quinta-feira, 27 de junho de 2019

Hierarquia, senhorio e virilidade

12ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (Gn 16,1-12.15-16)
Responsório (Sl 105,1-5)
Evangelho (Mt 7,21-29)

A esposa de Abrão, Sarai, deu-lhe como mulher a escrava Agar. A escrava, grávida, começou a se envaidecer e desprezar a senhora, esta começou a maltratá-la, a escrava então fugiu para o deserto.

Situaçãozinha complicada, hein? E Deus é chamado julgar isso e resolver essa confusão criada pelas maluquices da humanidade. O anjo manda Agar voltar para casa e se humilhar perante sua senhora. Por mais que se compadeça da vítima, Deus é justo e não pode esquecer os justos direitos de Sarai, direitos que lhe cabem como esposa e senhora. Senhora? Sim, senhora... O senhorio é algo escandaloso para estes tempos de igualitarismo (não estou defendendo a volta da escravidão, antes que os mais inquietos me torrem a paciência). Por fim, o anjo promete a Agar um filho viril, um homem feroz,  "indomável como um jumento selvagem", pois é a fortaleza a virtude masculina por excelência. Se o homem não é forte, se é fraquinho, tímido e submisso...Coitada da mãe!

Virilidade, privilégios da primeira (legítima e única) esposa sobre as demais concubinas (que nem deveriam existir), respeito a autoridade do senhorio; a leitura de hoje irrita os tolos ouvidinhos modernos, e por isso me alegra. Alegro-me com a contradição desse mundo amalucado, me agrada  escutar as verdades primevas, a estrutura do real , a natureza humana manifesta e revelada nas Sagradas Escrituras. Todavia, não basta escutar, é preciso colocar em prática, do contrário seremos como o homem insensato que edifica sua casa sobre a areia.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

''Tornou minha boca semelhante a uma espada afiada''


Natividade de São João Batista - Segunda-feira 
Primeira Leitura (Is 49,1-6)
Responsório (Sl 138)
Evangelho (Lc 1,57-66.80)



1. São João Batista o maior dos homens nascidos de mulher, o precursor, aquele que foi limpo do pecado já no seio de sua mãe. Este homem passou a maior parte da vida em penitência no deserto. E nós? Nós tão fracos e tolos aspiramos a glória sem dor, a vitória sem luta, a ressurreição sem Cruz. Aí de nós!

2. Em Fátima, viram os pastorinhos um anjo assustador, este segurava uma espada de fogo e clamava: Penitência! Penitência!

Vivemos em um tempo obscuro, uma época em que os homens não cessam de ofender a Deus com pecados abomináveis. A fumaça de Satanás penetrou no Templo de Deus, muitos do alto clero tornaram-se escravos do demônio! Tamanha abominação não ficará sem castigo. Um castigo terrível virá! Para o bem da alma, o corpo deve sofrer! 

São João Batista pregava um Batismo de Penitência, também nós precisamos nos penitenciar. Pela saúde de nossa alma, pela salvação daqueles que amamos, para preparar-nos ao terrível castigo que se aproxima.

Que Deus nos ensine a prática da penitência. Que São João Batista interceda por nós!

3. Escutamos na primeira leitura o oráculo proferido pelo profeta Isaías: <Tornou minha boca semelhante a uma espada afiada, cobriu-me com a sombra de sua mão. Fez de mim uma flecha penetrante, guardou-me na sua alijava. (Is 49, 2)>; que sejamos nós também uma seta penetrante, que sejam nossas palavras uma espada afiada, pala glória de Deus e a loucura do mundo. Não nos calemos ante essa era apostata! Não nos acovardemos! Antes apliquemos todo nosso zelo, toda nossa inteligência, toda a nossa vontade em lutar pela causa de Deus! Denunciemos as mentiras desta abominação civilizacional liberal construída sob a inspiração do demônio pelas mãos da o judaico-maçonaria, que busca levar esta monstruosidade até seu desfecho final na construção de uma nova Torre de Babel que é o governo mundial.

4. São João Batista pregou a conversão, hoje há que use de sua figura para exaltar ídolos pagãos. Raça de Víboras! O machado já está posto á raiz das árvores; e toda árvore que não der fruto bom será cortada e lançada ao fogo! No fogo é que vão encontrar o tal Xangô! E não vai ser nada bom, pois haverá choro e ranger de dentes!

domingo, 23 de junho de 2019

Por que Deus permite que existam heresias na Igreja?

Mas alguém poderá dizer: Por que Deus permite que com tanta frequência pessoas insignes da Igreja se ponham a defender doutrinas novas entre os católicos? A pergunta é legítima e merece uma resposta ampla e detalhada. Mas responderei fundamentando-me não em minha capacidade pessoal, mas na autoridade da Lei divina e no ensinamento do Magistério eclesiástico. Ouçamos, pois, a Moisés: que ele nos diga o porquê de vez em quando Deus permite que homens doutos, inclusive chamados profetas pelo Apóstolo por causa de sua ciência, se ponham a ensinar novos dogmas que o Antigo Testamento chama, em seu estilo alegórico, de divindades estrangeiras. (Realmente os hereges veneram suas próprias opiniões tanto como os pagãos veneram seus deuses). Moisés escreve: "Se se levantar no meio de ti um profeta ou um visionário - ou seja, um mestre confirmado na Igreja, cujo ensinamento seus discípulos e ouvintes crêem ser proveniente de alguma revelação - anunciando-te um sinal ou prodígio, e suceder o sinal ou o prodígio que anunciou..." (Dt 13,1-2a) Certamente, com estas palavras se quer assinalar um grande mestre, de tanta ciência que pode fazer crer a seus seguidores, que não somente conhece as coisas humanas, mas que também tem a presença das coisas que superam ao homem. Era mais ou menos isto que os discípulos de Valentim, Donato, Fotino, Apolinário e outros da mesma laia acreditavam. E como continua Moisés? "...e te disser: vamos, sigamos outros deuses que te são desconhecidos e prestemos-lhes culto," (Dt 13,2) Quem são estes outros deuses senão as doutrinas erradas e estranhas? Que te são desconhecidas, ou seja, novas e inauditas. E prestemos-lhes culto, ou seja, acreditemos nela e as sigamos. Pois bem, o que diz Moisés neste caso? "...tu não ouvirás as palavras desse profeta ou desse visionário;" (Dt 13, 3a) Mas eu lhes ponho esta questão: Por que Deus não impede que se ensine o que Ele proíbe que se escute? Então Moisés responde: "...porque o Senhor, vosso Deus, vos põe à prova para ver se o amais de todo o vosso coração e de toda a vossa alma". (Dt 13,3b) Assim, pois, está mais claro que a luz do sol o motivo por que de vez em quando a Providência de Deus permite mestres na Igreja que preguem novos dogmas: porque o Senhor, vosso Deus, vos põe à prova. E certamente que é uma grande prova ver um homem tido por profeta, por discípulo dos profetas, por doutor e testemunha da verdade, um homem sumamente amado e respeitado, que de repente se põe a introduzir ocultamente erros perniciosos. Tanto mais quanto que não existe possibilidade de descobrir imediatamente esse erro, posto que lhe apanha de surpresa, já que se tem de tal homem um juízo favorável por causa de seu ensinamento anterior, e se resiste ao condenar o antigo mestre ao qual nos sentimos ligados pela afeição.

Chegando a este ponto, alguém poderá me pedir que contraste as palavras de Moisés com exemplos tomados da História da Igreja. O pedido é justo e respondo a seguir. Partindo, em primeiro lugar, de fatos recentes e bem conhecidos, poderia alguém de nós imaginar a prova pela qual atravessou a Igreja, quando o infeliz Nestório se converteu repentinamente de ovelha em lobo, começou a desgarrar o rebanho de Cristo, ao mesmo tempo em que aqueles a quem ele mordia, o tendo por ovelha, estavam assim mais expostos a seus mordiscos? Na verdade dificilmente podia passar pela cabeça de alguém que pudesse estar em erro quem tinha sido eleito pela alta judicatura da corte imperial e tinha grande estima pelos outros bispos. Rodeado de profunda afeição das pessoas piedosas e de uma grande popularidade, todos os dias explicava publicamente a Sagrada Escritura, e refutava os erros perniciosos dos judeus e pagãos. Quem não estava convencido que de que um homem desta classe não ensinava a fé ortodoxa, que pregava e professava a mais pura e sã doutrina? Mas sem dúvida para abrir caminho a uma só heresia, a sua, tinha que perseguir todas as demais mentiras e heresias. A isto precisamente se referia Moisés, quando dizia: "...porque o Senhor, vosso Deus, vos põe à prova para ver se o amais de todo o vosso coração." Deixemos então de lado Nestório, nele que sempre teve mais brilho de palavras que verdadeira substância, mais resplendor que efetiva valentia, e ao qual o favor dos homens, e não a graça de Deus, o fazia aparecer grande diante da estima do povo. Recordemos melhor a quem, dotados de habilidade e do atrativo dos grandes êxitos, se converteram para os católicos em ocasião de tentações não sem tanta importância. Assim, por exemplo, sucedeu-se em Panônia nos tempos de nossos Padres, quando Fotino tentou enganar a Igreja de Sirmio. Havia sido eleito bispo com grande estima por parte de todos, e durante certo tempo cumpriu com seu ofício como um verdadeiro católico. Mas chegou um momento em que, como profeta ou visionário malvado sobre quem falava Moisés, começou a persuadir ao povo de Deus que lhe havia sido confiado de que devia seguir a outros deuses, ou seja, a novidades errôneas nunca antes conhecidas. Até aqui nada de extraordinário. Mas o que era particularmente perigoso era o fato de que, para esta empresa tão malvada, se servia de meios nada comuns. Com efeito, possuía um agudo ingênio, riqueza de doutrina e ótima eloqüência; disputava e escrevia abundantemente e com profundidade tanto em grego quanto em latim, como mostram as obras que compôs em uma e outra língua. Por sorte, as ovelhas de Cristo que lhe foram confiadas eram muito prudentes e estavam vigilantes no que se refere à Fé Católica; imediatamente se recordaram das advertências de Moisés, e ainda que admirassem a eloqüência de seu profeta e pastor, não se deixaram seduzir pela tentação. Desde esse momento começaram a fugir, como se fosse um lobo, daquele a quem até pouco tempo seguiram como guia do rebanho. Além de Fotino, temos o exemplo de Apolinário, que nos põe em guarda contra o perigo de uma tentação que pode surgir no seio mesmo da Igreja, e que nos adverte de que temos de vigiar muito diligentemente sobre a integridade de nossa fé. Apolinário introduziu em seus ouvintes a mais dolorosa incerteza e angústia, pois por uma parte se sentiam atraídos pela autoridade da Igreja, e por outra eram retidos pelo mestre ao qual estavam habituados. Vacilando assim entre um e outro, não sabiam o lhes era conveniente fazer. Era, então, aquele um homem de pouco o nenhum destaque? Pelo contrário, reunia tais qualidades que se sentiam levados a crer nele, inclusive muito rapidamente em um grande número de coisas. Quem poderia fazer frente a sua agudeza de ingênio, a sua capacidade de reflexão e a sua doutrina teológica? Para se ter uma idéia do grande número de heresias esmagadas, dos erros nocivos à fé desbaratados por ele, basta recordar a obra insigne e importantíssima, de não menos de trinta livros, com a que refutou, com grande número de provas, as loucas calúnias de Porfírio. Nos alargaríamos demasiado se recordássemos aqui todas as suas obras; à mercê delas poderia ser igual aos mais grandes artífices da Igreja, se não houvesse sido empurrado pela insana paixão da curiosidade a inventar não sei que nova doutrina, a qual como uma lepra, contagiou e manchou todos seus trabalhos, até o ponto de que sua doutrina se converteu em ocasião de tentação para a Igreja, mais que de edificação.  (...)

- São Vicente de Lérins. Commonitorium; §10-11. 

quinta-feira, 20 de junho de 2019

O ano é 2077


O ano é 2077. Você conseguiu tudo o que quis. Tem seu doutorado, seu smartphone de última geração, aquele carro maneiro da Tesla, um apartamento com vista top e uma pequena fortuna para não precisar mais trabalhar.

O ano é 2077. Você está velho. Já não sente mais o mesmo prazer nas mesmas atividades de outrora. Não vê mais tanta emoção assim em viajar pelo mundo pela vigésima vez, não gosta mais do rolezinho pra tomar litrão - seu fígado já não aguenta porre - e sair de casa se tornou algo tão desinteressante que nem vai mais ao supermercado pois tem algum aplicativo que faz as entregas das compras do mês.

O ano é 2077. Você está fraco. Até tentou chegar na terceira idade bem fitness, mas não deu. Já é sua terceira cirurgia na coluna e segundo coração transplantado, seu joelho é de titânio, seus dentes são falsos e fazer força nos músculos te deixa com uma dor excruciante na hora de dormir.

O ano é 2077. Você está feio. Seus tratamentos estéticos chegaram ao limite. Sua cara está deformada de tanto botox, seus membros e barriga flácidos e sua libido caiu.

O ano é 2077. Você está sozinho. Não construiu família e seus pais morreram antes que vocês pudessem se reconciliar pelos problemas que ocorreram ainda na sua infância. Não conhece nenhum outro parente e seus amigos morreram de algum infortúnio ou excesso provocado por eles mesmos.

O ano é 2077. Você está pouco lúcido. As coisas andam meio confusas e não tem muito controle sobre seu corpo. Hoje você molhou sua cama e assustou alguns hipsters no parque com o grito que deu ao enxergar um deles como um monstro.

O ano é 2077. Você está velho, fraco, feio, sozinho e meio gagá. Ninguém tem paciência contigo. Hoje você se alterou com o seu vizinho drogado por ele esbarrar na sua porta de madrugada e vomitar no seu tapete. Sacou uma faca e o ameaçou.

O ano é 2077. Você está sendo processado por tentativa de homicídio. Seus vizinhos aproveitaram a situação para alegar às autoridades que você não tinha mais condições de viver sozinho. Estão te arrastando pra um asilo e gritar não melhorou sua situação.

O ano é 2077. Você está velho, fraco, feio, sozinho e gagá. Do jeito que o governo gosta. Hoje aprovaram um “ato de misericórdia” para te poupar do fardo de viver em tais condições e você não tem nem ideia do que está acontecendo pois te doparam pra parar de encher saco.

O ano é 2077. Você está recebendo uma injeção enquanto dorme. Não acordou do sono. Cremaram seu corpo e jogaram suas cinzas em qualquer canto sem cerimônias. Todas aquelas coisas bonitas e caras que acumulou durante a vida foram tomadas e seus bichinhos de estimação sacrificados.

O ano é 2077. Qual era teu número de identificação mesmo? Já não importa.


#Marcos Franthesco

Santa Joana D’ Arc, Jet Li e a Natureza Humana

 
Dado a influência olavette neoconservadora entre os católicos, aliado a nosso clima tropical, está em moda certo modelo de personalidade destemperada, caracterizado por uma agressividade irracional, um voluntarismo imbecil, uma valentia sem frutos. Importa ofender a todos, atacar sem piedade, não apenas “inimigos” são alvo do ataque, mas até amigos e aliados são vitimados por tal grosseria. Não raro nos causa escândalo com o modo com que tratam o Papa e os bispos. Este descontrole emocional passa longe do ideal cristão, cuja uma feliz expressão encontrei na obra do cineasta Robert Bresson, no filme O Processo de Joana D’Arc.

A frieza do filme de Bresson é cativante; condenada injustamente, a santa não se exalta, não levanta a voz, não xinga seus inimigos, mas igualmente o porta-se com nobreza; não implora por sua vida, responde o que deve responder, aquilo que não quer falar não fala, não mente. Em cada cena do processo vemos uma santa coragem, apoiada não nas paixões, mas na razão e na graça. Todavia, se transparece a força do Espírito, este não se sobrepõe a natureza humana que também manifesta sua fraqueza. Longe de seus acuadores, no silêncio de sua cela, Joana chora, ante a morte chega até mesmo a renegar suas visões para conservar a sua vida, todavia se arrepende posteriormente e uma vez mais é encaminhada a fogueira onde será o martírio. O drama é vivido em toda a sua intensidade, mas sem o descontrole passional tão abjeto, vicioso e popular nestas terras incivilizadas. Para quem conhece a escritura, é impossível não ver os análogos entre a conduta de Santa Jona D’ Arc ante a inquisição e os diálogos entre Cristo e Pilatos nos momentos que precederam sua crucifixão.

O filme também contrasta com as tolices chinesas; em O Beijo do Dragão, e nos demais filmes protagonizados por Jet Li é notável a recusa de se lidar com a fragilidade humana. É sempre a mesma babaquice: um protagonista perfeito e inexpressivo que quebra os vilões e realiza as mais inumanas acrobacias, tudo isso sem nenhum drama interno, sem nenhuma dúvida, nenhum processo de crescimento espiritual, nada. Neste sentido, tendo em vista o microcosmo dos filmes “de luta”, as obras protagonizadas por Jackie Chan são muito mais maduras, sendo a mítica perfeição do protagonista abandonada em favor do humor do homem que consegue rir de si mesmo, tornado as histórias psicologicamente mais verossímeis. Ainda sobre os chineses, talvez o aspecto humano de Cristo seja aquilo que mais os intriga. Foi preciso a encarnação de Deus em natureza humana para ensinar a esse povo cabeça-dura o que é humanidade e fazer com que abandonem suas pretensões gnósticas de divinação (ora manifestas na mística shaolin, ora na monstruosidade maoísta).

A graça age sobre a natureza, natureza esta que deve ser ordenada, conduzida pela razão e pelo Espírito, não arrastada pelas paixões desordenadas. Isso não significa que seja possível transcender a humanidade,e abandonar por definitivo as fraquezas de nossa natureza, mas que apesar de nossa frgilidade, por auxílio da graça, com Cristo venceremos! Se maus filmes e maus exemplos adoecem nosso imaginário e pervertem nossa conduta, um bom filme é como um santo remédio contra os erros de uma civilização confusa e um povo destemperado.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Digital Index


Faz parte da Tradição Católica a realidade de que há escritos inspirados. Os autores sacros responsáveis pelo conteúdo da Bíblia Sagrada receberam auxílio do Espirito Santo, e o carisma de inerência nas verdades de Fé manifestas. Vemos, em especial, no livro de Ezequiel e no Apocalipse de São João que Deus enviou seus anjos para comunicar-lhes visões e revelações. Se os anjos podem comunicar-se aos homens, não poderiam também o fazer os demônios? A própria escritura nos alerta a respeito de tal perigo, em Gl 1,8. A conclusão imediata, é que, como há livros inspirados por Deus, também existiram panfletos infernais inspirados diretamente pelo Diabo.

Richard Wurmbrand demonstra como Karl Marx, pai do comunismo era um homem nefando que flertava com o satanismo. De que outro modo senão por influência demoníaca poder-se-ia explicar que as ideias de tão infeliz pensador tenham ecoado a longo dos séculos confeccionando regimes tirânicos e assassinos, responsáveis pelo maior morticínio da história humana? Quantas vidas não teriam sido poupadas caso um controle da imprensa viesse a limitar o alcance do pensamento marxista e sua penetração sobre os incautos?

Ao longo da história a Igreja Católica por meio do Index Librorum Prohibitorum alertava seus fiéis a respeito daquelas publicações que poderiam vir a representar um grave risco as almas e a civilização. Todavia, de tal modo cresceram o volume das publicações, que tal instrumento, uma simples listagem, tornou-se obsoleto, até que veio a ser abolido, por influência de um crescente liberalismo intraeclesial, durante o pontificado de Paulo VI.

Imaginemos, pois, que em um futuro longínquo, fosse novamente possível manter certa vigilância sobre a literatura. Como em tempos de extrema facilidade de publicação e difusão? Pensemos em um Digital Index. Um sistema online de crítica e classificação literária, cinematográfica, e televisiva (pois hoje se difundem ideias perversas por meios diversos); tal sistema seria alimentado por uma massa de especialistas, teólogos morais espalhados por todo o universo, que emitiriam seus juízos a respeito da periculosidade de diversas obras, bem como indicariam seus remédios (aquelas publicações cujo a verdade é manifesta de modo claro em oposição ao erro proposto). Com a posse de tais dados, os fiéis, bem como os responsáveis pela educação civil e eclesial, teriam a disposição uma vasta crítica, de modo que poderiam melhor discernir sobre a pertinência de alimentar seu imaginário com tal ou qual obra. Igualmente, as autoridades competentes poderiam vir a tomar medias afim de dificultar a difusão daquelas obras que viessem a apresentar um perigo para o bem comum. Tais medidas poderiam variar como a queima de livros, ao uso de hackers governamentais, ou um complexo sistema de contra-propaganda, de modo a facilitar as massas o contato com o remédio para a melhor dissipação de tal ou qual doutrina errônea.

Em tempos de libertinagem absoluta, porém, tal sistema parece para alguns um sonho (para outros um pesadelo) demasiado distante. E a luta para barrar conteúdos pornográficos e ignóbeis na Educação Infantil, como a monstruosa ideologia de gênero, já se mostra extremamente árdua. De todo o modo, rezemos e trabalhemos para Deus ponha freio a marcha das mentiras infernais

segunda-feira, 17 de junho de 2019

O Ministério da Princesa


Se uma restauração nobiliárquica se faz necessário, afim de estabelecer outros parâmetros de valoração social, a existência de tal instituição em um contexto de hiperexposição midiática levanta algumas questões. Imaginemos uma princesa, a filha de um monarca, neste degenerado cenário pós-moderno. Se a imaginação do leitor não chega a tanto, basta recuar algumas décadas e observar a vida da finada princesa Diana. Que era desta mulher senão um show de vulgaridade? Que diferia está de qualquer celebridade infeliz? Diz o escritor inglês Theodore Dalrymple:

Diana é uma de nós: alcoólatra, dependente química, depravada, cleptomaníaca, agorafóbica, anoréxica, ou qualquer uma das milhares de diagnoses encontradas no Manual Diagnóstico e Estatístico da Associação de Psiquiatria Americana.

(...)

A outra qualidade que fez de Diana a princesa do povo foi, sem dúvida, a extrema banalidade de seus gostos e prazeres. Como ela mesma era a primeira a admitir, nunca fora particularmente inteligente, pelo menos no sentido intelectual do termo, embora fosse bastante intuitiva. Descontando o seu refinamento em moda, suas preferências eram comuns; em outras palavras, ela não era uma ameaça para os homens e as mulheres nas ruas, os quais sabiam que os gostos dela eram iguais aos seus, e que vivera da mesma forma que eles viveriam caso ganhassem na loteria. Mesmo sua afeição para com os pobres e desafortunados do mundo correspondia ao sentimento que as pessoas comuns sentem, de tempos em tempos. Nesse sentido, sua semelhança com Eva Perón, que abraçava os mais desfavorecidos em frente às câmeras e aos fotógrafos, é bastante notável, como também a similaridade da aura de santidade conferida pelo público - de forma um tanto inadequada —, depois de sua morte igualmente prematura.

Que os gostos dela fossem, apesar de ter recebido uma educação privilegiada, absolutamente banais e plebeus ficaram evidentemente atestados durante o funeral, quando Elton John entoou sua canção sentimentaloide, logo após o primeiro-ministro ter lido as magníficas palavras de São Paulo, em Coríntios. Foi altamente apropriado (e simbólico) que esse tolo lúgubre, com seu implante capilar, cantasse uma versão reciclada de uma música inicialmente dedicada à memória de Marilyn Monroe - uma celebridade que ao menos batalhou o próprio espaço no mundo, e que também fez alguns filmes dignos de nota. “Goodbye, Englands rose”, ele entoou com um sotaque norte-americano, e que diz muito sobre a perda de confiança na cultura britânica, “from a country lost without your soul”. [1]

Em um contexto católico arqueofuturista este tipo de conduta seria inadmissível. As filhas da realeza devem prestar um serviço espiritual a pátria. A princesa deveria receber uma educação contemplativa desde a tenra idade, ter uma intensa vida de oração e destacar-se por sua pureza, piedade, modéstia e devoção. Deveria abster-se da exposição midiática, cultivando o silêncio e descrição, renunciando também o contato com o profano, o vulgar e obanl; isto é o nojo de uma cultua mundana. Ao chegar a idade adulta, poderia escolher entre o sagrado matrimônio e a vida na clausura, conservando sempre as virtudes apreendidas na juventude. Condutas inadequadas e imorais deveriam ser punidas com o desterro, e perda do título de nobreza, o rebaixamento ao estado plebeu.

A monarquia católica não precisa de uma nobreza pop, de princesas vulgares, patricinhas, celebridades que nada diferem em virtude de uma qualquer. Antes, precisamos de santas! Aliás, uma santa princesa a orar pelo governo de seu pai e a prosperidade em seu reino exerce um verdadeiro ministério, um sublime serviço a nação.

[1] Theodore Dalrymple. Nossa cultura... ou o que restou dela; Cap. 17. A Deusa das Tribulações Domésticas.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Manual de Sobrevivência ao Mundo Futuro


Para qualquer um com o mínimo de discernimento está claro que o ocidente pós-moderno está em um nível de degeneração tal que sua própria existência civilizacional (se é que podemos chamar isto civilização) já uma catástrofe; e tal catástrofe cresce em progressão geométrica de modo que a cada novo dia a vida do homem no exílio se torna ainda mais insuportável. Há quem acredite que tal cenário possa ser revertido por força política, usando do Estado para tal. Eu não cultivo tais ilusões… A única esperança para está sociedade imunda é um dilúvio de fogo, o castigo profetizado por Nossa Senhora em La Sallete, Fátima e a Akita. Todavia, para nós que vivemos neste interregno, entre o ápice da podridão e o doloroso castigo redentor germe de uma restauração, temos de aprender a sobreviver, conservando a fé, a vida e a razão. Este texto é pouco mais que um rascunho, pretendo esboçar aqui as linhas gerais de uma visão de conjunto dos problemas deste século, bem como os caminhos de uma possível reação para aqueles que estão despertos não sucumbirem ao caos que há de crescer; se o leitor é ainda acredita em ilusões de um modo melhor, este texto soará ridículo. Todavia, o tempo se encarregará de mostrar a verdade, cedo ou tarde…

A crise eclesial é a mais grave doença de nossa época, pois, coloca em risco o destino último de nossa alma imortal. Desde o fatídico Concílio Vaticano II, o alto clero têm traído sua missão, bem como aderido e propagado novidades perniciosas. Se antes o pregador era á voz dar razão, um eco da doutrina divina sobre a terra, hoje o remédio vem misturado ao veneno, e sob a máscara de piedosos ensinamentos, vem nada mais que o palavreado do mundo, as doutrinas perversas, o liberalismo, o pacifismo, o feminismo e tantas outras sandices. Em tal cenário, devemos seguir o conselho de São Vicente de Lérins, nos apegando firmemente a Sagrada Tradição.

O obscurecimento da razão é outro dos graves problemas que ferem nossa era. As mais bizarras tolices invadem todas as esferas da sociedade, por meio das escolas, do entretenimento e do convívio social, o indivíduo é forçado a engolir o lixo do relativismo, a submeter sua inteligência aos caprichos do evolucionismo e do liberalismo, sem falar da maldita revolução sexual e dos demônios marcusianos: tal qual o feminismo e a ideologia de gênero. Tal veneno não corrompe apenas aqueles que se submetem, mas cria uma multidão de mentes perturbadas, responsável pela prática dos mais perversos crimes. É certo que tal massa de birutas não é mais que um efeito indireto dos erros dos poderosos, todavia é um perigo real que ameaça a vida do homem comum e seus familiares. Além de uma resiliência mental e muito estudo para se ver livre da influência de tais doutrinas, faz-se necessário também o treinamento físico e o desenvolvimento de habilidades marciais para defender-se dos crimes perpetrados pelos desajustados, pelos "zumbis" cuja a mente foi destruída por essa sociedade iníqua.

Há que se citar o megadesenvolvimento tecnológico sobre a égide da ideologia liberal, a técnica em si algo neutro, tem sido usada pelos poderosos afim de reforçar seus poderes ditatoriais sobre os pequeninos. Cada vez mais nossa privacidade é violada, a cada novo dia ficamos mais dependentes da tecnológia a de modo que não mais sabemos viver sem ela, sem contar os ecos sociais de tal desenvolvimento manifestos na perda de inúmeros postos de trabalho, na epidemia de fake news e crimes virtuais, etc. Neste sentido, dois são os caminhos aparentemente opostos para se enfrentar o desafio da técnica: por primeiro uma periódica abstinência, afim de quebrar a dependência desta e reaprender a viver sem ela; por outro lado um conhecimento desta, e a busca por uma espécie de democratização tecnológica, onde existam meios do homem comum se defender das bugigangas dos poderosos.

Devemos, também, ter em mente que não somos super-humanos, que precisamos do auxílio de nosso próximo, assim, devemos fomentar uma rede de instituições, além de uma cultura alternativa e um clima de solidariedade entre aqueles que estão despertos e lúcidos ante o caos pós-moderno. Todavia, há de se tomar cuidado para não se deixar seduzir pelas dinâmicas socais intrínsecas aso grupos, tornando-se um escravo dos grupinhos, e cultivando uma mentalidade tribal e sectária.

Tais conselhos gerais devem ser adaptados as realidades locais, tendo em vista que entre o primeiro e o terceiro mundo, entre a capital e o interior, existem nuances e diferenças significativas no que diz respeito ao avanço da degeneração e a o nível de reação.

