segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

O mundo, os povos e o jejum


6º Dia da Oitava do Natal - Segunda-feira
Primeira Leitura (1Jo 2,12-17)
Responsório (Sl 95) 
Evangelho (Lc 2,36-40)

1. <Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. Se alguém ama o mundo, não está nele o amor do Pai (1Jo 2, 15)>; que é o mundo ao qual se refere o apóstolo? É a cidade dos homens, é a sociedade sem Deus. É um sistema edificado sobre o pecado. Na época apostólica, quando imperavam os césares pagãos sob Roma pagã, as coisas estão bem claras. Hoje não é muito diferente, embora os erros vaticanosegundistas tenham contribuído para criar grande confusão.

Que significa rejeitar o mundo? Significa rejeitar seus valores, a ambição de ser bem quisto a todo o custo, de crescer e adquirir poder pisando nos demais, de saciar de modo impuro os instintos da carne, de se deixar instruir pelo magistério da mídia. O cristão deve ser uma espécie de outsider. Se o sujeito está bem integrado a esse sistema iníquo, se se sente confortável em desprezar a moral e ''subir na vida'' com base na mentira, na fraude, em maquinações maquiavélicas, não está nele o amor do Pai, por mais que o homem insista em simular uma imagem cristã.

2. <[...] julgará o mundo com justiça. e os povos segundo a sua verdade. (Sl 95, 13a)>;  assim canta o salmista. Note a expressão ''os povos". Que quer dizer isso? Que em sua jornada sobre a terra, os homens se agrupam em povos, e cada povo busca seus objetivos. Não raro esses objetivos o levam a guerras e antagonismos. Quem está certo, se sob diferentes perspectivas ambos podem estar buscando seus legítimos interesses? É o Senhor que vai julgar. É Deus, não a ONU, não o tribunal de Nuremberg. E ele julga com justiça. Mas, os homens são muito apressados, não são poucos os que se arrogam o papel de juízes da história querendo determinar lado da justiça e tomando partido em guerras que não lhe dizem respeito. Já nos basta as nossas próprias guerras, aquelas que estamos envolvido de forma pessoal, existencial. Pra quê arrumar mais treta pra cabeça?

3. Ana servia ao Senhor no templo com jejuns e orações. Foi o que lemos no Evangelho de hoje e, é o terceiro mistério gozoso que também hoje se medita na récita do Santo Terço. 

O anjo de Fátima bradava por penitência. O Jejum é uma das formas mais antigas de penitência, em certo trecho do Evangelho, diz Nosso Senhor Jesus Cristo que determinados demônios só podem ser expulsos por jejum e oração. Há um médico americano, Arnold Ehret, um tanto extravagante, que por seu exagero fora excomungado. Ehret atribuía os milagres dos santos a prática do jejum, dizia que se os homens jejuassem adequadamente, poderiam também eles realizar milagres. O exagero deste velho doutor, e sua consequente excomunhão, se deu por atribuir poderes divinatórios ao jejum, colocando o poder no meio, e não no autor da graça. Seja como for, tal exagero ilustra a importância desta prática hoje muito negligenciada. Não devemos os agitar em um ativismo desenfreado, e esquecer de mobilizar os recursos espirituais. É a oração e a penitência que fecunda nosso apostolado e conquista as bençãos divinas para as nossas obras. Se somos nós homens de fé, homens que vivem não segundo a carne, não segundo o mundo, mas segundo o Espírito, não podemos descuidar das obras do espírito e dos meios que ele nos oferece. Rezemos e jejuemos, Mas, não precisa ser hoje, afinal ainda estamos no período festivo do Natal 😛.

4. Há uma perfeita harmonia entre a epístola e o Evangelho na liturgia de hoje. Harmonia essa que traz um ensinamento necessário a estes tempos de messianismo político. São João nos diz para rejeitarmos o mundo, sua lógica, suas práticas desonestas. No Evangelho de São Lucas, o exemplo de Ana nos convida a prática do Jejum e da Oração.

Como uma fórmula matemática temos que: nossa situação não melhorará se os católicos aderirem a metodologia dos mundanos (mentira, manipulação, fraude, traição) em busca de poder, estes apenas vão piorar as coisas e perder suas almas. A mudança virá por graça divina, adotando os meios espirituais a nossa disposição: jejum e oração.

É melhor jejuar que passar pano pra político safado, e fazer aliança com servos do demônio.

domingo, 29 de dezembro de 2019

O Mito do Homem Comum


Duramente muito tempo (ao menos uns 3 anos) rejeitei a designação de filósofo. Isso me parecia demasiado pretensioso, e um tanto ridículo. Não há nada de ridículo na filosofia em si (embora alguns pensadores sejam bem caricatos), mas o há no fato do sujeito se autoproclamar um filósofo, quando a humildade e o bom senso pedem que este título lhe seja outorgado por um terceiro. Porém, me vi assim mergulhado em uma incógnita. Como então nomear aquilo que estou a tentar construir com este blog e perseguir com meus estudos e leituras que vão muito além dos limites de minha atuação profissional? Gostaria de dizer que sou tão somente um simples blogueiro, mas vejo que a expressão não me contenta, de facto desejo que meu pensamento seja um tanto mais sólido e tenha tanto mais substância quando comparado a outros blogueiros que conheço. De tal forma que é hora de embarcar na nau do ridículo e proclamar minhas pretensões filosóficas, e se estou longe de ser ainda um filósofo de facto, ao menos sou um belo aspirante.

Dito isto, passemos ao assunto deste texto propriamente dito. Uma das funções do filósofo é aprimorar o uso da linguagem de modo a procurar os conceitos exatos para exprimir aquilo que percebe, e, principalmente, livrar-se dos conceitos inadequados. É como diz, acertadamente meu amigo Augusto: "Se você não domina as palavras, as palavras dominam você"; e a palavra que até então me dominava era "comum". Caso o leitor utilize os modernos mecanismos de busca na coluna ao lado, poderá notar como em não poucos artigos fiz uso deste genérico, sobretudo de um mítico arquétipo chamado "homem comum", Mas, o que é o comum senão uma convenção estatística (na verdade, o termo estatístico é ''Normal'', mas sigamos)?

Não existe um arquétipo universal atemporal daquilo que seria o homem comum. Hoje, dado a difusão do ensino obrigatório, o homem comum sabe ler e escrever, dado ao avanço da técnica agrícola, este homem comum é relativamente bem gordinho. O que é comum hoje, em algum lugar na Idade Média seria um luxo, uma dádiva elitista. Um gordinho em uma Europa dilacerada por pestes agrícolas seria no mínimo um nobre. Um cidadão alfabetizado na China Imperial seria parte da burocracia do Estado. O homem comum daquele tempo era o camponês, magro e analfabeto. Onde quero chegar com isso? Que devemos rejeitar o conceito de homem comum.

Não raro, criamos uma imagem romântica e idealizada, tal nos serve como desculpa para se acomodar a mediocridade, bem como de alimento ao orgulho, uma vez que o nos sentimos além de nossas obrigações quando em determinados campos estamos acima do ''homem comum''. Isso se torna um tanto mais perigoso na vida espiritual, quando este apelo ao arquétipo comum é usado para justificar nosso pouco fervor, nossos conhecimento inadequado, nossa tibieza. "Não sou santo, não sou um teólogo, sou apenas um fiel comum"; e que diferença entre um ''fiel comum'' em tempos burgueses de uma fé aparente e um ''fiel comum'' na Roma dos Césares , onde a profissão de fé era um digno ato de heroísmo e bravura!

Reitero: rejeitemos o conceito de homem comum. Isso é uma ilusão uma quimera. Todos nós devemos nos tornar heróis, buscar usar bem dos meios a nossa disposição e procurar a magnanimidade e a excelência em cada setor de nossas vidas. Existe, pois, uma vocação universal ao heroísmo, e se nossa vida não pode ser escrita como uma aventura de fé, acabamos nós nos transformando em pouco mais que um NPC. Essa aspiração simplista e romântica a uma vida comum é tão somente tibieza.

Não devemos ter medo de desenvolver todas as potências de nossa natureza individual, sem procurar imitar outro, nem procurar realizar em nós uma espécie de modelo comum e anônimo.

Ninguém deve arrefecer esse ardor de ser ele mesmo, a única coisa que pode justificar o lugar de cada ser no mundo.

- Louis Lavelle; Regras da Vida Cotidiana; p.56-57.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Sem Limites: Gnose em Comprimido

Se outrora os antigos hereges procuravam divinizar o homem por meio da magia, recorrendo a encantamentos, poções e amuletos, hoje o instrumento para esse fim é a ciência; sendo o gênero sci-fi um campo privilegiado para especular sobre tais tolices. 

Assisti na última madrugada ao filme Sem Limites (Limitless), tecnicamente falando é um filme muito bom. Todavia não são os aspectos técnicos que me interessam nesta postagem em específico, mas sim o roteiro. A premissa é simples: existe uma droga capaz de ampliar a inteligência humana, tornando possível uma série de reações bioquímicas neuronais e transformando o sujeito num gênio, num super-homem. Que é isso senão um remake da história da poção? Um comprimido milagroso que transformaria o usuário em um gênio, sem necessidade de esforço, estudo e tempo. Se na ficção tal droga é idealizada e seus efeitos hipertrofiados, não significa porém que o recurso a trapaça química inexista na realidade. O leitor já ouviu falar das smart drugs?



Tentador não? Mas, diferente da ficção, essa encrenca ainda não funciona muito bem.

Não digo que seja errado usar das potencialidades da natureza afim de ampliar as capacidades humanas, entretanto, há que se tomar cuidado para que tal desejo não se confunda com uma ilusão gnóstica em busca da divinização da criatura e o transcender por meio da ciência o paradigma do humano. É certo que existe certo potencial pouco explorado em nossa espécie, o qual é lícito desenvolver, mas, existe um limite dado pela natureza, e uma vez violado este limite, as consequências são graves tanto para o corpo como para a alma. O oráculo apocalíptico pode parecer demasiado abstrato, então pensemos em termos concretos: os esteroides usados por alguns desportistas que, embora elevem sua capacidade física a níveis extraordinários, cobram um preço elevado deixando em fiapos a sua saúde do usuário.

Na data em que escrevo estas linhas vivemos o tempo do advento nas proximidades da celebração do santo natal, onde se recorda o admirável mistério da Encarnação: Deus assumiu a condição humana, com todas as suas fraquezas e fragilidades, para nos redimir. Não é, no mínimo contrastante, que queiramos nós abandonar a humanidade quando o próprio Deus a assumiu em sua plenitude?

Pensemos nisso, ao som da música do PROERD.

Vocação Pessoal


3ª Semana do Advento - Quinta-feira
Primeira Leitura (Jz 13,2-7.24-25a)
Responsório (Sl 70)
Evangelho (Lc 1,5-25)

1. Sansão veio ao mundo por um motivo: lutar contra os filisteus. João Batista veio ao mundo por um motivo: preparar os caminhos do Senhor. É provável que nem eu nem ti, caro leitor, sejamos heróis ou profetas, mas, nas devidas proporções, também viemos a este mundo por um motivo. Temos cada um de nós uma missão, uma vocação pessoal a realizar. Talvez Deus nos tenha feito para ter um papel fundamental na salvação de tal ou qual alma, talvez para colaborar em tal ou qual santo apostolado, talvez para registrar tal ou qual feito. É um enigma!  E o sentido de nossa vida é desvendá-lo e realizá-lo.

2. A Sansão não lhe era lícito cortar os cabelos. A João Batista não lhe era permitido tomar vinho ou demais bebidas alcoólicas.  É o que meditamos nas leituras de hoje. Alguns de nossos contemporâneos questionariam tais proibições: ''onde já se viu, que puritanismo!'', a questão, todavia, é mais profunda do que aparenta. Os dez mandamentos são a regra universal que deve reger a vida de todos os fiéis, entretanto Deus pode pedir algo mais de cada um, conforme a missão que dispôs a realizar. Para ser mais claro: a lei não é igual para todo mundo, para alguns Deus pede coisas que não pede a outros. A ti, também, caro leitor, ele pode pedir um sacrifício a mais. Ao mesmo tempo em que, aquilo que pede a um não pode a todos. Tenhamos isso e mente na lida com nossos irmãos de Fé, tanto para não lhes impor cargas desnecessárias, como para não lhes desviar da estrada de sua vocação pessoal.

3. Uma grosseria quase imperceptível de Zacarias ante ao anjo lhe rendeu o castigo da mudez. O que não merecemos nós brasileiros, por temperamento e cultura viciosa tendentes a irreverencia, irreverencia para com a autoridade civil e eclesiástica, irreverencia para com os santos e anjos, irreverencia para com o próprio Deus? Peçamos ao Divino Espírito o Dom do Santo Temor.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Como ler Paulo Freire


Quando o assunto é educação, muito se fala a respeito da infraestrutura precária e, sobretudo, do salário dos professores. Não acho que esses sejam pontos irrelevantes, só percebo que está se mirando no alvo errado. De nada adianta professores ganharem mais de 10 mil reais de salário e termos colégios com infraestrutura de última geração se há problema na metodologia de ensino. 

No Brasil, quando o assunto é ensino, o patrono da educação brasileira, Paulo Freire, torna-se referência. Já que estamos aqui para discutir qualidade da educação, é imprescindível que as bases que sustentam o fundamento do ensino brasileiro, ou seja, a pedagogia Paulo Freiriana seja analisada. 

Analisarei uma de suas principais obras: “A Pedagogia do Oprimido”. Trata-se de um livro de fácil acesso, disponível gratuitamente para download no site do Portal da Cidadania e que, segundo o Google Acadêmico, foi citado mais de 14500 vezes. Entretanto é preciso tomar cuidado na leitura de tal obra.

Se você for ler o livro despreocupadamente, sem grande cuidado, a impressão – grifo em impressão – que passa é que Paulo Freire é um educador libertado, consciente dos problemas da educação e com espírito de bondade para dar-nos a direção certa para corrigir os problemas. Esta impressão é devida a retórica de seu texto. Ele sabe usar expressões de rótulo positivo como amor, liberdade, conscientização humanidade, etc. levando a pessoa a pensar que está diante de um bom produto. Articulando-se com drama, discurso motivacional, raciocínios circulares e posicionando-se como um ser superior iluminado, Freire consegue propagandear bem sua pedagogia. 

O problema é quando se analisa a obra sem cair no jogo de propaganda e dramaticidade. Afinal, não é comendo margarina de café da manhã que se terá uma família feliz. O que precisa ser entendido é o que efetivamente Paulo Freire está querendo transmitir em sua obra. Não quero sentimentalismo e nem provocaçãozinha indutora. Quero saber o que ele está efetivamente querendo propor. É com o espírito do ceticismo que se deve ler Paulo Freire, a fim de não se deixar levar por seus truques. 

O que então Paulo Freire argumenta em “A Pedagogia do Oprimido”? Retirando todos os dramas, discursinho motivacionais, raciocínios circulares, antíteses que parecem dizer muito, mas nada dizem, psiquiatria de botequim, enfim, toda empulhação retórica, o que Paulo Freire está efetivamente dizendo é que o professor oprime seus alunos. Não estou aqui falando de um professor corno, de uma professora mal amada ou de um professor que não gosta de ser professor e então desconta toda sua frustração em seus alunos. Esses seriam casos particulares, cuja advertência e/ou punição de seus superiores poderia resolver. O que Paulo Freire diz é que os alunos são oprimidos pelo professor. 

Segundo a lógica de Freire, Sócrates oprimiu Platão que oprimiu Aristóteles. Antes de eu obter meu diploma, fui oprimido durante os 10 semestres do curso e como continuo estudando e fazendo cursos, estou em contínua opressão. Se eu me tornar professor (na verdade já dei algumas aulas), irei oprimir meus alunos. 

O interessantes é que Paulo Freire cria uma blindagem contra qualquer tentativa de refutação. Se alguém discordar dele, significa que está alienado, que está preso no sistema, que não é livre (já vou falar da liberdade que ele tanto gosta de falar). Deste modo, o simples fato de eu questionar uma relação de opressão que não existe, faria o pedagogo dizer que pelo fato de eu estar “imerso” no sistema, não conheço a realidade e por isso oponho-me a libertação, uma vez que – segue o bom jargão – o oprimido de hoje quer ser o opressor de amanhã. 

Qualquer relação de mando e/ou autoridade para Paulo Freire significa opressão. Parece jamais querer assimilar que a relação professor/aluno é simples: um tem o conhecimento, o outro quer aprender, deste jogo de interesse (o professor recebe dinheiro para ensinar) acontece o processo de educação. O professor é o líder não por ser opressor, mas por ter aquilo que o aluno necessita: o conhecimento. Mas não! O dogma de Paulo Freire diz que qualquer posição desigual gera um sistema opressor/oprimido e se um crítico (como eu) argumentar que ele está errado, isso confirmaria a tese dele, pois o crítico está preso no sistema enquanto Freire está liberto. Em suma, ou acreditamos que Freire era onipotente ou temos que reconhecer que sua artimanha retórica é de uma vigarice estupenda! 

O mais curioso é observar que os professores que acedem vela para Paulo Freire são, na realidade, oprimidos por ele (se eles têm consciência disso ou não é indiferente). Ao invés de eles denunciarem essa armadilha retórica, preferem dizer amém ao discurso da opressão para que possam afirmar que estão “livres” e “libertados” daquilo que se chama abstratamente de sistema. É aquela estranha libertação que deixa a pessoa presa ao raciocínio Paulo Freiriano. Se você comprar o discurso, é livre. Se não comprar, não é livre. Temos um Paulo Freire combatente de uma opressão, mas que cria um sistema de raciocínio claramente opressor, pois vende “liberdade” sem liberdade de escolha. 

Muito é dito a respeito da “liberdade” e da “conscientização”, mas aqui há um claro problema de deturpação de seus significados. Paulo Freire diz que a radicalização é libertadora, pois quer a transformação da realidade concreta e que esta transformação deve partir da conscientização. Ou seja, Freire, através de palavras bonitas, na verdade está induzindo que a liberdade seja usada para a transformação. E você é obrigado a acreditar que a transformação é boa e necessária. Se a conscientização concluir não vale a pena acreditar na ideologia de Freire, como é o meu caso, ele alegará que a pessoa está alienada. Em suma, você é livre desde que aceite a transformação que Freire quer que você faça [em pró da ideologia que ele defende], ou seja, não estamos falando de liberdade, mas de manipulação. Tampouco de conscientização, mas de doutrinamento ideológico. 

