segunda-feira, 29 de julho de 2019

De fato: triste foi o fim de Policarpo Quaresma



Ao encerrar a leitura fica um aperto no coração. Policarpo era um homem honesto e sonhador, um intelectual, uma alma de grandes horizontes e aspirações. Tinha ideias um tanto quanto ousadas, mas não se limitava a repeti-las como filósofo de gabinete, antes procurava colocá-las em prática, sua crença na fertilidade de nossa terra, por exemplo, o levou até o interior afim de com seu suor dedicar-se a agricultura. A épica saga de Quaresma em seu “Sossego”  é uma das mais belas linhas de nossa literatura, e tão atual se mostra nessa era onde tantos quais nunca plantaram sequer a hortelã para o preparo do chá, se colocam a idealizar a prática agrícola e a mitificar a chamada agricultora orgânica...

Todavia, é uma pena, este homem acaba por sucumbir. De fato: triste foi o fim de Policarpo Quaresma; nos capítulos finais desta obra magna da literatura brasileira o herói renuncia a seu credo nacionalista, morre como uma espécie de apóstata, maldizendo sua existência e aquilo que um dia havia amado:
Iria morrer, quem sabe se naquela noite mesmo? E que tinha ele feito de sua vida? Nada. Levara toda ela atrás da miragem de estudar a pátria, por amá-la e querê-la muito, no intuito de contribuir para a sua felicidade e prosperidade. Gastara sua mocidade nisso, a sua virilidade também; e, agora que estava na velhice, como ela o recompensava, como ela o premiava, como ela o condecorava? Matando-o. E o que não deixara de ver, de gozar, de fruir, na sua vida? Tudo. Não brincara, não pandegara, não amara – todo esse lado da existência que parece fugir um pouco à sua tristeza necessária, ele não vira, ele não provara, ele não experimentara.

Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem... Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada... O importante é que ele tivesse sido feliz. Foi? Não.

Lembrou-se das suas cousas de tupi, do folklore, das suas tentativas agrícolas... Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma! O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio; e levou-o à loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferazes e ela não era fácil como diziam os livros. Outra decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois ele não a viu combater como feras? Pois não a via matar prisioneiros, inúmeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma série, melhor, um encadeamento de decepções. 

Errou Quaresma em sonhar, em buscar uma existência para além da vulgaridade, da mediocridade do parecer? De forma alguma. Entretanto, se podemos imputar um erro de nosso herói foi ter negligenciado a força, o poder. A esse respeito o próprio autor, Lima Barreto,  nos esclarece ao citar a amigo do major, o ex-quitandeiro e imigrante italiano Vicente Coloeni
Sendo bom de fundo, quando lutava pela fortuna se fez duro e áspero, mas logo que se viu rico, perdeu a dureza de que se revestira, pois percebia bem que só se pode ser bom quando se é forte de algum modo. 

Repito: <só se pode ser bom quando se é forte de algum modo>!!! Se o leitor marca presença frequente neste bunker, de fato tem algo em sua alma que se assemelha ao herói nacionalista Policarpo Quaresma, tem suas idéias ousadas, suas fantasias artísticas e civilizacionais. Não há porque abandonar tais sonhos, tais aspirações heroicas e belas, mesmo que um tanto românticas. Entretanto deve-se ter em mente que a sociedade nos é hostil. Não há modo de vencer tal hostilidade senão adquirindo força e poder. Torne-se forte caro leitor, tal também o farei, e então, como um imperador romano, edificaremos, ao menos em nosso redor, uma obra de arte a ser admirada pelas gerações posteriores, e assim o faremos apesar da oposição dos néscios e tolos.

A vida é uma aventura e não devemos nos contentar com uma existência medíocre! Que não terminemos nós como o major Policarpo Quaresma, mas antes, que tal qual Nosso Senhor Jesus Cristo, vençamos o mundo!

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Caridade, Santos e Lobisomens


16ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (2Cor 4,7-15)
Responsório (Sl 125)
Evangelho (Mt 20,20-28)

1. Na primeira leitura, após descrever as circunstâncias de seu ministério em meio a sofrimentos e tribulações, conclui o apóstolo: <Tudo, com efeito, é por amor de vós, para que a graça que abunda redunde em glória de Deus pela ação de graças de muito. (2Cor 4, 15)>; curioso, não? Ao menos para mim o é. Ecoa nestas linhas o mistério de uma caridade verdadeiramente sobrenatural. Que alguém sofra por amor a Deus é compreensível, que o faça por aqueles que lhe são intimamente próximos, talvez por sua esposa e seus filhos, é heroico, mas igualmente compreensível. Que o faça por aqueles com os quais não tem nenhum laço de parentesco ou matrimônio, isto não é curioso? Como consegue o apóstolo entregar seu sofrimento pelos outros? Como consegue de fato amar um desconhecido? Pergunto com sinceridade ao irmão, consegue suportar sofrimentos e tribulações por aquele homem sentado lá no fundo do banco de sua paróquia? Confesso que com frequência me falta até a mínima paciência para explicar verdades a alguém com certa dificuldade intelectual, que me falta ânimo a ensinar ignorantes, que me aborrece de sobremaneira ser injustiçado, contrariado ou ceder quando estou absolutamente certo. Por essas e outras que o Santo é São Paulo e eu um miserável pecador; não sei eu amar. Pergunto ao leitor, consegue amar? Está disposto servir e dar sua vida em favor de muitos? Não? Então me acompanhe nesta prece, peçamos ao senhor o dom da caridade, a graça de por seu amor amar a nosso próximo verdadeiramente. 


2. Hoje é dia do Apóstolo São Tiago, irmão de São João Evangelista. Também celebramos a memória de São Cristóvão. Cristóvão é  padroeiro dos viajantes, motoristas (em especial os caminhoneiros) e, segundo uma velha lenda medieval, dos lobisomens.

É uma ótima oportunidade para uma aventura, sob o luar buscar uma capelinha interiorana, em meio estradas de terra na zona rural, para lá assistir aos ofícios divinos. Quem sabe encontramos um lobisomem devoto pelo caminho?

quarta-feira, 24 de julho de 2019

''(...) você e seu saber vindo de livros''

No entanto, como minhas aventuras intelectuais tinham me familiarizado com as regiões mais altas do céu! Meu espírito voava mais alto que qualquer pássaro, sem temer falta de oxigênio. Quem sabe nem necessitasse de algo tão rico de vida quanto o oxigênio. Como eu ria deles todos, os pobres gafanhotos que não conseguiam ir a cima do que seu corpo podia saltar! Só olhar para eles, lá embaixo na grama, me fazia estourar de rir.

Mas eu tinha algo a aprender, até dos gafanhotos. Comecei a lamentar que não tivesse trazido comigo meu corpo até as regiões mais elevadas, e sempre o deixasse lá embaixo da terra, dentro dos seus pesados feixes de músculos.

(....)

-Olhe aqui,corpo. Hoje você vai comigo, quietinho, até os mais altos limites do espírito.

-Errou, meu amigo - o corpo respondeu com desprezo. Se eu for com você, por mais alto que seja o limite, são também os limites do corpo. Você só diz isso, você e seu saber vindo de livros, porque você nunca me levou com você antes.

- Yukio Mishima. Sol e Aço ;Epólogo: F104; pág. 91-92.

sábado, 20 de julho de 2019

Burton, Quaresma, Casamento e Vida Intelectual



Já faz alguns dias que estou a ler o Triste Fim de Policarpo Quaresma”, um clássico da literatura brasileira de autoria do escritor Lima Barreto. Recordo-me de ter estudado o romance há tempos imemoriais quando estava no ensino médio, bem como de ter visto um filme, de péssima qualidade, inspirado na obra. Sim, o filme era terrível! Fora incapaz de captar toda a carga dramática da obra, que faz-me lembrar a Tim Burton. Nos filmes de Burton há sempre um contraste entre um protagonista estranho, mas, ao mesmo tempo, sensível, inocente e ingênuo, que busca se adaptar a uma sociedade medíocre que não o compreende. Tal é a premissa desse clássico nacional; o major Policarpo é um homem de estudo, um intelectual e alguém apaixonado pelo país, ao mesmo tempo encontra a incompreensão de uma sociedade apática e mesquinha, sociedade esta que valoriza mais os símbolos de conhecimento que o próprio conhecimento, que se ira contra tudo aquilo que destoa da mediocridade cotidiana. Logo no primeiro capítulo temos notícias de que o velho major: 
Se não tinha amigos na redondeza, não tinha inimigos, e a única desafeição que merecera fora a do Doutor Segadas, um clínico afamado no lugar, que não podia admitir que Quaresma tivesse livros: “Se não era formado, para quê? Pedantismo! 

O estudo e a leitura de Quaresma também são motivos de troça no terceiro capítulo, e para seus contemporâneos, causa de sua loucura: 
-Quaresma está doido.
(…)
-Nem se podia esperar outra cousa, disse o doutor Florêncio. Aqueles livros, aquela mania de leitura…
-Pra que ele lia tanto? Indagou Caldas?
-Telha de menos, disse Florêncio.
Genelício atalhou com autoridade:
-Ele não era formado, para que meter-se em livos?
-É verdade, fez Florêncio.
-Isto de livros é bom para sábios, para doutores, observou Sigismundo.
-Devia até ser proibido, disse Genelício, a quem não possuísse um título “acadêmico” ter livros. Evitavam-se assim essas desgraças. Não acham? 
Esse ódio ao conhecimento acompanhado pela veneração dos títulos acadêmicos persiste até hoje, desde as troças injustas para com o filósofo Olavo de Carvalho (cuja filosofia tem seus problemas, mas nem por isso é absolutamente desprezível) pelo fato deste ter feito carreira a margem da academia. Recordo-me ainda uma situação pessoal, onde em um grupo paroquial instava o público a ler nas Sagradas Escrituras, alguns dos chamados livros sapienciais: Provérbios, Eclesiastes e Eclesiástico, livros simples e ao mesmo tempo interessantíssimos, mas fui repreendido pela padre, segundo o qual não se devia estudar isso fora de uma faculdade de teologia...

Não é apenas na sua relação com a vida intelectual que se vê a mesquinhez da sociedade brasileira, chama-me a atenção a atonia da vida afetiva das moças, conforme a descrição do autor: 
(…) Casar, para ela, não era negócio de paixão, nem se inserira no sentimento ou nos sentidos; era uma ideia, uma pura ideia. Aquela sua inteligência rudimentar tinha separado da ideia de casar o amor, o prazer dos sentidos, uma tal ou qual liberdade, a maternidade, até o noivo. Desde menina, ouvia a mamãe dizer: “Aprenda a fazer isso, porque quando você se casar”… ou senão: “Você precisa aprender a pregar botões, porque quando você se casar..”
 A todo instante e a toda hora, lá vinha aquele - “porque, quando você se casar...” - e a menina foi se convencendo que toda a existência só tendia para o casamento. A instrução, as satisfações íntimas, a alegria, tudo isso era inútil; a vida se resumia numa cousa: casar.
 De resto, não era só dentro de sua família que ela encontrava aquela preocupação. No colégio, na rua, em casa das famílias conhecidas, só se falava em casar. “Sabe, Dona Maricota, a Lili casou-se, não fez grande negócio, pois parece que o noivo não é la grande cousa”; ou então: “ A Zezé está doida para arranjar casamento, mas é tão feia, meu Deus!...”
 A vida, o mundo, a variedade intensa dos sentimentos, das ideias, o nosso próprio direito á felicidade, foram parecendo ninharias para quele cerebrozinho; e , de tal forma casar-se lhe representou cousa importante, que uma espécie de dever, que não se casar, ficar solteira, “tia”, parecia-lhe um crime uma vergonha. 
Como é triste que uma vocação tão sublime como o matrimônio se converta em uma mera obrigação social, pobrezinha a Ismênia, a mocinha da ficção, que afinal foi o retrato de tantas outras, e ainda o é (cheguei a conhecer gente semelhante em minhas andanças, mas isso é outra história…). 

Enfim, a obra é interessantíssima, prende o leitor e revela muitos dos vícios da alma brasileira que persistem ainda hoje. Talvez ainda retorne ao assunto em postagens futuras, de todo o modo, fica a indicação.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

''Lembrai-vos das maravilhas que fez''


15ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (Êx 3,13-20)
Responsório (Sl 104,1.5-27)
Evangelho (Mt 11,28-30)

<Lembrai-vos das maravilhas que fez, dos seus prodígios e das sentenças que saíram da sua boca (Sl 104, 5)>; eis o que nos ensina o salmista: lembrar, recordar da ação de Deus sua ação na história e também e nossa história.

Quantos milagres, quantas maravilhas não realizou o Senhor nos mais diversos tempos e lugares? Dos prodígios no Egito aos milagres na era Apostólica, passando pelo socorro aos cristãos em tantas batalhas e a manifestação nas mais diversas e curiosas situações. São Francisco amansou lobos vorazes; Santo Antônio, em resposta as insídias protestantes  (protestantes estes que provaram ser mais estúpidos que as bestas)., fez uma mula se ajoelhar ante o Santíssimo Sacramento; São Tiago vestiu a armadura e desembainhou a espada para ir lutar ao lado dos cristãos contra o invasor maometano. Faz bem trazer na memória estes feitos extraordinários, a ação de Deus sobre a história! Isso nos tira do prisão da imanência e prepara nosso coração a acolher e confiar na intervenção divina quando toda a esperança humana se desvai.

sábado, 13 de julho de 2019

O Caminho do Guerreiro

"Em algum lugar dentro de mim eu estava começando a buscar a união entre a arte vida, estilo e espírito de ação." - Yukio Mishima

Causa-me tristeza ver tantos intelectuais restritos a sua “torre de marfim”. Com suas mentes alcançam os céus, com sua imaginação exploram o universo, falam de heroísmo, amor, coragem, virtude, mas raramente vivenciam o que pregam. Seu corpo, ora pálido e esguio, ora obeso e relaxado, denunciam uma vida burguesa cujo o único contato com o perigo e a morte se dá pelo hábito de fumar. Tal fato também viera a perturbar Yukio Mishima. Mishima viveu quase toda sua existência como ficcionista, porém, próximo a morte manifestou uma espécie de revolta contra a imaginação. Um imaginário rico formado tão somente em leituras, seria uma fuga, uma profanação, uma covardia. O homem que se abstém de se expor ao perigo, de viver as mais intensas experiências, se contentando apenas em imaginar não seria nada além de um covarde, alguém que empreende uma fuga do real e uma compensação com as sombras… Atormentado pela questão, já próximo a meia idade, o escritor japonês redescobriu a carne por meio do "sol e do aço", dedicando-se ao fisiculturismo e as artes marcais. Após lapidar seu corpo para guerra, Yukio Mishima fundou seu próprio exército particular:  A Sociedade do Escudo; com a qual perpetrou um atentado terrorista contra o alto comando do exército japonês, mas isso é história para outra hora… 

Não que esteja fazendo apologia ao terrorismo, o que quero dizer é que é preciso existir uma unidade de vida entre a pena e a espada, a palavra e a ação, o viver e o pensar Ora, como pode alguém escrever sobre aventuras sem nunca vivê-las? Que tipo de vida essa onde nosso corpo apodrece na mediocridade? Qual foi a última vez, caro leitor, em que teve de usar toda sua força? Em que expôs seus músculos ao extremo? Quando correu, dando o máximo de si, a toda velocidade? Quando foi a última vez que saltou? Que brigou? Que suportou a dor, o sofrimento físico? 
Assumir o sofrimento é o principal papel da coragem física; e a coragem física é como a fonte daquele desejo de entender e apreciar a morte, que mais do que qualquer outra coisa, é a condição para que o homem saiba que um dia vai morrer. Não importa o quanto o filósofo de gabinete rumine sobre o significado da morte, mas sem coragem físcia, requisito para a compreensão dela, ele não vai nem começar a entender de que é que se trata. [1]

