domingo, 31 de março de 2019

"Gratum faciens" et "Gratis data"

''Tudo o que vem de Deus vem sendo feito de modo coordenado.'"

A criação de Deus é hierarquia; não só Deus governa pessoal e diretamente os seres, mas ainda Ele quis comunicar às suas criaturas essa perfeição, essa grandeza, para que elas fossem também ativas e providen­tes umas para com as outras. Isso é verdade na ordem da natureza e é verdade na ordem da graça; também a ordem sobrenatural é uma hierarquia.

É mister, portanto, dizer que a conversão e união a Deus - que são toda a razão de ser e toda a essência da graça - se realizam de dois modos: sem intermediário, quando Deus age só no íntimo d’alma; e indiretamente, quando Deus usa dum instrumento que Ele escolheu para operar a salvação dos homens.

De modo que existe dupla graça; uma pela qual o homem fica unido individual e imediatamente a Deus, é a graça Gratum faciens, e outra pela qual coopera com alguém para converter; é a graça Gratis data"' (graça dada para bem dos outros).

Chama-se a primeira Gratum faciens, porque santificando aquele que a recebe e a conserva, torna-o agradável a Deus.

Não se chama a segunda Gratum faciens, porque, por meio dela, o homem que a recebe, não a recebe para a sua própria justificação (volta ao estado de graça) e santificação, mas para a justificação e santificação dos outros.

Chama-se gratis data" porque é gratuita inteiramente e por dois modos: pelo primeiro modo, porque ela está acima das forças da natureza, cujas leis ultrapassa; é a força que faz o profeta; pelo segundo modo ela não tem relação com o mérito da pessoa a quem é concedida.

Como diz S. Paulo, é concedida para utilidade comum.

Essa doutrina, tão clara, tão simples, é a luz que ilumina todo o tratado da Inspiração na Suma Teológica. Logo de início, santo Tomás coloca a profecia, isto é, a inspiração, na categoria das graças Gratis data"' (concedida para o bem dos outros). Mais em baixo, ele faz apelo para essa doutrina, para resolver um caso difícil, aquele precisamente de que estamos falando: o caso dum profeta que não é santo: "A profecia é dada para o bem dos outros e da Igreja".

Ele já dissera no tratado "De Veritate" (Da Verdade), questão 12, art. 5: "A profecia é concedida para bem da Igreja e não para bem do próprio profeta". Sustenta a mesma tese, em termos iguais, na Suma contra os Pagãos (livro III, pág. 154-155).

É portanto nele, ideia sólida, uma convicção firme e sempre mantida. Aliás, tradicional, sempre afirmada desde S. Paulo.

Pe. Dr. Simão Baccelli; Conheçam la Salette; pág. 173-174.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Remédios externos contra a Impureza

Agora, vamos tratar dos remédios externos contra a impureza. 

3. Meios externos de castidade:

a) fuga do ócio e intemperança...

[10] Em primeiro lugar, é preciso fugir absolutamente da ociosidade. Conforme se lê nas profecias de Ezequiel, foi o ócio que embruteceu os habitantes de Sodoma e os precipitou naquele imundíssimo crime da mais abjeta devassidão.

Depois, devemos esforçar-nos por evitar a intemperança. “Eu os saciei, diz o Profeta, e eles cometeram adultério". A razão é porque o ventre cheio e saturado provoca a sensualidade. Nosso Senhor nos faz a mesma advertência : “Guardai-vos, pois, de agravar vossos corações com excessos de comida e bebida" . E o Apóstolo também diz: “Não vos embriagueis com vinho, pois nisso há luxúria"

….dos olhares indiscretos

Muita s vezes, são sobretudo o olhos que ateiam a luxúria no coração. A isso alude aquela palavra de Cristo Nosso Senhor: "Se teu olho te for ocasião de pecado, arranca-o e lança-o para longe de ti". Inúmeras são, aliás, as passagens dos Profetas que redundam na mesma doutrina. Por exemplo, o que dizia Jó: "Ajustei com os meus olhos, para que nem sequer me acudisse a lembrança de urna virgem". Muitos também, e quase inumeráveis, são os exemplos de desgraças que tiveram sua origem na fixação de um olhar. Assim pecou Davi , assim pecou o principie de Siquém; do mesmo modo delinquiram também os anciãos, que caluniaram Susana.

