domingo, 31 de março de 2019

"Gratum faciens" et "Gratis data"

''Tudo o que vem de Deus vem sendo feito de modo coordenado.'"

A criação de Deus é hierarquia; não só Deus governa pessoal e diretamente os seres, mas ainda Ele quis comunicar às suas criaturas essa perfeição, essa grandeza, para que elas fossem também ativas e providen­tes umas para com as outras. Isso é verdade na ordem da natureza e é verdade na ordem da graça; também a ordem sobrenatural é uma hierarquia.

É mister, portanto, dizer que a conversão e união a Deus - que são toda a razão de ser e toda a essência da graça - se realizam de dois modos: sem intermediário, quando Deus age só no íntimo d’alma; e indiretamente, quando Deus usa dum instrumento que Ele escolheu para operar a salvação dos homens.

De modo que existe dupla graça; uma pela qual o homem fica unido individual e imediatamente a Deus, é a graça Gratum faciens, e outra pela qual coopera com alguém para converter; é a graça Gratis data"' (graça dada para bem dos outros).

Chama-se a primeira Gratum faciens, porque santificando aquele que a recebe e a conserva, torna-o agradável a Deus.

Não se chama a segunda Gratum faciens, porque, por meio dela, o homem que a recebe, não a recebe para a sua própria justificação (volta ao estado de graça) e santificação, mas para a justificação e santificação dos outros.

Chama-se gratis data" porque é gratuita inteiramente e por dois modos: pelo primeiro modo, porque ela está acima das forças da natureza, cujas leis ultrapassa; é a força que faz o profeta; pelo segundo modo ela não tem relação com o mérito da pessoa a quem é concedida.

Como diz S. Paulo, é concedida para utilidade comum.

Essa doutrina, tão clara, tão simples, é a luz que ilumina todo o tratado da Inspiração na Suma Teológica. Logo de início, santo Tomás coloca a profecia, isto é, a inspiração, na categoria das graças Gratis data"' (concedida para o bem dos outros). Mais em baixo, ele faz apelo para essa doutrina, para resolver um caso difícil, aquele precisamente de que estamos falando: o caso dum profeta que não é santo: "A profecia é dada para o bem dos outros e da Igreja".

Ele já dissera no tratado "De Veritate" (Da Verdade), questão 12, art. 5: "A profecia é concedida para bem da Igreja e não para bem do próprio profeta". Sustenta a mesma tese, em termos iguais, na Suma contra os Pagãos (livro III, pág. 154-155).

É portanto nele, ideia sólida, uma convicção firme e sempre mantida. Aliás, tradicional, sempre afirmada desde S. Paulo.

Pe. Dr. Simão Baccelli; Conheçam la Salette; pág. 173-174.

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