectando o céu e a terra, o tempo a eternidade. Durante o rito, estamos em comunhão com toda a Igreja, milagres esplendorosos acontecem, os anjos voam no interior das catedrais, muitas das almas do purgatório encontram o alívio e a libertação de suas penas. os santos de todos os tempos e lugares estão conosco, o próprio Deus se faz presente na Eucarística. A liturgia terrena nos conecta a liturgia celeste, e experimentamos de alguma maneira o céu na terra. É uma realidade tremenda! Invisível a nossos olhos, mas nem por isso menos real, e que pela fé temos a graça de conhecer. Tomar consciência dessa realidade tornará nossa participação na missa ainda mais frutuosa e seremos mais dóceis as inspirações divinas em tão sublime momento.

sábado, 26 de outubro de 2019

Cultura Cristã

29ª Semana do Tempo Comum - Sábado
Primeira Leitura (Rm 8,1-11)
Responsório (Sl 23)
Evangelho (Lc 13,1-9)

<Os que vivem segundo a carne gostam do que é carnal, os que vivem segundo o espírito apreciam as coisas que são do espírito (Rm 8, 5)>; é o que nos ensina São Paulo, mas que tantos hoje insistem em ignorar. Há um abismo que separa cristãos e infiéis, como se tratassem de homens de espécies diferentes. Enquanto os primeiros são movidos pelo espírito, os demais seguem aos impulsos da carne. Tal diferença de perspectiva existencial não se reflete apenas na vida prática, mas também na cultura. A cultura cristã é voltada para as realidades do espírito, para aquilo que eleva o homem a Deus, enquanto a cultura mundana têm em vista a tríplice concupiscência. Por mais que possa haver ''sementes do verbo'' ou ecos de uma tradição cristã nas atuais manifestações culturais, o cristão deve ter em vista este profundo abismo, quando está a consumir os produtos culturais do mundo, afim de que não acabe por mundanizar-se.

Dias atrás vi por aí um vídeo onde, em uma suposta romaria, jovens estão a pular ao som de música ruim, como se estivessem em uma festa rave. Apesar de ser um ''evento da Igreja'', aquilo não é cultura cristã, mas cultura mundana. O que move aqueles jovens é uma agitação carnal, uma música que tão somente age sobre os instintos, agita o corpo em movimentos desordenados e inúteis.

 


 Compare isto ao réquiem de Mozart, algo que age sobre o intelecto, que convida o espírito a elevar-se.



''Qualé você quer que os juventude, incluso jovens de classe baixa, escutem Mozart?'' - Sim ,quero. A Igreja deve fomentar uma cultura cristã, e dar aos fiéis o alimento do espírito, ao invés de trazer a lavagem profana para dentro do templo. E os católicos, como não andam segundo a carne, mas segundo o espírito, serão dóceis a tal intento.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Interpretar o tempo presente


29ª Semana do Tempo Comum - Sexta-feira
Primeira Leitura (Rm 7,18-25a)
Responsório (Sl 118)
Evangelho (Lc 12,54-59)

No Evangelho de hoje, Cristo condena as multidões: hipócritas que sabem reconhecer os sinais meteorológicos, mas não sabem discernir os sinais "do tempo" presente, isto é a manifestação de Deus, o verbo encarnado Jesus Cristo. Prossegue o mestre ordenando-os a discernir o que é justo. Seria a justiça, então, tão clara quanto os sinais climáticos e, as manifestações de Deus na história tão evidentes quanto a chuva que se aproxima? Assim o é. Então como não entendemos, qual o motivo pelo qual não enxergamos? A resposta é simples, porque somos hipócritas e não queremos ver.

Certa vez li algo bom em um livro ruim: um sensei de kenjutsu (esgrima japonesa) lamentava-se que seus alunos tão facilmente se apaixonam por determinada técnica ou estratégia, usando-a indistintamente, ao invés de avaliar a situação e deixar que esta indique o modo correto de proceder. A Sagrada Escritura nos ensina que há um tempo para tudo debaixo do Sol, mas hoje, vemos tantos que preferem não enxergar a crise na Igreja e o aspecto calamitoso do mundo, gente de tal modo apaixonada por certa conduta burguesa, pela moderação e bom mocismo, que repreendem toda e qualquer atitude mais combativa. Se apaixonaram pela técnica, fecharam os olhos aos sinais dos tempos, procedendo de uma maneira totalmente inadequada a situação. Cegos levando a outros cegos para o abismo. A tempestade se aproxima, mas estes dizem ser alarmismo levar o guarda chuva, disfarçando sua hipocrisia de piedade, dizendo ser falta de confiança na Providencia anunciar a chuva vindoura. Hipócritas!

terça-feira, 22 de outubro de 2019

A Aristocracia da História


29ª Semana do Tempo Comum - Terça-feira
Primeira Leitura (Rm 5,12.15b.17-19.20b-21)
Responsório (Sl 39)
Evangelho (Lc 12,35-38)

Pela desobediência de um homem todos se perderam. Pela obediência de um homem, a Salvação foi a todos oferecida. A história da Salvação tem uma nota aristocrática; determinados personagens estão responsáveis por todos os demais, são como que heróis de uma narrativa, dos quais de sua conduta depende o destino de muitos. De modo análogo, assim também o é a história humana. Para o escândalo de certos ouvidinhos democráticos, homens extraordinários moldam o destino dos povos, para o bem e para o mal. Rezemos por esses homens, esses heróis, para que sua jornada termine bem, e com isso todos nós ganharemos. É provável que não sejamos tais pessoas, ao menos do ponto de vista da história universal, mas de alguma forma temos também essa responsabilidade em escala micro. Pensemos em pai de família, de sua conduta, não raro, depende o destino de sua esposa e filhos. Se o homem for fraco, toda sua casa desaba... Todos sofrem com o fracasso do herói.

Pensemos nisso.

domingo, 20 de outubro de 2019

Oração Eucaristica VI - D

Dai-nos olhos para ver as necessidades e os sofrimentos dos nossos irmãos e irmãs; inspirai-nos palavras e ações para confortar os desanimados e oprimidos; fazei que, a exemplo de Cristo, e seguindo o seu mandamento, nos empenhemos lealmente no serviço a eles. Vossa Igreja seja testemunha viva da verdade e da liberdade, da justiça e da paz, para que toda a humanidade se abra à esperança de um mundo novo.
T: Ajudai-nos a criar um mundo novo!
***



"Ajudai-nos a criar um mundo novo"; a resposta da assembléia na Oração Eucarística VI-D tem sabor quase que de gnose pelagiana. O mundo em sentido estrito é Deus quem faz, nós não criamos nada. Em sentido análogo, podemos falar do mundo enquanto sociedade humana, mas mesmo assim a visão que tal deva ser por nós criada ou construída é de uma soberba tamanha! A sociedade não deve ser uma obra de engenharia social, uma construção, mas um eco orgânico da alma de um povo. De tal forma, para aludir a credo, podemos falar de uma sociedade gerada, não criada. 

Que Deus nos livre dessa mentalidade gnóstica de achar que precisamos "criar um mundo novo" a partir de  nossas próprias forças, necessitando tão somente de uma "ajudinha" divina. Que ele nos dê a graça da docilidade, docilidade ao real, docilidade a graça. 

Nota: Tal oração só existe no "rito brasilis"; foi uma oração escrita pela CNBB e aprovada (infelizmente) por Roma.

domingo, 13 de outubro de 2019

Algumas considerações sobre o palhaço...


O filme do Coringa têm gerado um fuzuê. Muita gente falando a respeito, e falando muita besteira, aliás. Não pretendo aqui fazer qualquer análise profunda, mas tão somente tecer algumas breves considerações afim de dissipar o ruido dos ideólogos imbecis.

A história é a seguinte: Arthur é um cara biruta vivendo numa sociedade de merda e que só se ferra como todo mundo, exceto Thomas Wayne. A diferença é que por sua loucura ele faz o que muitos desejariam fazer mas não tem coragem: revidar.

Coringa quer ver o caos pelo caos quer ver o circo pegar fogo. E ele é reverenciado pela multidão como um herói antissistema, os populares politizam a violência do Coringa transformando-a em uma revolução. Mas o palhaço é doído e não está nem aí pra isso, a violência pra ele é uma válvula de escape, uma piada, um meio de suportar a vida.

O personagem não é uma vítima da sociedade, não é um revolucionário, é só o mesmo coringa de sempre. A diferença é que o diretor o colocou em uma sociedade insana, de modo que por efeito contraste somos tentados a fazer o mesmo que fez a multidão: politizar sua revolta.

Dito isto, vamos agora entender a fúria dos ideólogos para com o filme:

Por que a esquerda está odiou o filme?

1. Porque Arthur é um homem branco, heterossexual, "machista" e tem uma vida ferrada. A ""vítima"" contrasta com o estereótipo das minorias da mitologia esquerdista.

2. Porque para o palhaço a revolução é uma piada. Ele só quer destruir tudo, descontar sua raiva e ver o circo pegar fogo.  Não tem uma causa, não está preocupado com os "oprimidos" está preocupado tão somente consigo mesmo.

3. É  o personagem a encarnação do honk pill.


E a direita, tá full pistola porquê?


Porque são uns imbecis que veem comunismo embaixo da cama. O coringa é um vilão, paçocas! O que o pessoal esperava? Que virasse coach e se juntasse com uma mãe solteira evangélica? Um cara malvadão tem mesmo que destruir tudo pro filme ter graça.

Alguns, mais avarentos, poderão erroneamente afirmar que o filme alimenta o ódio aos ricos. Tolice! Thomas Wayne não é retratado como um monstro. Na verdade o personagem e suas ações pouco aparecem... Antes a revolta do povo com os ricos no cenário de crise econômica. O filme não vai além disso: o povo está bravo e culpa os ricos. E os ricos são culpados? O diretor não responde. O filme não se preocupa em mostrar a verdade ao expectador, mas tão somente expressar a percepção das massas. O que é, aliás, conveniente a narrativa e ao desenrolar do enredo.

Em resumo, o pessoal que politizou o filme do Coringa precisa fazer uma consulta no Arkham, serião.

PS: O torrent do filme já está na net, só procurar que acha...

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Terrores Noturnos


26ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (Êx 23,20-23)
Responsório (Sl 90)
Evangelho (Mt 18,1-5.10)

1. No dia de hoje a Igreja celebra a memória dos Santos Anjos da Guarda, enquanto a ONU comemora Dia Internacional da Não-Violência. Essa maldita onda de pacifismo é um verdadeiro câncer para a alma e, não raro, isto vem a contaminar até mesmo os católicos. Para exorcizar este tipo de ideia estúpida e ressaltar o caráter bélico da celebração angélica, convido o leitor a contemplar comigo esta bela imagem de um anjo armado. É tiro, porrada e bomba contra os malditos demônios!

2. Conheci muito gente que estudando esse negócio de crise conciliar ficou lelé da cuca. Também pudera, é um assunto muito grave a complexo para nossa inteligência limitada. Peçamos a ajuda de nosso anjo da guarda. A inteligência angélica é infinitamente superior a humana; além disso sendo soldados do Senhor dos exércitos possuem tamanha valentia que não se atemorizam mesmo ante os demônios do inferno. Que nosso anjo nos ajude a não temer a verdade, mesmo quando está se mostra amarga e dolorida.