...dos requintes da moda

[11] Por sua vez, os requintes da moda agradam muito à vista, mas provocam não raro tentações impuras. Por isso mesmo, adverte o Eclesiástico: ''Afasta teus olhos da mulher que estiver ataviada”. Ora, · como as mulheres se comprazem em adornos exagerados, será de bom aviso que o pároco, de vez em quando, as advirta e repreenda naqueles termos rigorosos que o Apóstolo São Pedro empregou, quando falava desta matéria “ O adorno das mulheres não consista em exterioridades : cabelos armados, adereços de ouro, gala e luxo nos vestuários". São Paulo também insiste em que elas não andem "com cabelos frisados, com joias de ouro, com pérolas e ricos vestidos". Na verdade, muitas mulheres que se adornavam com ouro e pérolas, perderam a formosura da alma e do corpo.

...das conversas, cantigas e bailes torpes

A esta provocação de luxúria, proveniente do exagero no trajar, acresce outra que são as conversas torpes e obscenas . As palavras obs­cenas são como um facho que põe a arder o coração dos adolescentes. “As más conversas, diz o Apóstolo, corrompem os bons costumes".

Piores efeitos, ainda, surtem as cantigas e os bailes sensuais e voluptuosos. Devem, pois, ser evitados com o maior escrúpulo.

...do livros e imagens obscenas

Nesta categoria entram também os livros obscenos e romances amorosos. É um dever evitá-los, bem como as imagens indecentes, porque tais coisas arrastam, com a maior violência, a prazeres sensuais, e inflamam para o mal o coração dos jovens.

O pároco por sua vez, obrigar-se-á a cuidar, antes de tudo, que a respeito de imagens sejam estritamente observadas as santas e respeitáveis determinações do Sacrossanto Concilio de Trento.
Havendo, pois, grande zelo e vigilância em se evitarem os perigos que acabamos de apontar, desaparecem quase todas as ocasiões para os desmandos da luxúria.

b) uso frequente dos Sacramentos

[12] Mas a maior força para a sua repressão está no uso frequente da Confissão e da Eucaristia; depois, nas assíduas e fervorosas orações a Deus, acompanhadas de esmolas e jejuns. Pois a castidade é uma graça, que Deus não nega a quem a pede com as devidas disposições. Além do mais, Ele não permite que sejamos tentados acima de nossas forças.

c) obras de mortificação

[13] Devemos, entretanto, exercer o corpo não só por meio de jejuns, preferindo os dias instituídos pela Santa Igreja, mas também por vigílias, piedosas romarias e outras espécies de mortificação. Devemos, pois, sofrear a petulância dos sentidos. Nestas e noutras práticas semelhantes é que mais se manifesta a virtude da temperança.

No mesmo sentido escrevia São Paulo aos Coríntios : “Todos aqueles que lutam na arena, fazem abstinência em toda s as coisas. Eles assim procedem, para conseguirem uma coroa que murcha; nós, porém, (lutamos) por uma coroa incorruptível" . Mais adiante diz ele: "Castigo o meu corpo, e o reduzo à escravidão, para que, depois de haver empregado a outros, não seja eu mesmo condenado como réprobo". E noutro lugar : "Não ceveis a carne em favor da má concupiscência" . 

Catecismo Romano; III Parte: Dos Mandamentos; VI. 6° Mandamento; pág. 449-450.

Santos Proibidos

O martírio de São Domingos de Saragosa
Ontem foi o dia de São Simão de Trento, um garoto de pouco mais de dois anos martirizado em rituais de magia negra judaica conhecidos por libelo de sangue. O caso de São Simão é emblemático sobretudo pelos esforços recentes da hierarquia pós-conciliar em suprimir seu culto e apagar da mente dos fiéis a marca de sua existência, mas, além de Simão há diversos outros jovens santos vitimados de maneira semelhante e igualmente ostracizados por certa agenda; são eles:
  • Santo André de Lucens, morto em 1198;
  • São Domingos de Saragoça, morto em 1250;
  • São Hugo de Lincoln, morto em 1255;
  • Santo Werner de Wessel, morto em 1286;
  • Santo André de Rinn, morto em 1430;
  • São Nino de La Guarida, morto em 1490;
  • São Joannet de Colônia, morto em 1745.

sexta-feira, 22 de março de 2019

''(...) vos será tirado o reino de Deus''


2ª Semana da Quaresma - Sexta-feira
Primeira Leitura (Gn 37,3-4.12-13a.17b-28)
Responsório (Sl 104,16-21)
Evangelho (Mt 21,33-43.45-46)