Ao não utilizar as palavras em seus sentidos adequados, o educador Paulo Freire presta um desserviço à leitura. Ele não está preocupado no uso apropriado das palavras, mas no caráter positivo de propaganda que tais termos trazem consigo. Somos a favor da liberdade, o problema é que Paulo Freire utiliza tal expressão de modo errôneo para esconder o que ele realmente quer: que sejamos capacho da transformação que ele julga ser necessária. Enfim, existe a liberdade de verdade e a liberdade Paulo Freiriana, que é o oposto da liberdade. Eis então outro cuidado: as palavras usadas por Paulo Freire podem não possuir seu significado real. 

Relembramos então a premissa Paulo Freiriana: o professor é opressor de seus alunos por estar preso a um sistema. O que Paulo Freire quer é a transformação deste sistema pela radicalização. Ocorre que o único que pode “se libertar” desse sistema é o oprimido. Deste modo ocorre a famosa inversão Paulo Freirana: é o professor que deve aprender com o aluno. Sendo assim, o professor não deve ensinar, mas apenas mediar o conhecimento. Os alunos, por serem os oprimidos, já tem possuem o conhecimento, o professor só mediar para que a transformação aconteça. Ao ser apenas um mediador, o professor deixa de oprimir, pois estará dialogando de igual para igual com seus alunos. 

Em suma, o que Paulo Freire defende é o fim da autoridade do professor sobre o aluno, já que são os alunos que possuem o verdadeiro conhecimento da transformação. Como Paulo Freire adquiriu o verdadeiro conhecimento da transformação, já que ele mesmo era professor, portanto opressor, é uma contradição cuja única resposta possível é realmente acreditar que ele era um ser iluminado. 

A confusão que Paulo Freire faz é proposital. Talvez você não esteja entendendo bem. Tentarei esquematizar em um silogismo, afinal, temos apreço pela lógica, esquematizando talvez fique mais fácil de entender a “lógica” Paulo Freiriana. 

Premissa 1: O professor oprime os alunos por causa do sistema. 
Premissa 2: Quem pode se libertar do sistema, ser o agente da transformação, são os oprimidos (os alunos). 
Conclusão: Logo é o professor que deve aprender com seus alunos. 

O que Paulo Freire propõe, portanto, é a inversão dos papéis. Se hoje tem aluno batendo em professor porque este perdeu sua autoridade na sala de aula, aponte o dedo para a educação Paulo freiriana. Se hoje os professores incentivam os alunos, quando contrariados, a protestar como crianças mimadas para terem seus direitos sem deveres atendidos, aponte para Paulo Freire. 

Simplesmente não dá para esperar coisa boa de um raciocínio que parte de premissas absurdas, chegando, como se devia suspeitar, a uma conclusão absurda. 

O efeito blackfire pode estar atuando em alguns professores que estão prestando atenção em mim de modo que podem fazer uma objeção indignada: “mas você só está falando da pedagogia do oprimido, ele tem mais obras”. O problema é que a essência deste raciocínio está presente nas outras obras. É exatamente por causa disso que estou escrevendo a respeito de como ser deve ler Paulo Freire. Esses truques e argumentação são constantes nas obras dele. 

Como o que Paulo Freire propõe é absurdo. Temos que a pedagogia brasileira é uma verdadeira porcaria, uma vez que propõe inverter o sistema da interação professor-aluno. A recuperação deve passar pelo retorno do ensino tradicional, tratando a relação como serviço e não inventando opressão onde não tem e propagandeando uma liberdade, cujo real significado é ser escravo de uma ideologia. 

Pode-se investir 100% do PIB em educação, se o absurdo lógico Paulo freiriano se mantiver, a educação continuará produzindo aberrações. Quem deve realmente se libertar são os professores dessa pedagogia doutrinadora que omite idéias perversas com termos bonitinhos, mas que estão deturpados de seu significado real. 

Conclui-se, por fim, que o grande mal da educação está em sua base. Ao comprarem a pedagogia de Paulo Freire, nossos professores estão afundando junto com seus alunos. Tudo por conta de uma opressão inexistente. Sendo assim, as outras demandas e palavras de ordens tão presentes em debates sobre a educação brasileira são secundárias, pois o principal problema está na raiz do processo, não na superfície.

#Augusto Pola Jr.

domingo, 15 de dezembro de 2019

Compêndio

Iniciei este bunKer em dezembro de 2016 e cá estou eu a escrever essa postagem já ao final de 2019, com isso completam-se 3 anos de blog. Neste período, algumas ideias passaram como feno, enquanto outras vieram a se consolidar como fossem linhas mestras de uma filosofia pessoal; de tal modo que hoje me é possível elaborar este rascunho daqueles que são os princípios norteadores de meu pensamento e a linha editorial deste humilde blog.

.Catolicismo: 
1) Sois cristão?
Sim, sou cristão pela graça de Deus.

2) Por que dizeis pela graça de Deus?
Digo: pela graça de Deus, porque o ser cristão é um dom de Deus, inteiramente gratuito, que nós não podemos merecer.

3) E quem é verdadeiro cristão?
Verdadeiro cristão é aquele que é batizado, crê e professa a doutrina cristã e obedece aos legítimos Pastores da Igreja.

- Catecismo Maior de São Pio X
Todo este blog, bem como minha própria história pessoal encontram seu sentido e significado na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ressalto a identidade católica deste trabalho e de toda a minha existência, não um catolicismo vago e superficial, mas consciente e profundo que se pretende radical e em perfeita harmonia a reta doutrina.

.Tradicionalismo "Moderado"

Nestes tempos caóticos e obscuros, o intelectual católico é interrogado acerca de sua posição com relação ao fatídico Concílio Vaticano II e todo o magistério pós-conciliar. A este respeito, subscrevo as palavras Dom Athanasius Schneider:
Quanto à atitude diante do Concílio Vaticano II, devemos evitar os dois extremos: uma rejeição completa (como o fazem os sedevacantistas e uma parte da FSSPX) ou uma “infalibilização” de tudo o que o Concílio falou.

O Concílio Vaticano II foi uma legítima assembleia presidida pelos Papas e devemos manter para com este concílio uma atitude de respeito. Contudo, isso não significa que não podemos exprimir dúvidas bem argumentadas e respeitosas propostas de melhoria, apoiando-se na Tradição integral da Igreja e no Magistério constante.

Pronunciamentos doutrinais tradicionais e constantes do Magistério durante um plurissecular período têm a precedência e constituem um critério de verificação acerca da exatidão de pronunciamentos magisteriais posteriores. Os pronunciamentos novos do Magistério devem, em si, ser mais exatos e mais claros, nunca, porém, ambíguos e aparentemente contrastantes com anteriores pronunciamentos constantes magisteriais.

Aqueles pronunciamentos do Vaticano II que são ambíguos devem ser lidos e interpretados segundo os pronunciamentos da inteira Tradição e do Magistério constante da Igreja.

Na dúvida, os pronunciamentos do Magistério constante (os concílios anteriores e os documentos de Papas, cujo conteúdo demonstrava ser uma tradição segura e repetida durante séculos no mesmo sentido) prevalecem sobre aqueles pronunciamentos objetivamente ambíguos ou novos do Concílio Vaticano II, os quais, objetivamente, dificilmente concordam com específicos pronunciamentos do Magistério anterior e constante (por exemplo, o dever do Estado de venerar publicamente Cristo, Rei de todas as sociedades humanas; o verdadeiro sentido da colegialidade episcopal frente ao primado petrino e ao governo universal da Igreja; a nocividade de todas as religiões não-católicas e o perigo que elas constituem para a salvação eternas das almas).
(...)

.Arqueofuturismo:
O passado não vai voltar, mas, isto não significa que ele não possa vir a inspirar o futuro. Teriam os tradicionalistas e conservadores mais sucesso em seus intentos se, ao invés de chorar sobre as ruínas da antiga civilização, lamentando-se do mundo degenerado, mitificando os tempos de outrora, empreendessem esforços para imaginar o mundo futuro, iluminado pelas tradições pretéritas.

Ante os dilemas de um conservadorismo estéril e um desordenado desejo por novidades, reafirmo a perspectiva arqueofutrista. Um paradigma político e estético que procura resgaste das antigas, belas e imemoráveis tradições encarnadas socialmente em veneráveis instituições perfeitamente harmonizadas com os avanços da técnica.

.Bagarre

Porém, apesar do sonho arqueofurista, ressalto minha visão pessimista ante o futuro próximo, o qual, segundo as profecias de Fátima, há de enredar por abismos cada vez mais profundos até a manifestação da cólera divina em um cataclisma global de proporções diluvianas, sendo possível tão somente após, este violento e merecido castigo, um breve tempo de paz para a Igreja e a civilização.


.Aventuras Selvagens 
Há tanta gente buscando “reformar o mundo”, outros tantos se esforçam por “salvar o planeta”, e perdem tanto tempo em seus devaneios, em seu heroísmo de sofá, que se furtam desta grande aventura que se mostra ante nossos olhos, a missão de explorar o mundo, passear por sobre o jardim no qual estamos instalados. Já é tempo de nos afastarmos dessa poltronice e vivermos algumas aventuras selvagens!

Neste interregno entre o castigo e o triunfo temporal da Igreja, destaco a necessidade de uma vivência rica em aventuras, tendo também em vista desenvolvimento das virtudes masculinas, o resgate daquilo que chamo do alta macheza. Isto se faz necessário tanto para a sobrevivência no tempo presente, quanto em preparação para os dolorosos tempos vindouros.