3. <Tu não temerás os terrores noturnos (Sl 90, 5a)>; diz o salmista. Pergunto a leitor, já experimentou tais temores? Tem ao menos uma referência imaginativa do que seria isso? A maioria de nós não tem sequer a experiência de uma profunda escuridão, protegidos, como estamos, pelas luzes elétricas. As inúmeras bestas que vagueiam durante a noite passam longe de nossas fronteiras citadinas... O máximo que pode nos perturbar é algum marginal. Sem entender a extensão do terror noturno, como poderemos compreender a grandeza da confiança expressa na escritura?

Leia a Bíblia, dizem os protestantes. Mas com uma vida medíocre e uma imaginação limitada, como se há de compreendê-la?

domingo, 29 de setembro de 2019

A Alta Macheza em Lord Jim

Apesar do estilo prolixo intragável de Conrad, Lord Jim é uma história sobre alta macheza.

Jim fora marinheiro que, ante uma tempestade, abandonou covardemente o navio em que trabalhava junto com seu capitão e dois outros companheiros. Acontece que, se tal covardia era algo contumaz para seus colegas, para ele tivera um gosto extremamente amargo. Mesmo que o pior não tenha ocorrido e os passageiros (peregrinos maometanos que se dirigiam a Meca) tenha sido salvos posteriormente por uma embarcação francesa que escorou o navio quebrado, tal desonra marcou profundamente a alma do protagonista. Fugindo do passado como de um fantasma, Jim vaga pela terra de emprego e emprego, fugindo sempre que os ecos do Patna voltam a superfície. Por fim, nosso herói é enviado por seus amigos a uma aventura colonial na ilha de Patsuan; um lugar ermo, afastado da civilização. Neste fim de mundo Jim vive altas aventuras e consegue, por posteriores atos de coragem na guerra, exorcizar o antigo fantasma, reconquistando a confiança em si mesmo.

Todavia, a glória não dura para sempre e Jim falha uma vez mais... Ante esse fracasso, o protagonista coloca-se diante de um dilema atroz: fugir, uma vez mais, com a mulher que ama e tentar reconstruir a vida em outro lugar, ou enfrentar a morte? Jim escolhe a morte. Apresenta-se diante de Doramim, líder tribal de Patsuan, que perdera seu filho por um erro de Jim. 

Joia, mulher de Jim, não o compreende. Parece-lhe um ato de estranho egoísmo, mas não o é. Se trata de honra, da consciência da virtude e da uma dignidade tamanha que não é capaz mais de viver fugindo como um covarde. Jim morreu, morreu como um homem. Um homem que sabe que deve pagar o preço por suas escolhas.

Quantos de nós poderemos um dia dizer o mesmo? Olhemos para o fundo de nosso ser, para as profundezas de nossa alma. Pergunto a mim mesmo e a ti caro leitor, quantas vezes já sentiu em toda a intensidade a dor por um ato de covardia?  Nesta civilização efeminada, o medo se torna algo tão habitual, que nem mais nos envergonhamos. Antes, há quem louve tamanha baixeza como prudência e esperteza....

Que Deus nos ajude a sentir em nossa alma a dor por nossas covardias cotidianas. Devemos cultivar isso em nossa alma, meditar nossas falhas, nossas vergonhas, compreender toda iniquidade de nossos erros, do contrário jamais seremos capazes de abandonar tal proceder indigno e comportarmo-nos verdadeiramente como homens? Há que se recuperar a valentia, mas isso não é possível sem que antes sintamos verdadeira repugnância por nossas cotidianas covardias. É certo que nenhum de nós é Tuan Jim, mas ao menos devemos nos esforçar para vivermos como heróis na narrativa pessoal de nossa própria vida.

sábado, 28 de setembro de 2019

Coragem ante a Verdade


25ª Semana do Tempo Comum - Sábado
Primeira Leitura (Zc 2,5-9.14-15a)
Responsório (Jr 31,10-13)
Evangelho (Lc 9,43b-45)

No Evangelho de hoje, Nosso Senhor Jesus Cristo anuncia aos apóstolos sua paixão. Os discípulos não o compreendem, tal palavra lhes parece demasiado obscura. Ante tantos milagres realizados, ante tal poder manifesto, como poderá se seguir tamanha rejeição e sofrimento? Mas, os apóstolos não eram homens tolos, conheciam as profecias, estavam com Jesus já a algum tempo, mais do que ignorância, está dificuldade de se compreender a palavra do mestre revela-nos algo da natureza humana: a nossa dificuldade em lidar com “más notícias”. Antes queremos iludir-nos, acreditar que tudo ira bem, que nossa jornada neste mundo se dará de modo tranquilo, tal qual um desenho infantil. E de tal forma iludidos rejeitamos os avisos do céu, os sinais de tempestade, os oráculos e profecias. 

Não é assim ainda hoje? Nossa Senhora em Fátima e Akita comunicou-nos a vinda de um castigo aterrador de proporções diluvianas, mas em vez de buscarmos a conversão e a penitência, antes ignoramos tais mensagens, sonhando com “dias de glória”. Pensemos em um exemplo ainda mais recente, o Sínodo da Amazônia, onde hereges contumazes maquinam para abolição do celibato sacerdotal e renascimento do paganismo sob disfarce ecológico, pensemos nas iniquidades presentes no instrumentum laboris, a vista de todos. O documento chega a afrontar o dogma extra ecclesiam nulla salus afirmando: < A abertura não sincera ao outro, assim como uma atitude corporativista, que reserva a salvação exclusivamente ao próprio credo, são destruidoras desde mesmo credo>Todavia, há quem ignore tudo isso, e diga a si mesmo que as críticas ao sínodo não passa de alarmismo de alguns “ultratradicionalistas fanáticos”

Peçamos a Deus a coragem para buscarmos a verdade, mesmo que esta nem sempre nos traga boas notícias. 

