quarta-feira, 28 de agosto de 2019

"Porque as trevas não são escuras para ti"


21ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (1Ts 2,9-13)
Responsório (Sl 138)
Evangelho (Mt 23,27-32)

1. A liturgia de hoje é tão providencialmente harmônica que se assemelha a uma sinfonia clássica. O salmo que hoje cantamos é de uma beleza ímpar; trata-se do Salmo 138, bem conhecido em nossas terras nestes tempos, dado que o Padre Marcelo Rossi escreveu uma bela música nele inspirado: Sonda-me


A parte que hoje cantamos, porém, não se encontra na canção carismática. Os versículos narram de forma poética o drama de uma alma que tenta fugir e esconder-se de Deus, subindo aos altos céus, descendo ao fundo do abismo, envolvendo-se em trevas profundas, mas tudo isso é inútil. Ninguém pode ocultar-se do olhar divino, que enxerga toda a verdade de nosso ser. 
E disse: Talvez me ocultarão as trevas; mas a noite converte-se em claridade para me descobrir no meio dos meus prazeres.

Porque as trevas não são escuras para ti; e a noite brilha como o dia, e a escuridão como a claridade; (Sl 138. 11-12)

Tal verdade descobriram, de modo amargo os fariseus, que buscavam tão somente simular piedade diante dos homens, enquanto praticavam seus pecados no escondido. Foram eles, pois, desmascarados por Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim acontece também conosco quando procedemos de modo semelhante. Podemos enganar nosso próximo, até mesmo a nós mesmos por alguns instantes, mas a Deus ninguém engana. 

2. Hoje recordamos a memória de Santo Agostinho de Hipona. Agostinho é o autor de Confissões. Nesta obra autobiográfica o bispo de Hipona confessa a Deus, a si mesmo e a seus leitores as misérias mais íntimas de sua alma, seus pecados cometidos desde a tenra infância, bem como todo o seu processo de conversão. A sinceridade do autor salta aos olhos, a obra tocou-me profundamente quando o li nos inícios de meu retorno a Igreja, de minha conversão pessoal. Deveríamos nós imitá-lo; não que fosse necessário publicar aos quatro ventos nossos pecados de hoje ou outrora, mas ser sinceros ao admitir que, afinal, não somos lá grande coisa. Um bom começo seria a prática do exame de consciência de modo mais frequente, quiça até diariamente. Que ao anoitecer contemos a Deus nosso dia, com profunda sinceridade, relatando nossos feitos, nossas omissões, nossos erros e pensamentos, relatando a causa profunda de cada um de nossos atos. É preciso que isto seja feito com profunda sinceridade, afinal estamos a falar diretamente a Deus a quem ninguém pode enganar. Nesta confissão diária, Deus nos mostrara algo sobre nós mesmos, e assim iluminados pela luz divina, poderemos, quem sabe corrigir nossa conduta. Mas, não se iluda o leitor, é uma dificuldade tremenda corrigir-se a si mesmo ainda que ciente das próprias misérias, todavia não desanimemos, Deus é mais!

3. Por fim, gostaria de citar a São Josemaria Escrivá
Com a tua conduta de cidadão cristão, mostra às pessoas a diferença que há entre viver triste e viver alegre; entre sentir-se tímido e sentir-se audaz; entre agir com cautela, com duplicidade - com hipocrisia! -, e agir como homem simples e de uma só peça. - Numa palavra, entre ser mundano e ser filho de Deus. - Sulco 306 
Note o contraste entre a conduta mundana (triste, tímida, dissimulada, hipócrita) e a conduta cristã (alegre, audaz, simples). O proceder mundano é uma conduta “noturna”, de alguém que como no salmo de hoje, busca ocultar-se nas trevas. O proceder cristão é uma atitude “solar”, dos filhos da luz, de quem não tem nada a esconder. A audácia do cristão nasce da consciência da própria miséria e de que está é conhecida por Deus. Se assim o é, de que vale ocultar-nos, dissimularmos diante de nós mesmos e de nosso próximo? Confessemos nossas misérias e sigamos adiante.

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