***

Por hora, é isso o que gostaria de destacar caro leitor, tais são pilares de minha ''filosofia pessoal'' e a chave de leitura de todo este blog.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Permanência

2ª Semana do Advento - Terça-feira
Primeira Leitura (Is 40,1-11)
Responsório (Sl 95)
Evangelho (Mt 18,12-14)

A primeira leitura de hoje é belíssima, infelizmente, uma vez mais, as más traduções tiram toda a força literária do trecho em questão. Tais tradutores não sabem o mal que fazem, sob a desculpa de tornar a linguagem mais acessível ao povo, acabam por mutilar a escritura, e privar as massas dos instrumentos expressivos do texto sagrado. Paciência!

Cito aqui pela Vulgata, na velha e belíssima tradução do Pe. Matos Soares:

<Diz uma voz: Clama. E eu: Que hei de clamar? Toda a carne é feno e toda a sua glória é como a flor do campo. Secou-se o feno e caiu a flor, porque o sopro do Senhor passou sobre ele. Verdadeiramente o povo é feno; secou-se o feno e caiu a flor; mas a palavra de nosso Deus permanece para sempre. (Is 40,6-8)>

A passagem contrasta o caráter transitório das obras humanas com a perenidade das manifestações divinas. "Verdadeiramente o povo é feno''; e como feno são as construções humanas, e suas vãs ambições. Ao contemplarmos a história, como não se espantar com tantos impérios que não são mais que ruínas, com tantos povos que desaparecem, com tantas culturas reduzidas a lendas e rumores. ''Secou-se o feno e caiu a flor''; assim será também com a arrogante cultura moderna, e bem antes disso com nossa vida. Passadas duas, talvez quatro gerações, quem se lembrará de nossa existência? As obras do Senhor, contudo permanecem. A Bíblia que estou lendo já está velha e tem as páginas amarelas e gastas, a comprei em um sebo, não sei a quem pertenceu, quantas mãos a folhearam em que circunstâncias? E todavia ela a alimentar minha alma, mais do que qualquer edição moderna de tradução ruim. Esta Bíblia veio de Curitiba e está a ser usada em Barretos. Percorreu léguas e léguas no tempo e no espaço e ainda assim está a produzir furtos. 

A história por si só é um grande mistério. Em tudo aquilo que permanece, porém, há como que o dedo de Deus. Mas deixemos a teologia da história para outra ocasião...

sábado, 7 de dezembro de 2019

Distributismo para brasileiros e alguns erros bolsonaristas...

A economia é um tema marginal em meus estudos. O leitor já deve ter notado que raramente toco no tema, salvo para explicitar alguns pontos da dsi (Doutrina Social da Igreja), doutrina, infelizmente, tão pouco conhecida e praticada nessa era insana. Todavia, fico incomodado com fraqueza de muitos dos autoproclamados especialistas, que não raro fazem o papel de teólogos da corte, a distorcer a doutrina afim de justificar as práticas de suas gangues ideológicas a direita e a esquerda. Gangues estas que estão longe do bom senso em matéria de economia. Aliás, há uma denominador comum que une direitas e esquerdas (ao menos as correntes que hoje se apresentam no Brasil): o desprezo pelos corpos sociais intermediários; enquanto os vermelhinhos querem tornar tudo parte do Estado, uma peça da burocracia, os azulzinhos (ou laranjas, pessoal ainda não decidiu a cor de seu Power Ranger) querem deixar tudo nas mãos do mercado, aliás, de preferência se esse mercado for constituído de grandes corporações, os campeões nacionais, pois o liberal brasileiro ter certo nojo elitista ante pequenas as empresas.

Como é hoje a direita que está no poder, ataquemo-la. Comento dois episódios recentes, comecemos pelo mais popular, o aumento do preço da carne bovina. Quem ler esse artigo fora de época pode ficar meio perdido, mas enfim; a carne bovina está mais cara e a culpa é da China 😛; Os xing ling aumentaram as importações por ocasião do fim de ano e de uma peste que atacou a suinocultura asiática, os produtores (mais especificamente o oligopsônio dos frigoríficos) br hu3 voltaram-se para a exportação, resultando em uma menor oferta no mercado interno, o que aumentou elevou preço. Vai ficar complicado para o pobre comer carne esse fim de ano... Pois bem, se o número de espécies alimentares (animais e vegetais) consumidas no mercado interno fosse mais variado, as oscilações de preço seriam menores e consequentemente o pobre gastaria menos com alimentação. O consumo de peixes e ovinos no país é baixíssimo, e de outras espécies animais como caprinos, coelhos, cobras e rãs praticamente nulo.  É difícil, todavia, promover essa ''expansão do paladar'', esse enriquecimento da culinária nacional na cultura dos supermercados, instituições que não lidam bem com a questão de sazonalidade e pequena escala. O incentivo a feiras e mercadinhos locais seria uma opção. Opção essa aliás profundamente harmônica com os a doutrina católica e os princípios distributivistas. Todavia, raramente vejo tal concretude nos meios católicos tupiniquins.  Se pensarmos especificamente nas teorias de Chesterton, temos inúmeras aplicações em pequena escala. Os americanos nesse sentido são bem mais criativos.

Em resumo, boicote os supermercados, visite as feiras locais, e experimente alimentos não convencionais.

Por fim, gostaria de comentar a nova besteira (pra variar), do Ministro do Meio Ambiente. Existe (ou existia) no Brasil, um conjunto de orientações conhecido como Política Nacional de Resíduos. Tal política era realmente muito boa, tanto do ponto de vista ecológico, quanto econômico e social. Não sei se os idealizadores leram as enciclias, mas ali estava a encanação legal de muitos princípios econômicos católicos. A ideia era incentivar a coleta seletiva através do fomento a formação de cooperativas de catadores de lixo, integrando indivíduos marginalizados, não raro moradores de rua, dando-lhes renda; além disso, o alto volume de material reciclado gerava uma oferta a ser aproveitada pela indústria, de tal forma que se criava um mercado de recicláveis, além de fomentar desenvolvimento de tecnologias para o reaproveitamento desse "lixo", isso sem falar do benefícios ecológicos. O plano do senhor ministro destrói tudo isso: simplifica as coisas optando pela incineração... Lá se vão os grupos intermediários, a integração dos moradores de rua como catadores, o mercado da venda de recicláveis; tudo vira fumaça! E fumaça tóxica! Cof-cof-cof!

Me pergunto, porque sobrou para mim, um simples blogueiro cujo interesse em economia é marginal comentar a este respeito, enquanto tantos economistas católicos se calam? Vai saber...

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

GTO: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos"


Após completar o anime Ginga Eiyuu Densetsu (Legend of the Galactic Heroes) fui acometido por uma espécie de dessensibilização. Tudo o mais que viera a habitar indústria cultural me soava inferior, pobre, incapaz de cativar-me. Mesmo boas obras como Kaiji e Trigun eram um nada quando comparadas ao opus magnum da animação japonesa. Entretanto, essa minha "arrogância de meia" idade (meia idade ed? Tú não chegou nem nos trinta ainda ed...) foi reduzida ao pó por GREAT TEACHER ONIZUKA. Falo específica e exclusivamente do dorama de 2012, o qual você pode baixar logo ali; a propósito:




***

Comecemos com algumas notas moralistas. A obra original é pervertida, uma comédia adolescente estilo American Pie. É um humor que me irrita. E porque me irrita? Por que sou um católico arquiconservador retrógrado tradicionalista, ou seja, sou gente. Sim, se você não é católico você nem gente é. Onde eu estava mesmo? Ah sim! Na obra original Onizuka é um pervertido que resolve se tornar professor para pegar as novinhas, sendo o aspecto cômico o centro da narrativa. No dorama não é assim. Embora existam alguns resíduos desse humor infeliz (de forma felizmente bastante diluída), o drama moral é que dá o tom da narrativa. Onizuka é um personagem absolutamente irreal e inverosímel (mas nem por isso deixa de ser profundamente interessante), capaz dos mais sublimes graus de virtude (apesar de seus vícios que contrariam aos mandamentos 6 e 9); é alguém capaz de sacrificar a fama, poder, dinheiro, status e a própria vida por seus amigos. É alguém que se deixa tocar profundamente pelos problemas de seus alunos (que nada tem de draminhas adolescentes bobocas mas são problemas realmente sérios). Onizuka não é simplesmente um cara bonzinho, mas alguém inexplicavelmente bom, bom além do humanamente razoável. Uma bondade heroica que só poderia ser concebida e ser explicada por um influxo espeical da graça; a atitude heroica de Onizuka deveria ser almejada por todo o católico.

<Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos. (Jo 15, 13)>

''Só'' isso já seria o suficiente para fazer do dorama uma grande obra, mas ainda tem mais. A trilha sonora, apesar de limitada e repetitiva, é adequada e instigante, as atrizes japonesas são lindas, e os personagens são extremamente bem construídos. Alguns tão inverossímeis e profundos como o próprio Onizuka.

Só as gactas.
Por fim, gostaria de falar sobre o episódio 7. Não, não vou dar spolier algum, limito-me a entonar meu panegírico a essa obra prima. Que roteiro meus amigos! Que roteiro! 

Que está fazendo aqui ainda camarada? Vá lá assistir !

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

William Hazlitt: Da Desvantagem da Superioridade Intelectual

A principal desvantagem de saber mais, e enxergar mais além do que os outros, é geralmente não ser entendido. Um homem está, em conseqüência disto, sujeito a originar paradoxos, que imediatamente o transportam para além do alcance do leitor comum. Uma pessoa falando, uma vez, de uma maneira trivial de um homem de mente muito original, recebeu como resposta: "Ele caminha com passos tão largos, tão longe de você, que ele diminui à distância."

Petrarca reclamava que a "Natureza o fez diferente das outras pessoas" — singular d'altri genti. A grande felicidade da vida é: nem estar melhor nem pior do que o rumo geral daqueles com quem você se encontra. Se você está abaixo deles, você é atropelado; se está acima deles, logo encontra um nível mortificante na diferença deles, sobre a qual você, particularmente, se aborrece. Qual é a utilidade de ser moral em uma cela de prisão ou sábio em Bedlam[1]? "Ser honesto, como anda este mundo, é ser um homem escolhido dentre dez mil outros." Assim diz Shakespeare; e os comentadores não adicionaram que, sob tais circunstâncias, um homem é mais provável tornar-se um fundo de calúnia do que o alvo de admiração, por assim ser. "Que passa, meu caro colega?"[2] é a resposta usual a todas estas pretensões excessivas. Ao não fazer [em Roma] como faziam aqueles em Roma, nós cortamos nós mesmos da sociabilidade e da sociedade. Falamos outra língua, temos noções de nós próprios e somos tratados como uma espécie diferente. Nada pode ser mais complicado que adentrar com tais idéias rebuscadas no rebanho comum, que certamente vai

"Permanecer de todo atônito, como um tipo de novilhos,
Entre quem alguma besta de raça estranha e estrangeira
Inconsciente é sucedida, vagueando longe de seus pares: Assim
vão seus olhares medonhos trair seus medos ocultos."

"Stand all astonied, like a sort of steers,
'Mongst whom some beast of strange and foreign race
Unwares is chanced, far straying from his peers: So
will their ghastly gaze betray their hidden fears."

A ignorância do propósito do outro é uma causa suficiente de medo e medo produz ódio: por isso a suspeita e o rancor lançados contra todos aqueles os quais estabelecem um refinamento e sabedoria maiores, que seus vizinhos. É em vão pensar em amaciar este espírito de hostilidade pela simplicidade nas maneiras ou pela condescendência às pessoas de menor estatura. Quando mais condescendente, mais eles vão atrever-se em relação a isto; eles o temerão menos, mas te odiarão mais; e estarão mais determinados a se vingar de você pela superioridade, para a qual eles estão inteiramente na escuridão e da qual você mesmo parece nutrir dúvidas consideráveis. Toda a humildade do mundo apenas passará por fraqueza e idiotice. Eles não possuem a noção de tal coisa. Eles sempre querem dar uma boa impressão; e argumentam que você faria o mesmo se tivesse quaisquer de tais talentos dos quais as pessoas falam. Portanto, é melhor você jogar fora o grande homem de uma vez -- ser valentão, arrogante, falar empostado e passar por cima deles: você pode, através disso, pretender extorquir um respeito externo ou uma civilidade comum; mas você não terá nada (com as pessoas baixas) pela paciência e boa natureza, somente o insulto declarado ou um desprezo silencioso. Coleridge sempre fala com as pessoas sobre o que elas não entendem: eu, por exemplo, procuro falar com elas sobre o que elas realmente entendem, e encontro somente a mais má-vontade com isso. Elas julgam que eu não penso delas como capazes de nada melhor; que eu não penso que vale à pena, como o vulgo diz, lançar uma palavra aos cães. Eu, certa vez, reclamei disto com Coleridge, pensando nisto à duras penas, que eu devesse ser enviado a um Convento por não fazer uma exibição prodigiosa. Ele disse: "Na medida em que você assume um personagem, você deve produzir suas credenciais. É um ônus sobre a boa natureza das pessoas admitir algum tipo de superioridade, mesmo quando existe a prova mais evidente disto; mas é uma tarefa muito dura para a imaginação admiti-lo sem qualquer fundamento aparente disso."

Não existe, então, um erro maior que supor que você evita inveja, malícia e a falta de caridade, tão comuns no mundo, indo entre as pessoas sem pretensões. Não existem pessoas que não tenham pretensões; ou menores suas pretensões, menos elas podem agüentar reconhecer as suas sem algum tipo de apreço recebido. Quanto mais informações os indivíduos possuem, ou quanto mais eles se aperfeiçoaram em dado assunto, tanto mais eles prontamente podem conceber e admitir o mesmo tipo de superioridade, que sentem dos outros, a si mesmos. Mas da ignorância e vulgaridade baixas, imbecis e do nível do esgoto, nenhuma idéia ou amor à excelência pode surgir. Você pensa que está indo consideravelmente bem com eles; que você está deixando de lado a secura do pedantismo e da pretensão e ganhando o caráter de um tipo de simples, despretensioso e bom companheiro. Isto não funcionará. Durante todo o tempo em que você está fazendo estes avanços familiares, e esperando estar à vontade, eles estão tentando te passar pra trás. Você pode esquecer que você é um autor, um artista ou que não é -- eles não esquecem que não são nada, nem diminui a ponta de desejo de provar que você está na mesma situação. Eles lançam mão de alguma circunstância da sua roupa; sua maneira de entrar numa sala é diferente da dos outros; você não come vegetais -- isto é estranho; você possui uma expressão particular, que eles repetem e isto torna-se um tipo de piada padrão; você parece grave, ou doente; você fala, ou é mais silencioso que o normal; você está, ou não está, com dinheiro: todas essas pequenas e insignificantes circunstâncias, nas quais você se assemelha, ou difere das outras pessoas, formam muitos dos pontos da acusação contra você que está acontecendo na imaginação delas, e são muitas as contradições no seu caráter. A qualquer outra pessoa eles passariam em branco, mas a uma pessoa da qual eles ouviram tanto, não podem de todo evitar. Enquanto isso, aquelas coisas nas quais você pode realmente ser excelente passam em branco, pois eles não podem julgá-las. Eles falam muito bem de algum livro que você não gosta e, portanto, você não responde. Você recomenda a eles irem ver alguma pintura, na qual eles não acham muito a admirar. Como você os convencerá que está certo? Você pode fazê-los perceber que as falhas estão neles e não na pintura, ao menos que você consiga dar-lhas seu conhecimento? Elas mal distinguem a diferença entre um Correggio[3] e uma sujeira qualquer. Isto lhe deixará mais próprio de um entendimento? Quanto mais você sabe a diferença, mais profundamente você a sente, ou mais intensamente você deseja transmiti-la, mais longe você se encontra encerrado à uma distância incomensurável da possibilidade de conduzi-los a visões e sentimentos para os quais eles não possuem nem mesmo os primeiros rudimentos. Você não pode fazê-los ver com seus olhos e eles devem julgar por si mesmos.

A força intelectual não é igual a física. Você não tem poder no entendimento dos outros, a não ser pela simpatia deles. Você saber, de fato, muito mais sobre um assunto, não te dá uma superioridade, ou seja, um poder sobre eles, mas apenas torna mais impossível para você fazer a mínima impressão neles. É, então, uma vantagem para você? Pode ser, enquanto está relacionada a sua própria satisfação, mas isto coloca um fosso profundo entre você e a sociedade. Isto coloca tropeços a cada curva do seu caminho. Tudo aquilo pelo que você tem o maior orgulho e prazer está perdido aos olhos vulgares. Com o que eles ficam satisfeitos é certa indiferença ou desgosto por você. Ver várias pessoas folhear um portfólio de gravuras de diferentes mestres; que desafio isto é para a paciência, como dá nos nervos ouvi-las cair encantadas com alguma banalidade de lugar comum e passar sobre alguma divina expressão de fisionomia sem notar, ou com uma observação de que ela é muito peculiar? Quão inútil é, em tais casos, se abalar ou argumentar ou protestar? Não é, tão bom também, estar sem todo esse conhecimento hiper-crítico e fastidioso e ser agradado ou desagradado como for, ou lidar com a primeira falha ou beleza que é apontada pelos outros? Eu ficaria grato em mudar minha familiaridade com as pinturas e livros e, certamente, o que eu sei da humanidade, pela ignorância comum delas.

