quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Épica Pescaria


22ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (Cl 1,9-14)
Responsório (Sl 97)
Evangelho (Lc 5,1-11)

No Evangelho de hoje contemplamos o episódio da pesca milagrosa. A cena impressiona tanto em seu aspecto sobrenatural, mas também nos seus contornos mais naturais. São Pedro menciona que trabalhara a noite inteira sem resultados, jogara as redes pelas escuras madrugadas da idade antiga sem conseguir pescar nada… Pergunto ao leitor, consegue imaginar a cena em toda sua riqueza?  Em minha curta vida não conheço ainda o mar; vi apenas alguns poucos rios, o Rio Grande, na “fronteira” entre Minas Gerais e São Paulo e o Rio do Peixe em Goiás. Percorri um pequeno trecho do Rio do Peixe durante o período de seca em um barquinho de pesca, que suponho eu, muito difere da barca de Pedro. O barco era pequeno, mas motorizado, todavia como o rio estava extremamente raso, houve necessidade de remar, o que se mostrou uma experiência bem mais difícil do que imaginava… Essas minhas insignificâncias porém, nem de longe ecoam a intensidade da experiência de Pedro. As águas que percorreu eram profundas e a pescaria se deu durante a noite, em um tempo onde sequer existia energia elétrica. A noite já é um mistério ainda hoje, com todas as bugigangas tecnológicas, quanto mais antes, isto ainda em meio as águas profundas, longe da terra firme! Há certo tom épico, determinado contorno heroico nesta simples pescaria de outrora. Imaginemos o barco levado pela correnteza, o sereno da madrugada, a profundeza das águas a refletir a escuridão da noite, iluminada talvez pela lua e as estrelas. Tão somente em seus contornos naturais a cena é belíssima… E após essa noite poética, todavia inútil, obedecendo a ordem do Salvador os pescadores lançam as redes uma vez mais, e a pesca é abundante. Quanto alegria e espanto não devem ter sentido aqueles homens? Dois mil anos depois ainda lemos essa história, mas não raro com tanta má vontade… Nos furtamos do esforço imaginativo de reconstruir mentalmente toda a maravilha do ocorrido, pulando diretamente as consequências morais e teológicas. Mas antes da teologia houve a experiência real e concreta! Quão longe estamos nós deste contato com o real, não digo apenas da experiência com o divino, mas com o simples contato com a criação. O mundo é uma aventura épica e nós o transformamos numa monotonia chata e rotineira. 

Termino estas reflexões com está bela pintura de Caspar David Frederich; "Barco de Pesca no Mar Báltico". A obra ajuda-nos maravilhar-nos ante criação, a imaginar toda a poesia de uma pesca noturna e, quem sabe, não nos inspire em futuras aventuras.

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