1. <Por isso, vós digo que vos será tirado o reino de Deus, e será dado a um povo que produza os frutos dele (Mt 21, 43)>; fora dito aos fariseus, aos judeus, assim lemos no Evangelho de hoje. Mas, você não tem medo, caro leitor, que isso também a nós se aplique? Quando findar a paciência do Senhor para com o nosso povo, para com o Brasil, o reino de Deus nos será retirado. Que é o Brasil sem a Cruz? Um inferno tropical de monstros canibais. Tenho ouvido falar por aí de patriotismo, o maior ato de patriotismo para com o Brasil é trabalhar para que esta terra frutifique no Evangelho. É rezar e agir pelo fim das heresias, pela extinção do paganismo, pelo socorro aos pobres, pela purificação dos costumes e a conversão das almas; tudo o mais são miudezas.

Senhor tende paciência conosco...

2. Hoje é dia da água, essa irmã preciosa e casta, que sacia a sede e refresca o corpo, sobretudo nestas terras tropicais. De modo análogo refresca também a alma, onde pelo sacramento do Batismo recebemos a graça da filiação divina, que dá cores e alegrias a nossa vida, substituindo a monotonia insana de trabalhos e ilusões deste desterro abaixo do sol.

A água é pura, simples e casta. Mas nós pecadores iníquos insistimos em despejar sobre ela nossa imundice. A poluição dos rios é uma boa analogia a profanação do corpo, bem como a sujeira de tantas almas. Como a nojeira do Tietê na metrópole paulista, assim se encontram tantas almas de espíritos que como porcos estão a chafurdar no pecado e na iniquidade.

A água pode ser tratada, todo aquele lodo transformado em adubo. Nossa alma, pela santa confissão, também pode ser purificada, e a memória e dor do pecado de outrora, também pode servir de adubo espiritual, frutificando em obras de penitência e reparação.

quinta-feira, 21 de março de 2019

Devaneios Autobiográficos


Aqui onde moro o frio é coisa rara; aparece durante três ou quatro dias em Julho ou Agosto, logo some. A temperatura fica nas demais estações pouco se afasta dos 30 °C; a própria arquitetura reflete esse extenuante calor tropical; as igrejas ostentam cores fortes, o povo fala alto, no paisagismo urbano, secos coqueiros em meio a um gramado, que quando mal cuidado vira um pesadelo de plantas daninhas. Baratas, com frequência saem dos esgotos. A chuva, mesmo a chuva, nada tem de poético; fortes pancadas e bravas ventanias nas tardes quentes de verão. Para uma personalidade fleumática, não há ambiente pior. Ou talvez esteja sendo hiperbólico. Imagino que tais características tropicais combinadas com a agitação metropolitana, como o é no Rio de Janeiro, configure perturbação infinitamente maior.

Talvez, como uma reação adversa ao clima inóspito, tenha eu desenvolvido uma espécie de senso de humor desloucado. Essa veia cômica, esse gosto pela zoeira, isso não me é inato, veio na adolescência, como um mutação uma defesa para esta exótica planta temperada perdida no cerrado tropical. Planta temperada em clima tropical, não deixa de ser cômico.

A invenção da poesia brasileira
Ribeiro Couto

Eu escutava o homem maravilhoso,
O revelador tropical das atitudes novas,
O mestre das transformações em caminho:

"É preciso criar a poesia deste país de sol!
Pobre da tua poesia e da dos teus amigos,
Pobre dessa poesia nostálgica,
Dessa poesia de fracos diante da vida forte.
A vida é força.
A vida é uma afirmação de heroísmos quotidianos,
De entusiasmos isolados donde nascem mundos.
Lá vai passando uma mulher... Chove na velha
praça...
Pobre dessa poesia de doentes atrás de janelas!
Eu quero o sol na tua poesia e na dos teus amigos!
O Brasil é cheio de sol! O Brasil é cheio de força!
É preciso criar a poesia do Brasil!"

Eu escutava, de olhos irônicos e mansos,
O mestre ardente das transformações próximas.

Por acaso, começou a chover docemente
Na tarde monótona que se ia embora.
Pela vidraça da minha saleta morta
Ficamos a olhar a praça debaixo da chuva lenta.
Ficamos em silêncio um tempo indefinido...
E lá embaixo passou uma mulher sob a chuva.


