sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Ginga Eiyuu Densetsu: Arqueofuturismo e Ciência Política (I)


 A ficção, sobretudo a boa ficção, oferece uma miríade de oportunidades, como em um verdadeiro laboratório estético imaginativo para a confecção de um projeto de futuro. Depois de discorrer sobre alguns elementos e conceitos arqueofuturistas em Code Geass, é hora de deixar a ficção ruim de lado, e explorar este que não é apenas o melhor dos animes, mas uma das mais interessantes narrativas da história da ficção; estarei a tratar de Ginga Eiyuu Densetsu.

Se faz constitui o seleto grupo que conhece e aprecia a obra, meus parabéns! Mas, se faz parte da plebe otaku a qual está obra prima passa por desconhecida, é tempo de deixar a gadisse. Ginga Eiyuu Densetsu ou Legend of the Galactic Heroes não foi feito para as massas, certo nível cultural e intelectual faz-se necessário, temos um roteiro complexo onde maquinações políticas maquiavélicas se misturam a complexas táticas de guerra, protagonizadas por personagens profundo e bem construídos, tudo isso ao som de música erudita. Sim! Nada daquele rockezinho japonês de adolescente, a história se desenrola ao som de Wolfgang Amadeus Mozart!

Yang full pistola ao ler esse meu artigo.

Como premissa de roteiro temos uma guerra espacial entre um império estruturado sob uma monarquia absolutista e uma aliança democrática. O expectador é introduzido neste universo com foco em dois jovens prodígios militares: Reinhard von Lohengramm um nobre de baixa estripe de ambições universais e uma sede insaciável por vingança; e Yang Wen-li, um democrata pacifista de invejável talento tático.

Entre a constelação de ideias sugeridas pelo autor, comecemos pelo aspecto tecnológico. Algo que realmente me encantou foi que a presença de uma verdadeira megalópole no interior da fortaleza militar de Iserlohn. Uma cidade dentro de uma base militar no espaço!! Não têm solo, terra, não têm rios, não há uma natureza original, e lá está uma belíssima cidade!!! A habilidade humana de confeccionar ambientes artificiais é antiga, pensemos nas grandes caravelas, meses de viagem até a chegada dos primeiros exploradores à América; pensemos nos shoppings centers, centros comerciais imensos e absolutamente artificiais;  pensemos nas tecnologias de hidroponia e no conceito de agricultura urbana, onde os viveres alimentícios são produzidos longe da roça. Há um salto gigantesco, sem dúvida, disto para uma megalópole flutuando no espaço, mas ainda assim...Se chegarmos a tal tecnologia, cidades instaladas no meio do nada, portos seguros, oásis no meio da galáxia, que instrumento, que tecnologia, que técnica ao auxílio do homem para a exploração do universo!

Passemos do tecnológico ao social, no que diz respeito a nobreza, em outras oportunidades já tratei dos vícios e potencialidades desta preciosa instituição. Igualmente já discorri sobre os aspectos econômicos e populacionais envolvidos na exploração do universo, mas algo me escapou: a questão militar. Ginga Eiyuu Densetsu mostra-nos o gigantesco contingente militar necessário a conquista do espaço. Resguardar a soberania e patrulhar fronteiras em tempos galácticos exigiria um exército forte e numeroso, veríamos um renascer do protagonismo da casta guerreira e, as dificuldades desta em coexistir pacificamente em um regime democrático, que tende facilmente a a degeneração e corrupção. Aliás, a discussão sobre formas de organização política, democracia, ditadura, monarquia, isto permeia toda a obra e, embora o autor se demonstre um democrata, demonstra grande sinceridade e maturidade na exposição dos argumentos de ambos os regimes.

As nuances envolvidas na relação entre o poder bélico e financeiro também são abordadas de forma magistral, a narrativa mostra como Phezzam maquina a perpetuidade da guerra entre o império e a aliança, escravizando-as por meio de empréstimos usurários. Aliás, a questão financeira, a economia arqueofuturista há de ser pensada cuidadosamente, do contrário poderemos ver nosso sonho neomedieval sufocado pelo grande capital.

Muito ainda há que se dizer sobre as questões levantadas por essa obra-prima, porém, encerro por aqui afim de retornar em outra ocasião.

Eu depois de assistir a primeira temporada do anime.

Nenhum comentário:

Postar um comentário