quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Os bastidores da Indústria Cultural

Se o cinema americano é o mais rico em termos técnicos, diria que em termos de técnica narrativa ninguém supera os japoneses, o longa Perfect Blue, de Satoshi Kon, apesar da sua relativa antiguidade (fora lançado em 1997), não deixa de surpreender ainda hoje. O roteiro, inicialmente simples, vai se bifurcando até um final surpreende, e um tanto quanto misterioso.

Acompanhamos a virada da carreira de Mima Kirigoe, uma idol japonesa. Cabe aqui algumas explicações: no Japão o termo idol designa grupos musicais femininos com trejeitos infantis em músicas bobinhas e inocentes.; algo semelhante a Eliana ou a Xuxa em início de carreira, com uma diferença um tanto quanto bizarra: os fãs de tais grupos não são crianças, mas homens adultos. Mima pretende dar um salto na carreira, deixar a vida de cantora para se tornar atriz de televisão, todavia o mundo artístico se mostra um lugar nada saudável. Voltemos ao roteiro; para alavancar sua carreira, a moça tem de abandonar a imagem infantil e se transformar em um símbolo sexual. Com o desenrolar da história Mima aceita posar nua e gravar cenas de estupro em séries de televisão. Tal mudança gera uma crise de identidade na atriz, bem como a ira de um de seus antigos fãs, que não aceitam de maneira nenhuma tal transformação. Conforme a trama avança, os corresponsáveis pela mudança de Mima são assassinados um a um, a coisa se torna ainda mais misteriosa uma vez que na série de TV, a atriz interpreta uma serial killer. Daí em diante, o diretor maneja bem o roteiro de modo a deixar o expectador completamente perdido. Tal ou qual cena seria ''real'' (isto é, real dentro do universo da narrativa) ou um recorte da atuação da Mima na série de televisão? Qual seria a história real? A atriz em mudança de carreira ou a assassina da televisão? Concomitante a isso, a moça passa a ver uma outra versão de si mesma, uma espécie de alter ego, tal se diz a verdadeira Mima e afirma que existe para combater essa farsante que está a sujar a sua imagem. Nesta confusão entre o “real” e o ficcional, vemos também a ação de Me-Mania, um asqueroso fã da antiga cantora, a perpetrar crimes. De tal forma que fica ainda a dúvida no espectador, seria Me-Mania o responsável pelos assassinatos? Teria ele alguma existência real, ou seria apenas uma ilusão, uma criação mental de Mima? 

Apenas nos instantes finais do longa é que o mistério é desvendado. Rumi, a assessora de Mima, uma mulher de meia idade que no passado teve também sua carreira como idol, seria a responsável pelos assassinatos. A assessora, indignada com a mudança da imagem da atriz, teria enlouquecido, desenvolvido uma espécie de transtorno de personalidade e confabulado junto com Me-Mania todos aqueles crimes. 

Além da técnica narrativa, é interessante o modo como filme retrata toda a podridão do mundo artístico, cujo o preço do sucesso é a corrupção da alma por parte das celebridades, bem como a relação doentia para com os ídolos desenvolvidas por alguns dos fãs. Aliás,  os termos ídolo e fã (do latim do latim fanaticus) são conceitos religiosos; curioso que tais sejam empregados em uma realidade tão vulgar quanto a cultura midiática, não? Tal aplicação não é inadequada, antes mostra uma realidade iníqua, que o tipo de relação entre os “famosos” e seu público, não raro passa longe daquilo que poderíamos chamar de algo saudável.

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