Publicado no livro Um Homem na Multidão (1926).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.110

segunda-feira, 18 de março de 2019

#Notas: Identidade Nacional

1. Que é o brasileiro? Que é esse povo a qual pertenço? Somos como selvagens adotados por Portugal , educados pela Igreja. Portugal é nosso pai adotivo, a Igreja nossa Mãe e Mestra. Mas, tão logo nosso pai nos deixou...Separamo-nos de Portugal que voltou ao além mar, e, ainda crianças, ainda não purificados de nosso passado selvagem, dos maus costumes de outrora, ficamos sozinhos. Sem pai, este povo agora na adolescência é como um delinquentezinho. Aqueles que ainda escutam a Mãe não degeneraram de todo, mas muitos se fazem surdos aos conselhos da Igreja, acabam entrando a gangues e aderindo a modismos da vizinhança problemática, se tornando ainda piores.

Mesmo que nosso pai volte um dia do além-mar, não somos mais crianças...Entramos na puberdade, perdemos a inocência dos primeiros tempos. Não é possível trazer de volta o passado, não mais seremos aquilo que Portugal sonhou para nós, mas nessa busca da própria identidade, nesse escrever os próprios caminhos, não devemos esquecer o rosto de nosso pai.

2. Não somos guerreiros como nosso tios da Espanha, nem desbravadores como nosso pai Portugal; mas essa delinquência selvagem, este primitivismo, o tal do jeitinho brasileiro, essa ginga , essa malandragem; isso faz parte de nossa identidade. Não devemos rejeitá-la, mas trabalhá-la; ordená-la, transformar a molecagem em astúcia, sem esquecer da simplicidade das pombas. Coloquemos nossos talentos e serviço de nossa mãe a Igreja, sem esquecer os modos civilizados e a disciplina que nos ensinou nosso pai Portugal.

3. O modo como Vargas enganou todo mundo enganou todo mundo, Eixo e Aliados; ali está uma expressão dessa nossa alma astuta, da esperteza tipicamente brasileira.

4. Portugal é nosso pai e a Igreja é nossa mãe. Mas tem uns bobocas desnaturados que querem substituir o pai pelo Tio Sam e a Santa Madre Igreja pela Mãe Rússia. 

5. Os países latino americanos são nossos parentes. Temos ambos a Igreja como mãe, mas eles são gêmeos entre si e não conosco. Nossa integração com eles é relativa e não tem a mesma organicidade que a integração entre eles.

6. O viralatismo nasce de uma crise de identidade. Quem não sabe o que é, quer ser o que não é. Mas só se consegue ser a si mesmo; a cópia inorgânica da imagem alheia não passa de uma bizarrice carnavalesca.

sábado, 9 de março de 2019

Mindfulness (Atenção Consciente)


Sherlock Holmes é um personagem encantador. Há gerações tem despertado a curiosidade e admiração de muitos leitores, além de inspirar adaptações em diversas outras mídias. Seria, porém, sua habilidade dedutiva, sua agudez mental, mera ficção? Segundo Maria Konnikova é possível de alguma maneira intuir o método de Holmes e, por meio de sua imitação, aprimorar nossa capacidade de raciocínio. Interessante, não? Quão longe pode o homem levar suas habilidades por meio de um rigoroso treinamento e uma severa disciplina? Compartilho com o leitor alguns aspectos deste método descrito em "¿Cómo pensar como Sherlock Holmes?" :

Los escalones del 221B de Baker Street. ¿Cuántos había? Esa es la pregunta que hace Holmes a Watson en «Escándalo en Bohemia», la pregunta que nunca he olvidado. En el fragmento que sigue el detective explica al doctor la diferencia entre ver y observar. Al principio Watson está confundido. Pero luego, de repente, todo le queda claro.

—Cuando le escucho explicar sus razonamientos —comenté —, todo me parece tan ridículamente simple que yo mismo podría haberlo hecho con facilidad. Y, sin embargo, siempre que le veo razonar me quedo perplejo hasta que me explica usted el proceso. A pesar de que considero que mis ojos ven tanto como los suyos.
—Desde luego —respondió, encendiendo un cigarrillo y dejándose caer en una butaca—. Usted ve, pero no observa. La diferencia es evidente. Por ejemplo, usted habrá visto muchas veces los escalones que llevan desde la entrada hasta esta habitación.
—Muchas veces.—¿Cuántas veces?
—Bueno, cientos de veces.
—¿Y cuántos escalones hay?
—¿Cuántos? No lo sé.
—¿Lo ve? No se ha fijado. Y eso que lo ha visto. A eso me refería. Ahora bien, yo sé que hay diecisiete escalones, porque no solo he visto, sino que he observado.

