quinta-feira, 20 de junho de 2019

Santa Joana D’ Arc, Jet Li e a Natureza Humana

 
Dado a influência olavette neoconservadora entre os católicos, aliado a nosso clima tropical, está em moda certo modelo de personalidade destemperada, caracterizado por uma agressividade irracional, um voluntarismo imbecil, uma valentia sem frutos. Importa ofender a todos, atacar sem piedade, não apenas “inimigos” são alvo do ataque, mas até amigos e aliados são vitimados por tal grosseria. Não raro nos causa escândalo com o modo com que tratam o Papa e os bispos. Este descontrole emocional passa longe do ideal cristão, cuja uma feliz expressão encontrei na obra do cineasta Robert Bresson, no filme O Processo de Joana D’Arc.

A frieza do filme de Bresson é cativante; condenada injustamente, a santa não se exalta, não levanta a voz, não xinga seus inimigos, mas igualmente o porta-se com nobreza; não implora por sua vida, responde o que deve responder, aquilo que não quer falar não fala, não mente. Em cada cena do processo vemos uma santa coragem, apoiada não nas paixões, mas na razão e na graça. Todavia, se transparece a força do Espírito, este não se sobrepõe a natureza humana que também manifesta sua fraqueza. Longe de seus acuadores, no silêncio de sua cela, Joana chora, ante a morte chega até mesmo a renegar suas visões para conservar a sua vida, todavia se arrepende posteriormente e uma vez mais é encaminhada a fogueira onde será o martírio. O drama é vivido em toda a sua intensidade, mas sem o descontrole passional tão abjeto, vicioso e popular nestas terras incivilizadas. Para quem conhece a escritura, é impossível não ver os análogos entre a conduta de Santa Jona D’ Arc ante a inquisição e os diálogos entre Cristo e Pilatos nos momentos que precederam sua crucifixão.

O filme também contrasta com as tolices chinesas; em O Beijo do Dragão, e nos demais filmes protagonizados por Jet Li é notável a recusa de se lidar com a fragilidade humana. É sempre a mesma babaquice: um protagonista perfeito e inexpressivo que quebra os vilões e realiza as mais inumanas acrobacias, tudo isso sem nenhum drama interno, sem nenhuma dúvida, nenhum processo de crescimento espiritual, nada. Neste sentido, tendo em vista o microcosmo dos filmes “de luta”, as obras protagonizadas por Jackie Chan são muito mais maduras, sendo a mítica perfeição do protagonista abandonada em favor do humor do homem que consegue rir de si mesmo, tornado as histórias psicologicamente mais verossímeis. Ainda sobre os chineses, talvez o aspecto humano de Cristo seja aquilo que mais os intriga. Foi preciso a encarnação de Deus em natureza humana para ensinar a esse povo cabeça-dura o que é humanidade e fazer com que abandonem suas pretensões gnósticas de divinação (ora manifestas na mística shaolin, ora na monstruosidade maoísta).

A graça age sobre a natureza, natureza esta que deve ser ordenada, conduzida pela razão e pelo Espírito, não arrastada pelas paixões desordenadas. Isso não significa que seja possível transcender a humanidade,e abandonar por definitivo as fraquezas de nossa natureza, mas que apesar de nossa frgilidade, por auxílio da graça, com Cristo venceremos! Se maus filmes e maus exemplos adoecem nosso imaginário e pervertem nossa conduta, um bom filme é como um santo remédio contra os erros de uma civilização confusa e um povo destemperado.

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