A dor, o sofrimento, a fadiga e o cansaço, o Sol e o Aço, deixam suas marcas sobre o corpo, mas também sobre o espírito: 
O aço, fielmente, me ensinou a correspondência entre o espirito e o corpo: assim, emoções fracas ma pareceu, correspondiam a músculos flácidos, sentimentalismo a um estômago saliente e excessiva sensibilidade a uma pela branca e super-sensível. Músculos silentes, estômago retesado e uma pele dura devem corresponder respectivamente a um intrépido espirito de luta, ao frio poder do julgamento intelectual e uma disposição vigorosa. [1] 

O desporto é uma um ambiente favorável a tal experiência corpórea, mas minha mensagem não é tão restrita. Sim, se deve cultivar a prática desportiva, não uma, mas várias, mas não apenas isso. A aventura deve ser um estilo de vida! E ainda mais para nós católicos, nós que temos uma causa santa a defender! Quantas vezes nos expomos ao risco pelo Evangelho? Temos tido coragem de dizer a verdade, mesmo ante um público hostil? Há algum grau de heroísmo e generosidade ao rigor de nosso jejum? Há desafio em nossas peregrinações? Temos coragem de adentrar as selvas urbanas, de em meio aos favelas e cohabs proclamar o Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo? Com que frequência desafiamos os hereges e destroçamos suas mentiras? Se necessário, estamos prontos para defender com os punhos a nossa santa religião

Que diremos a nossos filhos e netos? Narraremos a juventude do amanhã nossas vitórias? Temos estampado em nosso corpo as cicatrizes da batalha, em nossa alma o ardor do combate?  A pergunta que vos faço, faço também a mim: somos guerreiros, soldados de Cristo ou covardes e falastrões?

O Céu, senhores, não é para covardes.

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[1] Sol e Aço - Yukio Mishima

quarta-feira, 10 de julho de 2019

''Justamente sofremos estas coisas, porque pecamos contra o nosso irmão''


14ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (Gn 41,55-57;42,5-7a.17-24a)
Responsório (Sl 32)
Evangelho (Mt 10,1-7)

Aquilo que escutamos hoje na primeira leitura explica tantas vezes o motivo de nosso sofrimento: <e disseram uns para os outros: Justamente sofremos estas coisas, porque pecamos contra o nosso irmão, vendo a angústia do seu coração, quando nos suplicava, e nós não atendemos, por isto veio sobre nós esta tribulação. (Gn 42,21)>; tantas e tantas vezes faltamos com a justiça e , e por nossas palavras, atos e omissões tanto mal causamos a nossos irmãos. Tal injustiça não ficará sem paga, no devido tempo Deus nos envia as penas temporais, aquilo que é devido a saciar a justiça. Pensemos em nossos pecados, o quanto ofendemos a Deus, o quanto machucamos nosso próximo, desde a nossa infância até os dias de hoje… Há muito o que reparar. Vigiemos para não aumentar nossa dívida e procuremos reparar com humildade e resignação a injustiça que cometemos. 

terça-feira, 9 de julho de 2019

O Batman de Burton

Os filmes de Tim Burton são de fato uma experiência estética curiosa, mas alguns vão muito além disso. Resolvi (com a ajuda do bom e velho Torrent) rever alguns velhos filmes do diretor, mais especificamente  "Batman" e "Batman Returns".

Neste segundo filme, o drama do vilão é o que mais chama atenção. O Pinguim é uma espécie de vítima; alguém que nasceu deformado e foi rejeitado pelos pais (jogado ao rio em pleno Natal). Rejeitado pela sociedade, inicialmente busca suprir tal carência com uma superaprovação (ser querido, eleito prefeito, etc), rejeitado uma segunda vez, este continua a nutrir sentimentos de vingança para com sociedade que o rejeitou. Se como primogênito foi rejeitado pelos pais, o vilão quer agora punir sobretudo aqueles que tiveram a vida que ele não teve, sequestrando e matando todos os primogênitos de Gotham. Aliás, esse é um tema bem recorrente nos filmes de Burton: a sociedade é quem cria os próprios monstros que irão um dia voltar para assombrá-la.

