sábado, 20 de julho de 2019

Burton, Quaresma, Casamento e Vida Intelectual



Já faz alguns dias que estou a ler o Triste Fim de Policarpo Quaresma”, um clássico da literatura brasileira de autoria do escritor Lima Barreto. Recordo-me de ter estudado o romance há tempos imemoriais quando estava no ensino médio, bem como de ter visto um filme, de péssima qualidade, inspirado na obra. Sim, o filme era terrível! Fora incapaz de captar toda a carga dramática da obra, que faz-me lembrar a Tim Burton. Nos filmes de Burton há sempre um contraste entre um protagonista estranho, mas, ao mesmo tempo, sensível, inocente e ingênuo, que busca se adaptar a uma sociedade medíocre que não o compreende. Tal é a premissa desse clássico nacional; o major Policarpo é um homem de estudo, um intelectual e alguém apaixonado pelo país, ao mesmo tempo encontra a incompreensão de uma sociedade apática e mesquinha, sociedade esta que valoriza mais os símbolos de conhecimento que o próprio conhecimento, que se ira contra tudo aquilo que destoa da mediocridade cotidiana. Logo no primeiro capítulo temos notícias de que o velho major: 
Se não tinha amigos na redondeza, não tinha inimigos, e a única desafeição que merecera fora a do Doutor Segadas, um clínico afamado no lugar, que não podia admitir que Quaresma tivesse livros: “Se não era formado, para quê? Pedantismo! 

O estudo e a leitura de Quaresma também são motivos de troça no terceiro capítulo, e para seus contemporâneos, causa de sua loucura: 
-Quaresma está doido.
(…)
-Nem se podia esperar outra cousa, disse o doutor Florêncio. Aqueles livros, aquela mania de leitura…
-Pra que ele lia tanto? Indagou Caldas?
-Telha de menos, disse Florêncio.
Genelício atalhou com autoridade:
-Ele não era formado, para que meter-se em livos?
-É verdade, fez Florêncio.
-Isto de livros é bom para sábios, para doutores, observou Sigismundo.
-Devia até ser proibido, disse Genelício, a quem não possuísse um título “acadêmico” ter livros. Evitavam-se assim essas desgraças. Não acham? 
Esse ódio ao conhecimento acompanhado pela veneração dos títulos acadêmicos persiste até hoje, desde as troças injustas para com o filósofo Olavo de Carvalho (cuja filosofia tem seus problemas, mas nem por isso é absolutamente desprezível) pelo fato deste ter feito carreira a margem da academia. Recordo-me ainda uma situação pessoal, onde em um grupo paroquial instava o público a ler nas Sagradas Escrituras, alguns dos chamados livros sapienciais: Provérbios, Eclesiastes e Eclesiástico, livros simples e ao mesmo tempo interessantíssimos, mas fui repreendido pela padre, segundo o qual não se devia estudar isso fora de uma faculdade de teologia...

Não é apenas na sua relação com a vida intelectual que se vê a mesquinhez da sociedade brasileira, chama-me a atenção a atonia da vida afetiva das moças, conforme a descrição do autor: 
(…) Casar, para ela, não era negócio de paixão, nem se inserira no sentimento ou nos sentidos; era uma ideia, uma pura ideia. Aquela sua inteligência rudimentar tinha separado da ideia de casar o amor, o prazer dos sentidos, uma tal ou qual liberdade, a maternidade, até o noivo. Desde menina, ouvia a mamãe dizer: “Aprenda a fazer isso, porque quando você se casar”… ou senão: “Você precisa aprender a pregar botões, porque quando você se casar..”
 A todo instante e a toda hora, lá vinha aquele - “porque, quando você se casar...” - e a menina foi se convencendo que toda a existência só tendia para o casamento. A instrução, as satisfações íntimas, a alegria, tudo isso era inútil; a vida se resumia numa cousa: casar.
 De resto, não era só dentro de sua família que ela encontrava aquela preocupação. No colégio, na rua, em casa das famílias conhecidas, só se falava em casar. “Sabe, Dona Maricota, a Lili casou-se, não fez grande negócio, pois parece que o noivo não é la grande cousa”; ou então: “ A Zezé está doida para arranjar casamento, mas é tão feia, meu Deus!...”
 A vida, o mundo, a variedade intensa dos sentimentos, das ideias, o nosso próprio direito á felicidade, foram parecendo ninharias para quele cerebrozinho; e , de tal forma casar-se lhe representou cousa importante, que uma espécie de dever, que não se casar, ficar solteira, “tia”, parecia-lhe um crime uma vergonha. 
Como é triste que uma vocação tão sublime como o matrimônio se converta em uma mera obrigação social, pobrezinha a Ismênia, a mocinha da ficção, que afinal foi o retrato de tantas outras, e ainda o é (cheguei a conhecer gente semelhante em minhas andanças, mas isso é outra história…). 

Enfim, a obra é interessantíssima, prende o leitor e revela muitos dos vícios da alma brasileira que persistem ainda hoje. Talvez ainda retorne ao assunto em postagens futuras, de todo o modo, fica a indicação.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

''Lembrai-vos das maravilhas que fez''


15ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (Êx 3,13-20)
Responsório (Sl 104,1.5-27)
Evangelho (Mt 11,28-30)

<Lembrai-vos das maravilhas que fez, dos seus prodígios e das sentenças que saíram da sua boca (Sl 104, 5)>; eis o que nos ensina o salmista: lembrar, recordar da ação de Deus sua ação na história e também e nossa história.

Quantos milagres, quantas maravilhas não realizou o Senhor nos mais diversos tempos e lugares? Dos prodígios no Egito aos milagres na era Apostólica, passando pelo socorro aos cristãos em tantas batalhas e a manifestação nas mais diversas e curiosas situações. São Francisco amansou lobos vorazes; Santo Antônio, em resposta as insídias protestantes  (protestantes estes que provaram ser mais estúpidos que as bestas)., fez uma mula se ajoelhar ante o Santíssimo Sacramento; São Tiago vestiu a armadura e desembainhou a espada para ir lutar ao lado dos cristãos contra o invasor maometano. Faz bem trazer na memória estes feitos extraordinários, a ação de Deus sobre a história! Isso nos tira do prisão da imanência e prepara nosso coração a acolher e confiar na intervenção divina quando toda a esperança humana se desvai.

sábado, 13 de julho de 2019

O Caminho do Guerreiro

"Em algum lugar dentro de mim eu estava começando a buscar a união entre a arte vida, estilo e espírito de ação." - Yukio Mishima

Causa-me tristeza ver tantos intelectuais restritos a sua “torre de marfim”. Com suas mentes alcançam os céus, com sua imaginação exploram o universo, falam de heroísmo, amor, coragem, virtude, mas raramente vivenciam o que pregam. Seu corpo, ora pálido e esguio, ora obeso e relaxado, denunciam uma vida burguesa cujo o único contato com o perigo e a morte se dá pelo hábito de fumar. Tal fato também viera a perturbar Yukio Mishima. Mishima viveu quase toda sua existência como ficcionista, porém, próximo a morte manifestou uma espécie de revolta contra a imaginação. Um imaginário rico formado tão somente em leituras, seria uma fuga, uma profanação, uma covardia. O homem que se abstém de se expor ao perigo, de viver as mais intensas experiências, se contentando apenas em imaginar não seria nada além de um covarde, alguém que empreende uma fuga do real e uma compensação com as sombras… Atormentado pela questão, já próximo a meia idade, o escritor japonês redescobriu a carne por meio do "sol e do aço", dedicando-se ao fisiculturismo e as artes marcais. Após lapidar seu corpo para guerra, Yukio Mishima fundou seu próprio exército particular:  A Sociedade do Escudo; com a qual perpetrou um atentado terrorista contra o alto comando do exército japonês, mas isso é história para outra hora… 

Não que esteja fazendo apologia ao terrorismo, o que quero dizer é que é preciso existir uma unidade de vida entre a pena e a espada, a palavra e a ação, o viver e o pensar Ora, como pode alguém escrever sobre aventuras sem nunca vivê-las? Que tipo de vida essa onde nosso corpo apodrece na mediocridade? Qual foi a última vez, caro leitor, em que teve de usar toda sua força? Em que expôs seus músculos ao extremo? Quando correu, dando o máximo de si, a toda velocidade? Quando foi a última vez que saltou? Que brigou? Que suportou a dor, o sofrimento físico? 
Assumir o sofrimento é o principal papel da coragem física; e a coragem física é como a fonte daquele desejo de entender e apreciar a morte, que mais do que qualquer outra coisa, é a condição para que o homem saiba que um dia vai morrer. Não importa o quanto o filósofo de gabinete rumine sobre o significado da morte, mas sem coragem físcia, requisito para a compreensão dela, ele não vai nem começar a entender de que é que se trata. [1]

A dor, o sofrimento, a fadiga e o cansaço, o Sol e o Aço, deixam suas marcas sobre o corpo, mas também sobre o espírito: 
O aço, fielmente, me ensinou a correspondência entre o espirito e o corpo: assim, emoções fracas ma pareceu, correspondiam a músculos flácidos, sentimentalismo a um estômago saliente e excessiva sensibilidade a uma pela branca e super-sensível. Músculos silentes, estômago retesado e uma pele dura devem corresponder respectivamente a um intrépido espirito de luta, ao frio poder do julgamento intelectual e uma disposição vigorosa. [1] 

O desporto é uma um ambiente favorável a tal experiência corpórea, mas minha mensagem não é tão restrita. Sim, se deve cultivar a prática desportiva, não uma, mas várias, mas não apenas isso. A aventura deve ser um estilo de vida! E ainda mais para nós católicos, nós que temos uma causa santa a defender! Quantas vezes nos expomos ao risco pelo Evangelho? Temos tido coragem de dizer a verdade, mesmo ante um público hostil? Há algum grau de heroísmo e generosidade ao rigor de nosso jejum? Há desafio em nossas peregrinações? Temos coragem de adentrar as selvas urbanas, de em meio aos favelas e cohabs proclamar o Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo? Com que frequência desafiamos os hereges e destroçamos suas mentiras? Se necessário, estamos prontos para defender com os punhos a nossa santa religião

Que diremos a nossos filhos e netos? Narraremos a juventude do amanhã nossas vitórias? Temos estampado em nosso corpo as cicatrizes da batalha, em nossa alma o ardor do combate?  A pergunta que vos faço, faço também a mim: somos guerreiros, soldados de Cristo ou covardes e falastrões?

O Céu, senhores, não é para covardes.

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[1] Sol e Aço - Yukio Mishima

quarta-feira, 10 de julho de 2019

''Justamente sofremos estas coisas, porque pecamos contra o nosso irmão''


14ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (Gn 41,55-57;42,5-7a.17-24a)
Responsório (Sl 32)
Evangelho (Mt 10,1-7)

Aquilo que escutamos hoje na primeira leitura explica tantas vezes o motivo de nosso sofrimento: <e disseram uns para os outros: Justamente sofremos estas coisas, porque pecamos contra o nosso irmão, vendo a angústia do seu coração, quando nos suplicava, e nós não atendemos, por isto veio sobre nós esta tribulação. (Gn 42,21)>; tantas e tantas vezes faltamos com a justiça e , e por nossas palavras, atos e omissões tanto mal causamos a nossos irmãos. Tal injustiça não ficará sem paga, no devido tempo Deus nos envia as penas temporais, aquilo que é devido a saciar a justiça. Pensemos em nossos pecados, o quanto ofendemos a Deus, o quanto machucamos nosso próximo, desde a nossa infância até os dias de hoje… Há muito o que reparar. Vigiemos para não aumentar nossa dívida e procuremos reparar com humildade e resignação a injustiça que cometemos. 

terça-feira, 9 de julho de 2019

O Batman de Burton

Os filmes de Tim Burton são de fato uma experiência estética curiosa, mas alguns vão muito além disso. Resolvi (com a ajuda do bom e velho Torrent) rever alguns velhos filmes do diretor, mais especificamente  "Batman" e "Batman Returns".

Neste segundo filme, o drama do vilão é o que mais chama atenção. O Pinguim é uma espécie de vítima; alguém que nasceu deformado e foi rejeitado pelos pais (jogado ao rio em pleno Natal). Rejeitado pela sociedade, inicialmente busca suprir tal carência com uma superaprovação (ser querido, eleito prefeito, etc), rejeitado uma segunda vez, este continua a nutrir sentimentos de vingança para com sociedade que o rejeitou. Se como primogênito foi rejeitado pelos pais, o vilão quer agora punir sobretudo aqueles que tiveram a vida que ele não teve, sequestrando e matando todos os primogênitos de Gotham. Aliás, esse é um tema bem recorrente nos filmes de Burton: a sociedade é quem cria os próprios monstros que irão um dia voltar para assombrá-la.

O Batman, como retratado no filme anterior, não é um herói, mas um louco que procura suprir o trauma de infância de ter perdido os pais saindo pela rua vestido de morcego e descontando sua raiva nos criminosos. Não é um homem justo e escrupuloso, no primeiro filme o vemos deixar Jack cair nos químicos que o transformariam no Coringa. Posteriormente, Batman acaba sendo corresponsável pela morte do Coringa e não mostra um pingo de remorso. No segundo filme, em uma das cenas finais, diz o Pinguim ao Batman: "-Está com inveja? Inveja porque eu posso ser um monstro as claras e você precisa se esconder atrás de uma máscara para tal?*". Outro aspecto curioso é que em ambos os filmes, apesar de Bruce ser um ricaço, ele é totalmente desajeitado com as mulheres, e seus romances dependem em grande parte da boa vontade das mocinhas.

Retornando ao segundo filme, o poder hipinótico da beleza feminina é retratado de uma forma magistral. A Mulher-Gato desconcerta a todos, do Pinguim ao Batman. São muitas as cenas em que o "herói" tem de decidir entre seguir sua razão ou seu instinto e não poucas as vezes fica completamente abobado ao lidar com a vilã. Uma realidade, creio eu, que todo o varão têm de aprender a lidar: resistir aos encantos das desviadas, por mais belas que o sejam.

Por fim, há que se destacar que a Mansão Weyne é uma verdadeira expressão da perspectiva arqueofuturista. Um castelo medieval na América equipado com a mais avançada tecnológica, isso sem falar o belíssimo batmóvel em art deco. Concluo polemizando: por estes e outros aspectos, o Batman de Burton é melhor que o de Nolan :P.

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*Cito o diálogo de memória, pode ser que as palavras usadas não sejam exatamente as mesmas, mas tem o mesmo sentido.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Os anjos e a vocação matrimonial


13ª Semana do Tempo Comum - Sexta-feira
Primeira Leitura (Gn 23,1-4.19; 24,1-8.62-67)
Responsório (Sl 105,1-5)
Evangelho (Mt 9,9-13)

Abraão não queria que seu filho Isaac se casasse com as mulheres da região. O santo patriarca sabia algo que os jovens de hoje esqueceram: nem toda a moça é "casável", há regiões tão impregnadas de maus costumes que é preferível ir buscar uma esposa fora, longe... Abraão envia seu servo, é uma missão difícil sem dúvida, mas diz o patriarca ao servo que o Senhor enviará um anjo a sua frente. No livro de Tobias também vemos a ação angélica a trabalhar pela união matrimonial.

Que homens e mulheres confiem mais nos meios sobrenaturais e não caiam na tentação da carência afetiva de se unir a qualquer um por medo da solidão.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Morte Negra

Assisti ontem ao filme Morte Negra, uma obra interessante que embora não seja de todo simpática aos cristãos, não nos é absolutamente hostil. Ambientada na época da peste negra, a história nos coloca junto há um grupo de cavaleiros a serviço do bispo em uma misteriosa missão (spoliers daqui para frente). Seja pelo acaso, seja pela Providência, o jovem Osmund junta-se ao grupo. Osmund é um monge franciscano que secretamente traiu seus votos para juntar-se a uma moça, a qual manda a sua frente para o bosque, enquanto este está a rezar e meditar se deve ou não acompanhá-la. 

Enquanto os padres pregam que a peste é um castigo de Deus para uma época iníqua, alguns, no entanto, creem que a peste não tem uma origem divina, mas demoníaca, fruto de feitiçaria. Fiel a historiografia atual, o filme mostra o ceticismo do clero com relação a eficácia da bruxaria. Logo no início da jornada, Osmund tenta salvar uma jovem injustamente acusada de bruxarias pelos populares, seu intento, no entanto, acaba fracassando. 

Os cavaleiros são liderados por Ulrich , homem valente e piedoso,  devem investigar um vilarejo livre da peste, vilarejo este que recusa a Deus. Também há rumores de bruxaria e necromancia em tal vilarejo, o demônio realizara prodígios ressuscitando os mortos para enganar os homens. Nas proximidades do vilarejo, Osmund encontra as roupas manchadas de sangue de sua amada, julgando que ela tenha encontrado a morte. 

Já no vilarejo, após uma aparente acolhida, os cavaleiros são enganados e capturados pela bruxa e seus seguidores, que procuram matá-los, não antes de perder suas almas, instando-os a apostasia. Embora muitos cavaleiros resistam heroicamente, há um que cede ao medo, e renuncia a fé católica. Iludido por promessas de segurança, o cavaleiro porém, encontra a morte logo em seguida; o inferno o aguarda. Na tentativa de perder Osmond, a bruxa o leva até a sua amada que teria sido ressurrecta por magia. Osmond é tentado duramente, por fim, mata sua amada, devolvendo sua alma ao purgatório, segundo crê, e volta para confrontar a bruxa e seus servos pagãos. Enquanto isso, Ulrich é violentamente torturado a fim de que renuncie a fé. O cavaleiro resiste bravamente, como um verdadeiro mártir, e ao fim guarda uma surpresa aos malditos pagãos: a peste. Ulrich estava contaminado e com sua morte traria a morte ao vilarejo. Neste meio tempo, dois dos cavaleiros restantes conseguem libertar-se, vingar alguns de seus companheiros, capturar um dos blasfemos lideres do vilarejo, “o necromante” e resgatar Osmund, embora a bruxa termine por escapar. Antes, porém, esta revela a Osmund que sua amada não fora havia revivido, na verdade até então ela sequer havia morrido, a necromancia era apenas um truque, a moça estava ferida, foi curada e posteriormente drogada para ludibriar o padre. Ao fim do filme, aqueles na aldeia que não morreram pela espada são vitimados pela peste, o “necromante” é levado a julgamento e o padre retorna ao mosteiro, embora não por muito tempo. Consumido pelo ódio, Osmund abandona a vida sacerdotal tornando-se um caçador de bruxas, buscando a mulher que o manipulou para matar sua amada. Todavia, o ódio não é um bom conselheiro, e não raro o cavaleiro acaba por torturar e condenar moças inocentes. 

Embora haja certa histeria por parte do laicato, o filme demonstra bem a perversidade daqueles envolvidos com a bruxaria, verdadeiros servos do demônio, que apesar de servirem-se de truques para realizar seus prodígios, manipulam os homens, blasfemam contra Deus e esforçam-se por fazer perder as almas. Também assim o é hoje, quantos não se entregam as imundas doutrinas e a perversas feitiçarias? Tais homens e mulheres não são outra coisa senão escravos do demônio, que tão mal fazem aos inocentes e tanto ódio nutrem a Igreja de Cristo. Tal prática nefanda deve ser combatida, mas infelizmente não é o que ocorre dado a crise conciliar onde muitos bispos e papas andam por aí amigados de feiticeiros, promovendo blasfemas cerimônias sincréticas... Quem dera houvesse hoje cavaleiros como o do filme bem como inquisidores como outrora (seja conforme a história real ou mesmo versão edgy propagada por pseudo-historiadores).; sem dúvida, o povo cristão se alegraria ao ver algumas fogueiras acesas...

No que diz respeito a peste negra, podemos dizer que fora uma verdadeira prefiguração do Apocalipse. A doença ceifou mais de 75 milhões de vidas e devastou a Europa. Refletir a respeito nos fará bem, sobretudo nestes tempos iníquos onde abunda o pecado. Se o passado mereceu tão rigoroso castigo, o que aguarda nossa geração? Rezemos.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Hierarquia, senhorio e virilidade

12ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (Gn 16,1-12.15-16)
Responsório (Sl 105,1-5)
Evangelho (Mt 7,21-29)

A esposa de Abrão, Sarai, deu-lhe como mulher a escrava Agar. A escrava, grávida, começou a se envaidecer e desprezar a senhora, esta começou a maltratá-la, a escrava então fugiu para o deserto.

Situaçãozinha complicada, hein? E Deus é chamado julgar isso e resolver essa confusão criada pelas maluquices da humanidade. O anjo manda Agar voltar para casa e se humilhar perante sua senhora. Por mais que se compadeça da vítima, Deus é justo e não pode esquecer os justos direitos de Sarai, direitos que lhe cabem como esposa e senhora. Senhora? Sim, senhora... O senhorio é algo escandaloso para estes tempos de igualitarismo (não estou defendendo a volta da escravidão, antes que os mais inquietos me torrem a paciência). Por fim, o anjo promete a Agar um filho viril, um homem feroz,  "indomável como um jumento selvagem", pois é a fortaleza a virtude masculina por excelência. Se o homem não é forte, se é fraquinho, tímido e submisso...Coitada da mãe!

Virilidade, privilégios da primeira (legítima e única) esposa sobre as demais concubinas (que nem deveriam existir), respeito a autoridade do senhorio; a leitura de hoje irrita os tolos ouvidinhos modernos, e por isso me alegra. Alegro-me com a contradição desse mundo amalucado, me agrada  escutar as verdades primevas, a estrutura do real , a natureza humana manifesta e revelada nas Sagradas Escrituras. Todavia, não basta escutar, é preciso colocar em prática, do contrário seremos como o homem insensato que edifica sua casa sobre a areia.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

''Tornou minha boca semelhante a uma espada afiada''


Natividade de São João Batista - Segunda-feira 
Primeira Leitura (Is 49,1-6)
Responsório (Sl 138)
Evangelho (Lc 1,57-66.80)



1. São João Batista o maior dos homens nascidos de mulher, o precursor, aquele que foi limpo do pecado já no seio de sua mãe. Este homem passou a maior parte da vida em penitência no deserto. E nós? Nós tão fracos e tolos aspiramos a glória sem dor, a vitória sem luta, a ressurreição sem Cruz. Aí de nós!

2. Em Fátima, viram os pastorinhos um anjo assustador, este segurava uma espada de fogo e clamava: Penitência! Penitência!

Vivemos em um tempo obscuro, uma época em que os homens não cessam de ofender a Deus com pecados abomináveis. A fumaça de Satanás penetrou no Templo de Deus, muitos do alto clero tornaram-se escravos do demônio! Tamanha abominação não ficará sem castigo. Um castigo terrível virá! Para o bem da alma, o corpo deve sofrer! 

São João Batista pregava um Batismo de Penitência, também nós precisamos nos penitenciar. Pela saúde de nossa alma, pela salvação daqueles que amamos, para preparar-nos ao terrível castigo que se aproxima.

Que Deus nos ensine a prática da penitência. Que São João Batista interceda por nós!

3. Escutamos na primeira leitura o oráculo proferido pelo profeta Isaías: <Tornou minha boca semelhante a uma espada afiada, cobriu-me com a sombra de sua mão. Fez de mim uma flecha penetrante, guardou-me na sua alijava. (Is 49, 2)>; que sejamos nós também uma seta penetrante, que sejam nossas palavras uma espada afiada, pala glória de Deus e a loucura do mundo. Não nos calemos ante essa era apostata! Não nos acovardemos! Antes apliquemos todo nosso zelo, toda nossa inteligência, toda a nossa vontade em lutar pela causa de Deus! Denunciemos as mentiras desta abominação civilizacional liberal construída sob a inspiração do demônio pelas mãos da o judaico-maçonaria, que busca levar esta monstruosidade até seu desfecho final na construção de uma nova Torre de Babel que é o governo mundial.

4. São João Batista pregou a conversão, hoje há que use de sua figura para exaltar ídolos pagãos. Raça de Víboras! O machado já está posto á raiz das árvores; e toda árvore que não der fruto bom será cortada e lançada ao fogo! No fogo é que vão encontrar o tal Xangô! E não vai ser nada bom, pois haverá choro e ranger de dentes!

domingo, 23 de junho de 2019

Por que Deus permite que existam heresias na Igreja?

Mas alguém poderá dizer: Por que Deus permite que com tanta frequência pessoas insignes da Igreja se ponham a defender doutrinas novas entre os católicos? A pergunta é legítima e merece uma resposta ampla e detalhada. Mas responderei fundamentando-me não em minha capacidade pessoal, mas na autoridade da Lei divina e no ensinamento do Magistério eclesiástico. Ouçamos, pois, a Moisés: que ele nos diga o porquê de vez em quando Deus permite que homens doutos, inclusive chamados profetas pelo Apóstolo por causa de sua ciência, se ponham a ensinar novos dogmas que o Antigo Testamento chama, em seu estilo alegórico, de divindades estrangeiras. (Realmente os hereges veneram suas próprias opiniões tanto como os pagãos veneram seus deuses). Moisés escreve: "Se se levantar no meio de ti um profeta ou um visionário - ou seja, um mestre confirmado na Igreja, cujo ensinamento seus discípulos e ouvintes crêem ser proveniente de alguma revelação - anunciando-te um sinal ou prodígio, e suceder o sinal ou o prodígio que anunciou..." (Dt 13,1-2a) Certamente, com estas palavras se quer assinalar um grande mestre, de tanta ciência que pode fazer crer a seus seguidores, que não somente conhece as coisas humanas, mas que também tem a presença das coisas que superam ao homem. Era mais ou menos isto que os discípulos de Valentim, Donato, Fotino, Apolinário e outros da mesma laia acreditavam. E como continua Moisés? "...e te disser: vamos, sigamos outros deuses que te são desconhecidos e prestemos-lhes culto," (Dt 13,2) Quem são estes outros deuses senão as doutrinas erradas e estranhas? Que te são desconhecidas, ou seja, novas e inauditas. E prestemos-lhes culto, ou seja, acreditemos nela e as sigamos. Pois bem, o que diz Moisés neste caso? "...tu não ouvirás as palavras desse profeta ou desse visionário;" (Dt 13, 3a) Mas eu lhes ponho esta questão: Por que Deus não impede que se ensine o que Ele proíbe que se escute? Então Moisés responde: "...porque o Senhor, vosso Deus, vos põe à prova para ver se o amais de todo o vosso coração e de toda a vossa alma". (Dt 13,3b) Assim, pois, está mais claro que a luz do sol o motivo por que de vez em quando a Providência de Deus permite mestres na Igreja que preguem novos dogmas: porque o Senhor, vosso Deus, vos põe à prova. E certamente que é uma grande prova ver um homem tido por profeta, por discípulo dos profetas, por doutor e testemunha da verdade, um homem sumamente amado e respeitado, que de repente se põe a introduzir ocultamente erros perniciosos. Tanto mais quanto que não existe possibilidade de descobrir imediatamente esse erro, posto que lhe apanha de surpresa, já que se tem de tal homem um juízo favorável por causa de seu ensinamento anterior, e se resiste ao condenar o antigo mestre ao qual nos sentimos ligados pela afeição.