Cuando oí esta conversación por primera vez, en una de esas veladas al calor de la lumbre y envueltas en humo de pipa, me quedé impresionada. Intenté recordar con afán los escalones que había en nuestra casa (no tenía ni la menor idea), cuántos llevaban hasta la puerta principal (no lo podía recordar), cuántos hasta el sótano (¿diez?, ¿veinte? No sabría decirlo). Después, durante mucho tiempo, fui contando escalones y peldaños siempre que podía, guardando el número en mi memoria por si alguien me lo preguntara alguna vez. Holmes se habría sentido orgulloso de mí.

Naturalmente, enseguida me olvidaba de esos números que con tanta diligencia intentaba recordar y no me di cuenta hasta más adelante de que el hecho de haberme centrado tanto en memorizar quería decir que no había entendido nada. Mi empeño estaba condenado al fracaso desde el principio.

Lo que entonces no podía entender era que Holmes tenía una ventaja muy grande sobre mí. Durante la mayor parte de su vida había estado perfeccionando un método de interacción consciente con el mundo. ¿Los escalones de Baker Street? Una simple manera de hacer alarde de una habilidad que entonces le era tan natural que no le exigía ni pensar. Una manifestación trivial de un proceso que su mente siempre activa desplegaba de una manera habitual, casi inconsciente. Un truco que, si se quiere, carecía de verdadera importancia, pero con unas implicaciones muy profundas si nos paramos a considerar qué es lo que lo hacía posible. Un truco que me ha inspirado para escribir un libro en su honor.

La noción de mindfulness (término que en este libro se irá alternando con «atención consciente» o «conciencia plena») no tiene nada de nueva. Ya a finales del siglo XIX, William James, el padre de la psicología moderna, escribió que «la facultad de volver a encauzar la atención que divaga de una manera voluntaria y repetida es la raíz misma del juicio, el carácter y la voluntad... La educación que mejore esta facultad será la educación por excelencia». En el núcleo de esa facultad se halla la esencia misma de lo que se entiende por mindfulness. Y la educación que propone James es una educación que contempla la vida y el pensamiento con plena conciencia, con mindfulness.

En los años setenta, Ellen Langer demostró que esta atención consciente hace mucho más que mejorar «el juicio, el carácter y la voluntad». También puede hacer que personas de edad avanzada se sientan más jóvenes y actúen como tales, y hasta puede mejorar las funciones cognitivas y constantes vitales, como la tensión arterial. Estudios realizados en los últimos años han revelado que pensar en un estado meditativo (que, en el fondo, es ejercitarse en el control de la atención que constituye el núcleo del estado de mindfulness) aunque solo sea quince minutos al día puede hacer que la actividad de las regiones frontales del cerebro siga una pauta que se ha asociado a un estado emocional más positivo y centrado, y que contemplar escenas de la naturaleza, aunque sea por poco tiempo, mejora la agudeza mental, la creatividad y la productividad. También sabemos, sin ningún género de duda, que el cerebro humano no está hecho para la «multitarea», un modo de actuación que imposibilita la atención consciente. Cuando nos vemos obligados a atender varias cosas al mismo tiempo rendimos peor en todas, la memoria se reduce y el bienestar general se resiente de una manera palpable.

Pero, para Sherlock Holmes, la atención consciente solo es un primer paso. Es un medio para un fin de más alcance y mucho más práctico y gratificante. Holmes ejemplifica lo que James había prescrito: una educación centrada en mejorar la facultad de pensar de una manera consciente y de usarla para lograr más cosas, pensar mejor y decidir de una manera óptima. En su aplicación más amplia es una manera de mejorar la capacidad general de tomar decisiones y de formar juicios a partir del componente más básico de nuestra mente.

Lo que Holmes dice realmente a Watson cuando compara ver con observar es que no debe confundir la pasividad de la falta de atención con la participación activa de la atención consciente.
Vemos las cosas de manera automática: recibimos esos datos sensoriales sin ningún esfuerzo por nuestra parte, salvo el de abrir los ojos. Y vemos sin pensar, absorbiendo incontables elementos del mundo sin procesar necesariamente lo que puedan ser. Hasta puede que no seamos conscientes de haber visto algo que estaba justo frente a nosotros. Por contra, al observar nos vemos obligados a prestar atención. Debemos pasar de la absorción pasiva a la conciencia activa. Debemos participar. Y esto no solo se aplica a la vista: se aplica a todos los sentidos, a todos los datos sensoriales, a todos los pensamientos.