O Batman, como retratado no filme anterior, não é um herói, mas um louco que procura suprir o trauma de infância de ter perdido os pais saindo pela rua vestido de morcego e descontando sua raiva nos criminosos. Não é um homem justo e escrupuloso, no primeiro filme o vemos deixar Jack cair nos químicos que o transformariam no Coringa. Posteriormente, Batman acaba sendo corresponsável pela morte do Coringa e não mostra um pingo de remorso. No segundo filme, em uma das cenas finais, diz o Pinguim ao Batman: "-Está com inveja? Inveja porque eu posso ser um monstro as claras e você precisa se esconder atrás de uma máscara para tal?*". Outro aspecto curioso é que em ambos os filmes, apesar de Bruce ser um ricaço, ele é totalmente desajeitado com as mulheres, e seus romances dependem em grande parte da boa vontade das mocinhas.

Retornando ao segundo filme, o poder hipinótico da beleza feminina é retratado de uma forma magistral. A Mulher-Gato desconcerta a todos, do Pinguim ao Batman. São muitas as cenas em que o "herói" tem de decidir entre seguir sua razão ou seu instinto e não poucas as vezes fica completamente abobado ao lidar com a vilã. Uma realidade, creio eu, que todo o varão têm de aprender a lidar: resistir aos encantos das desviadas, por mais belas que o sejam.

Por fim, há que se destacar que a Mansão Weyne é uma verdadeira expressão da perspectiva arqueofuturista. Um castelo medieval na América equipado com a mais avançada tecnológica, isso sem falar o belíssimo batmóvel em art deco. Concluo polemizando: por estes e outros aspectos, o Batman de Burton é melhor que o de Nolan :P.

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*Cito o diálogo de memória, pode ser que as palavras usadas não sejam exatamente as mesmas, mas tem o mesmo sentido.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Os anjos e a vocação matrimonial


13ª Semana do Tempo Comum - Sexta-feira
Primeira Leitura (Gn 23,1-4.19; 24,1-8.62-67)
Responsório (Sl 105,1-5)
Evangelho (Mt 9,9-13)

Abraão não queria que seu filho Isaac se casasse com as mulheres da região. O santo patriarca sabia algo que os jovens de hoje esqueceram: nem toda a moça é "casável", há regiões tão impregnadas de maus costumes que é preferível ir buscar uma esposa fora, longe... Abraão envia seu servo, é uma missão difícil sem dúvida, mas diz o patriarca ao servo que o Senhor enviará um anjo a sua frente. No livro de Tobias também vemos a ação angélica a trabalhar pela união matrimonial.

Que homens e mulheres confiem mais nos meios sobrenaturais e não caiam na tentação da carência afetiva de se unir a qualquer um por medo da solidão.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Morte Negra

Assisti ontem ao filme Morte Negra, uma obra interessante que embora não seja de todo simpática aos cristãos, não nos é absolutamente hostil. Ambientada na época da peste negra, a história nos coloca junto há um grupo de cavaleiros a serviço do bispo em uma misteriosa missão (spoliers daqui para frente). Seja pelo acaso, seja pela Providência, o jovem Osmund junta-se ao grupo. Osmund é um monge franciscano que secretamente traiu seus votos para juntar-se a uma moça, a qual manda a sua frente para o bosque, enquanto este está a rezar e meditar se deve ou não acompanhá-la. 

Enquanto os padres pregam que a peste é um castigo de Deus para uma época iníqua, alguns, no entanto, creem que a peste não tem uma origem divina, mas demoníaca, fruto de feitiçaria. Fiel a historiografia atual, o filme mostra o ceticismo do clero com relação a eficácia da bruxaria. Logo no início da jornada, Osmund tenta salvar uma jovem injustamente acusada de bruxarias pelos populares, seu intento, no entanto, acaba fracassando. 

