sábado, 21 de setembro de 2019

Sobre o exercício do Necrológio...


Por um misto de planejamento e acaso, tenho eu dedicado estes últimos meses a leitura de ficção. Acontece que minha renda ainda o é bastante diminuta, e meu “finado” Kindle encerrou sua carreira há pouco mais que seis meses, talvez devido a diabruras (ou muito provavelmente tão somente a velha coincidência) que visavam impedir-me de concluir a leitura da obra do Pe. Félix Sardá y Salvany. Longe das bugigangas da Amazon, a leitura em celulares e computadores mostra-se incômoda para as vistas, de modo que fui obrigado a recorrer a velharias ancestrais, isto é: a biblioteca. Todavia, esta venerável instituição, ao menos nos limites provincianos do interior paulista, não contempla as profundezas da doutrina, tanto menos das polêmicas pós-conciliares, de modo que restou-me a tarefa de alimentar o imaginário com os clássicos da literatura universal, tarefa, aliás, nada ingrata, antes pelo contrário muito edificante. Que tem o leitor com isso? Toda esta digressão deve estar-lhe por torrar a paciência, pois aos que ainda me acompanham, e por obséquio não fecharam a janela do site, passo ao assunto principal: o necrológio. 

Mais especificamente, o exercício do necrológio, idealizado por José Monir Nasser após a leitura de Tolstói, proposto também por Olavo de Carvalho em seu curso online de filosofia (cof! cof!). O exercício consiste em supor o leitor que tenha ele passado “para a banda de lá”, batido as botas, retornado a pó da terra, desposado a morte, ou seja lá metáfora que preferir. Tendo encerrado sua existência neste vale de lágrimas, caberia a um amigo, nosso narrador imaginário, descrever a vida do defunto. Tal exercício daria ao infeliz uma perspectiva de maior responsabilidade ante a existência, e quem sabe evitaria que tivesse uma morte tão triste quanto a de Ivan Illich, ou a do príncipe Fabrício (de O Leopardo). Acontece que aí temos um problema… 

As vidas que se desenrolam ao nosso redor são, por vezes, tão prosaicas, não nos interessamos definitivamente por elas se não por alguns breves instantes. Não é estranho como conhecemos apenas superficialmente a história de muitos de nossos amigos? Seria tal desdém culpa de nossa indiferença, ou será que lhes falta algo? Pois em Lord Jim se dá o exato contrário; o Capitão Marlow fica tão tocado ante a figura de Jim que se transforma em um entusiasmado narrador a perscrutar as profundezas da alma deste jovem inglês. Temos nós tal capacidade? Conseguimos expressar com nossa vida esta chama que desperte o entusiasmo de terceiros para se dar ao trabalho de contar tal história? Aliás, já fomos nós cativados por entusiasmo semelhante, interessando-nos verdadeiramente pela biografia de algum de nossos conhecidos? 

Há algo de misterioso que torna uma história digna de ser narrada, que torna uma existência abrasante, tal não pode ser resumido a cargos, dinheiro e poder. Existem tantos deputados, banqueiros, reis, presidentes, bispos e generais cuja vida não nos desperta a mínima curiosidade, enquanto que a de um jovem garoto italiano como Carlo Acutis, é capaz de ecoar pelo globo! Enfim, escreva seu necrológio se quiser, mas certifique-se descobrir este segredo que torna a sua existência capaz de entusiasmar a terceiros, de outro modo, este seu exercício será para sempre uma ficção ruim.  

Ah, e quando descobrir este segredo, me conte!

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