Es sorprendente lo poco conscientes que somos de nuestra mente. Pasamos por la vida sin ser conscientes de lo que nos perdemos, de lo poco que sabemos de nuestros procesos de pensamiento y de lo mejores quepodríamos ser si dedicáramos tiempo a entender y a reflexionar. Como Watson, subimos y bajamos los mismos escalones centenares y hasta miles de veces, muchas veces al día, y ni siquiera podemos recordar el más trivial de sus detalles (no me habría extrañado que Holmes hubiera preguntado por su color y que Watson tampoco hubiera sabido qué decir).

Y si no lo hacemos no es porque no podamos, sino porque no elegimos hacerlo. (...)

terça-feira, 5 de março de 2019

Desenvolvimento Pessoal: Ambiente Adequado

Na linha do que postulei anteriormente no texto Vida Comum, pretendo trazer ao blog mais textos sobre finanças e desenvolvimento pessoal, reduzindo ao mínimo as especulações políticas inúteis. Neste sentido, trago algumas importantes lições de Robert Kiyosaki a respeito da importância de um ambiente adequado para o desenvolvimento e florescimento dos próprios talentos.

Em Teach to Be Rich, discuto a possibilidade de que todos nascemos com talentos. Nesse pacote, constituído de dois livros de exercícios e três DVDs, afirmo que o indivíduo deve procurar um ambiente propício ao desenvolvimento de seus talentos. O exemplo que uso é Tiger Woods, cuja genialidade se manifesta nos campos de golfe. Se ele fosse um jóquei, não seria bem-sucedido. Mick Jagger, que frequentou a escola com a intenção de se tornar contador, descobriu seu talento no palco, como membro da banda Rolling Stones.

Meu pai pobre foi um aluno brilhante. Meu pai rico, não. O talento de meu pai rico surgiu no ambiente das ruas. Em meu caso particular, não fui um aluno brilhante. Eu achava que a escola não era o ambiente certo. No caso de meu pai rico, as ruas representam o ambiente no qual sua genialidade se manifesta. Se eu tivesse continuado no mundo acadêmico, meus talentos não teriam florescido.

O ambiente correto é essencial para o desenvolvimento dos talentos pessoais. Quando eu estava na escola de voo da Marinha, alguns de meus companheiros descobriram seu talento pilotando aeronaves. Um prosseguiu na carreira, tornando-se general, e outros se tornaram pilotos seniores de linhas aéreas. Eu era um piloto mediano. Alguns de meus amigos descobriram seu talento nos campos de futebol. Eu era um jogador mediano. Quando trabalhei na Xerox Corporation, um de meus amigos descobriu seu talento e rapidamente galgou a escada do mundo corporativo.

Todos os jardineiros sabem que as plantas precisam de solo fértil, água e temperaturas adequadas. Se todos os elementos estiverem presentes, as plantas florescerão. O mesmo é válido quando se trata de seres humanos. Toda pessoa precisa de certos elementos para florescer. Se os elementos essenciais não estiverem presentes, talvez ela não cresça nem desabroche.

A pessoa rica em um ambiente pobre
Meu pai rico costumava dizer: “É possível encontrar muitas pessoas ricas em ambientes pobres.” À medida que ficava mais velho, comecei a entender melhor o que ele queria dizer.

O ambiente de minha casa
Uma das primeiras coisas das quais me dei conta é que havia nascido em uma família com poucos recursos financeiros. Mas isso não significa que não existisse amor. O problema era que o ambiente não era propício para que alguém se tornasse rico. Em minha família, desejar ficar rico era tabu. Como família, dávamos valor à educação, aos serviços públicos e a um baixo salário. Embora não fosse claramente exteriorizada, havia a crença de que os ricos eram mal-intencionados e exploravam os outros.

Nunca havia discussão sobre investimentos. Para a minha família, investir era o mesmo que jogar. Viver abaixo de nossas posses e economizar dinheiro era o estilo de vida que minha família adotara.

Em minha casa, hoje, dinheiro não é uma palavra suja. Enriquecer é divertido, e investir é um jogo. Em vez de vivermos abaixo de nossas posses, estamos constantemente trabalhando para expandir nossos recursos, aumentar nossa receita, fazer com que nossos bens aumentem e ajudar tantas pessoas quantas for possível. Além disso, mantemos pessoas negativas em termos financeiros fora de nossa vida e nos cercamos de pessoas com um modo de pensar semelhante ao nosso, que nos incentivam e nos apoiam. Nossos amigos também fazem parte de nosso ambiente.

Meu ambiente de trabalho
Quando consegui meu primeiro emprego, na Xerox Corporation, logo descobri que aquele não era o ambiente ideal para enriquecer. Mas embora meus chefes me pressionassem para que eu trabalhasse muito e ganhasse muito dinheiro, seu foco principal era fazer os acionistas felizes... não os funcionários. Sempre que eu falava na possibilidade de abrir meu próprio negócio, meu supervisor observava que era contra a política da empresa trabalhar por conta própria.

Isso não significa que eu não gostasse de trabalhar na Xerox, pois eu gostava. Apenas não era um ambiente propício ao enriquecimento. Além disso, embora eu realmente tenha ganhado muito dinheiro naquela época, os programas de tributação para funcionários que ganhavam altos salários não deixavam muito espaço para enriquecer.

Na Rich Dad, toda reunião semanal se concentra no fato de nosso staff estar ficando mais rico. Estimulamos nossos colaboradores a participar de seminários financeiros, a ter seu próprio negócio e a investir – não por meio dos planos de aposentadoria da empresa, mas por seus próprios planos de investimento. Alguns funcionários deixaram a empresa porque não gostavam da pressão que eu fazia para que adquirissem educação financeira e, por fim, fossem livres em termos financeiros. Fico contente que tenham saído, pois serão mais felizes trabalhando em outro ambiente.

Ambientes para pessoas que têm medo de perder
Muitos indivíduos que querem enriquecer deixam de fazê-lo simplesmente porque são pessoas ricas em um ambiente pobre. Por exemplo, se você é empregado, provavelmente está trabalhando em um ambiente projetado para pessoas que se sentem felizes trabalhando para não perder e entregando seus rendimentos a especialistas financeiros, em vez de aprenderem a administrar seu próprio dinheiro. Obviamente, uma repartição pública se enquadra nesse tipo de ambiente.

Ambientes para vencedores
Existem organizações que proporcionam ambientes para vencedores – indivíduos que querem enriquecer. Podemos citar como exemplos o esporte profissional, a indústria do cinema e da música. O desafio desses ambientes é que você precisa ser excepcionalmente talentoso, motivado e tenaz. Nesses setores, a regra dos 90/10 do dinheiro é válida. Com certeza, neles você encontra mais perdedores do que vencedores. Outros ambientes propícios ao êxito são os agentes financeiros, corretoras de imóveis, marketing de rede e outras empresas de alto desempenho.

Uma árvore que estava morrendo
Recentemente, uma árvore que plantei começou a morrer. Isso me aborreceu muito, pois gosto muito de plantas. Contratei especialistas e entendidos em plantas, que trataram a árvore com fertilizantes, mas ela não reagiu. Por fim, munido de um esguicho, passei a molhar suas raízes duas vezes por semana durante um mês. De repente, novas folhas e brotos começaram a crescer nos galhos que pareciam mortos. Tudo de que a árvore precisava era um pouco mais de água. (Após nova inspeção, descobri que o encanamento que levava água até a árvore estava entupido.) Hoje essa árvore está saudável e vibrante. Tudo de que ela precisava era um ambiente propício a seu crescimento. O mesmo acontece com as pessoas. Muitas não ficam ricas porque estão em ambientes pobres.

Ambientes vigorosos
Levando esse conceito de ambiente um pouco mais além, consideremos o seguinte:
1. Se você deseja desenvolver sua inteligência, frequente uma biblioteca, uma livraria ou uma escola.
2. Se você deseja melhorar sua saúde, frequente uma academia de ginástica, ande de bicicleta ou pratique mais esportes.
3. Se você deseja enriquecer seu espírito, frequente uma igreja, um lugar tranquilo e faça meditação ou reze mais.
4. Se você deseja aumentar sua riqueza, procure lugares nos quais as pessoas estão enriquecendo (como um escritório imobiliário ou o escritório de um corretor da bolsa), filie-se a um clube de investimentos ou funde um grupo de estudos e passe a conviver com novos amigos que também querem ficar mais ricos.
5. . Se você deseja expandir seu mundo, vá a lugares nos quais nunca esteve antes... faça coisas que tinha receio de fazer.

Em suma, às vezes, a forma mais rápida de mudar e melhorar consiste simplesmente em mudar de ambiente.