Está registrado na vida de algum notável (de quem o nome eu me esqueci) que foi um daqueles "que amava a hospitalidade e o respeito": e eu confesso pertencer à mesma classe do gênero humano. A civilidade está comigo como uma jóia. Eu gosto de um pouco do elogio confortável e do papo indolente e descuidado, eu odeio ser sempre sábio, ou buscando a sabedoria. Eu tenho muito a ver com cabalas literárias, questões, críticos, atores, escrita de ensaios, sem levá-los comigo para a diversão e para todas as companhias. Eu desejo, nesses momentos, passar como uma companhia bem-humorada; e boa vontade é tudo que eu quero em retorno para ser uma boa companhia. Eu não desejo estar sempre me colocando, e aos outros, as questões do destino, do livre-arbítrio, presciência absoluta, etc. Eu devo afrouxar algumas vezes. Devo ocasionalmente parecer inculto. O tipo de conversa que mais me incomoda é aquele de como está o dia e se provavelmente amanhã vai chover ou terá um dia limpo. Isto eu considero embora apreciando o otium cum dignitate, o ócio honrado, como o fim e privilégio de uma vida de estudos. Eu me resignaria a este estado de fácil indiferença, mas eu noto que não posso. Devo manter uma certa pretensão, que está muito longe do meu desejo. Devo ficar na defensiva. Eu devo assumir o desafio continuamente, ou acho que estou perdendo terreno. "Eu não sou nada, senão crítico." Enquanto eu estou pensando que horas são ou como eu vim a citar inadvertidamente uma passagem bem conhecida, como se eu o tivesse feito de propósito, os outros estão pensando se eu não sou verdadeiramente um colega maçante como, algumas vezes, dizem que sou. Se uma chuva garoa tamborilando contra as janelas, isto me trás à mente uma suave chuva de primavera, da qual eu escapei vinte anos atrás, em um pequeno bar perto de Wem em Shropshire e enquanto eu olhada para as plantas e arbustos, ante a porta, bebendo do orvalho úmido, sorvia um copo de cerveja espumante e voltei para casa no crepúsculo da noite, mais claro para mim do que o sol do meio dia como está agora! Devo suavizar este sentimento? Em vão. Eles me perguntam quais são as novidades e me encaram se eu digo que não sei. Se uma nova atriz apareceu, por que eu devo tê-la visto? Se um novo romance surgiu, por que eu devo tê-lo lido? Uma vez, eu costumava ir sentar-me à mesa de cribbage[4] com um amigo, depois devorava um frio bife de lombo de vaca e fazia umas observações desinteressadas, de um jeito que me satisfazia, mas isso não durou muito. Eu estabeleci uma pequena pretensão e, portanto, esse pouco que foi estabelecido por mim foi tomado de mim. Como eu mesmo não disse nada sobre aquele assunto, era continuamente jogado na minha cara que eu era um autor. Tendo-me nesta desvantagem, meu amigo queria se aproveitar de uma falha ou duas no jogo, e ficava insatisfeito se eu não o deixasse. Se eu o ganhava, seria estranho se ele não entendesse o jogo melhor do que eu. Se eu mencionava meu jogo favorito de raquetes[5], existia um silêncio geral, como se este fosse meu ponto fraco. Se eu reclamava de estar doente, era perguntado por que eu me deixei ficar. Se eu dizia que um ator tinha atuado bem em tal parte, a resposta era: existe uma opinião diferente em um dos jornais. Se qualquer alusão era feita aos homens de letras, existia um riso suprimido. Se eu contava uma estória engraçada, era difícil dizer se o riso era por minha causa ou por causa da narrativa. A esposa me odiava pelo meu rosto feio; os serventes porque eu não podia sempre dispô-los de tickets para o teatro e porque eles não podiam dizer exatamente o que um autor exatamente significava. Se um parágrafo parece diferente de tudo que já tinha escrito, eu achava que já estava pronto antes de mim e que eu iria ser amplamente criticado. Eu me submetia a tudo isto até ficar cansado, depois desisti.

Uma das misérias das pretensões intelectuais é que nove décimos daqueles com quem você travar contato não sabem se você é um impostor ou não. Eu temia que certas críticas anônimas fossem parar nas mãos dos serventes dos locais que eu freqüentava ou que meu chapeleiro ou meu sapateiro calhassem de lê-los, os quais possivelmente não podem dizer se elas são bem ou mau fundamentadas. A ignorância do mundo deixa qualquer um à mercê da sua malícia. Existem pessoas das quais você deseja uma boa opinião ou uma boa vontade, deixando de lado qualquer pretensão literária; e é duro perder, por um mau relato (o qual você não possui nenhum meio de retificar), o que você não pode ganhar por um bom. Depois de uma diatribe no Quarterly[6] (que é trazido por um cavalheiro que ocupa meu apartamento antigo no primeiro andar)[7] meu senhorio me trouxe sua conta (de algo pendente), e sobre a minha oferta de dá-lo a maior parte em dinheiro e um cheque para o resto, balançou a cabeça, e disse: que receava não poder aceitá-lo. Logo depois, a filha entra e, à minha cuidadosamente menção das circunstâncias para ela, respondeu gravemente: "que, de fato, seu pai esteve quase arruinado pelas contas." Esta é a pior situação de todas. É em vão para mim empenhar-me em explicar que a publicação na qual eu sou caluniado é um mero mecanismo do governo -- um órgão de uma facção política. Eles não sabem nada sobre isto. Sabem apenas que tais e quais imputações foram lançadas; e quanto mais eu tento destruí-las, mais eles pensam que existe alguma verdade nelas. Talvez as pessoas da casa eram Tories[8] ferrenhos -- algum tipo de agentes do governo. É para que eu esclareça a ignorância deles? Se eu disser que uma vez escrevi uma coisa chamada "Prince Maurice´s Parrot", e "Essay on the Regal Character"[9], o primeiro no qual uma alusão é feita a um nobre marquês, e no último a uma grande personalidade (assim pelo menos, me disseram, ela tinha sido considerada) e as quais o Sr. Croker tem instruções peremptórias para retaliar; eles não podem conceber qual conexão pode existir entre mim e tais distintas personalidades. Eu não agüento mais. Tal é a miséria das pretensões além de sua situação imediata; e que não são ajudadas por quaisquer símbolos externos, inteligíveis para toda a humanidade, de riqueza ou posição social!

A impertinência da admiração é dificilmente mais tolerável do que as demonstrações de desprezo. Eu conheci uma pessoa, que eu nunca tinha visto antes, me perseguindo durante toda a hora do jantar, perguntando quais artigos eu tinha escrito na Edinburg Review. Eu estava, pelo menos, envergonhado de responder aos meus esplêndidos pecados daquela maneira. Outros vão pegar algo que não é seu e dizer que eles estão certos de que mais ninguém poderia tê-lo escrito. Pela primeira frase eles sempre podem dizer seu estilo. Agora, eu odeio que meu estilo seja conhecido; como eu odeio toda idiossincrasia. Estes bajuladores obsequiosos não poderiam prestar-me pior elogio. Então, existem aqueles que se esforçam para ler tudo o que você escreve (o que é exagero); enquanto outros, mais provocadores, regularmente emprestam suas obras aos amigos assim que as recebem. Eles sabem, bastante bem, tuas noções sobre os diferentes assuntos, de ouvir você discursando sobre eles. Além do mais, eles têm em mais alta conta o seu caráter pessoal, que têm sobre seus escritos. Você explica as coisas melhor de uma maneira comum quando não está visando um efeito. Outros lhe dizem das falhas, que ouviram dizer, foram encontradas no seu último livro e que defendem seu estilo, em geral, da acusação de obscuridade. Um amigo, uma vez me contou, de uma disputa que ele teve com um chegado, este negou que eu sabia soletrar as palavras mais comuns. Estas são comunicações confidenciais confortáveis, às quais os autores, que possuem seus amigos e seus desculpadores, estão sujeitos. Um cavalheiro me disse, que uma moça objetou meu uso da palavra aprendedor[10], como má gramática. Ele disse que achou uma pena que eu não tivesse mais cuidado, mas que a moça talvez fosse preconceituosa, pois seu marido tinha um cargo no governo. Eu procurei pela palavra e a encontrei em um lema de Butler. Eu estava ressentido, e desejava que ele dissesse à tal crítica, que a falha não estava em mim, mas em alguém que tinha muito mais sabedoria, mais aprendizado e lealdade do que eu poderia pretender ter. Então, novamente, alguém vai escolher a coisa mais rasa que puder encontrar, para enchê-la com panegíricos; e outras lhe dizem (como meio de deixá-lo ver quão prestigiosa acham sua capacidade), que suas melhores passagens são falhas. Lamb tem uma habilidade de saborear (ou como ele diria, paladear[11]) o insípido. Leigh Hunt tem um truque de se afastar dos bocados saborosos que você põe em seu prato. Não existe o começar para algumas pessoas. Faça o que fizer, elas podem fazer melhor; encontre o sucesso que for, a boa opinião delas as mantém em melhor lugar, e correm ante o aplauso do mundo. Certa vez, mostrei a uma pessoa desta inclinação presunçosa (com não pouco triunfo, eu confesso) uma carta de um relato lisonjeiro que eu recebi de um celebrado Conde Stendhal, datada de Roma. Ela recebeu isto com um sorriso de indiferença e disse que tinha recebido ele mesmo uma carta de Roma no dia anterior, de seu amigo S------! Eu não pensei disto "pertinente ao assunto". Godwin pretende que eu nunca escrevi nada que valesse um centavo, somente meu "Answers to Vetus"[12] e que eu falhei completamente quando tentei escrever um ensaio, ou qualquer coisa que fosse mais curta.

