quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Herética Irresponsabilidade


Além de colocar em risco o destino último d’alma, o que já é por si mesmo suficientemente problemático, a heresia também obscurece o raciocínio, destruindo-nos a vida. Pensemos um pouco sobre os erros intraecleaiais mais comuns em nossa pátria, a saber: a Teologia da Libertação e o Neopentecostalismo “Católico” (ou carismatismo). Apesar de diferenças substanciais que as colocam quase que em polos opostos (de um lado o materialismo marxista da TL, no outro extremo as superstições do pseudomisticismo gospel carismático) ambas as degenerações tem algo em comum: a diluição da responsabilidade individual.

Sua vida vai mal? Não se preocupe, a culpa não é sua, é do sistema, desse capitalismo malvadão, desses malditos opressores, do machismo, do conservadorismo, ou qualquer outro destes demônios laicos que povoam o imaginário esquerdista; eis a narrativa TL! A responsabilidade individual se dilui numa suposta culpa coletiva, o indivíduo é vitimizado, o pobre tornar-se um novo Cristo, imaculado, injustamente crucificado pelas maquinações dos poderosos. Mas não é assim, a começar todos, ricos e pobres, somos responsáveis por pecados abomináveis. Não existem inocentes. Cristo era inocente, os homens de maneira alguma. Todos nós fazemos o mal, o mal a nós mesmo, o mal ao nosso próximo, ao nosso próximo mais próximo. O marxismo eclesial erra gravemente no que diz respeito a seu juízo sobre a natureza humana. Não apenas isso; é verdade que existem limitações ao desenvolvimento humano dadas ao coletivo, ao sistema (apesar de que este sistema é construído pelos mesmos homens….), todavia mesmo dentro destas limitações sistêmicas há uma grande margem para o crescimento individual, uma gama de oportunidades abertas, que são simplesmente ignoradas, muitas vezes culposamente ignoradas. O pobrezinho, o oprimido, tem sua parcela de culpa, culpa por acomodar-se e vitimizar-se com a fraqueza, o fraco deve tornar-se forte, o ignorante deve estudar para alcançar a sabedoria e não simplesmente ficar a lamentar e esperar que tudo cai do céu, que o sistema, o coletivo, venha a saciar todas as suas necessidades.

Se para a heresia da libertação a culpa é do sistema, para o carismatismo é coisa do demônio. Há uma hipertrofia delirante da ação demoníaca sobre o mundo. Se estou doente, é culpa do demônio; se meu casamento vai mal, é alguma maldição; se tenho dificuldades financeiras, fui vitima de macumbarias. O ser humano torna-se assim um joguete nas mãos de forças cósmicas incontroláveis. Ensina Santo Agostinho: “O demônio é como um cão preso na coleira, Cristo o prendeu; só morde quem dele se aproxima”; sim o demônio existe, e age sobre o mundo, mas o faz sobretudo por meio da tentação, sua ação do mundo material é limitada pelos desígnios divinos. No mais das vezes, nossos problemas nossos pecados, nossa ignorância, nossa tolice.

A fé católica, a reta ortodoxia, nos livra desse tipo de tolice disfarçada sob a verborreia clerical. Somos criaturas corrompidas e não pobres vitimas, é preciso que empreendamos um combate, sobretudo interno, afim de ordenar nossas paixões, nossos pensamentos; dirigir nossas ações; afastar -nos da dupla obscuridade em meio a qual nascemos: o pecado e a ignorância; somos responsáveis por nossas ações e no mais das vezes culpados de nossa sorte, cabe-nos a maturidade para lidar com isso, ao invés de recorrer a escapismos consoladores, atribuindo ora ao demônio ora ao sistema a responsabilidade de nossos próprios pecados.

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