Chegando a este ponto, alguém poderá me pedir que contraste as palavras de Moisés com exemplos tomados da História da Igreja. O pedido é justo e respondo a seguir. Partindo, em primeiro lugar, de fatos recentes e bem conhecidos, poderia alguém de nós imaginar a prova pela qual atravessou a Igreja, quando o infeliz Nestório se converteu repentinamente de ovelha em lobo, começou a desgarrar o rebanho de Cristo, ao mesmo tempo em que aqueles a quem ele mordia, o tendo por ovelha, estavam assim mais expostos a seus mordiscos? Na verdade dificilmente podia passar pela cabeça de alguém que pudesse estar em erro quem tinha sido eleito pela alta judicatura da corte imperial e tinha grande estima pelos outros bispos. Rodeado de profunda afeição das pessoas piedosas e de uma grande popularidade, todos os dias explicava publicamente a Sagrada Escritura, e refutava os erros perniciosos dos judeus e pagãos. Quem não estava convencido que de que um homem desta classe não ensinava a fé ortodoxa, que pregava e professava a mais pura e sã doutrina? Mas sem dúvida para abrir caminho a uma só heresia, a sua, tinha que perseguir todas as demais mentiras e heresias. A isto precisamente se referia Moisés, quando dizia: "...porque o Senhor, vosso Deus, vos põe à prova para ver se o amais de todo o vosso coração." Deixemos então de lado Nestório, nele que sempre teve mais brilho de palavras que verdadeira substância, mais resplendor que efetiva valentia, e ao qual o favor dos homens, e não a graça de Deus, o fazia aparecer grande diante da estima do povo. Recordemos melhor a quem, dotados de habilidade e do atrativo dos grandes êxitos, se converteram para os católicos em ocasião de tentações não sem tanta importância. Assim, por exemplo, sucedeu-se em Panônia nos tempos de nossos Padres, quando Fotino tentou enganar a Igreja de Sirmio. Havia sido eleito bispo com grande estima por parte de todos, e durante certo tempo cumpriu com seu ofício como um verdadeiro católico. Mas chegou um momento em que, como profeta ou visionário malvado sobre quem falava Moisés, começou a persuadir ao povo de Deus que lhe havia sido confiado de que devia seguir a outros deuses, ou seja, a novidades errôneas nunca antes conhecidas. Até aqui nada de extraordinário. Mas o que era particularmente perigoso era o fato de que, para esta empresa tão malvada, se servia de meios nada comuns. Com efeito, possuía um agudo ingênio, riqueza de doutrina e ótima eloqüência; disputava e escrevia abundantemente e com profundidade tanto em grego quanto em latim, como mostram as obras que compôs em uma e outra língua. Por sorte, as ovelhas de Cristo que lhe foram confiadas eram muito prudentes e estavam vigilantes no que se refere à Fé Católica; imediatamente se recordaram das advertências de Moisés, e ainda que admirassem a eloqüência de seu profeta e pastor, não se deixaram seduzir pela tentação. Desde esse momento começaram a fugir, como se fosse um lobo, daquele a quem até pouco tempo seguiram como guia do rebanho. Além de Fotino, temos o exemplo de Apolinário, que nos põe em guarda contra o perigo de uma tentação que pode surgir no seio mesmo da Igreja, e que nos adverte de que temos de vigiar muito diligentemente sobre a integridade de nossa fé. Apolinário introduziu em seus ouvintes a mais dolorosa incerteza e angústia, pois por uma parte se sentiam atraídos pela autoridade da Igreja, e por outra eram retidos pelo mestre ao qual estavam habituados. Vacilando assim entre um e outro, não sabiam o lhes era conveniente fazer. Era, então, aquele um homem de pouco o nenhum destaque? Pelo contrário, reunia tais qualidades que se sentiam levados a crer nele, inclusive muito rapidamente em um grande número de coisas. Quem poderia fazer frente a sua agudeza de ingênio, a sua capacidade de reflexão e a sua doutrina teológica? Para se ter uma idéia do grande número de heresias esmagadas, dos erros nocivos à fé desbaratados por ele, basta recordar a obra insigne e importantíssima, de não menos de trinta livros, com a que refutou, com grande número de provas, as loucas calúnias de Porfírio. Nos alargaríamos demasiado se recordássemos aqui todas as suas obras; à mercê delas poderia ser igual aos mais grandes artífices da Igreja, se não houvesse sido empurrado pela insana paixão da curiosidade a inventar não sei que nova doutrina, a qual como uma lepra, contagiou e manchou todos seus trabalhos, até o ponto de que sua doutrina se converteu em ocasião de tentação para a Igreja, mais que de edificação.  (...)

- São Vicente de Lérins. Commonitorium; §10-11. 

quinta-feira, 20 de junho de 2019

O ano é 2077


O ano é 2077. Você conseguiu tudo o que quis. Tem seu doutorado, seu smartphone de última geração, aquele carro maneiro da Tesla, um apartamento com vista top e uma pequena fortuna para não precisar mais trabalhar.

O ano é 2077. Você está velho. Já não sente mais o mesmo prazer nas mesmas atividades de outrora. Não vê mais tanta emoção assim em viajar pelo mundo pela vigésima vez, não gosta mais do rolezinho pra tomar litrão - seu fígado já não aguenta porre - e sair de casa se tornou algo tão desinteressante que nem vai mais ao supermercado pois tem algum aplicativo que faz as entregas das compras do mês.

O ano é 2077. Você está fraco. Até tentou chegar na terceira idade bem fitness, mas não deu. Já é sua terceira cirurgia na coluna e segundo coração transplantado, seu joelho é de titânio, seus dentes são falsos e fazer força nos músculos te deixa com uma dor excruciante na hora de dormir.

O ano é 2077. Você está feio. Seus tratamentos estéticos chegaram ao limite. Sua cara está deformada de tanto botox, seus membros e barriga flácidos e sua libido caiu.

O ano é 2077. Você está sozinho. Não construiu família e seus pais morreram antes que vocês pudessem se reconciliar pelos problemas que ocorreram ainda na sua infância. Não conhece nenhum outro parente e seus amigos morreram de algum infortúnio ou excesso provocado por eles mesmos.

O ano é 2077. Você está pouco lúcido. As coisas andam meio confusas e não tem muito controle sobre seu corpo. Hoje você molhou sua cama e assustou alguns hipsters no parque com o grito que deu ao enxergar um deles como um monstro.

O ano é 2077. Você está velho, fraco, feio, sozinho e meio gagá. Ninguém tem paciência contigo. Hoje você se alterou com o seu vizinho drogado por ele esbarrar na sua porta de madrugada e vomitar no seu tapete. Sacou uma faca e o ameaçou.

O ano é 2077. Você está sendo processado por tentativa de homicídio. Seus vizinhos aproveitaram a situação para alegar às autoridades que você não tinha mais condições de viver sozinho. Estão te arrastando pra um asilo e gritar não melhorou sua situação.

O ano é 2077. Você está velho, fraco, feio, sozinho e gagá. Do jeito que o governo gosta. Hoje aprovaram um “ato de misericórdia” para te poupar do fardo de viver em tais condições e você não tem nem ideia do que está acontecendo pois te doparam pra parar de encher saco.

O ano é 2077. Você está recebendo uma injeção enquanto dorme. Não acordou do sono. Cremaram seu corpo e jogaram suas cinzas em qualquer canto sem cerimônias. Todas aquelas coisas bonitas e caras que acumulou durante a vida foram tomadas e seus bichinhos de estimação sacrificados.

O ano é 2077. Qual era teu número de identificação mesmo? Já não importa.


#Marcos Franthesco

Santa Joana D’ Arc, Jet Li e a Natureza Humana

 
Dado a influência olavette neoconservadora entre os católicos, aliado a nosso clima tropical, está em moda certo modelo de personalidade destemperada, caracterizado por uma agressividade irracional, um voluntarismo imbecil, uma valentia sem frutos. Importa ofender a todos, atacar sem piedade, não apenas “inimigos” são alvo do ataque, mas até amigos e aliados são vitimados por tal grosseria. Não raro nos causa escândalo com o modo com que tratam o Papa e os bispos. Este descontrole emocional passa longe do ideal cristão, cuja uma feliz expressão encontrei na obra do cineasta Robert Bresson, no filme O Processo de Joana D’Arc.

A frieza do filme de Bresson é cativante; condenada injustamente, a santa não se exalta, não levanta a voz, não xinga seus inimigos, mas igualmente o porta-se com nobreza; não implora por sua vida, responde o que deve responder, aquilo que não quer falar não fala, não mente. Em cada cena do processo vemos uma santa coragem, apoiada não nas paixões, mas na razão e na graça. Todavia, se transparece a força do Espírito, este não se sobrepõe a natureza humana que também manifesta sua fraqueza. Longe de seus acuadores, no silêncio de sua cela, Joana chora, ante a morte chega até mesmo a renegar suas visões para conservar a sua vida, todavia se arrepende posteriormente e uma vez mais é encaminhada a fogueira onde será o martírio. O drama é vivido em toda a sua intensidade, mas sem o descontrole passional tão abjeto, vicioso e popular nestas terras incivilizadas. Para quem conhece a escritura, é impossível não ver os análogos entre a conduta de Santa Jona D’ Arc ante a inquisição e os diálogos entre Cristo e Pilatos nos momentos que precederam sua crucifixão.

O filme também contrasta com as tolices chinesas; em O Beijo do Dragão, e nos demais filmes protagonizados por Jet Li é notável a recusa de se lidar com a fragilidade humana. É sempre a mesma babaquice: um protagonista perfeito e inexpressivo que quebra os vilões e realiza as mais inumanas acrobacias, tudo isso sem nenhum drama interno, sem nenhuma dúvida, nenhum processo de crescimento espiritual, nada. Neste sentido, tendo em vista o microcosmo dos filmes “de luta”, as obras protagonizadas por Jackie Chan são muito mais maduras, sendo a mítica perfeição do protagonista abandonada em favor do humor do homem que consegue rir de si mesmo, tornado as histórias psicologicamente mais verossímeis. Ainda sobre os chineses, talvez o aspecto humano de Cristo seja aquilo que mais os intriga. Foi preciso a encarnação de Deus em natureza humana para ensinar a esse povo cabeça-dura o que é humanidade e fazer com que abandonem suas pretensões gnósticas de divinação (ora manifestas na mística shaolin, ora na monstruosidade maoísta).

A graça age sobre a natureza, natureza esta que deve ser ordenada, conduzida pela razão e pelo Espírito, não arrastada pelas paixões desordenadas. Isso não significa que seja possível transcender a humanidade,e abandonar por definitivo as fraquezas de nossa natureza, mas que apesar de nossa frgilidade, por auxílio da graça, com Cristo venceremos! Se maus filmes e maus exemplos adoecem nosso imaginário e pervertem nossa conduta, um bom filme é como um santo remédio contra os erros de uma civilização confusa e um povo destemperado.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Digital Index


Faz parte da Tradição Católica a realidade de que há escritos inspirados. Os autores sacros responsáveis pelo conteúdo da Bíblia Sagrada receberam auxílio do Espirito Santo, e o carisma de inerência nas verdades de Fé manifestas. Vemos, em especial, no livro de Ezequiel e no Apocalipse de São João que Deus enviou seus anjos para comunicar-lhes visões e revelações. Se os anjos podem comunicar-se aos homens, não poderiam também o fazer os demônios? A própria escritura nos alerta a respeito de tal perigo, em Gl 1,8. A conclusão imediata, é que, como há livros inspirados por Deus, também existiram panfletos infernais inspirados diretamente pelo Diabo.