O que alguém pode fazer em tais casos? Eu devo confessar uma fraqueza? O único contra-argumento que eu conheço a estas recusas e mortificações é, algumas vezes, uma nota acidental ou um sinal distintivo de um estranho. Eu sinto a força do digito mostrari [uma pessoa para apontar] de Horácio -- eu gosto de ser apontado na rua ou ouvir as pessoas perguntarem na quadra do Sr. Powell[13], quem é o Sr. Hazlitt? Isto é para mim uma extensão agradável da identidade pessoal de alguém. Seu nome, tão repetido, deixa um eco como uma música aos ouvidos: atiça o sangue como o som de um trombeta. Isto mostra que as outras pessoas estão curiosas para ver você: que elas pensam em você e sentem um interesse em você sem que você saiba. Isto é uma almofada sobre a qual recostar-se; um forro para sua pobre, estremecida, maltrapilha opinião sobre si mesmo. Você quer alguma coisa tão cordial aos espíritos exaustos e alívio da monotonia das especulações abstratas. Você é algo; e, por ocupar um lugar nos pensamentos dos outros, pensa menos desdenhosamente de si mesmo. Você está mais capaz para encarar os desafios do preconceito e da injúria vulgar. É agradável, desta maneira, ter sua opinião citada contra você e seus próprios ditos repetidos para você como coisas boas. Estava uma vez falando ao poço com um homem inteligente e criticando a performance do Sr. Knight de Filch[14]. "Ah!", ele disse, "o pequeno Simmons era o rapaz para interpretar este personagem." Ele adicionou, "existia uma observação, das mais excelentes, feita sobre sua atuação no 'Examiner' (penso que seja) -- Que ele pareceu como se tivesse uma forca em um olho e uma bela garota no outro."[15] Eu nada disse, mas estive de memorável bom humor o resto da noite. Eu raramente estive em companhia onde o jogo de Fives[16] fosse mencionado, mas alguém perguntou, no curso da conversa. "Deus, alguém já viu uma consideração sobre um tal de Cavanagh[17], que apareceu algum tempo atrás na maioria dos jornais? É sabido quem escreveu isso?" Estes são momentos tentadores. Eu triunfei sobre uma pessoa, de quem o nome eu não mencionarei, na seguinte ocasião. Sucedia de eu estar falando algo sobre Burke e estava expressando minha opinião dos seus talentos sem medir meus termos, quando este cavalheiro me interrompeu dizendo que ele pensava, de sua parte, que Burke tinha sido grandemente superestimado e, então, adicionou, em sua maneira descuidada: "Deus, você leu uma caracterização dele no último número da ------------ ?"; "Eu a escrevi!"[18] -- Eu não pude resistir à antítese, mas estava, depois, envergonhado de minha petulância momentânea. Contudo, ninguém que eu encontro jamais me poupa.

Algumas pessoas procuram e intrometem-se nas personalidades públicas, para, como parece ser, buscar suas falhas e, mais tarde, denunciá-las. Aparências são para isto, mas a verdade e um melhor conhecimento da natureza são contra esta interpretação do assunto. Sicofantas e bajuladores são, não intencionalmente, traiçoeiros e inconstantes. Eles estão inclinados a admirar desordenadamente a princípio e não encontrando um fornecedor constante de comida para seu tipo de apetite doentio, eles tomam nojo do objeto de sua idolatria. Para estarem quites com sua credulidade, eles afiam sua astúcia para espionar falhas e ficam deleitados ao descobrir que as respostas são melhores que seu desejavam primeiramente. É um caso de estudo, "animado, audível e cheio de ventilação". Eles possuem o órgão da admiração e o órgão do medo em níveis proeminentes. O primeiro requer novos objetos de admiração para satisfazer seus desejos inquietos; o segundo os fazem curvar-se ao poder aonde quer que seu critério mutante aporte, voluntariosos de bajular todos os partidos e prontos para trair qualquer um, com sua pura fraqueza e servilismo. Eu não acho que eles signifiquem nenhum mal: pelo menos, eu posso olhar para esta dissimulação com indiferença, em meu próprio caso particular. Eu tenho estado mais disposto a ressenti-lo quando eu o tenho visto ser praticado sobre outros, onde tenho sido mais capaz de julgar a extensão do prejuízo e a insensibilidade e a loucura idiota que isto revela.

Eu não acho que grandes realizações intelectuais são, de algum modo, recomendadas às mulheres. Elas as confundem e são uma divergência à questão principal. Se scholars falam com as damas do que eles entendem, suas ouvintes não são as mais sábias; se eles falam sobre outras coisas, eles apenas provam-se idiotas. A conversa entre Angelica e Foresight em "Love for Love"[19] é uma receita completa para todo este nonsense esgotante: enquanto ele está divagando sobre os signos do zodíaco, ela está na ponta dos pés na terra. Tem sido observado que os poetas não escolhem suas amantes muito sabiamente. Creio que não é escolha, mas necessidade. Se eles pudessem dar o lenço como o Grand Turk[20], imagino que veríamos escassas mortais, mas, ao invés, deusas, rodeando seus passos e cada uma exclamando, com a própria criada jônia de Lord Byron:

"Então tu deverás encontrar-me sempre a teu lado,
Agora e de hoje em diante, se o último puder ser!"

"So shalt thou find me ever at thy side,
Here and hereafter, if the last may be!"

Ah! não, estes são evidentes, ganhos por homens de mortal, e não de etérea, forma e daí em diante o poeta, em cuja mente as idéias de amor e beleza são inseparáveis, como os sonhos do sono, vão sobre a esperança desamparada da paixão e vestem a primeira Dulcinéia que terá compaixão dele, com todas as cores da fantasia. De que serve isto de reclamar, se a ilusão dura por toda a vida e o arco-íris ainda pinta sua forma na nuvem?

Existe um erro que eu desejaria, se possível, reparar. Os homens de letras, artistas e outros, não tendo êxito com as mulheres a uma certa posição na vida, pensam que a objeção é pelo desejo delas de fortuna e que subsistirão melhores chances se descerem mais baixo, onde apenas suas boas qualidades ou talentos serão apreciados. Oh! cada vez pior. A objeção é para eles mesmos, não para sua fortuna -- à sua abstração, à sua ausência mental, às suas noções ininteligíveis e românticas. Mulheres educadas podem ter um vislumbre do seu significado, podem ter uma pista ao seu caráter, mas a todas as outras eles são densas trevas. Se a amante sorri a seus avanços ideais, a criada rirá sem reservas; ela joga água em você, chama a irmã para ouvir, envia seu namorado para perguntar a você o que quis dizer, jogará a vila ou a casa contra você; será uma farsa, uma comédia, a brincadeira constante do ano e, então, o assassino se revelará. Scholars deviam ser jurados em Highgate.[21] Eles não são páreos para as arrumadeiras e para as serventes das hospedarias. Eles têm melhores chances com herdeiras ou damas de qualidade. Estas últimas têm altas noções de si mesmas que podem ajustar-se a alguns de seus epítetos! Elas estão acima da mortalidade, assim como seus pensamentos! Mas com a vida inferior, a artimanha, a ignorância e a trapaça, vocês não têm nada em comum. Quem quer que você seja, que pense poder fazer um compromisso ou uma conquista lá, pela boa natureza ou bom senso, esteja avisado por uma voz amigável e se retire a tempo desta disputa desigual.

Se, como eu disse acima, scholars não são páreos para arrumadeiras, por outro lado, cavalheiros não são páreos para canalhas. Os primeiros estão com a sua honra, eles agem com medida; os últimos aproveitam todas as vantagens e não têm nem idéias nem princípios. É embasbacante quão rápido alguém sem educação aprenderá a trapacear. Ele é impenetrável a qualquer raio do conhecimento liberal; seu entendimento é

"Não penetrável pelo poder de qualquer estrela"

"Not pierceable by power of any star"

mas é poroso a todos os tipos de truques, sofismas, estratagemas e garotices, pelos quais qualquer coisa pode ser conseguida. Sra. Peachum, de fato, diz, que para suceder na mesa de jogo, o candidato deve ter a educação de um nobre. Eu não sei o quanto este exemplo contradiz a minha teoria. Eu penso que é uma regra que aos homens de negócios não devem ser ensinadas outras coisas. Qualquer um estará quase certo de fazer dinheiro se não tem outra idéia em sua mente. Uma educação universitária, ou o estudo intenso da verdade abstrata, não habilitará o homem a conseguir barganhar, a levar a melhor sobre outro ou mesmo de resguardar-se de ser passado para trás. Como Shakespeare diz, que " ter uma boa aparência é efeito do estudo, mas ler e escrever vem por natureza": pois pode ser argumentado, que para ser um tratante basta um dom da sorte, mas para bancar o bobo e se favorecer é necessário ser um homem educado. Os melhores políticos não são aqueles que estão profundamente fundamentados na matemática ou nas ciências éticas. Os governantes se mantém no caminho da conveniência. Muitos homens têm sido dificultados de colocar sua sorte no mundo por um cultivo inicial de seu senso moral; e se arrependem disto no ócio durante o resto de sua vida. Um homem sagaz disse a meu pai, que ele não enviaria um filho seu para a escola de maneira alguma, pois ao ensiná-lo a dizer a verdade, ele o desqualificaria para ter sua vida no mundo!

É muito pouco necessário adicionar qualquer ilustração para provar que os mais originais e profundos pensadores não são sempre os escritores mais sucedidos e populares. Esta não é uma desvantagem meramente temporária; mas muitos grandes filósofos têm não apenas sido vigiados enquanto viviam, mas esquecidos assim que morreram. O nome de Hobbes é talvez suficiente para explicar esta asserção. Mas eu não desejo ir mais afundo nesta parte do assunto, que é óbvia nela mesma. Eu disse, creio, suficiente para sair o ar de paradoxo que paira sobre o título deste ensaio.

