domingo, 23 de junho de 2019

Por que Deus permite que existam heresias na Igreja?

Mas alguém poderá dizer: Por que Deus permite que com tanta frequência pessoas insignes da Igreja se ponham a defender doutrinas novas entre os católicos? A pergunta é legítima e merece uma resposta ampla e detalhada. Mas responderei fundamentando-me não em minha capacidade pessoal, mas na autoridade da Lei divina e no ensinamento do Magistério eclesiástico. Ouçamos, pois, a Moisés: que ele nos diga o porquê de vez em quando Deus permite que homens doutos, inclusive chamados profetas pelo Apóstolo por causa de sua ciência, se ponham a ensinar novos dogmas que o Antigo Testamento chama, em seu estilo alegórico, de divindades estrangeiras. (Realmente os hereges veneram suas próprias opiniões tanto como os pagãos veneram seus deuses). Moisés escreve: "Se se levantar no meio de ti um profeta ou um visionário - ou seja, um mestre confirmado na Igreja, cujo ensinamento seus discípulos e ouvintes crêem ser proveniente de alguma revelação - anunciando-te um sinal ou prodígio, e suceder o sinal ou o prodígio que anunciou..." (Dt 13,1-2a) Certamente, com estas palavras se quer assinalar um grande mestre, de tanta ciência que pode fazer crer a seus seguidores, que não somente conhece as coisas humanas, mas que também tem a presença das coisas que superam ao homem. Era mais ou menos isto que os discípulos de Valentim, Donato, Fotino, Apolinário e outros da mesma laia acreditavam. E como continua Moisés? "...e te disser: vamos, sigamos outros deuses que te são desconhecidos e prestemos-lhes culto," (Dt 13,2) Quem são estes outros deuses senão as doutrinas erradas e estranhas? Que te são desconhecidas, ou seja, novas e inauditas. E prestemos-lhes culto, ou seja, acreditemos nela e as sigamos. Pois bem, o que diz Moisés neste caso? "...tu não ouvirás as palavras desse profeta ou desse visionário;" (Dt 13, 3a) Mas eu lhes ponho esta questão: Por que Deus não impede que se ensine o que Ele proíbe que se escute? Então Moisés responde: "...porque o Senhor, vosso Deus, vos põe à prova para ver se o amais de todo o vosso coração e de toda a vossa alma". (Dt 13,3b) Assim, pois, está mais claro que a luz do sol o motivo por que de vez em quando a Providência de Deus permite mestres na Igreja que preguem novos dogmas: porque o Senhor, vosso Deus, vos põe à prova. E certamente que é uma grande prova ver um homem tido por profeta, por discípulo dos profetas, por doutor e testemunha da verdade, um homem sumamente amado e respeitado, que de repente se põe a introduzir ocultamente erros perniciosos. Tanto mais quanto que não existe possibilidade de descobrir imediatamente esse erro, posto que lhe apanha de surpresa, já que se tem de tal homem um juízo favorável por causa de seu ensinamento anterior, e se resiste ao condenar o antigo mestre ao qual nos sentimos ligados pela afeição.