Richard Wurmbrand demonstra como Karl Marx, pai do comunismo era um homem nefando que flertava com o satanismo. De que outro modo senão por influência demoníaca poder-se-ia explicar que as ideias de tão infeliz pensador tenham ecoado a longo dos séculos confeccionando regimes tirânicos e assassinos, responsáveis pelo maior morticínio da história humana? Quantas vidas não teriam sido poupadas caso um controle da imprensa viesse a limitar o alcance do pensamento marxista e sua penetração sobre os incautos?

Ao longo da história a Igreja Católica por meio do Index Librorum Prohibitorum alertava seus fiéis a respeito daquelas publicações que poderiam vir a representar um grave risco as almas e a civilização. Todavia, de tal modo cresceram o volume das publicações, que tal instrumento, uma simples listagem, tornou-se obsoleto, até que veio a ser abolido, por influência de um crescente liberalismo intraeclesial, durante o pontificado de Paulo VI.

Imaginemos, pois, que em um futuro longínquo, fosse novamente possível manter certa vigilância sobre a literatura. Como em tempos de extrema facilidade de publicação e difusão? Pensemos em um Digital Index. Um sistema online de crítica e classificação literária, cinematográfica, e televisiva (pois hoje se difundem ideias perversas por meios diversos); tal sistema seria alimentado por uma massa de especialistas, teólogos morais espalhados por todo o universo, que emitiriam seus juízos a respeito da periculosidade de diversas obras, bem como indicariam seus remédios (aquelas publicações cujo a verdade é manifesta de modo claro em oposição ao erro proposto). Com a posse de tais dados, os fiéis, bem como os responsáveis pela educação civil e eclesial, teriam a disposição uma vasta crítica, de modo que poderiam melhor discernir sobre a pertinência de alimentar seu imaginário com tal ou qual obra. Igualmente, as autoridades competentes poderiam vir a tomar medias afim de dificultar a difusão daquelas obras que viessem a apresentar um perigo para o bem comum. Tais medidas poderiam variar como a queima de livros, ao uso de hackers governamentais, ou um complexo sistema de contra-propaganda, de modo a facilitar as massas o contato com o remédio para a melhor dissipação de tal ou qual doutrina errônea.

Em tempos de libertinagem absoluta, porém, tal sistema parece para alguns um sonho (para outros um pesadelo) demasiado distante. E a luta para barrar conteúdos pornográficos e ignóbeis na Educação Infantil, como a monstruosa ideologia de gênero, já se mostra extremamente árdua. De todo o modo, rezemos e trabalhemos para Deus ponha freio a marcha das mentiras infernais

segunda-feira, 17 de junho de 2019

O Ministério da Princesa


Se uma restauração nobiliárquica se faz necessário, afim de estabelecer outros parâmetros de valoração social, a existência de tal instituição em um contexto de hiperexposição midiática levanta algumas questões. Imaginemos uma princesa, a filha de um monarca, neste degenerado cenário pós-moderno. Se a imaginação do leitor não chega a tanto, basta recuar algumas décadas e observar a vida da finada princesa Diana. Que era desta mulher senão um show de vulgaridade? Que diferia está de qualquer celebridade infeliz? Diz o escritor inglês Theodore Dalrymple:

Diana é uma de nós: alcoólatra, dependente química, depravada, cleptomaníaca, agorafóbica, anoréxica, ou qualquer uma das milhares de diagnoses encontradas no Manual Diagnóstico e Estatístico da Associação de Psiquiatria Americana.

(...)

A outra qualidade que fez de Diana a princesa do povo foi, sem dúvida, a extrema banalidade de seus gostos e prazeres. Como ela mesma era a primeira a admitir, nunca fora particularmente inteligente, pelo menos no sentido intelectual do termo, embora fosse bastante intuitiva. Descontando o seu refinamento em moda, suas preferências eram comuns; em outras palavras, ela não era uma ameaça para os homens e as mulheres nas ruas, os quais sabiam que os gostos dela eram iguais aos seus, e que vivera da mesma forma que eles viveriam caso ganhassem na loteria. Mesmo sua afeição para com os pobres e desafortunados do mundo correspondia ao sentimento que as pessoas comuns sentem, de tempos em tempos. Nesse sentido, sua semelhança com Eva Perón, que abraçava os mais desfavorecidos em frente às câmeras e aos fotógrafos, é bastante notável, como também a similaridade da aura de santidade conferida pelo público - de forma um tanto inadequada —, depois de sua morte igualmente prematura.

Que os gostos dela fossem, apesar de ter recebido uma educação privilegiada, absolutamente banais e plebeus ficaram evidentemente atestados durante o funeral, quando Elton John entoou sua canção sentimentaloide, logo após o primeiro-ministro ter lido as magníficas palavras de São Paulo, em Coríntios. Foi altamente apropriado (e simbólico) que esse tolo lúgubre, com seu implante capilar, cantasse uma versão reciclada de uma música inicialmente dedicada à memória de Marilyn Monroe - uma celebridade que ao menos batalhou o próprio espaço no mundo, e que também fez alguns filmes dignos de nota. “Goodbye, Englands rose”, ele entoou com um sotaque norte-americano, e que diz muito sobre a perda de confiança na cultura britânica, “from a country lost without your soul”. [1]

Em um contexto católico arqueofuturista este tipo de conduta seria inadmissível. As filhas da realeza devem prestar um serviço espiritual a pátria. A princesa deveria receber uma educação contemplativa desde a tenra idade, ter uma intensa vida de oração e destacar-se por sua pureza, piedade, modéstia e devoção. Deveria abster-se da exposição midiática, cultivando o silêncio e descrição, renunciando também o contato com o profano, o vulgar e obanl; isto é o nojo de uma cultua mundana. Ao chegar a idade adulta, poderia escolher entre o sagrado matrimônio e a vida na clausura, conservando sempre as virtudes apreendidas na juventude. Condutas inadequadas e imorais deveriam ser punidas com o desterro, e perda do título de nobreza, o rebaixamento ao estado plebeu.

A monarquia católica não precisa de uma nobreza pop, de princesas vulgares, patricinhas, celebridades que nada diferem em virtude de uma qualquer. Antes, precisamos de santas! Aliás, uma santa princesa a orar pelo governo de seu pai e a prosperidade em seu reino exerce um verdadeiro ministério, um sublime serviço a nação.

[1] Theodore Dalrymple. Nossa cultura... ou o que restou dela; Cap. 17. A Deusa das Tribulações Domésticas.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Manual de Sobrevivência ao Mundo Futuro


Para qualquer um com o mínimo de discernimento está claro que o ocidente pós-moderno está em um nível de degeneração tal que sua própria existência civilizacional (se é que podemos chamar isto civilização) já uma catástrofe; e tal catástrofe cresce em progressão geométrica de modo que a cada novo dia a vida do homem no exílio se torna ainda mais insuportável. Há quem acredite que tal cenário possa ser revertido por força política, usando do Estado para tal. Eu não cultivo tais ilusões… A única esperança para está sociedade imunda é um dilúvio de fogo, o castigo profetizado por Nossa Senhora em La Sallete, Fátima e a Akita. Todavia, para nós que vivemos neste interregno, entre o ápice da podridão e o doloroso castigo redentor germe de uma restauração, temos de aprender a sobreviver, conservando a fé, a vida e a razão. Este texto é pouco mais que um rascunho, pretendo esboçar aqui as linhas gerais de uma visão de conjunto dos problemas deste século, bem como os caminhos de uma possível reação para aqueles que estão despertos não sucumbirem ao caos que há de crescer; se o leitor é ainda acredita em ilusões de um modo melhor, este texto soará ridículo. Todavia, o tempo se encarregará de mostrar a verdade, cedo ou tarde…

A crise eclesial é a mais grave doença de nossa época, pois, coloca em risco o destino último de nossa alma imortal. Desde o fatídico Concílio Vaticano II, o alto clero têm traído sua missão, bem como aderido e propagado novidades perniciosas. Se antes o pregador era á voz dar razão, um eco da doutrina divina sobre a terra, hoje o remédio vem misturado ao veneno, e sob a máscara de piedosos ensinamentos, vem nada mais que o palavreado do mundo, as doutrinas perversas, o liberalismo, o pacifismo, o feminismo e tantas outras sandices. Em tal cenário, devemos seguir o conselho de São Vicente de Lérins, nos apegando firmemente a Sagrada Tradição.

O obscurecimento da razão é outro dos graves problemas que ferem nossa era. As mais bizarras tolices invadem todas as esferas da sociedade, por meio das escolas, do entretenimento e do convívio social, o indivíduo é forçado a engolir o lixo do relativismo, a submeter sua inteligência aos caprichos do evolucionismo e do liberalismo, sem falar da maldita revolução sexual e dos demônios marcusianos: tal qual o feminismo e a ideologia de gênero. Tal veneno não corrompe apenas aqueles que se submetem, mas cria uma multidão de mentes perturbadas, responsável pela prática dos mais perversos crimes. É certo que tal massa de birutas não é mais que um efeito indireto dos erros dos poderosos, todavia é um perigo real que ameaça a vida do homem comum e seus familiares. Além de uma resiliência mental e muito estudo para se ver livre da influência de tais doutrinas, faz-se necessário também o treinamento físico e o desenvolvimento de habilidades marciais para defender-se dos crimes perpetrados pelos desajustados, pelos "zumbis" cuja a mente foi destruída por essa sociedade iníqua.