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Basta dessa idolatria populista! (2)


25ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (Esd 9,5-9)
Responsório (Tb 13,2-8)
Evangelho (Lc 9,1-6)

No dia de hoje, o livro de Esdras nos traz um precioso ensinamento, um tanto obscurecido, todavia, dado há algumas terríveis traduções (entre elas a própria edição Ave Maria). Cito aqui a passagem citando uma das edições mais seguras, a tradição da Vulgata pelo Padre Matos Soares
Nós mesmos também temos cometido graves pecados até o dia de hoje e, por nossas iniquidades temos sido abandonados nós, os nossos reis, os nossos sacerdotes, nas mãos dos reis da terra, e entregues à espada, ao cativeiro, à rapina, e à confusão dos nossos rostos, como (se vê) ainda hoje. (Ed 9, 7b) 
Não raro, dado a certa doença populista, temos a ver o povo sempre como fosse um ente puro, a sofrer nas mãos de líderes ineptos. Todavia, a Escritura nos faz ver a responsabilidade do povo ante seus líderes. Pelos pecados deste mesmo povo, os líderes são abandonados por Deus, tendo sido negado a eles graças de estado necessárias para governar adequadamente. E note o leitor que isto não acontece tão somente no âmbito da autoridade temporal, mas também no terreno espiritual, pois Esdras cita também “nossos sacerdotes”. 

É fácil tornar a autoridade uma espécie de bode expiatório, difícil porém é olhar para si mesmo e acusar as próprias faltas. Mas sem essa penitência pessoal e “coletiva”, sem que o povo examine seus caminhos e confesse seus pecados, não há que se esperar por líderes virtuosos.

sábado, 21 de setembro de 2019

Sobre o exercício do Necrológio...


Por um misto de planejamento e acaso, tenho eu dedicado estes últimos meses a leitura de ficção. Acontece que minha renda ainda o é bastante diminuta, e meu “finado” Kindle encerrou sua carreira há pouco mais que seis meses, talvez devido a diabruras (ou muito provavelmente tão somente a velha coincidência) que visavam impedir-me de concluir a leitura da obra do Pe. Félix Sardá y Salvany. Longe das bugigangas da Amazon, a leitura em celulares e computadores mostra-se incômoda para as vistas, de modo que fui obrigado a recorrer a velharias ancestrais, isto é: a biblioteca. Todavia, esta venerável instituição, ao menos nos limites provincianos do interior paulista, não contempla as profundezas da doutrina, tanto menos das polêmicas pós-conciliares, de modo que restou-me a tarefa de alimentar o imaginário com os clássicos da literatura universal, tarefa, aliás, nada ingrata, antes pelo contrário muito edificante. Que tem o leitor com isso? Toda esta digressão deve estar-lhe por torrar a paciência, pois aos que ainda me acompanham, e por obséquio não fecharam a janela do site, passo ao assunto principal: o necrológio. 

Mais especificamente, o exercício do necrológio, idealizado por José Monir Nasser após a leitura de Tolstói, proposto também por Olavo de Carvalho em seu curso online de filosofia (cof! cof!). O exercício consiste em supor o leitor que tenha ele passado “para a banda de lá”, batido as botas, retornado a pó da terra, desposado a morte, ou seja lá metáfora que preferir. Tendo encerrado sua existência neste vale de lágrimas, caberia a um amigo, nosso narrador imaginário, descrever a vida do defunto. Tal exercício daria ao infeliz uma perspectiva de maior responsabilidade ante a existência, e quem sabe evitaria que tivesse uma morte tão triste quanto a de Ivan Illich, ou a do príncipe Fabrício (de O Leopardo). Acontece que aí temos um problema… 

As vidas que se desenrolam ao nosso redor são, por vezes, tão prosaicas, não nos interessamos definitivamente por elas se não por alguns breves instantes. Não é estranho como conhecemos apenas superficialmente a história de muitos de nossos amigos? Seria tal desdém culpa de nossa indiferença, ou será que lhes falta algo? Pois em Lord Jim se dá o exato contrário; o Capitão Marlow fica tão tocado ante a figura de Jim que se transforma em um entusiasmado narrador a perscrutar as profundezas da alma deste jovem inglês. Temos nós tal capacidade? Conseguimos expressar com nossa vida esta chama que desperte o entusiasmo de terceiros para se dar ao trabalho de contar tal história? Aliás, já fomos nós cativados por entusiasmo semelhante, interessando-nos verdadeiramente pela biografia de algum de nossos conhecidos? 

Há algo de misterioso que torna uma história digna de ser narrada, que torna uma existência abrasante, tal não pode ser resumido a cargos, dinheiro e poder. Existem tantos deputados, banqueiros, reis, presidentes, bispos e generais cuja vida não nos desperta a mínima curiosidade, enquanto que a de um jovem garoto italiano como Carlo Acutis, é capaz de ecoar pelo globo! Enfim, escreva seu necrológio se quiser, mas certifique-se descobrir este segredo que torna a sua existência capaz de entusiasmar a terceiros, de outro modo, este seu exercício será para sempre uma ficção ruim.  

Ah, e quando descobrir este segredo, me conte!

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Aventuras Selvagens

24ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira leitura (1Tm 3,14-16)
Responsório (Sl 110)
Evangelho (Lc 7,31-35)

<Grandes são as obras do Senhor (Sl 110, 2b)>; é o que hoje se canta na liturgia junto ao salmista. Mas, até que ponto essa admiração é sincera? Em um mundo onde tantos vivem enfurnados nas cidades, longe da Criação, distante da imensidão do mar, da magnanimidade das montanhas, da beleza da fauna, dos aromas das flores; onde, não raro a iluminação urbana ofusca a luz das estrelas, e pouca atenção dedicamos observar a lua e os planetas; que grau de sinceridade há em nosso canto? Quantos de nós, de facto, estamos a contemplar as grandes obras do Senhor? E não fiquemos apenas nas maravilhas da criação, pensemos também nas grandes catedrais, na vida dos santos? Quantos destes homens e mulheres grandiosos não caminham sobre a terra, não seria algo sublime ter a graça de conhecê-los ainda em vida?

Há tanta gente buscando “reformar o mundo”, outros tantos se esforçam por “salvar o planeta”, e perdem tanto tempo em seus devaneios, em seu heroísmo de sofá, que se furtam desta grande aventura que se mostra ante nossos olhos, a missão de explorar o mundo, passear por sobre o jardim no qual estamos instalados. Já é tempo de nos afastarmos dessa poltronice e vivermos algumas aventuras selvagens!

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Sofrendo-vos uns aos outros


23ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (Cl 3,12-17)
Responsório (Sl 150)
Evangelho (Lc 6,27-38)

No Evangelho de hoje, Nosso Senhor Jesus Cristo ordena que amemos nossos inimigos. Missão difícil, sem dúvida! Comecemos, porém, pelo mais fácil, aquilo que alguns momentos antes escutamos na liturgia, na leitura da Carta de São Paulo aos Colossenses; o apóstolo nos exorta a perseverar:
sofrendo-vos uns aos outros e perdoado-vos mutuamente, se algum tem razão de queixa contra o outro: assim como o Senhor vos perdoou a vós, assim também vós (deveis perdoar uns aos outros). Sobretudo, porém, tende caridade, que é o vínculo da perfeição; triunfe em vossos corações a paz de Cristo, à qual também fostes chamados, para (formar) um só corpo, e sede agradecidos. (Cl 3 13-15)

Atente o leitor que São Paulo fala do amor devido aos irmãos de fé. Pensemos este como um “primeiro degrau” na escada da caridade, um primeiro passo até que consigamos de fato cumprir o que nos ordena o Evangelho a respeito de nossos inimigos. Parece fácil, mas não o é! Note a expressão do apóstolo: <<sofrendo-vos uns aos outros>>! A convivência é algo um tanto quanto incômodo, já é complicado lidarmos com nossos amigos, com nossos familiares, tanto mais com aqueles que, embora unidos pela fé, possuem tantas diferenças de temperamento, pensamento, costumes, classe social, nível intelectual, opção política e, não raro, perspectivas teológicas. Tanto mais nestes tempos de tormenta onde a Igreja vive uma das maiores crises de sua história. <Ihh, lá vai você de novo com seus tradicionalismos delirantes e apocalípticos> - diriam, talvez, alguns leitores; pois se lhes é sofrível suportar meus <<tradicionalismos apocalípticos>>, de igual modo me é sofrível suportar este pacifismo infeliz, este otimismo imbecil, esta cegueira voluntária afetada por um sentimentalismo efeminado ante os tempos que vivemos. Apesar disto, há que se obedecer o apóstolo: <<sofrendo-vos uns aos outros>>

O modo mais fácil de viver tal ensinamento é “cada um procurar sua turma”; a Igreja é sábia, sabe que por vezes isso se faz necessário, tanto que vemos certa variedade de ritos e estética litúrgica e arquitetônica; pensemos nos ritos orientais, pensemos no rito bizantino, no rito ucraniano, etc.. Mesmo vivendo em território latino, foi permitido a nossos irmãos se organizarem e agruparem segundo suas origens étnicas e seus ritos tradicionais. Isto, contudo, não deve impedir a colaboração com os demais membros da Igreja; cito agora São Josemaria Escrivá
Foge dos sectarismos que se opõe a uma colaboração leal. (Sulco 363) 

Se é certo que nos é lícito procurar, mesmo dentro da Igreja, aqueles que nos são semelhantes, conservando nossa identidade e evitando ser absorvidos por certa “cultura eclesial” que nos parece inadequada; por outro lado não devemos nos furtar de colaborar com nossos irmãos naquilo que é justo. Teoricamente é algo simples, mas na prática se mostra algo extremamente complicado, não raro tantos se anulam em uma mediocridade geral, em um provincianismo temporal, renunciando a uma visão mais ampla para se adequar a certo modismo eclesial;. ou, o que é mais comum, acontece que a as diferenças são hipertrofiadas de modo quase sectário, sendo o trato com o irmão reduzido a mínimo necessário. Vigiemos, <<sofrendo-vos uns aos outros>>, com inteligência e caridade sem renunciar, porém, a nossa identidade, tampouco a uma colaboração leal em justas batalhas.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Filosofia Inútil

23ª Semana do Tempo Comum - Terça-feira
Primeira Leitura (Cl 2,6-15)
Responsório (144)
Evangelho (Lc 6,12-19)

1. <Vede que ninguém vos engane por meio da filosofia inútil e enganadora, segunda a tradição dos homens, segundo os elementos do mundo, e não segundo Cristo (Cl 2,8)>; assim ensina o apóstolo São Paulo, o Beato Pio IX também ecoa esse precioso ensinamento quando condena em seu Syllabus a proposição segundo a qual: <A Igreja não só não deve repreender em coisa alguma a filosofia, mas tolerar os erros da mesma e deixar que ela se corrija dos mesmos>. Infelizmente, tantos cristãos abandonam tão sublimes ensinamentos para se apegar ao lodo dos erros mundanos. Com quanta facilidade tantos de nossos irmão abandonam os ensinamentos de Cristo e da Igreja, acolhendo a tolas e errôneas filosofias, e numa inversão demoníaca, subordinando a autoridade da revelação ao clive de seus mestres mundanos? Rezemos por esses nossos irmãos desviados, e combatamos com coragem tais filosofias enganadoras, mesmo que por vezes, tais erros venham, tristemente, a ser proclamadas até mesmo por Papas e Cardeais, como têm ocorrido desde o Concílio Vaticano II.

