domingo, 25 de agosto de 2019

Indigna Plebe

Orgulho é um termo polissêmico. Por um lado a palavra pode ser usada para designar o pecado de Lúcifer que inebriado em uma adoração de si mesmo, rejeitou curvar-se ante a majestade divina. O termo, entretanto, também pode designar uma consciência de elevada dignidade e um compromisso existencial em não maculá-la com atos vis. Nesse sentido, podemos citar o orgulho guerreiro ou o orgulho nobiliárquico. Tal realidade parece inexistir em tempos democráticos, sobretudo neste país tropical, como ilustra tristemente a breve coletânea de contos de Alcântara Machado: Brás, Bexiga e Barra Funda.

O livreto caiu em minhas mãos no mais absoluto acaso, e comecei a leitura sem saber o que esperar. O autor busca retratar o cotidiano daqueles por ele chamados de “novos mamelucos” a nova “raça” brasileira que se gestava na mistura com os imigrantes italianos. Mas, é curioso, diria até incômodo, como os personagens de três destas histórias renunciam a crenças arraigadas em prol de vantagens imediatas. 

Em “A Sociedade”, a esposa do Conselheiro José Bonifácio inicialmente se mostra intransigente em seu preconceito anti-italiano: “-Filha minha não casa com filho de carcamano!”. Não compartilho das restrições étnicas da dona, até por que sou descendente de italianos, mas não os condeno. É normal entre as sociedades tradicionais que se crie restrições e barreiras a fim de moldar certa identidade familiar. Que as famílias coloquem restrições étnicas, econômicas e religiosas, não faz com que o jogo do amor se torne extremamente complexo e vida social algo bem mas interessante? A intransigência da dona, todavia, não vai longe, o “carcamano” enriquece e o dinheiro deste faz a senhora mudar de ideia e o casamento logo se concretiza, para a alegria da filha. 

"Corinthians (2) vs. Palestra (1)", temos uma história bem mais vulgar, Miquelina, verdadeira maria chuteira, troca de time de futebol e de namorado conforme o resultado da partida. Se no início da história a moça é palestina (palmeirense) fanática, após a partida se torna corintiana e volta a se engraçar com o atacante do time vitorioso, rejeitando seu romance de até então, o palmeirense derrotado.

Por fim, em "Nacionalidade", acompanhamos a trajetória de um imigrante italiano apaixonado por seu país de origem, com sonhos de retornar a sua pátria, que vai pouco a pouco sufocando seu amor nacionalista conforme vai prosperando em terras tropicais, até que por fim, de forma simbólica, renuncia a suas pretensões nacionalistas se naturalizando brasileiro.

Apesar de bobinhas, as histórias mostram personagens apequenados, homens e mulheres sem fibra, sem crenças profundas, que renunciam aquilo que outrora lhes era importante com extrema facilidade. Não é assim até hoje entre nossos conterrâneos? Raro é encontrar alguém dotado de crenças profundas, disposto a sofrer por aquilo que acredita, e manter-se fiel, perseverando, pelejando até a morte.

Esta pátria de geleia precisa de heróis, de homens de fibra, para ensinar a seu povo a virtude. Serás tu, caro leitor, este tipo de herói? Ou ainda teremos de esperar por mais algumas gerações?

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