Há que se citar o megadesenvolvimento tecnológico sobre a égide da ideologia liberal, a técnica em si algo neutro, tem sido usada pelos poderosos afim de reforçar seus poderes ditatoriais sobre os pequeninos. Cada vez mais nossa privacidade é violada, a cada novo dia ficamos mais dependentes da tecnológia a de modo que não mais sabemos viver sem ela, sem contar os ecos sociais de tal desenvolvimento manifestos na perda de inúmeros postos de trabalho, na epidemia de fake news e crimes virtuais, etc. Neste sentido, dois são os caminhos aparentemente opostos para se enfrentar o desafio da técnica: por primeiro uma periódica abstinência, afim de quebrar a dependência desta e reaprender a viver sem ela; por outro lado um conhecimento desta, e a busca por uma espécie de democratização tecnológica, onde existam meios do homem comum se defender das bugigangas dos poderosos.

Devemos, também, ter em mente que não somos super-humanos, que precisamos do auxílio de nosso próximo, assim, devemos fomentar uma rede de instituições, além de uma cultura alternativa e um clima de solidariedade entre aqueles que estão despertos e lúcidos ante o caos pós-moderno. Todavia, há de se tomar cuidado para não se deixar seduzir pelas dinâmicas socais intrínsecas aso grupos, tornando-se um escravo dos grupinhos, e cultivando uma mentalidade tribal e sectária.

Tais conselhos gerais devem ser adaptados as realidades locais, tendo em vista que entre o primeiro e o terceiro mundo, entre a capital e o interior, existem nuances e diferenças significativas no que diz respeito ao avanço da degeneração e a o nível de reação.

Por fim, há que se rezar e recorrer aos sacramentos. Sem o auxilio da providencia e as graças sobrenaturais não seremos capazes de sobreviver e manter a lucidez neste mundo iníquo.

terça-feira, 11 de junho de 2019

Eles Vivem: Para além das conspirações

Eles Vivem (They Live) é uma espécie de clichê sci-fi que ganhou involuntariamente o status cult. O filme é elogiado e recomendado por comunistas, anarcocapitalistas, neonazistas, ufologistas e, caso o senhor Kuster tiver algum talento cinematográfico, o será também por católicos (?) no documentário Eles Estão no Meio de Nós. A conquista da simpatia de um público tão heterogêneo se dá pela denúncia da realidade da alienação. Na trama o povo é tratado como gado, governado por uma elite alienígena, e tão somente munidos de lentes especiais (ou estilosos óculos escuros) é que se torna possível ver além das aparências se inteirar da realidade desta conspiração. De algum modo, grande parcela da população mundial se mostra insatisfeita com essa sociedade inorgânica e se sabe manipulada, embora não haja unanimidade a respeito da identidade de quem controla as marionetes; dirão os comunistas ser coisa de uma burguesia fascista, enquanto neoconservadores apontarão para o marxismo cultural, já outros acusam uma conspiração judaica…. Sem contar os malucos que aplicando ipsis litteris o roteiro cinematográfico a realidade, falam sobre um domínio alienígena, os tais dos reptilianos.

Não aqui eu negar a realidade de tais conspirações, mas convido o leitor a ir além do clichê simplista. No filme, a “resistência” se organiza facilmente, e ao fim de uma sequência de tiro, porrada e bomba, os heróis conseguem expor a toda humanidade o julgo ao qual estão submetidos. O problema é que na vida real a coisa não para por aí… Imagino que o leitor deste BunKer já esteja familiarizado com a disputas intraeclesiais envolvendo o Concílio Vaticano II, em caso afirmativo, creio ser desnecessário discorrer sobre a dificuldade de se organizar uma “resistência”, sobre como opiniões antagônicas, egos inflados, sentimentalismo, imaturidade e certa mentalidade de gueto têm impedido a reunião de irmãs de fé em uma luta comum contra abusos heréticos. Se assim o é entre aqueles que professam a mesma fé, imagine com relação aqueles separados por tão grandes abismos culturais, sociais, e religiosos. Outra questão é que a mera denúncia dos fatos não é o fim da luta, de que vale ter o conhecimento sobre determinada conspiração sem os meios de ação para combatê-la? Há tanto se sabe sobre as conspirações maçônicas em todo o mundo, bem como sobre as maquinações do imperialismo norte-americano e do capitalismo financeiro, mas, afinal, o que mudou? Ante a uma perspectiva de reação praticamente nula, são muitos o que escolhem ignorar a verdade e voltar a ilusão, fingir como se nada soubessem, como tudo estivesse normal. Há ainda que se destacar que o despertar, a descoberta de conspirações e sua abrangência não é um processo simples. Não basta as lentes certas, colocar o óculos, e pimba!: É necessário muito estudo, reflexão e oração. O despertar é um longo processo de crescimento e amadurecimento espiritual.

O filme é divertido, mas simplista. Que seja propagado por aqueles que julgam lutar e denunciar supostas conspirações, sem que os pontos que citei sejam aprofundados, só demonstra o quão confuso estão os supostos “despertos”. Há muita mentira neste mundo, mas não é com mero voluntarismo que a verdade há de prevalecer. Sem uma boa dose de inteligência e as graças da Providência, não há como vencer os senhores do mundo sejam eles burgueses, comunistas, judeus ou reptilianos.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

''(...) o mundo os odiou''


7ª Semana da Páscoa - Quarta-feira
Primeira Leitura (At 20,28-38)
Responsório (Sl 67)
Evangelho (Jo 17,11b-19)

A liturgia de hoje traz uma sobrenatural luz de realismo contra as trevas de piedosas ilusões. São Paulo diz que entre os bispos se levantarão hereges a pregar doutrinas perversas: <Sei que depois da minha partida se introduzirão entre vós lobos ferozes que não respeitarão o rebanho. Inclusive do meio de vós sairão alguns que dirão coisas pervertidas, para arrastar atrás de si os discípulos. (At 20, 29-30)>; Nosso Senhor Jesus Cristo nos avisa: <Eu lhes comuniquei a tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, como também eu não sou do mundo. (Jo 17, 14)>; por fim, o santoral nos recorda o martírio de São Bonifácio.

Heresias, ódio, perseguição e morte. Eis os desafios que aguardam a vida do cristão nesse mundo, porque não somos do mundo. Coragem! Temos uma luta pela frente. Não cultivemos ilusões de dias felizes e paz inexistente, mas saibamos Cristo venceu o mundo, os santos venceram o mundo, pela graça de Deus e a força de seu Divino Espírito também nós venceremos!

sábado, 1 de junho de 2019

Catolicismo Liberal - Pe. Félix Sardá y Salvany

Se bem refletimos, a essência íntima do Liberalismo chamado católico, por outras palavras, Catolicismo Liberal, consiste provavelmente apenas num falso conceito do ato de fé.

Segundo o seu modo de pensar, os católicos liberais parecem que fundamentam todos os motivos da sua fé, não na autoridade de Deus, infinitamente verdadeiro e infalível, que se dignou revelar-nos o caminho único que nos há de conduzir à bem-aventurança sobrenatural, – mas na livre apreciação de um juízo individual, que lhes dita ser melhor uma crença, que outra qualquer.

Não querem reconhecer o magistério da Igreja, único autorizado por Deus para propor aos fiéis a doutrina revelada e determinar-lhe o sentido genuíno; antes, arvorando-se eles em juízes da doutrina, admitem a parte que bem lhes parece, reservando-se não obstante o direito de crer na contrária, sempre que razões aparentes pareçam provar-lhes ser hoje falso o que ontem aceitavam como verdadeiro.

Para refutação de semelhante teoria basta conhecer a doutrina fundamental De fide, exposta sobre esta matéria pelo Santo Concílio do Vaticano.

Demais, chamam-se católicos porque creem firmemente que o Catolicismo é a única verdadeira revelação do Filho de Deus; porém chamam-se católicos liberais, ou católicos livres, porque julgam que esta sua crença não lhes deve ser imposta a eles, nem a ninguém, por outro motivo superior, senão o da sua
livre apreciação. Donde resulta que, sem o pressentirem, o diabo lhes substituiu arteiramente o princípio sobrenatural da fé pelo princípio naturalista do livre exame; e assim, ainda que julguem ter fé nas verdades cristãs, não a tem, mas apenas simples convicção humana; o que é essencialmente distinto.

A consequência é que julgam a sua inteligência livre em crer ou não crer, e igualmente livre a de todos os outros.

Na incredulidade, pois, não veem um vício, enfermidade ou cegueira voluntária do entendimento e mais ainda do coração, mas sim um ato lícito da jurisprudência interna de cada um, tão senhor de si para crer, como para não admitir crença alguma. Por isso, coaduna-se com este princípio o horror a toda a pressão moral ou física, que externamente venha, a castigar ou prevenir a heresia; e daí o horror às legislações civis francamente católicas. Daí o respeito sumo, com que entendem dever ser tratadas sempre as convicções alheias, ainda as mais opostas à verdade revelada; pois para eles são tão sagradas quanto errôneas, como quando verdadeiras, visto que todas nascem do mesmo sagrado princípio de liberdade intelectual, em vista do qual se erige em dogma o que se chama tolerância, e se dita para a polêmica católica contra os hereges um novo código de leis, que nunca conheceram os grandes polemistas católicos da antiguidade.