2. Antes de escolher os doze, Cristo sobe a montanha e passa toda a noite em oração. Também nós deveríamos fazer o mesmo antes de tomar importantes decisões: nos colocar na presença de Deus e rezar pedindo luzes a fim de decidir corretamente. 

3. Pergunto ao leitor, já subiu a montanha? Não falo metaforicamente, mas real e de facto. Não raro nos confinamos nos limites da cidade, subtraindo todo o contato com a criação. O Papa Francisco nos exorta: <Este é o tempo para voltar a habituarmo-nos a rezar imersos na natureza, onde espontaneamente nasce a gratidão a Deus criador >. Quem sabe nas próximas férias não reservemos algum tempo para algumas aventuras selvagens, como fazia o Beato Pier Giorgio Frassati.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Épica Pescaria


22ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (Cl 1,9-14)
Responsório (Sl 97)
Evangelho (Lc 5,1-11)

No Evangelho de hoje contemplamos o episódio da pesca milagrosa. A cena impressiona tanto em seu aspecto sobrenatural, mas também nos seus contornos mais naturais. São Pedro menciona que trabalhara a noite inteira sem resultados, jogara as redes pelas escuras madrugadas da idade antiga sem conseguir pescar nada… Pergunto ao leitor, consegue imaginar a cena em toda sua riqueza?  Em minha curta vida não conheço ainda o mar; vi apenas alguns poucos rios, o Rio Grande, na “fronteira” entre Minas Gerais e São Paulo e o Rio do Peixe em Goiás. Percorri um pequeno trecho do Rio do Peixe durante o período de seca em um barquinho de pesca, que suponho eu, muito difere da barca de Pedro. O barco era pequeno, mas motorizado, todavia como o rio estava extremamente raso, houve necessidade de remar, o que se mostrou uma experiência bem mais difícil do que imaginava… Essas minhas insignificâncias porém, nem de longe ecoam a intensidade da experiência de Pedro. As águas que percorreu eram profundas e a pescaria se deu durante a noite, em um tempo onde sequer existia energia elétrica. A noite já é um mistério ainda hoje, com todas as bugigangas tecnológicas, quanto mais antes, isto ainda em meio as águas profundas, longe da terra firme! Há certo tom épico, determinado contorno heroico nesta simples pescaria de outrora. Imaginemos o barco levado pela correnteza, o sereno da madrugada, a profundeza das águas a refletir a escuridão da noite, iluminada talvez pela lua e as estrelas. Tão somente em seus contornos naturais a cena é belíssima… E após essa noite poética, todavia inútil, obedecendo a ordem do Salvador os pescadores lançam as redes uma vez mais, e a pesca é abundante. Quanto alegria e espanto não devem ter sentido aqueles homens? Dois mil anos depois ainda lemos essa história, mas não raro com tanta má vontade… Nos furtamos do esforço imaginativo de reconstruir mentalmente toda a maravilha do ocorrido, pulando diretamente as consequências morais e teológicas. Mas antes da teologia houve a experiência real e concreta! Quão longe estamos nós deste contato com o real, não digo apenas da experiência com o divino, mas com o simples contato com a criação. O mundo é uma aventura épica e nós o transformamos numa monotonia chata e rotineira. 

Termino estas reflexões com está bela pintura de Caspar David Frederich; "Barco de Pesca no Mar Báltico". A obra ajuda-nos maravilhar-nos ante criação, a imaginar toda a poesia de uma pesca noturna e, quem sabe, não nos inspire em futuras aventuras.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

"Cala-te"


22ª Semana do Tempo Comum - Terça-feira
Primeira Leitura (1Ts 5,1-6.9-11)
Responsório (Sl 26)
Evangelho (Lc 4,31-37)

Nosso Senhor Jesus Cristo manda aos demônios que se calem. Todavia, muitas vezes, nós procedemos de maneira oposta, movidos por vã curiosidade a dar ouvidos a conversa do Diabo. Tal qual Eva, procuram  dialogar com a serpente. Tantos se achegam a astrologia, a magia e tantas outras imundices que sobem a terra como vapor do inferno, conscientes de sua malícia, mas procurando de alguma forma ganhar poder sobre elas, obter algum conhecimento oculto e enganar a Satanás em seu próprio jogo. Quanta petulância! E de tal se serve o inimigo para os escravizar.  Hoje pululam publicações e mais publicações de exorcistas que, não raro, afetados por alguma imprudência reproduzem longos diálogos com os espíritos infernais, tentando extrair deles juízos sobre os acontecimentos terrestres. Quantos dessas supostas revelações não contradizem a diametralmente a doutrina revelada, como quando em um deles se afirma que a alma de um defunto deixara o purgatório para possuir um vivente? Ou certo afago a uma teologia pacifista a afirmar que Deus não criara o inferno? Sem falar de tantas bajulações, quando se afirma que tal ou qual Papa ou clérigo inspiraria medo e temor ao capetas?