Por fim, há que se rezar e recorrer aos sacramentos. Sem o auxilio da providencia e as graças sobrenaturais não seremos capazes de sobreviver e manter a lucidez neste mundo iníquo.

terça-feira, 11 de junho de 2019

Eles Vivem: Para além das conspirações

Eles Vivem (They Live) é uma espécie de clichê sci-fi que ganhou involuntariamente o status cult. O filme é elogiado e recomendado por comunistas, anarcocapitalistas, neonazistas, ufologistas e, caso o senhor Kuster tiver algum talento cinematográfico, o será também por católicos (?) no documentário Eles Estão no Meio de Nós. A conquista da simpatia de um público tão heterogêneo se dá pela denúncia da realidade da alienação. Na trama o povo é tratado como gado, governado por uma elite alienígena, e tão somente munidos de lentes especiais (ou estilosos óculos escuros) é que se torna possível ver além das aparências se inteirar da realidade desta conspiração. De algum modo, grande parcela da população mundial se mostra insatisfeita com essa sociedade inorgânica e se sabe manipulada, embora não haja unanimidade a respeito da identidade de quem controla as marionetes; dirão os comunistas ser coisa de uma burguesia fascista, enquanto neoconservadores apontarão para o marxismo cultural, já outros acusam uma conspiração judaica…. Sem contar os malucos que aplicando ipsis litteris o roteiro cinematográfico a realidade, falam sobre um domínio alienígena, os tais dos reptilianos.

Não aqui eu negar a realidade de tais conspirações, mas convido o leitor a ir além do clichê simplista. No filme, a “resistência” se organiza facilmente, e ao fim de uma sequência de tiro, porrada e bomba, os heróis conseguem expor a toda humanidade o julgo ao qual estão submetidos. O problema é que na vida real a coisa não para por aí… Imagino que o leitor deste BunKer já esteja familiarizado com a disputas intraeclesiais envolvendo o Concílio Vaticano II, em caso afirmativo, creio ser desnecessário discorrer sobre a dificuldade de se organizar uma “resistência”, sobre como opiniões antagônicas, egos inflados, sentimentalismo, imaturidade e certa mentalidade de gueto têm impedido a reunião de irmãs de fé em uma luta comum contra abusos heréticos. Se assim o é entre aqueles que professam a mesma fé, imagine com relação aqueles separados por tão grandes abismos culturais, sociais, e religiosos. Outra questão é que a mera denúncia dos fatos não é o fim da luta, de que vale ter o conhecimento sobre determinada conspiração sem os meios de ação para combatê-la? Há tanto se sabe sobre as conspirações maçônicas em todo o mundo, bem como sobre as maquinações do imperialismo norte-americano e do capitalismo financeiro, mas, afinal, o que mudou? Ante a uma perspectiva de reação praticamente nula, são muitos o que escolhem ignorar a verdade e voltar a ilusão, fingir como se nada soubessem, como tudo estivesse normal. Há ainda que se destacar que o despertar, a descoberta de conspirações e sua abrangência não é um processo simples. Não basta as lentes certas, colocar o óculos, e pimba!: É necessário muito estudo, reflexão e oração. O despertar é um longo processo de crescimento e amadurecimento espiritual.

O filme é divertido, mas simplista. Que seja propagado por aqueles que julgam lutar e denunciar supostas conspirações, sem que os pontos que citei sejam aprofundados, só demonstra o quão confuso estão os supostos “despertos”. Há muita mentira neste mundo, mas não é com mero voluntarismo que a verdade há de prevalecer. Sem uma boa dose de inteligência e as graças da Providência, não há como vencer os senhores do mundo sejam eles burgueses, comunistas, judeus ou reptilianos.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

''(...) o mundo os odiou''


7ª Semana da Páscoa - Quarta-feira
Primeira Leitura (At 20,28-38)
Responsório (Sl 67)
Evangelho (Jo 17,11b-19)

A liturgia de hoje traz uma sobrenatural luz de realismo contra as trevas de piedosas ilusões. São Paulo diz que entre os bispos se levantarão hereges a pregar doutrinas perversas: <Sei que depois da minha partida se introduzirão entre vós lobos ferozes que não respeitarão o rebanho. Inclusive do meio de vós sairão alguns que dirão coisas pervertidas, para arrastar atrás de si os discípulos. (At 20, 29-30)>; Nosso Senhor Jesus Cristo nos avisa: <Eu lhes comuniquei a tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, como também eu não sou do mundo. (Jo 17, 14)>; por fim, o santoral nos recorda o martírio de São Bonifácio.

Heresias, ódio, perseguição e morte. Eis os desafios que aguardam a vida do cristão nesse mundo, porque não somos do mundo. Coragem! Temos uma luta pela frente. Não cultivemos ilusões de dias felizes e paz inexistente, mas saibamos Cristo venceu o mundo, os santos venceram o mundo, pela graça de Deus e a força de seu Divino Espírito também nós venceremos!

sábado, 1 de junho de 2019

Catolicismo Liberal - Pe. Félix Sardá y Salvany

Se bem refletimos, a essência íntima do Liberalismo chamado católico, por outras palavras, Catolicismo Liberal, consiste provavelmente apenas num falso conceito do ato de fé.

Segundo o seu modo de pensar, os católicos liberais parecem que fundamentam todos os motivos da sua fé, não na autoridade de Deus, infinitamente verdadeiro e infalível, que se dignou revelar-nos o caminho único que nos há de conduzir à bem-aventurança sobrenatural, – mas na livre apreciação de um juízo individual, que lhes dita ser melhor uma crença, que outra qualquer.

Não querem reconhecer o magistério da Igreja, único autorizado por Deus para propor aos fiéis a doutrina revelada e determinar-lhe o sentido genuíno; antes, arvorando-se eles em juízes da doutrina, admitem a parte que bem lhes parece, reservando-se não obstante o direito de crer na contrária, sempre que razões aparentes pareçam provar-lhes ser hoje falso o que ontem aceitavam como verdadeiro.

Para refutação de semelhante teoria basta conhecer a doutrina fundamental De fide, exposta sobre esta matéria pelo Santo Concílio do Vaticano.

Demais, chamam-se católicos porque creem firmemente que o Catolicismo é a única verdadeira revelação do Filho de Deus; porém chamam-se católicos liberais, ou católicos livres, porque julgam que esta sua crença não lhes deve ser imposta a eles, nem a ninguém, por outro motivo superior, senão o da sua
livre apreciação. Donde resulta que, sem o pressentirem, o diabo lhes substituiu arteiramente o princípio sobrenatural da fé pelo princípio naturalista do livre exame; e assim, ainda que julguem ter fé nas verdades cristãs, não a tem, mas apenas simples convicção humana; o que é essencialmente distinto.

A consequência é que julgam a sua inteligência livre em crer ou não crer, e igualmente livre a de todos os outros.

Na incredulidade, pois, não veem um vício, enfermidade ou cegueira voluntária do entendimento e mais ainda do coração, mas sim um ato lícito da jurisprudência interna de cada um, tão senhor de si para crer, como para não admitir crença alguma. Por isso, coaduna-se com este princípio o horror a toda a pressão moral ou física, que externamente venha, a castigar ou prevenir a heresia; e daí o horror às legislações civis francamente católicas. Daí o respeito sumo, com que entendem dever ser tratadas sempre as convicções alheias, ainda as mais opostas à verdade revelada; pois para eles são tão sagradas quanto errôneas, como quando verdadeiras, visto que todas nascem do mesmo sagrado princípio de liberdade intelectual, em vista do qual se erige em dogma o que se chama tolerância, e se dita para a polêmica católica contra os hereges um novo código de leis, que nunca conheceram os grandes polemistas católicos da antiguidade.

Sendo essencialmente naturalista o conceito primário da fé, segue-se daí que há de ser naturalista todo o seu desenvolvimento no indivíduo e na sociedade. Daí o apreciar-se a Igreja, principal e quase exclusivamente às vezes, pelas vantagens de cultura e civilização que proporciona aos povos, esquecendo e quase nunca citando para nada o seu fim primário sobrenatural, que é a glorificação de Deus e a salvação das almas. Daquele falso conceito aparecem contaminadas várias apologias católicas, que se escrevem na época atual. De sorte que, para essas tais, se o Catolicismo tivesse por infelicidade ocasionado algures um atraso material para os povos, já não seria verdadeira nem louvável, em boa lógica, uma tal religião. E tanto assim podia ser, que, indubitavelmente para alguns indivíduos e famílias tem sido ocasião de verdadeira ruína material a fidelidade à sua religião, sem que ela por isso deixasse de ser coisa muito excelente e divina.

É este o critério que dirige a pena da maior parte dos periódicos liberais, que, se lamentam a demolição dum templo, só apontam nisso a profanação da arte; se advogam as ordens religiosas, não fazem mais que ponderar os benefícios que prestaram às letras; se exaltam a Irmã da Caridade, é apenas em consideração aos humanitários serviços com que suaviza os horrores da guerra; se admiram o culto, é apenas em atenção ao seu brilho exterior e à sua poesia; se na literatura católica respeitam as Sagradas Escrituras, é fixando-se apenas na sua majestosa sublimidade.

Deste modo de encarecer as coisas católicas unicamente por sua grandeza, beleza, utilidade ou excelência material, segue-se em boa lógica que merece iguais louvores o erro, quando reunir tais condições, como sem dúvida as reúne aparentemente em mais de uma ocasião algum dos falsos cultos.

A maléfica ação deste princípio naturalista até chega à piedade, convertendo-a em verdadeiro pietismo, isto é, em falsificação da piedade verdadeira. Assim o vemos em tantas pessoas, que não buscam nas práticas religiosas mais que a emoção, o que é puro sensualismo da alma e mais nada.

Assim aparece inteiramente desvirtuado hoje em dia em muitas almas o ascetismo cristão, que é a purificação do coração por meio do enfraquecimento dos apetites, e desconhecido o misticismo cristão, que não é a emoção, nem a consolação interior, nem alguma outra dessas delícias humanas, senão a união com Deus por meio da sujeição à sua santíssima vontade, e por meio do amor sobrenatural.

Por isso é catolicismo liberal, ou melhor, catolicismo falso, grande parte do Catolicismo usado hoje por certas pessoas. Não é Catolicismo, é mero Naturalismo, é Racionalismo puro, é Paganismo com linguagem e formas católicas, se nos permitem a expressão.

- Pe. Félix Sardá y Salvany. O Liberalismo é Pecado; Cap. VII: Em que consiste principalmente, a razão intrínseca do chamado Liberalismo Católico