Sendo essencialmente naturalista o conceito primário da fé, segue-se daí que há de ser naturalista todo o seu desenvolvimento no indivíduo e na sociedade. Daí o apreciar-se a Igreja, principal e quase exclusivamente às vezes, pelas vantagens de cultura e civilização que proporciona aos povos, esquecendo e quase nunca citando para nada o seu fim primário sobrenatural, que é a glorificação de Deus e a salvação das almas. Daquele falso conceito aparecem contaminadas várias apologias católicas, que se escrevem na época atual. De sorte que, para essas tais, se o Catolicismo tivesse por infelicidade ocasionado algures um atraso material para os povos, já não seria verdadeira nem louvável, em boa lógica, uma tal religião. E tanto assim podia ser, que, indubitavelmente para alguns indivíduos e famílias tem sido ocasião de verdadeira ruína material a fidelidade à sua religião, sem que ela por isso deixasse de ser coisa muito excelente e divina.

É este o critério que dirige a pena da maior parte dos periódicos liberais, que, se lamentam a demolição dum templo, só apontam nisso a profanação da arte; se advogam as ordens religiosas, não fazem mais que ponderar os benefícios que prestaram às letras; se exaltam a Irmã da Caridade, é apenas em consideração aos humanitários serviços com que suaviza os horrores da guerra; se admiram o culto, é apenas em atenção ao seu brilho exterior e à sua poesia; se na literatura católica respeitam as Sagradas Escrituras, é fixando-se apenas na sua majestosa sublimidade.

Deste modo de encarecer as coisas católicas unicamente por sua grandeza, beleza, utilidade ou excelência material, segue-se em boa lógica que merece iguais louvores o erro, quando reunir tais condições, como sem dúvida as reúne aparentemente em mais de uma ocasião algum dos falsos cultos.

A maléfica ação deste princípio naturalista até chega à piedade, convertendo-a em verdadeiro pietismo, isto é, em falsificação da piedade verdadeira. Assim o vemos em tantas pessoas, que não buscam nas práticas religiosas mais que a emoção, o que é puro sensualismo da alma e mais nada.

Assim aparece inteiramente desvirtuado hoje em dia em muitas almas o ascetismo cristão, que é a purificação do coração por meio do enfraquecimento dos apetites, e desconhecido o misticismo cristão, que não é a emoção, nem a consolação interior, nem alguma outra dessas delícias humanas, senão a união com Deus por meio da sujeição à sua santíssima vontade, e por meio do amor sobrenatural.

Por isso é catolicismo liberal, ou melhor, catolicismo falso, grande parte do Catolicismo usado hoje por certas pessoas. Não é Catolicismo, é mero Naturalismo, é Racionalismo puro, é Paganismo com linguagem e formas católicas, se nos permitem a expressão.

- Pe. Félix Sardá y Salvany. O Liberalismo é Pecado; Cap. VII: Em que consiste principalmente, a razão intrínseca do chamado Liberalismo Católico

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Um filme inspirado...

O cristianismo raiz é o da era apostólica e não o da Idade Média. Não que este seja o "nutella" ou haja alguma perversão da Fé. Somos católicos, cremos que a Fé se perpetua pela história e se conservara inalterada até o fim dos tempos. A vida dos santos o atestam. Todavia, o lugar de destaque da Era Apostólica não deve jamais ficar obscurecido. Aliás, rememorar os tempos de perseguição romana é um santo remédio contra ilusões milenaristas. Dito isto, assistam o filme Paulo, Apóstolo de Cristo. Um filme verdadeiramente inspirado, quase como uma mensagem da Providência para estes tempos confusos, para esta névoa ideológica, para esse boboca que sou eu.

O aspecto mais notável da obra é o lado humano de cada um dos personagens. Tantas vezes temos a impressão de que os santos são uma espécie de super-homem, no filme vemos o apóstolo sofrer com a velhice, preocupar-se por seus amigos, divertir-se ao recordar pequenos episódios cotidianos… O diretor opta por não investir em efeitos especiais avassaladores, de modo que embora se mencione os milagres, estes quase não aparecem, ou quando mostrados, o são de forma discreta. Isso, porém, não significa que a figura do apóstolo, ou de São Lucas Evangelista, fique diminuída, pelo contrário, o foco dado a fragilidade humana torna sua figura ainda mais admirável. De algum modo, isso nos aproxima, nos faz ver que os santos são feitos do mesmo barro com o qual fomos feitos, e traz ânimo a nossa vida espiritual e a confiança na graça.

O retrato da comunidade cristã primitiva também fora fascinante. Vemos o amor que os une, como de fato se tratam como irmãos, o modo como estavam verdadeiramente unidos em Cristo. Em tempos individualistas, tantas vezes perdemos essa dimensão comunitária de nossa Fé, não são poucos aqueles que erroneamente desprezam as riquezas da vida paroquial… Todavia, o que mais me marcou foi o modo como buscavam, acima de tudo, a vontade de Deus. Em meio a perseguição romana, estes hesitam em fugir, antes procurando rezar e discernir se não é da vontade de Deus que eles fiquem e deem seu testemunho ali na capital do Império. O contraste é grande com certa juventude desviada, que desiste de rezar e vai em busca da própria vontade, planejando uma revolta armada contra Nero, revolta esta desautorizada por São Paulo Apóstolo. Confesso que tantas vezes estou mais a escutar minha própria lógica, tal qual a juventude desviada, do que a orar com confiança, como Priscila e Aquila…

O filme procura evitar o impacto visual, o ''gore'', de modo que as cenas de tortura e perseguição a comunidade cristã são tímidas... Ainda assim são suficientes para rememorar o quanto sofreram e sofrem tantos de nossos irmãos e instigar nossa consciência a questionar: “como nós, que vivemos em uma situação relativamente privilegiada, como podemos ser tão ingratos e dramáticos em nossas miudezas?”.

Raras foram as vezes em que a apreciação de um filme me foi tão frutuosa. Paulo, Apóstolo de Cristo é verdadeiramente um filme inspirado e inspirador. Louvado seja Deus por falar as nossas almas de forma tão diversa e criativa!

O Espírito da Verdade


6ª Semana da Páscoa - Segunda-feira
Primeira Leitura (At 16,11-15)
Responsório (Sl 149)
Evangelho (Jo 15,26–16,4a)

No Evangelho de hoje, o Espírito Santo é chamado Espírito da Verdade (Jo 15, 26). Verdade, a docilidade a verdade é uma característica essencial, uma virtude pela qual devemos rogar insistentemente. Infelizmente, nosso mundo não quer a verdade. Não queremos a verdade sobre nós mesmos, a verdade sobre nosso nada, nossa insignificância, antes preferimos as ilusões megalômanas. Não queremos a verdade sobre o mundo, um mundo danado, que irá de mau a pior até a manifestação do anticristo, antes sonhamos com utopias e paraísos políticos. Não queremos a verdade sobre os homens da Igreja, preferirmos varrer para debaixo do tapete tantos pecados, manipulações e mentiras do alto clero, hoje e ontem, numa perversão da apologética.

Roguemos a Deus para que o Espírito nós dê coragem, coragem de fazer perguntas sem medo das respostas, coragem de morrer para o mundo, dissipar as ilusões e viver da Verdade.

sábado, 18 de maio de 2019

Basta de puritanismo!

 
Puritanismo se refere historicamente a certa corrente protestante desenvolvida no interior do já degenerado calvinismo. Embora hoje não mais existam puritanos propriamente ditos, posteriormente, o termo ganhou significados mais amplos, de modo a se referir a uma suposta rigidez moral. Ainda assim, a expressão conserva um caráter polissêmico, sendo utilizado ora como insulto pelos pagãos a todo aquele que por meio de palavras descreve a nojeira a qual eles manifestam em ações, ora para designar certa perversão da teologia moral, uma rigidez injustificada que trata ocasiões neutras como fossem pecados hediondos. Não raro esta espécie de puritanismo promove uma síntese blasfema entre o ensinamento cristão e a moral politicamente correta, de modo que não são poucos aqueles que se escandalizam inflamados contra o cigarro, o álcool, as armas, a violência, a carne vermelha, o sal, e tantos outros alvos da engenharia social pós-moderna.

Além de tornar o cristão chato, essa síntese puritana politicamente correta cria homens fracos e efeminados; ante tal doença espiritual, gostaria de lhes recomendar um inusitado remédio: o cinema dos anos 80 e 90, especialmente a filmografia de Stallone e Schwarzenegger. É sobre isso que pretendo discorrer a seguir, mais especificamente sobre um profético clássico retrowave; falo de O Demolidor (no original Demolition Man).

A premissa é simples: o futuro é uma merda, o politicamente correto impregnou de tal maneira a sociedade que toda forma de violência e agressividade (mesmo verbal) é proibida, além do álcool, cigarro, carne, sal; nesta distopia sci-fi o crime é peça de museu, ou era, até que um antigo criminoso congelado no passado retorna a atividade e a polícia da época, fraca e efeminada, incapaz de lidar com este, é obrigada a trazer também do passado um velho policial casca-grossa. De resto temos aquela boa dose de violência, tiros, explosões, e o herói que fica com a linda mocinha ao final. Apesar da estética futurista, o filme tem muito a dizer aos nossos dias, dias estes em que os chamados justiceiros sociais colocam de fora suas garrinhas totalitárias, usurpando as estruturas da Igreja e do Estado para impor sua moral perversa e absolutamente arbitrária. Assim como o resgate a certo barbarismo viril, a redescoberta da alta macheza, fora no filme essencial para se demolir uma sociedade iníqua, assim nós homens católicos devemos cultivar este espírito viril, não devemos nos submeter a essa falsa moral, mas tão somente aos mandamentos divinamente revelados.

