sexta-feira, 26 de abril de 2019

Gyakkyou Burai Kaiji: Escrúpulos



Não raro o anime Gyakkyou Burai Kaiji figura entre as listas elitistas das melhores obras do entretenimento japonês, todavia, confesso que a premissa nunca me convenceu. O que de tão interessante haveria em tramas sobre dinheiro e jogos de azar? De modo que sempre posterguei e adiei a apreciação da obra. Porém, por insistência de um leitor, resolvi dar uma chance a narrativa, que de início não me convenceu, os personagens eram superficiais, a trama simplista, mas afinal, por volta do quinto episódio começava simpatizar com o anime. Até o presente momento, não fui além da finalização do primeiro arco, entretanto, há aspectos interessantes que justificam o presente artigo; a começar pelas técnicas de manipulação comportamental utilizadas pelos personagens. Para convencer Kaiji a entrar no Espoir, o navio de apostas donde se decidiria a sorte e maldição de muitos, o mafioso Endou usa de expedientes bem conhecidos pela psicologia, de uma simulada simpatia a técnica da escassez. A ideia por trás desta última, tão ultilizadaa no “livre mercado”, é simples: introjetar na vítima a ideia que tal produto ou oportunidade é escassa, de modo a pressioná-lo a tomar sua decisão o mais rápido possível, sem a devida reflexão. Na trama, Endou diz a Kaiji que restavam apenas duas vagas para o navio, e tão logo simula uma ligação com o preenchimento da primeira, restando apenas mais uma… O resultado já podem adivinhar. Meu pároco costuma expor em suas homilias sobre os mecanismos de funcionamento desta técnica, tão popular entre os serviçais de Satanás, e nos ensina o método para detê-la: “Se precisar de uma resposta imediata, a resposta é não! O sim exige tempo e reflexão, se não pode me fornecer isso, fique com a negativa!”, uma perspectiva relativamente simples, mas que se bem aplicada nos pouparia muita dor de cabeça, interessante, não?


Voltemos ao anime, já no navio, Kaiji é ludibriado uma vez mais. Funai se finge de amigo e propõe uma aliança para saírem de lá juntos...Sem entrar em detalhes sobre o jogo e a estratégia utilizada, o cerne do episódio é que tudo não passou de uma armadilha onde Funai se aproveita da ingenuidade de Kaiji. Há aqui outra lição: a amizade, a confiança vem com o tempo, não se deve ingenuamente confiar em qualquer estranho que acaso venha a demonstrar alguma simpatia. Lição essa, aliás, ensinada a crianças por meio dos chamados contos de fadas, mas avante, a lição mais interessante vem agora…



Kaiji nota que existem regras ocultas, ou melhor dizendo, que nosso cérebro supõe regras e proibições, escrúpulos, que não existem. Há tantas coisas permitidas naquele jogo, mas que nossa consciência sequer é capaz de imaginar, tantos caminhos ocultos a nosso cérebro abestado que foi programado a enxergar apenas um. Assim também o é na vida. Quando mais novo, pensava que a amizade para com todos era um dever moral, seria um crime terrível, uma imoralidade hedionda, afastar-me de alguém, rejeitar uma amizade, não importa o quão repugnante, desprezível e ofensivo fosse comportamento do “amigo”. Quanto tempo aceitei e convivi com gente ruim, gente de maus costumes, gente desagradável. Tão logo descobri que não era obrigado a tal, que a amizade é um privilégio e não uma obrigação, que ao afastar-me de quem me era incômodo nada perdia, fora uma verdadeira libertação! Quão mais leve minha vida se tornou depois disso. Tal como está, há infintas regras ocultas, na vida, nos negócios, no estudo, a qual cabe a nós descobrir para sermos homens verdadeiramente livres, para vivermos de forma ética sim, mas não preso a escrúpulos que antes nos escravizam.


Para quem quer aprofundar um pouco mais na descoberta na temática destas regras ocultas e escrúpulos sociais, recomendo a leitura desta velharia, onde discorro um pouco sobre a arte da não conformidade.

Isso é tudo pessoal!

Ao menos, por agora. Talvez o segundo arco venha a inspirar mais algumas reflexões, todavia, não prometo nada, até mais!

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