Chegando a este ponto, alguém poderá me pedir que contraste as palavras de Moisés com exemplos tomados da História da Igreja. O pedido é justo e respondo a seguir. Partindo, em primeiro lugar, de fatos recentes e bem conhecidos, poderia alguém de nós imaginar a prova pela qual atravessou a Igreja, quando o infeliz Nestório se converteu repentinamente de ovelha em lobo, começou a desgarrar o rebanho de Cristo, ao mesmo tempo em que aqueles a quem ele mordia, o tendo por ovelha, estavam assim mais expostos a seus mordiscos? Na verdade dificilmente podia passar pela cabeça de alguém que pudesse estar em erro quem tinha sido eleito pela alta judicatura da corte imperial e tinha grande estima pelos outros bispos. Rodeado de profunda afeição das pessoas piedosas e de uma grande popularidade, todos os dias explicava publicamente a Sagrada Escritura, e refutava os erros perniciosos dos judeus e pagãos. Quem não estava convencido que de que um homem desta classe não ensinava a fé ortodoxa, que pregava e professava a mais pura e sã doutrina? Mas sem dúvida para abrir caminho a uma só heresia, a sua, tinha que perseguir todas as demais mentiras e heresias. A isto precisamente se referia Moisés, quando dizia: "...porque o Senhor, vosso Deus, vos põe à prova para ver se o amais de todo o vosso coração." Deixemos então de lado Nestório, nele que sempre teve mais brilho de palavras que verdadeira substância, mais resplendor que efetiva valentia, e ao qual o favor dos homens, e não a graça de Deus, o fazia aparecer grande diante da estima do povo. Recordemos melhor a quem, dotados de habilidade e do atrativo dos grandes êxitos, se converteram para os católicos em ocasião de tentações não sem tanta importância. Assim, por exemplo, sucedeu-se em Panônia nos tempos de nossos Padres, quando Fotino tentou enganar a Igreja de Sirmio. Havia sido eleito bispo com grande estima por parte de todos, e durante certo tempo cumpriu com seu ofício como um verdadeiro católico. Mas chegou um momento em que, como profeta ou visionário malvado sobre quem falava Moisés, começou a persuadir ao povo de Deus que lhe havia sido confiado de que devia seguir a outros deuses, ou seja, a novidades errôneas nunca antes conhecidas. Até aqui nada de extraordinário. Mas o que era particularmente perigoso era o fato de que, para esta empresa tão malvada, se servia de meios nada comuns. Com efeito, possuía um agudo ingênio, riqueza de doutrina e ótima eloqüência; disputava e escrevia abundantemente e com profundidade tanto em grego quanto em latim, como mostram as obras que compôs em uma e outra língua. Por sorte, as ovelhas de Cristo que lhe foram confiadas eram muito prudentes e estavam vigilantes no que se refere à Fé Católica; imediatamente se recordaram das advertências de Moisés, e ainda que admirassem a eloqüência de seu profeta e pastor, não se deixaram seduzir pela tentação. Desde esse momento começaram a fugir, como se fosse um lobo, daquele a quem até pouco tempo seguiram como guia do rebanho. Além de Fotino, temos o exemplo de Apolinário, que nos põe em guarda contra o perigo de uma tentação que pode surgir no seio mesmo da Igreja, e que nos adverte de que temos de vigiar muito diligentemente sobre a integridade de nossa fé. Apolinário introduziu em seus ouvintes a mais dolorosa incerteza e angústia, pois por uma parte se sentiam atraídos pela autoridade da Igreja, e por outra eram retidos pelo mestre ao qual estavam habituados. Vacilando assim entre um e outro, não sabiam o lhes era conveniente fazer. Era, então, aquele um homem de pouco o nenhum destaque? Pelo contrário, reunia tais qualidades que se sentiam levados a crer nele, inclusive muito rapidamente em um grande número de coisas. Quem poderia fazer frente a sua agudeza de ingênio, a sua capacidade de reflexão e a sua doutrina teológica? Para se ter uma idéia do grande número de heresias esmagadas, dos erros nocivos à fé desbaratados por ele, basta recordar a obra insigne e importantíssima, de não menos de trinta livros, com a que refutou, com grande número de provas, as loucas calúnias de Porfírio. Nos alargaríamos demasiado se recordássemos aqui todas as suas obras; à mercê delas poderia ser igual aos mais grandes artífices da Igreja, se não houvesse sido empurrado pela insana paixão da curiosidade a inventar não sei que nova doutrina, a qual como uma lepra, contagiou e manchou todos seus trabalhos, até o ponto de que sua doutrina se converteu em ocasião de tentação para a Igreja, mais que de edificação.  (...)

- São Vicente de Lérins. Commonitorium; §10-11. 

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