Os cavaleiros são liderados por Ulrich , homem valente e piedoso,  devem investigar um vilarejo livre da peste, vilarejo este que recusa a Deus. Também há rumores de bruxaria e necromancia em tal vilarejo, o demônio realizara prodígios ressuscitando os mortos para enganar os homens. Nas proximidades do vilarejo, Osmund encontra as roupas manchadas de sangue de sua amada, julgando que ela tenha encontrado a morte. 

Já no vilarejo, após uma aparente acolhida, os cavaleiros são enganados e capturados pela bruxa e seus seguidores, que procuram matá-los, não antes de perder suas almas, instando-os a apostasia. Embora muitos cavaleiros resistam heroicamente, há um que cede ao medo, e renuncia a fé católica. Iludido por promessas de segurança, o cavaleiro porém, encontra a morte logo em seguida; o inferno o aguarda. Na tentativa de perder Osmond, a bruxa o leva até a sua amada que teria sido ressurrecta por magia. Osmond é tentado duramente, por fim, mata sua amada, devolvendo sua alma ao purgatório, segundo crê, e volta para confrontar a bruxa e seus servos pagãos. Enquanto isso, Ulrich é violentamente torturado a fim de que renuncie a fé. O cavaleiro resiste bravamente, como um verdadeiro mártir, ao fim guarda uma surpresa aos malditos pagãos: a peste. Ulrich estava contaminado, com sua morte traria a morte ao vilarejo. Neste meio tempo, dois dos cavaleiros restantes conseguem libertar-se, vingar alguns de seus companheiros, capturar um dos blasfemos lideres do vilarejo, “o necromante” e resgatar Osmund, embora a bruxa termine por escapar. Antes, porém, esta revela a Osmund que sua amada não havia revivido, na verdade até então ela sequer havia morrido, a necromancia era apenas um truque, a moça estava ferida, foi curada e posteriormente drogada para ludibriar o padre. Ao fim do filme, aqueles na aldeia que não morreram pela espada são vitimados pela peste, o “necromante” é levado a julgamento e o padre retorna ao mosteiro, embora não por muito tempo. Consumido pelo ódio, Osmund abandona a vida sacerdotal tornando-se um caçador de bruxas, buscando a mulher que o manipulou para matar sua amada. Todavia, o ódio não é um bom conselheiro, e não raro o cavaleiro acaba por torturar e condenar moças inocentes. 

Embora haja certa histeria por parte do laicato, o filme demonstra bem a perversidade daqueles envolvidos com a bruxaria, verdadeiros servos do demônio, que apesar de servirem-se de truques para realizar seus prodígios, manipulam os homens, blasfemam contra Deus e esforçam-se por fazer perder as almas. Também assim o é hoje, quantos não se entregam as imundas doutrinas e a perversas feitiçarias? Tais homens e mulheres não são outra coisa senão escravos do demônio, que tão mal fazem aos inocentes e tanto ódio nutrem a Igreja de Cristo. Tal prática nefanda deve ser combatida, mas infelizmente não é o que ocorre dado a crise conciliar onde muitos bispos e papas andam por aí amigados de feiticeiros, promovendo blasfemas cerimônias sincréticas... Quem dera houvesse hoje cavaleiros como o do filme bem como inquisidores como outrora (seja conforme a história real ou mesmo versão edgy propagada por pseudo-historiadores); sem dúvida, o povo cristão se alegraria ao ver algumas fogueiras acesas...

No que diz respeito a peste negra, podemos dizer que fora uma verdadeira prefiguração do Apocalipse. A doença ceifou mais de 75 milhões de vidas e devastou a Europa. Refletir a respeito nos fará bem, sobretudo nestes tempos iníquos onde abunda o pecado. Se o passado mereceu tão rigoroso castigo, o que aguarda nossa geração? Rezemos.