sábado, 17 de agosto de 2019

Não basta, afinal, levar uma vida honesta, é preciso que seja autêntica

Terminei eu a leitura de "A Morte de Ivan Ilich" de Liev Tolstói. Uma história verdadeiramente agonizante. Ter finalizado a leitura não muito depois de "O Triste Fim de Policarpo Quaresma" me faz pensar que a Rússia de Tolstói não é lá muito diferente do Brasil de Lima Barreto. Se bem o tema também ecoa em O Nó das Víboras de François Mauriac, que por sua vez é francês; a ideia de uma existência inautêntica. Conforme destaca José Monir Nasser, Ivan Ilich não é um homem mal, se trata de um trabalhador dedicado que fez carreira no serviço público, conquistou certa condição financeira invejável, constituiu uma família respeitável e é querido em seu círculo de amigos; entretanto, na agonia da morte, Ivan sofre solitário, é vítima da indiferença de todos os que o cercam, e passa a questionar o sentido e os rumos que imprimiu a própria vida. É estranho como normalmente vivemos seguindo uma receita de bolo: “precisamos estudar, trabalhar, casar, constituir família e fortuna” e só paramos a pensar a respeito do sentido da vida quando a morte bate à porta. Aliás, apenas quando bate às nossa própria porta, pois como destaca o autor, não raro a morte dos demais nos parece algo distante, que não nos diz respeito. Tema este, aliás, de um belo poema de Manuel Bandeira: 

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta. 

(BANDEIRA, Manuel. Estrela da Manhã) 

Ivan levou a vida no piloto automático, na carreira buscou antes o interesse financeiro que a vocação (o que não necessariamente é ruim, se este interesse financeiro tiver algum sentido existencial. Uma coisa é suportar um emprego infeliz afim de acumular fortuna com vistas a realizar algo: financiar uma guerra, auxiliar uma causa nobre, edificar uma bela obra arquitetônica; outra é fazer por fazer tomando o dinheiro como fim em si mesmo destituído de sentido); casou por casar sem grande amor ou paixão (uma visão extremamente rasa do matrimônio, tal qual Olga e Ismênia de Lima Barreto); e passados os prazeres inicias da lua de mel, tão logo se viu infeliz e em eternas brigas com a esposa, de modo que se refugiou no trabalho, tendo a sua vida familiar se resumido em mera imagem, mero “decoro”, destituída de toda e qualquer substância. Não que os amigos e familiares o tenham abandonado ao desterro durante a doença, se trata de um drama de natureza diferente e um tanto mais sutil, aparentemente estes se dedicavam a cuidar dele, mas era um cuidado apenas formal, tendo em vista a imagem, os deveres sociais, sem qualquer consideração para com a pessoa de Ivan. Praskovya (esses nomes russos são terríveis!) estava antes preocupada em aparecer aos olhos de todos como uma esposa fiel e dedicada e tão logo esfriou o cadáver, deu graças por se ver livre de tal estorvo; seus amigos, quando souberam de sua morte, puseram-se a discutir as promoções e alterações na hierarquia do funcionalismo estatal derivado de tal fato e, assim que viram-se livres dos deveres sociais associados ao velório, lá continuaram com seu jogo de cartas semanal. 

Tolstói era cristão, mas uma espécie de herege anarquista que rompeu com a Igreja Ortodoxa e fundou sua própria seita munida de doutrinas próprias um tanto quanto bizarras. De tal forma que, na obra, a Igreja institucional ([t] ortodoxa) aparece apenas como mais um ator daquele teatrinho social, do decoro, das formalidades inúteis, sendo a comunhão do protagonista moribundo apenas uma adesão a um capricho da esposa. 

É triste o fim de Ivan Ilicth, a escuridão da morte, de modo paradoxal, vem a clarear os erros de sua vida. Embora sinta o leitor profunda piedade para com o moribundo, as linhas de causalidade entre as atitudes de Ivan e as frutos amargos colhidos saltam aos olhos. Não basta, afinal, levar uma vida honesta, é preciso que seja autêntica. 

Pensaremos nós no sentido de nossa vida apenas em nossos últimos suspiros? Inspirado no autor russo, recomenda José Monir Nasser o exercício do necrológio, exercício este também ensinado pelo filósofo Olavo de Carvalho. Pensemos em nossa morte, que estamos agora sendo velados, e um amigo conta a nossa vida a um terceiro… Como gostaríamos de ter vivido? Confesso que tenho grande dificuldade com tal exercício, aos 24 anos não me considero com capacidade para traçar os rumos de uma existência que pode durar até os 70 (ou se encerrar amanhã, só Deus sabe...), entretanto, consigo ter alguns vislumbres do que fazer, e sobretudo do que não fazer… Não gostaria de terminar meus dias tal qual Ivan Ilich… 

Todavia, Ivan não é o único personagem da novela, e nem nós somos um universo isolado. Pensemos também em nosso próximo, que pode estar a terminar seus dias como infeliz protagonista, e nós, tantas vezes estamos a imitar o formalismo estéril daqueles que o rodeavam.

*** 

O artigo terminaria logo acima não fosse um acaso do destino (ou um desígnio da Providência?). Acontece que resolvi continuar minhas incursões pelas obras de Tolstoi, e qual não foi minha surpresa e perturbação com a riqueza de “Padre Sérgio”? Recomendo avidamente que se leia esta obra, a qual considero a melhor da literatura russa (embora minha amostragem não seja lá muita ampla, não tendo eu lido, até o presente momento, mais que três obras de Tolstói e uma de Dostoiévski). Esta breve novela nos traz a história de Stepán Kasatski, um militar de carreira que abandona tudo para por-se a serviço de Deus, ou assim se pensava. Não pretendo aqui entrar em maiores detalhes a respeito do enredo, todavia há que se dizer que Tolstói consegue demonstrar de forma magistral como a Igreja e a vida religiosa podem tomar parte em todo o teatro social descrito anteriormente, sendo as estruturas eclesiásticas convertidas antes em obstáculo, que uma ponte, na conexão do homem para com Deus. Longe da aderir as anárquicas heresias do autor, ou a moda iníqua de uma espiritualidade deísta e desigrejada, a obra contudo nos alerta da necessidade de que está “vida autêntica” a qual acima me referi, ecoe pelas estruturas institucionais da Igreja. A fé não se pode resumir a uma adequação da personalidade a certos esterótipos, como que arquétipos, da sociedade intraeclesial. Encerro, pois, estas linhas virtuais com uma paráfase do título do artigo: Não basta, afinal, levar uma vida piedosa, é preciso que seja autêntica.

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