quinta-feira, 21 de março de 2019

Devaneios Autobiográficos


Aqui onde moro o frio é coisa rara; aparece durante três ou quatro dias em Julho ou Agosto, logo some. A temperatura fica nas demais estações pouco se afasta dos 30 °C; a própria arquitetura reflete esse extenuante calor tropical; as igrejas ostentam cores fortes, o povo fala alto, no paisagismo urbano, secos coqueiros em meio a um gramado, que quando mal cuidado vira um pesadelo de plantas daninhas. Baratas, com frequência saem dos esgotos. A chuva, mesmo a chuva, nada tem de poético; fortes pancadas e bravas ventanias nas tardes quentes de verão. Para uma personalidade fleumática, não há ambiente pior. Ou talvez esteja sendo hiperbólico. Imagino que tais características tropicais combinadas com a agitação metropolitana, como o é no Rio de Janeiro, configure perturbação infinitamente maior.

Talvez, como uma reação adversa ao clima inóspito, tenha eu desenvolvido uma espécie de senso de humor desloucado. Essa veia cômica, esse gosto pela zoeira, isso não me é inato, veio na adolescência, como um mutação uma defesa para esta exótica planta temperada perdida no cerrado tropical. Planta temperada em clima tropical, não deixa de ser cômico.

A invenção da poesia brasileira
Ribeiro Couto

Eu escutava o homem maravilhoso,
O revelador tropical das atitudes novas,
O mestre das transformações em caminho:

"É preciso criar a poesia deste país de sol!
Pobre da tua poesia e da dos teus amigos,
Pobre dessa poesia nostálgica,
Dessa poesia de fracos diante da vida forte.
A vida é força.
A vida é uma afirmação de heroísmos quotidianos,
De entusiasmos isolados donde nascem mundos.
Lá vai passando uma mulher... Chove na velha
praça...
Pobre dessa poesia de doentes atrás de janelas!
Eu quero o sol na tua poesia e na dos teus amigos!
O Brasil é cheio de sol! O Brasil é cheio de força!
É preciso criar a poesia do Brasil!"

Eu escutava, de olhos irônicos e mansos,
O mestre ardente das transformações próximas.

Por acaso, começou a chover docemente
Na tarde monótona que se ia embora.
Pela vidraça da minha saleta morta
Ficamos a olhar a praça debaixo da chuva lenta.
Ficamos em silêncio um tempo indefinido...
E lá embaixo passou uma mulher sob a chuva.


Publicado no livro Um Homem na Multidão (1926).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.110

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