terça-feira, 11 de junho de 2019

Eles Vivem: Para além das conspirações

Eles Vivem (They Live) é uma espécie de clichê sci-fi que ganhou involuntariamente o status cult. O filme é elogiado e recomendado por comunistas, anarcocapitalistas, neonazistas, ufologistas e, caso o senhor Kuster tiver algum talento cinematográfico, o será também por católicos (?) no documentário Eles Estão no Meio de Nós. A conquista da simpatia de um público tão heterogêneo se dá pela denúncia da realidade da alienação. Na trama o povo é tratado como gado, governado por uma elite alienígena, e tão somente munidos de lentes especiais (ou estilosos óculos escuros) é que se torna possível ver além das aparências se inteirar da realidade desta conspiração. De algum modo, grande parcela da população mundial se mostra insatisfeita com essa sociedade inorgânica e se sabe manipulada, embora não haja unanimidade a respeito da identidade de quem controla as marionetes; dirão os comunistas ser coisa de uma burguesia fascista, enquanto neoconservadores apontarão para o marxismo cultural, já outros acusam uma conspiração judaica…. Sem contar os malucos que aplicando ipsis litteris o roteiro cinematográfico a realidade, falam sobre um domínio alienígena, os tais dos reptilianos.

Não aqui eu negar a realidade de tais conspirações, mas convido o leitor a ir além do clichê simplista. No filme, a “resistência” se organiza facilmente, e ao fim de uma sequência de tiro, porrada e bomba, os heróis conseguem expor a toda humanidade o julgo ao qual estão submetidos. O problema é que na vida real a coisa não para por aí… Imagino que o leitor deste BunKer já esteja familiarizado com a disputas intraeclesiais envolvendo o Concílio Vaticano II, em caso afirmativo, creio ser desnecessário discorrer sobre a dificuldade de se organizar uma “resistência”, sobre como opiniões antagônicas, egos inflados, sentimentalismo, imaturidade e certa mentalidade de gueto têm impedido a reunião de irmãs de fé em uma luta comum contra abusos heréticos. Se assim o é entre aqueles que professam a mesma fé, imagine com relação aqueles separados por tão grandes abismos culturais, sociais, e religiosos. Outra questão é que a mera denúncia dos fatos não é o fim da luta, de que vale ter o conhecimento sobre determinada conspiração sem os meios de ação para combatê-la? Há tanto se sabe sobre as conspirações maçônicas em todo o mundo, bem como sobre as maquinações do imperialismo norte-americano e do capitalismo financeiro, mas, afinal, o que mudou? Ante a uma perspectiva de reação praticamente nula, são muitos o que escolhem ignorar a verdade e voltar a ilusão, fingir como se nada soubessem, como tudo estivesse normal. Há ainda que se destacar que o despertar, a descoberta de conspirações e sua abrangência não é um processo simples. Não basta as lentes certas, colocar o óculos, e pimba!: É necessário muito estudo, reflexão e oração. O despertar é um longo processo de crescimento e amadurecimento espiritual.

O filme é divertido, mas simplista. Que seja propagado por aqueles que julgam lutar e denunciar supostas conspirações, sem que os pontos que citei sejam aprofundados, só demonstra o quão confuso estão os supostos “despertos”. Há muita mentira neste mundo, mas não é com mero voluntarismo que a verdade há de prevalecer. Sem uma boa dose de inteligência e as graças da Providência, não há como vencer os senhores do mundo sejam eles burgueses, comunistas, judeus ou reptilianos.

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