“Cala-te”; que os demônios se calem. No diálogo com tais criaturas há grande perigo ao homem. Fujamos desta vã curiosidade que pavimenta o caminho para o inferno.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

"Nenhum profeta é (bem) recebido na sua Pátria"


22ª Semana do Tempo Comum - Segunda-feira 
Primeira Leitura (1Ts 4,13-18)
Responsório (Sl 95)
Evangelho (Lc 4,16-30)

<Ele, porém, disse-lhes: Na verdade vos digo que nenhum profeta é (bem) recebido na sua pátria (Lc 4 24)>; tal fato parece uma espécie de lei de nossa natureza humana decaída. Vemos isto em nós mesmos, vejo isto em mim… Quão mais fácil é louvar os tesouros vindos do estrangeiro, quão difícil é acolher aqueles que se manifestam em nosso entorno imediato. Que sei eu dê minha cidade, de meu país, de seus santos, heróis e profetas, de suas paisagens e épicos episódios, de sua literatura e poesia? Muito pouco. E (talvez de forma arrogante) não me julgo um simples homem comum, mas um intelectual que se esforça por conhecer… Li eu hagiografias de Santo Antônio, São Pio X, Carlo Acutis, Pier Giorgio Frassati, mas não de São José de Anchieta, São Frei Galvão ou da irmã Dulce. Tenho em meu oratório imagens da Virgem de La Salete, mas não de Nossa Senhora Aparecida. Aqui na cidade a diocese se mobiliza pela canonização de um sacerdote falecido em 2010, o padre André Bortolameotti, do qual sei muito pouco… 

Pergunto ao leitor, estaria ele em melhor situação?

Façamos o propósito de um sincero esforço para fugir desta tendência a desprezar os nossos. Que da próxima vez que ouvirmos tal Evangelho, estejamos nós em uma situação um pouco melhor no que diz respeito a valorização dos tesouros locais. 

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

"Minha boca anunciará sua justiça"

21ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Martírio de São João Batista
Primeira Leitura (Jr 1,17-19)
Responsório (Sl 70)
Evangelho (Mc 6,17-29)

São João Batista não liderava fortes exércitos, tampouco realizou em vida grandes milagres. Sua única arma fora a palavra, sua língua como uma espada de dois gumes penetrava os corações. Suas palavras despertaram tanto ódio que Herodíades não podia suportar que continuasse a viver. 

Como meras palavras podem ter tanto poder? Poder tamanho que ecoam ainda hoje quase dois mil anos. E passados milênios as mesmas palavras perturbam tantos corações entregues ao pecado e ao demônio? As palavras de João eram verdade e justiça, o poder da verdade é tremendo. Se nossas palavras fossem como a de São João Batista, colocaríamos “fogo no mundo”; perturbaríamos esta modernidade apóstata e iníqua. Para tal, porém, teríamos de estar dispostos a pagar com a vida se fosse necessário. A verdade é uma arma poderosa, mas exigente. 

São João Batista é um mártir, um herói da fé, e a maioria de nós um bando de covardes. O estado do mundo de hoje dá testemunha de nossa covardia, de nossa fraqueza. Mais do que apenas admirar as virtudes de João, imploremos a Deus a graça de imitá-lo, a coragem de desembainhar a espada da verdade; para então podermos de facto viver aquilo que cantamos no salmo: “Minha boca anunciará sua justiça” (Sl 70, 15a)

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

"Porque as trevas não são escuras para ti"


21ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (1Ts 2,9-13)
Responsório (Sl 138)
Evangelho (Mt 23,27-32)

1. A liturgia de hoje é tão providencialmente harmônica que se assemelha a uma sinfonia clássica. O salmo que hoje cantamos é de uma beleza ímpar; trata-se do Salmo 138, bem conhecido em nossas terras nestes tempos, dado que o Padre Marcelo Rossi escreveu uma bela música nele inspirado: Sonda-me


A parte que hoje cantamos, porém, não se encontra na canção carismática. Os versículos narram de forma poética o drama de uma alma que tenta fugir e esconder-se de Deus, subindo aos altos céus, descendo ao fundo do abismo, envolvendo-se em trevas profundas, mas tudo isso é inútil. Ninguém pode ocultar-se do olhar divino, que enxerga toda a verdade de nosso ser. 
E disse: Talvez me ocultarão as trevas; mas a noite converte-se em claridade para me descobrir no meio dos meus prazeres.

Porque as trevas não são escuras para ti; e a noite brilha como o dia, e a escuridão como a claridade; (Sl 138. 11-12)

Tal verdade descobriram, de modo amargo os fariseus, que buscavam tão somente simular piedade diante dos homens, enquanto praticavam seus pecados no escondido. Foram eles, pois, desmascarados por Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim acontece também conosco quando procedemos de modo semelhante. Podemos enganar nosso próximo, até mesmo a nós mesmos por alguns instantes, mas a Deus ninguém engana. 

2. Hoje recordamos a memória de Santo Agostinho de Hipona. Agostinho é o autor de Confissões. Nesta obra autobiográfica o bispo de Hipona confessa a Deus, a si mesmo e a seus leitores as misérias mais íntimas de sua alma, seus pecados cometidos desde a tenra infância, bem como todo o seu processo de conversão. A sinceridade do autor salta aos olhos, a obra tocou-me profundamente quando o li nos inícios de meu retorno a Igreja, de minha conversão pessoal. Deveríamos nós imitá-lo; não que fosse necessário publicar aos quatro ventos nossos pecados de hoje ou outrora, mas ser sinceros ao admitir que, afinal, não somos lá grande coisa. Um bom começo seria a prática do exame de consciência de modo mais frequente, quiça até diariamente. Que ao anoitecer contemos a Deus nosso dia, com profunda sinceridade, relatando nossos feitos, nossas omissões, nossos erros e pensamentos, relatando a causa profunda de cada um de nossos atos. É preciso que isto seja feito com profunda sinceridade, afinal estamos a falar diretamente a Deus a quem ninguém pode enganar. Nesta confissão diária, Deus nos mostrara algo sobre nós mesmos, e assim iluminados pela luz divina, poderemos, quem sabe corrigir nossa conduta. Mas, não se iluda o leitor, é uma dificuldade tremenda corrigir-se a si mesmo ainda que ciente das próprias misérias, todavia não desanimemos, Deus é mais!

