sábado, 20 de julho de 2019

Burton, Quaresma, Casamento e Vida Intelectual



Já faz alguns dias que estou a ler o Triste Fim de Policarpo Quaresma”, um clássico da literatura brasileira de autoria do escritor Lima Barreto. Recordo-me de ter estudado o romance há tempos imemoriais quando estava no ensino médio, bem como de ter visto um filme, de péssima qualidade, inspirado na obra. Sim, o filme era terrível! Fora incapaz de captar toda a carga dramática da obra, que faz-me lembrar a Tim Burton. Nos filmes de Burton há sempre um contraste entre um protagonista estranho, mas, ao mesmo tempo, sensível, inocente e ingênuo, que busca se adaptar a uma sociedade medíocre que não o compreende. Tal é a premissa desse clássico nacional; o major Policarpo é um homem de estudo, um intelectual e alguém apaixonado pelo país, ao mesmo tempo encontra a incompreensão de uma sociedade apática e mesquinha, sociedade esta que valoriza mais os símbolos de conhecimento que o próprio conhecimento, que se ira contra tudo aquilo que destoa da mediocridade cotidiana. Logo no primeiro capítulo temos notícias de que o velho major: 
Se não tinha amigos na redondeza, não tinha inimigos, e a única desafeição que merecera fora a do Doutor Segadas, um clínico afamado no lugar, que não podia admitir que Quaresma tivesse livros: “Se não era formado, para quê? Pedantismo! 

O estudo e a leitura de Quaresma também são motivos de troça no terceiro capítulo, e para seus contemporâneos, causa de sua loucura: 
-Quaresma está doido.
(…)
-Nem se podia esperar outra cousa, disse o doutor Florêncio. Aqueles livros, aquela mania de leitura…
-Pra que ele lia tanto? Indagou Caldas?
-Telha de menos, disse Florêncio.
Genelício atalhou com autoridade:
-Ele não era formado, para que meter-se em livos?
-É verdade, fez Florêncio.
-Isto de livros é bom para sábios, para doutores, observou Sigismundo.
-Devia até ser proibido, disse Genelício, a quem não possuísse um título “acadêmico” ter livros. Evitavam-se assim essas desgraças. Não acham? 
Esse ódio ao conhecimento acompanhado pela veneração dos títulos acadêmicos persiste até hoje, desde as troças injustas para com o filósofo Olavo de Carvalho (cuja filosofia tem seus problemas, mas nem por isso é absolutamente desprezível) pelo fato deste ter feito carreira a margem da academia. Recordo-me ainda uma situação pessoal, onde em um grupo paroquial instava o público a ler nas Sagradas Escrituras, alguns dos chamados livros sapienciais: Provérbios, Eclesiastes e Eclesiástico, livros simples e ao mesmo tempo interessantíssimos, mas fui repreendido pela padre, segundo o qual não se devia estudar isso fora de uma faculdade de teologia...

Não é apenas na sua relação com a vida intelectual que se vê a mesquinhez da sociedade brasileira, chama-me a atenção a atonia da vida afetiva das moças, conforme a descrição do autor: 
(…) Casar, para ela, não era negócio de paixão, nem se inserira no sentimento ou nos sentidos; era uma ideia, uma pura ideia. Aquela sua inteligência rudimentar tinha separado da ideia de casar o amor, o prazer dos sentidos, uma tal ou qual liberdade, a maternidade, até o noivo. Desde menina, ouvia a mamãe dizer: “Aprenda a fazer isso, porque quando você se casar”… ou senão: “Você precisa aprender a pregar botões, porque quando você se casar..”
 A todo instante e a toda hora, lá vinha aquele - “porque, quando você se casar...” - e a menina foi se convencendo que toda a existência só tendia para o casamento. A instrução, as satisfações íntimas, a alegria, tudo isso era inútil; a vida se resumia numa cousa: casar.
 De resto, não era só dentro de sua família que ela encontrava aquela preocupação. No colégio, na rua, em casa das famílias conhecidas, só se falava em casar. “Sabe, Dona Maricota, a Lili casou-se, não fez grande negócio, pois parece que o noivo não é la grande cousa”; ou então: “ A Zezé está doida para arranjar casamento, mas é tão feia, meu Deus!...”
 A vida, o mundo, a variedade intensa dos sentimentos, das ideias, o nosso próprio direito á felicidade, foram parecendo ninharias para quele cerebrozinho; e , de tal forma casar-se lhe representou cousa importante, que uma espécie de dever, que não se casar, ficar solteira, “tia”, parecia-lhe um crime uma vergonha. 
Como é triste que uma vocação tão sublime como o matrimônio se converta em uma mera obrigação social, pobrezinha a Ismênia, a mocinha da ficção, que afinal foi o retrato de tantas outras, e ainda o é (cheguei a conhecer gente semelhante em minhas andanças, mas isso é outra história…). 

Enfim, a obra é interessantíssima, prende o leitor e revela muitos dos vícios da alma brasileira que persistem ainda hoje. Talvez ainda retorne ao assunto em postagens futuras, de todo o modo, fica a indicação.

2 comentários:

  1. Vez e outra surgem homens como Quaresma, embora geralmente não tão fervorosos, difícilmente não são pisoteados por seus contemporâneos.
    Em tempos que o estudo é tido como meio de emancipação social e não espiritual, é de espantar que existam estudiosos desinteressados. Quem, afinal, nunca ouviu um "estude, ou isso, estude para ser alguém na vida"?

    Lima Barreto foi (ou é) um escritor com "E" maíusculo, pois, para ele, ser escritor não era simplesmente uma profusão, mas uma missão. Sabe-se que as primeiras edições encadernadas saíram do bolso do próprio autor, que sustentava a família e não vivia com muito.

    Este blog foi um achado e vou tomar um tempo para ele, então se acostume com meus comentários desconexos. Parabéns àquele que escreve, continue assim!

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    1. Seja bem-vindo ao Bunker amigo, agradeço o comentário e aos elogios.

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