Um dos momentos mais cômicos do filme é a censura da linguagem. Os chamados palavrões; sobre isso gostaria de dissipar algumas confusões. Se, por um lado, os católicos devem evitar a vulgaridade e ofensas de cunho sexual, por outro nada impede o uso de palavras agressivas contra os inimigos da Igreja. Antes, é por vezes, uma obrigação denunciar o lobo, atacar os perversos, resistir aos maus. A este respeito, gostaria de citar São Boaventura, um mestre na arte do insulto, eis como o santo doutor se dirigia a um pérfido heresiarca de seu tempo: “desordenado, vagabundo, impostor, vaso de ignomínia, escorpião vomitado de Bréscia, visto com horror em Roma e com abominação na Alemanha, desdenhado do Sumo Pontífice, celebrado pelo diabo, artífice de iniquidade, devorador do povo, boca cheia de maldição, semeador de discórdias, fabricador de cismas, feroz lobo”.

Em suma, para uma nova cristandade florescer, esta iníqua civilização pós-moderna e sua pseudomoral politicamente correta devem findar. Sejamos, pois, cada um de nós um pequeno demolidor, artífices da destruição do erro, da mentira e da heresia.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Que é o Liberalismo? - Pe. Félix Sardá y Salvany

Ao estudar um objeto qualquer, depois da pergunta an sit?, faziam os antigos escolásticos a seguinte: Quid sit, e esta é a de que nos vamos ocupar no presente capítulo.

O que é o Liberalismo? Na ordem das ideias é um conjunto de ideias falsas; na ordem dos fatos é um conjunto de fatos criminosos, consequência prática daquelas ideias.

Na ordem das ideias o Liberalismo é o conjunto do que chamam princípios liberais, com as consequências lógicas que deles se derivam. Princípios liberais são: a absoluta soberania do indivíduo com inteira independência de Deus e da sua autoridade; soberania da sociedade com absoluta independência do que não provenha dela mesma; soberania nacional, isto é, o direito do povo para legislar e governar-se com absoluta independência de todo o critério que não seja o da sua própria vontade expressa primeiro pelo sufrágio e depois pela maioria parlamentar; liberdade de pensamento sem limitação alguma em política, em moral ou em religião; liberdade de imprensa, igualmente absoluta ou insuficientemente limitada; liberdade de associação com igual latitude. Estes são os chamados princípios liberais no seu mais cru radicalismo.

O fundo comum de todos eles é o racionalismo individual ou racionalismo político, e o racionalismo social. Derivam-se deles a liberdade de cultos mais ou menos limitada; a supremacia do Estado em suas relações com a Igreja; o ensino leigo ou independente sem nenhum laço com a religião; o matrimônio legalizado e sancionado pela intervenção exclusiva do Estado; a sua última palavra, a que abarca tudo e tudo sintetiza, é a palavra secularização, quer dizer, a não intervenção da religião em nenhum ato devida pública, verdadeiro ateísmo social, que é a última consequência do Liberalismo.

Na ordem dos fatos o Liberalismo é um conjunto de obras inspiradas por aqueles princípios e reguladas por eles. Como, por exemplo, as leis de desamortização, a expulsão das ordens religiosas; os atentados de todo o gênero oficiais e extraoficiais, contra a liberdade da Igreja; a corrupção e o erro publicamente autorizado na tribuna, na imprensa, nas diversões, nos costumes; a guerra sistemática ao catolicismo, que apodam com os nomes de clericalismo, teocracia, ultramontanismo, etc., etc.

É impossível enumerar e classificar os fatos que constituem o proceder prático liberal, pois compreendem desde o ministro e o diplomata, que legislam ou intrigam, até o demagogo, que perora no clube ou assassina na rua; desde o tratado internacional ou a guerra iníqua que usurpa ao Papa o seu principado temporal, até à mão cobiçosa que rouba o dote da religiosa, ou se apodera da lâmpada do altar; desde o livro profundo e sabichão que se dá como texto na Universidade ou no Instituto, até à vil caricatura que regozija os frequentadores de taberna. O Liberalismo prático é um mundo completo de máximas, modas, artes, literatura, diplomacia, leis, maquinações e atropelamentos completamente seus. É o mundo de Luzbel, hoje disfarçado com aquele nome, e em radical oposição e luta com a sociedade dos filhos de Deus, que é a Igreja de Jesus Cristo.

Eis aqui, pois, retratado, como doutrina e como prática, o Liberalismo.

- Pe. Félix Sardá y Salvany. O Liberalismo é Pecado; Cap. II: Que é o Liberalismo?

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Paradoxos da Vida Intelectual: Gratidão e Evolução

A vida intelectual (termo que julgo absolutamente inadequado, mas uso na falta de outro melhor) é feita de infinitos ciclos de morte e ressurreição. Renunciar a essa lógica, é perecer na estagnação.

Iniciamos lendo determinado autor, os temo-lo por um sábio, aderimos a tal doutrina, tão logo descobrimos seus erros e somos obrigados a renunciar-lha e afastar-nos daquele que nos instruiu outrora. Muito temos de limpar a mente daquilo que anteriormente aprendemos com pretéritos autores, ao mesmo tempo temos de nos esforçar por guardar algumas poucas pérolas preciosas.

É difícil conciliar este ciclo de destruição e autodestruição com a virtude da gratidão. Se por um lado amamos determinado pensador pelos caminhos que nos abriu, pelos processos que inciou; por outro o odiamos pelos erros que nos legou, pelo fardo que depositou sob nossos ombros, fardo o qual com tanta dificuldades nos livramos.

É preciso frieza e maturidade para lidar com isso, e mesmo assim é complicado, paradoxal. Tanto mais é quando determinado autor foi responsável por iniciar processos que mudaram nossa vida: s nossa conversão ao catolicismo, a nossa introdução a vida intelectual, nosso interesse a determinada área. Quão gratos devemos ser e, ao mesmo tempo, sob pena de não completar os processos inciados, não podemos calar-nos ou fechar os olhos pra seus erros, apegarmo-nos a eles como fossem mestres infalíveis. Só um é o mestre, o Cristo Jesus.

Ao vulgo, tudo isso parece bobagem, mas não é. É uma questão crucial, que determina os rumos que a vida toma e do qual nos será pedido contas no dia do juízo.

Gratidão e evolução (ou desenvolvimento, se preferir, mas optei por conservar a rima), tal paradoxo quem o poderá resolver?

Viagem Apostólica


3ª Semana da Páscoa - Quinta-feira
Primeira Leitura (At 8,26-40)
Responsório (Sl 65)
Evangelho (Jo 6,44-51)

O anjo do Senhor lhe apareceu e, atento a da voz, partiu Felipe ao caminho que leva de Jerusalém a Gaza. Não foi Felipe atrás de ecumenismos, tampouco fazer diplomacia, foi para converter. E assim o fez. Explicou ao etíope as escrituras, este acreditou e foi batizado.

Quão diferente é a viagem de Felipe de tantas viagens ditas apostólicas. Nunca se viajou tanto, todavia se faz por motivos não muito cristãos: paz, diplomacia, ecumenismo, politicagem... São afinal sucessores dos apóstolos, servos de Cristo ou observadores da ONU?

Rezemos pelo clero, para que retorne ao caminho de Felipe e, obedecendo a voz do anjo, vão em busca das ovelhas perdidas. Ah, tantas são as almas que se precipitam no inferno porque não há quem lhes explique as escrituras! Caem nas seduções dos hereges, na lábia dos endemoniados...
Senhor, tende piedade de nós! São Felipe, rogai por nós!

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Não se defende a verdade por meio da mentira


3ª Semana da Páscoa - Segunda-feira
Primeira Leitura (At 6,8-15)
Responsório (Sl 118,23-30)
Evangelho (Jo 6,22-29)

1. Na primeira leitura, extraída do livro dos Atos dos Apóstolos, vimos um pouco da saga de Estevão. O Espírito Santo lhe dava sabedoria, com a qual disputava com os judeus no que diz respeito as verdades de Fé, mas os judeus trapaceiros, incapazes de lhe vencer, recorrem a falsos testemunhos para incriminá-lo. Pode ser que nós, hoje, não estejamos a resistir a santos inspirados pelo Divino Espírito, mas quão triste é ver que tantas vezes, derrotados em disputas intelectuais, irmãos recorrem a falsos testemunhos contra seu adversário. Que Deus nos dê as graças para resistir a este tipo de tentação, não se defende a verdade por meio da mentira!

2. No santo Evangelho, quando interrogado pela multidão a respeito das obras que são do agrado de Deus, <Jesus respondeu e disse-lhes: A obra (do agrado) de Deus é está: Que acreditais naquele que ele enviou (Jo 6,29)>. Sim, a Fé é a primeira das obras, sem a Fé, a fé verdadeira, é impossível agradar a Deus. Todavia, crer ainda não é o suficiente, não basta crer no escondido, ter uma fé oculta, é preciso de a coragem de confessá-la, testemunhá-la, conforme nos ensina o Catecismo Romano:
(...) Quem diz "Creio" exprime a íntima aquiescência da alma, que é o ato interior da fé. Deve, porém, externar com pública profissão a fé que lhe vai na alma, e manifestá-la com a maior expansão de alegria.

Devem os fiéis estar possuídos daquele espírito que levou o Profeta a dizer: "Eu tinha fé, por isso é que falei". Força lhes é imitar os Apóstolos que aos príncipes do povo responderam: "Não podemos silenciar o que vimos e ouvimos" .

Devem entusiasmar-se com a grandiosa declaração de São Paulo: "Não me envergonho do Evangelho, pois é uma virtude de Deus para salvar todo homem crente" ou também, com esta outra palavra: "com o coração se crê para ser justificado; com a boca se faz confissão, para que haja salvação".