segunda-feira, 29 de julho de 2019

De fato: triste foi o fim de Policarpo Quaresma



Ao encerrar a leitura fica um aperto no coração. Policarpo era um homem honesto e sonhador, um intelectual, uma alma de grandes horizontes e aspirações. Tinha ideias um tanto quanto ousadas, mas não se limitava a repeti-las como filósofo de gabinete, antes procurava colocá-las em prática, sua crença na fertilidade de nossa terra, por exemplo, o levou até o interior afim de com seu suor dedicar-se a agricultura. A épica saga de Quaresma em seu “Sossego”  é uma das mais belas linhas de nossa literatura, e tão atual se mostra nessa era onde tantos quais nunca plantaram sequer a hortelã para o preparo do chá, se colocam a idealizar a prática agrícola e a mitificar a chamada agricultora orgânica...

Todavia, é uma pena, este homem acaba por sucumbir. De fato: triste foi o fim de Policarpo Quaresma; nos capítulos finais desta obra magna da literatura brasileira o herói renuncia a seu credo nacionalista, morre como uma espécie de apóstata, maldizendo sua existência e aquilo que um dia havia amado:
Iria morrer, quem sabe se naquela noite mesmo? E que tinha ele feito de sua vida? Nada. Levara toda ela atrás da miragem de estudar a pátria, por amá-la e querê-la muito, no intuito de contribuir para a sua felicidade e prosperidade. Gastara sua mocidade nisso, a sua virilidade também; e, agora que estava na velhice, como ela o recompensava, como ela o premiava, como ela o condecorava? Matando-o. E o que não deixara de ver, de gozar, de fruir, na sua vida? Tudo. Não brincara, não pandegara, não amara – todo esse lado da existência que parece fugir um pouco à sua tristeza necessária, ele não vira, ele não provara, ele não experimentara.

Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem... Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada... O importante é que ele tivesse sido feliz. Foi? Não.

Lembrou-se das suas cousas de tupi, do folklore, das suas tentativas agrícolas... Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma! O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio; e levou-o à loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferazes e ela não era fácil como diziam os livros. Outra decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois ele não a viu combater como feras? Pois não a via matar prisioneiros, inúmeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma série, melhor, um encadeamento de decepções. 

Errou Quaresma em sonhar, em buscar uma existência para além da vulgaridade, da mediocridade do parecer? De forma alguma. Entretanto, se podemos imputar um erro de nosso herói foi ter negligenciado a força, o poder. A esse respeito o próprio autor, Lima Barreto,  nos esclarece ao citar a amigo do major, o ex-quitandeiro e imigrante italiano Vicente Coloeni
Sendo bom de fundo, quando lutava pela fortuna se fez duro e áspero, mas logo que se viu rico, perdeu a dureza de que se revestira, pois percebia bem que só se pode ser bom quando se é forte de algum modo. 

Repito: <só se pode ser bom quando se é forte de algum modo>!!! Se o leitor marca presença frequente neste bunker, de fato tem algo em sua alma que se assemelha ao herói nacionalista Policarpo Quaresma, tem suas idéias ousadas, suas fantasias artísticas e civilizacionais. Não há porque abandonar tais sonhos, tais aspirações heroicas e belas, mesmo que um tanto românticas. Entretanto deve-se ter em mente que a sociedade nos é hostil. Não há modo de vencer tal hostilidade senão adquirindo força e poder. Torne-se forte caro leitor, tal também o farei, e então, como um imperador romano, edificaremos, ao menos em nosso redor, uma obra de arte a ser admirada pelas gerações posteriores, e assim o faremos apesar da oposição dos néscios e tolos.

A vida é uma aventura e não devemos nos contentar com uma existência medíocre! Que não terminemos nós como o major Policarpo Quaresma, mas antes, que tal qual Nosso Senhor Jesus Cristo, vençamos o mundo!

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