Tradução: Leandro Diniz

[1] [nota do trad.] Bedlam ou Bethlem Royal Hospital é um hospital um Londres que primeiramente foi uma instituição especializada em doentes mentais, significado este aludido aqui pelo autor.
[2] A saudação de Jake Cade para alguém que tentava louvar-se ao dizer que podia escrever e ler. -- ver Henrique VI - segunda parte.
[3] [nota do trad.] Correggio é como era conhecido o pintor italiano Antônio Allegri (Correggio, c.1489 - Idem, 5 de março de 1534). Foi um pintor da Renascença italiana, contemporâneo de Leonardo e Rafael, com obras nos principais museus de todo o mundo.
[4] [nota do trad.] Uma espécie de jogo de cartas.
[5] [nota do trad.] Raquetes (inglês: Rackets ou Racquets) é um esporte de raquete jogado basicamente nos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido. Seu sistema de jogo e regras é semelhante a do squash, sendo freqüentemente chamado de hard rackets para distinguir-se do esporte formalmente nomeado squash rackets.
[6] [nota do trad.] O Quarterly Review foi um jornal literário e político cuja primeira edição foi publicada em Março de 1809 pelo editor John Murray, de Londres, Inglaterra.
[7] [nota do editor] end. Mr. Walker´s, 9, Southampton Buildings, Chacery Lane.
[8] [nota do trad.] Tory é o nome do antigo partido de tendência conservadora do Reino Unido, que reunia a aristocracia britânica.
[9] [nota do editor] Ensaios Políticos, 1819, pp. 51, 335
[10] [nota do trad.] No original learnerder.
[11] [nota do trad.] O verbo usado em inglês é palating. Seria o verbo correspondente a paladar, como este verbo não existe, vão-me escusar os leitores por improvisar.
[12] [nota do editor] Contribuída ao Mourning Chronicle em 1813
[13] [nota do editor] O campo de raquete na rua St. Martin.
[14] [nota do trad.] Aqui ele se refere ao personagem da The Beggar's Opera (Ópera dos Mendigos ou Ópera dos vagabundos) que é uma ópera de balada de 1728 dividida em um prólogo e três atos, com letras de John Gay e músicas de Pupusch.
[15] [nota do editor] "View of the English Stage", 1821, pp. 176-7. A passagem aparece na crítica do escritor à Ópera dos Mendigos.
[16] [nota do trad.] Fives é um esporte inglês que acredita-se deriva das mesmas origens que os outros esportes de raquetes. Em Fives, uma bola é jogada contra as paredes de uma quadra especial, usando mãos enluvadas ou limpas como se fossem raquetes.
[17] [nota do trad.] Parece que aqui se fala de Patrick Cavanagh, que foi um mártir católico irlandês beatificado pelo Papa João Paulo II em 27 de setembro de 1992.
[18] [nota do editor] O "O Caráter de Burke" foi escrito, em 1807 ("Eloquence of the British Senate", 1807, ii, 206-17.) está reproduzida em "Winterslow, 1850" Ensaio xii.
[19] Peça de William Congreve (Bardsey, 24 de Janeiro de 1670 - Londres, 19 de janeiro de 1729), poeta e dramaturgo neoclássico inglês.
[20] O Grand Turk era o nome dado no Ocidente para o Sultão do Império Otomano, a referência aqui provavelmente diz respeito a esta passagem: Depois das visitas dos funcionários do estado, a porta da Sala do Manto Sagrado enfrente a Enderun seria fechada e a porta de ferro fechada para que a do Harém fosse aberta. Ao convite as esposas do sultão, suas favoritas, suas irmãs e suas filhas, cobrindo suas cabeças com lenços de oração, cada uma visitaria em cerimônia. Elas deixariam a sala depois de receber um lenço especial do sultão. 
[21] [nota do editor] Uma alusão ao uso jocoso (há muito tempo tornou-se obsoleto) de fazer alguém um freeman of Highgate (um homem livre de Highhate). [nota do trad.] O Juramento aos Cornos é um falso juramento que foi tradicionalmente dado aos visitantes de vários pubs em Londres no subúrbio de Highgate durante os séculos XVII, XVIII e XIX. O juramento consistia de uma série de declarações lidas por um balconista, confirmando a dedicação de alguém ao deboche e à alegria.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Trigun: Quando o modernista (?) tem razão

Tiros, motos, gatos, grandes questões filosóficas, uma trilha sonora bem encaixada em um cenário pós-apocalíptico. Tão somente isso já seria o suficiente para chamar a atenção a essa obra prima, que além de tudo conta com personagens carismáticos e uma técnica narrativa admirável. Estou a falar de Trigun, um anime já velhinho, de 1998, que marcou a história da animação japonesa, tendo elementos incorporados por Hellsing e Cowboy Bebop, entre outras boas e não tão boas obras.

O ambiente desolado lembra a Mad Max. Temos um planeta desértico aliado a destroços de alta tecnologia, neste cenário ermo, há criminosos punks com implantes robóticos e modificações biogenéticas a oprimir seus semelhantes ao som de um rockzinho maroto misturado a um jazz vintage. Mas, o que estes marginais querem mesmo é encontrar Vash the Stampede, um pistoleiro com a cabeça a prêmio, cujas vestes lembram muito a de um cardeal inquisidor. Depois de algum tempo a consumir ficção nosso imaginário se torna preguiçoso, nos acostumamos a aceitar a premissa de determinada obra, vivê-la em seu universo como um sonho, mas sem o espanto de nos imaginarmos dentro dela, de extrapolarmos as suas consequências ao mundo real. É justamente este exercício o qual convido o leitor. Imagine, com todo o realismo e esforço, viver neste mundo ermo... Neste faroeste pós-apocalíptico, você, um homem comum, em meio a monstros e cyborgs, um sol escaldante sob a cabeça, a água escassa, e tecnologia avançada, e ao mesmo tempo ancestral, tida como um tesouro de eras distantes. Viver altas aventuras neste contexto exigiria um espírito firme, um caráter sólido e a frieza para puxar o gatilho para defender a si mesmo e aos seus. Aliás, Vash não puxa o gatilho...

Como o típico herói dos anos 90, o nosso herói é um pacifista. Vash não quer matar ninguém, e quando se mete em confusão e é obrigado a abrir fogo, sempre procura minimizar os ferimentos e evitar a morte do inimigo. Nessas confusões, episódios secundários com vistas a trabalhar a interação entre os personagens até que a trama principal é inserida gradualmente, vemos expresso frutuosas reflexões que ainda tem lugar em nosso mundo ''pré-apocalíptico''. Há grandes capitalistas (ao menos para os padrões daquele faroeste espacial) a monopolizar os recursos naturais, lucrando com a miséria alheia; há bandidos, que apesar de bandidos, estabelecem entre si um código de honra e companheirismo; há selvagens assassinos arrependidos e a amansados pelo amor familiar, há o apego camponês a terra que trabalhara contra (uma vez mais) a ganância capitalista; há o drama imortal entre a concretização da vingança e o perdão.

Há também padres; falo de Nicholas D. Wolfwood, um sujeito maneiro, embora modernista e safado. A esse respeito, creio que sou o primeiro brasileiro a escrever algo digno a respeito, uma vez que os demais críticos, tal qual o autor do anime, aparentam não ter compreendido muito bem a doutrina católica, tendo assimilado apenas a sua estética. Todavia, não nos precipitemos, falemos um pouco do personagem. Nicholas é um padre andarilho, uma pessoa boa muito semelhante a Vash, que vive para cuidar de órfãos abandonados, a diferença do sacerdote para com o protagonista é que enquanto Vash é movido por ideias utópicas e o desejo de salvar todo mundo a todo o tempo, Nicholas é um homem realista, sabe que sacrifícios são necessários, não hesita em realizá-los, apesar de buscar sempre o caminho onde as perdas em vidas humanas sejam as menores. Agora aquilo que só um católico poderia perceber,: Nicholas é um herege safado. Vem spolier por aí: o infeliz anda por aí sem batina, não mostra nenhum zelo em pregar a doutrina e realizar seu ofício espiritual, chega a profanar o celibato e ainda por cima morre proferindo tolices reecarnacionista! Isso me deixou irritado! Pesquisando mais afundo, porém, descobri que apesar da estética católica, o personagem, ao menos na obra original, isto é no mangá, pertence a uma igreja fictícia de adoradores de plantas. Já estava eu a ligar para a inquisição espanhola, mas o coitado está fora de nossa jurisdição.

Isso aqui já está virando textão, ao menos para os padrões do bunKer, então para encerrar vou direto ao argumento final do anime, expressão do ethos do pós-guerra com todos os seus vícios e virtudes.: a questão do pacifismo e da utopia. Vash não quer matar ninguém, quer salvar todo mundo a todo o tempo. Nicholas entende que para salvar os cordeiros não se pode poupar o lobo. Ao fim o autor parece dar razão a Vash, que preferiu dialogar com seus inimigos a destruí-los. Todavia, a que preço? As repetidas omissões de Vash foram ocasião de um morticínio. Tivesse ele executado a pena capital, tantas vezes moralmente justificado pelo princípio de legítima defesa própria e alheia, muitos inocentes teriam sido poupados. É natural e humano querer salvar a todos. É profundamente cristão inclusive se sacrificar com vistas a isso, buscar o melhor, não apenas para si mas, para todos. Entretanto, é uma dolorosa e sangrenta ilusão pensar que isso será possível. Diria eu, é uma heresia, é a negação do inferno. O mundo melhor não virá. Não são todos os que podem ser salvos. A perfeição e a utopia não são alcançáveis. Há momentos em que se deve escolher entre salvar alguns ou perder a todos. Vash estava errado, o padre (modernista) Nicholas tinha razão. É preciso ser realista e abandonar as ilusões afim de minimizar os sacrifícios, doces utopias não raro são terminam de modo trágico e sangrento.

Por fim, antes de nos despedirmos caro leitor, fiquemos com está bela música que tem papel de destaque na trama: