domingo, 29 de setembro de 2019

A Alta Macheza em Lord Jim

Apesar do estilo prolixo intragável de Conrad, Lord Jim é uma história sobre alta macheza.

Jim fora marinheiro que, ante uma tempestade, abandonou covardemente o navio em que trabalhava junto com seu capitão e dois outros companheiros. Acontece que, se tal covardia era algo contumaz para seus colegas, para ele tivera um gosto extremamente amargo. Mesmo que o pior não tenha ocorrido e os passageiros (peregrinos maometanos que se dirigiam a Meca) tenha sido salvos posteriormente por uma embarcação francesa que escorou o navio quebrado, tal desonra marcou profundamente a alma do protagonista. Fugindo do passado como de um fantasma, Jim vaga pela terra de emprego e emprego, fugindo sempre que os ecos do Patna voltam a superfície. Por fim, nosso herói é enviado por seus amigos a uma aventura colonial na ilha de Patsuan; um lugar ermo, afastado da civilização. Neste fim de mundo Jim vive altas aventuras e consegue, por posteriores atos de coragem na guerra, exorcizar o antigo fantasma, reconquistando a confiança em si mesmo.

Todavia, a glória não dura para sempre e Jim falha uma vez mais... Ante esse fracasso, o protagonista coloca-se diante de um dilema atroz: fugir, uma vez mais, com a mulher que ama e tentar reconstruir a vida em outro lugar, ou enfrentar a morte? Jim escolhe a morte. Apresenta-se diante de Doramim, líder tribal de Patsuan, que perdera seu filho por um erro de Jim. 

Joia, mulher de Jim, não o compreende. Parece-lhe um ato de estranho egoísmo, mas não o é. Se trata de honra, da consciência da virtude e da uma dignidade tamanha que não é capaz mais de viver fugindo como um covarde. Jim morreu, morreu como um homem. Um homem que sabe que deve pagar o preço por suas escolhas.

Quantos de nós poderemos um dia dizer o mesmo? Olhemos para o fundo de nosso ser, para as profundezas de nossa alma. Pergunto a mim mesmo e a ti caro leitor, quantas vezes já sentiu em toda a intensidade a dor por um ato de covardia?  Nesta civilização efeminada, o medo se torna algo tão habitual, que nem mais nos envergonhamos. Antes, há quem louve tamanha baixeza como prudência e esperteza....

Que Deus nos ajude a sentir em nossa alma a dor por nossas covardias cotidianas. Devemos cultivar isso em nossa alma, meditar nossas falhas, nossas vergonhas, compreender toda iniquidade de nossos erros, do contrário jamais seremos capazes de abandonar tal proceder indigno e comportarmo-nos verdadeiramente como homens? Há que se recuperar a valentia, mas isso não é possível sem que antes sintamos verdadeira repugnância por nossas cotidianas covardias. É certo que nenhum de nós é Tuan Jim, mas ao menos devemos nos esforçar para vivermos como heróis na narrativa pessoal de nossa própria vida.

Um comentário: