domingo, 27 de outubro de 2019

Reflexões Eucarísticas (I)

Recentemente, fiz o propósito de reservar algum tempo aos domingos para meditar a respeito dos documentos eucarísticos, em preparação para a Santa Missa. Por agora, tem me acompanhado a encíclica Ecclesia de Eucharistia de João Paulo II; gostaria de compartilhar com o leitor algumas de minhas reflexões a respeito deste belíssimo documento. 

I. Aventuras Pontifícias
(...) Pude celebrar a Santa Missa em capelas situadas em caminhos de montanha, nas margens dos lagos, à beira do mar; celebrei-a em altares construídos nos estádios, nas praças das cidades... Este cenário tão variado das minhas celebrações eucarísticas faz-me experimentar intensamente o seu carácter universal e, por assim dizer, cósmico. Sim, cósmico! Porque mesmo quando tem lugar no pequeno altar duma igreja da aldeia, a Eucaristia é sempre celebrada, de certo modo, sobre o altar do mundo. Une o céu e a terra. Abraça e impregna toda a criação. O Filho de Deus fez-Se homem para, num supremo acto de louvor, devolver toda a criação Àquele que a fez surgir do nada. Assim, Ele, o sumo e eterno Sacerdote, entrando com o sangue da sua cruz no santuário eterno, devolve ao Criador e Pai toda a criação redimida. Fá-lo através do ministério sacerdotal da Igreja, para glória da Santíssima Trindade. Verdadeiramente este é o mysterium fidei que se realiza na Eucaristia: o mundo saído das mãos de Deus criador volta a Ele redimido por Cristo.
O Papa inicia o documento contando sua experiência de celebrar a Eucarística no Cenáculo de Jerusalém, e segue (no trecho acima destacado) contando suas aventuras onde celebrou a Santa Missa nos mais diversos cenários. Anos antes de eu propor a perspectiva das ''aventuras selvagens'', o Papa polaco já as vivia! Visitar diferentes igrejas, contemplar os múltiplos estilos artísticos, escutar melodias variadas, sob diversos cenários e climas, e ainda assim saber que estamos em casa, na casa de Deus. Um protestante nunca vai saber o que é isso, sua seita não tem filiais em todo o mundo; um (t)ortodoxo (cismático oriental) jamais entenderá, está preso demais a bairrismos étnico-regionais; mas nós católicos podemos! Seu estilo de vida talvez não lhe proporcione tantas viagens quanto gostaria, todavia ainda assim pode percorrer as paróquias de sua diocese, e vivenciando a seu modo essa aventura da universalidade da Igreja.

II. A minha parte no acordo... 
Ao entregar à Igreja o seu sacrifício, Cristo quis também assumir o sacrifício espiritual da Igreja, chamada por sua vez a oferecer-se a si própria juntamente com o sacrifício de Cristo. Assim no-lo ensina o Concílio Vaticano II: « Pela participação no sacrifício eucarístico de Cristo, fonte e centro de toda a vida cristã, [os fiéis] oferecem a Deus a vítima divina e a si mesmos juntamente com ela ».
Creio que o leitor já deve ter consciência de que a santa missa é o sacrifício por excelência, todavia, nem sempre nos lembramos de nossa parte nessa história.  Cristo se entregou por nós, e assim devemos oferecer-nos por Ele. De algum modo, nossa vida deve ser uma entrega, um sacrífico a Deus. E um sacrífico é algo que custa, é algo doloroso, é fazer algo que nem sempre queremos fazer... Tendo em vista esta realidade, nossa existência assuma uma perspectiva completamente diferente, que nos instiga a deixarmos a poltronice do comodismo.

III. O Céu na Terra
A tensão escatológica suscitada pela Eucaristia exprime e consolida a comunhão com a Igreja celeste. Não é por acaso que, nas Anáforas orientais e nas Orações Eucarísticas latinas, se lembra com veneração Maria sempre Virgem, Mãe do nosso Deus e Senhor Jesus Cristo, os anjos, os santos apóstolos, os gloriosos mártires e todos os santos. Trata-se dum aspecto da Eucaristia que merece ser assinalado: ao celebrarmos o sacrifício do Cordeiro unimo-nos à liturgia celeste, associando-nos àquela multidão imensa que grita: « A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro » (Ap 7, 10). A Eucaristia é verdadeiramente um pedaço de céu que se abre sobre a terra; é um raio de glória da Jerusalém celeste, que atravessa as nuvens da nossa história e vem iluminar o nosso caminho.
Durante a Santa Missa, é como se um portal se abrisse, conectando o céu e a terra, o tempo a eternidade. Durante o rito, estamos em comunhão com toda a Igreja, milagres esplendorosos acontecem, os anjos voam no interior das catedrais, muitas das almas do purgatório encontram o alívio e a libertação de suas penas. os santos de todos os tempos e lugares estão conosco, o próprio Deus se faz presente na Eucarística. A liturgia terrena nos conecta a liturgia celeste, e experimentamos de alguma maneira o céu na terra. É uma realidade tremenda! Invisível a nossos olhos, mas nem por isso menos real, e que pela fé temos a graça de conhecer. Tomar consciência dessa realidade tornará nossa participação na missa ainda mais frutuosa e seremos mais dóceis as inspirações divinas em tão sublime momento.

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