Perguntas finais
Acredito que todos nascemos com um talento especial, um dom exclusivo. O problema é que nem todos descobrem seu dom porque não encontram o ambiente no qual esse dom pode florescer. E não se esqueça do seguinte: provavelmente nunca teríamos ouvido falar de Tiger Woods se não existissem campos de golfe.

Portanto, minhas últimas perguntas são:
1. Sua casa e sua família proporcionam um ambiente que o ajuda a desenvolver seus talentos financeiros? Sim ou não?
2. Seu local de trabalho é um ambiente que estimula o desenvolvimento de seus talentos financeiros? Sim ou não?
3. Você tem ideia de qual poderia ser seu talento? Sim ou não?
4. Você trabalha com pessoas que querem que você desenvolva seus talentos? Sim ou não?
5. Se você encontrar seu ambiente, estará desejoso de trabalhar arduamente para desenvolver seus talentos? Sim ou não?

Faço essa última pergunta porque o fato de ter talento não significa que a vida seja fácil. Todos conhecemos pessoas talentosas, mas o problema é que algumas não se dedicam com afinco ao desenvolvimento de seus talentos. E, mais uma vez, não se esqueça: Tiger Woods (e outras personalidades importantes) trabalhou muito para desenvolver seu talento.

Como diria meu pai rico: “A preguiça é o carrasco do talento.”

segunda-feira, 4 de março de 2019

Ginga Eiyuu Densetsu: Arqueofuturismo e Ciência Política (II)

Anteriormente destaquei, sobretudo, o aspecto tecnológico de Ginga Eiyuu Densetsu. Hoje gostaria de comentar algumas cenas que trazem ensinamentos preciosos. Diferente do antigo anterior, este consta alguns spoliers, de modo que não é recomendado aos mais sensíveis.

I) Democracia: A discussão sobre regimes políticos permeia toda a obra; se contrasta a todo o momento o regime democrático com a monarquia (esta vista apenas como uma forma mais refinada de ditadura) e, mesmo o autor tendendo a democracia, os limites e contradições internas de ambos os regimes são magistralmente expostos. A democracia se mostra ineficiente, um abrigo de demagogos, corruptos e interesseiros; tais parasitas são a causa da queda da aliança, uma vez que durante a guerra atrapalham formidavelmente as operações militares. Da traição do nacionalista Job Truniht a invasão fracassada ao império, inspirada por motivos eleitoreiros, passando pela ordem que custou a vitória de Yang Wenli sobre Reinhart von Lohengramm; ante tudo isso, não tive como não simpatizar com o fracassado golpe militar liderado pelo Almirante Greenhill.

II) Monarquia-Ditadura:
Enquanto a ditadura se mostra um regime mais eficiente, sobretudo no âmbito da guerra, por sua vez, o anime retrata a tirania dos poderosos sobre os oprimidos, o modo como o poder absoluto corrompe absolutamente, sobretudo expresso no orgulho delirante no qual estão embriagados os nobres da dinastia Goldenbaum. Entretanto, o argumento mais forte contra o regime é manifesto por Yang Wenli: a ditadura torna o povo fraco, fornecendo-lhe um bode expiatório, alguém a quem cabe toda a responsabilidade do fracasso ou sucesso do regime.


III) Suicídio e Sacrifício: A agonia da Aliança dos Plantes Livres é um dos pontos altos do anime. Frente a derrota certa, muitos personagens entram em desespero, recorrendo ao suicídio direto com um tiro na cabeça, ou ao suicídio indireto em manobras militares corajosas mas, insanas e inúteis. Somente os personagens mais virtuosos conseguem manter a razão até o final, lutando até o último suspiro, mesmo conscientes da derrota, para causar o maior dano possível ao inimigo e garantir a fuga de seus companheiros, sendo Alexandre Bewcock o maior exemplo deste tipo de heroísmo.

IV) Comando e comandados: As relações entre líderes e subordinados, e como dessa harmonia depende de o sucesso das operações militares é outro tema explorado de forma abundante, sobretudo na revolta do almirante Oskar von Reuenthal, onde um estrategista genial é levado a derrota humilhante dado a traição de seus comandados.

V) Lealdade: Por fim, gostaria de destacar que, apesar da guerra galáctica girar em torno de ideias, não é apenas por ideias, ou mesmo uma lealdade institucional, mas sim por uma lealdade pessoal aqueles que encarnam tais ideias que os soldados arriscam suas vidas em um a guerra genocida.