3. Por fim, gostaria de citar a São Josemaria Escrivá
Com a tua conduta de cidadão cristão, mostra às pessoas a diferença que há entre viver triste e viver alegre; entre sentir-se tímido e sentir-se audaz; entre agir com cautela, com duplicidade - com hipocrisia! -, e agir como homem simples e de uma só peça. - Numa palavra, entre ser mundano e ser filho de Deus. - Sulco 306 
Note o contraste entre a conduta mundana (triste, tímida, dissimulada, hipócrita) e a conduta cristã (alegre, audaz, simples). O proceder mundano é uma conduta “noturna”, de alguém que como no salmo de hoje, busca ocultar-se nas trevas. O proceder cristão é uma atitude “solar”, dos filhos da luz, de quem não tem nada a esconder. A audácia do cristão nasce da consciência da própria miséria e de que está é conhecida por Deus. Se assim o é, de que vale ocultar-nos, dissimularmos diante de nós mesmos e de nosso próximo? Confessemos nossas misérias e sigamos adiante.

domingo, 25 de agosto de 2019

Indigna Plebe

Orgulho é um termo polissêmico. Por um lado a palavra pode ser usada para designar o pecado de Lúcifer que inebriado em uma adoração de si mesmo, rejeitou curvar-se ante a majestade divina. O termo, entretanto, também pode designar uma consciência de elevada dignidade e um compromisso existencial em não maculá-la com atos vis. Nesse sentido, podemos citar o orgulho guerreiro ou o orgulho nobiliárquico. Tal realidade parece inexistir em tempos democráticos, sobretudo neste país tropical, como ilustra tristemente a breve coletânea de contos de Alcântara Machado: Brás, Bexiga e Barra Funda.

O livreto caiu em minhas mãos no mais absoluto acaso, e comecei a leitura sem saber o que esperar. O autor busca retratar o cotidiano daqueles por ele chamados de “novos mamelucos” a nova “raça” brasileira que se gestava na mistura com os imigrantes italianos. Mas, é curioso, diria até incômodo, como os personagens de três destas histórias renunciam a crenças arraigadas em prol de vantagens imediatas. 

Em “A Sociedade”, a esposa do Conselheiro José Bonifácio inicialmente se mostra intransigente em seu preconceito anti-italiano: “-Filha minha não casa com filho de carcamano!”. Não compartilho das restrições étnicas da dona, até por que sou descendente de italianos, mas não os condeno. É normal entre as sociedades tradicionais que se crie restrições e barreiras a fim de moldar certa identidade familiar. Que as famílias coloquem restrições étnicas, econômicas e religiosas, não faz com que o jogo do amor se torne extremamente complexo e vida social algo bem mas interessante? A intransigência da dona, todavia, não vai longe, o “carcamano” enriquece e o dinheiro deste faz a senhora mudar de ideia e o casamento logo se concretiza, para a alegria da filha. 

"Corinthians (2) vs. Palestra (1)", temos uma história bem mais vulgar, Miquelina, verdadeira maria chuteira, troca de time de futebol e de namorado conforme o resultado da partida. Se no início da história a moça é palestina (palmeirense) fanática, após a partida se torna corintiana e volta a se engraçar com o atacante do time vitorioso, rejeitando seu romance de até então, o palmeirense derrotado.

Por fim, em "Nacionalidade", acompanhamos a trajetória de um imigrante italiano apaixonado por seu país de origem, com sonhos de retornar a sua pátria, que vai pouco a pouco sufocando seu amor nacionalista conforme vai prosperando em terras tropicais, até que por fim, de forma simbólica, renuncia a suas pretensões nacionalistas se naturalizando brasileiro.

Apesar de bobinhas, as histórias mostram personagens apequenados, homens e mulheres sem fibra, sem crenças profundas, que renunciam aquilo que outrora lhes era importante com extrema facilidade. Não é assim até hoje entre nossos conterrâneos? Raro é encontrar alguém dotado de crenças profundas, disposto a sofrer por aquilo que acredita, e manter-se fiel, perseverando, pelejando até a morte.

Esta pátria de geleia precisa de heróis, de homens de fibra, para ensinar a seu povo a virtude. Serás tu, caro leitor, este tipo de herói? Ou ainda teremos de esperar por mais algumas gerações?

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

A caráter aristocrático da Igreja


20ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (Is 9,1-6)
Responsório (Sl 112)
Evangelho (Lc 1,26-38)

A festa de hoje incomoda as alminhas adoentadas pelo espírito igualitário. Nossa Senhora é rainha. Nosso Senhor Jesus Cristo é rei, descendente da nobre estirpe de Davi. A Igreja é uma monarquia. Tal realidade tem muitas consequências: a busca da excelência e magnanimidade, sobretudo no que diz respeito a celebração litúrgica, como ensina o Papa São Pio X, cuja memória ontem celebramos: <Nada deverá ter lugar na igreja que seja indigno de uma casa de oração e da majestade de Deus>; assim escreve em motu próprio onde estabelecia bases para uma reforma na música litúrgica. Entre as medidas estabelecidas estavam a implantação de escolas de música dentro dos seminários, bem como nas cidades e paróquias rurais. Infelizmente, tal prática foi abandonada desde o Concílio Vaticano II e a música no templo nunca esteve em pior estado; assim como a arquitetura sacra, onde proliferam horrorosas catedrais, absolutamente indignas da casa de Deus. 

“Mas tudo esse esplendor torna a Igreja elitista e nos afasta do cuidado para com os pobres” - poderão alguns objetar. A resposta quem nos dá e a própria liturgia; canta hoje o salmista: <Levanta (do pó) da terra o desvalido e tira da imundice o pobre, para o colocar com os príncipes, com os príncipes de seu povo. (Sl 112, 7-8)>; note o leitor que há uma elevação dos humildes e não uma abolição das hierarquias e principados. A Igreja deve elevar o pobre para fazê-lo sentar junto aos nobres. Seria uma sandice propor a ela renunciar a nobreza e aderir a uma massificação do medíocre.