sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Trigun: Quando o modernista (?) tem razão

Tiros, motos, gatos, grandes questões filosóficas, uma trilha sonora bem encaixada em um cenário pós-apocalíptico. Tão somente isso já seria o suficiente para chamar a atenção a essa obra prima, que além de tudo conta com personagens carismáticos e uma técnica narrativa admirável. Estou a falar de Trigun, um anime já velhinho, de 1998, que marcou a história da animação japonesa, tendo elementos incorporados por Hellsing e Cowboy Bebop, entre outras boas e não tão boas obras.

O ambiente desolado lembra a Mad Max. Temos um planeta desértico aliado a destroços de alta tecnologia, neste cenário ermo, há criminosos punks com implantes robóticos e modificações biogenéticas a oprimir seus semelhantes ao som de um rockzinho maroto misturado a um jazz vintage. Mas, o que estes marginais querem mesmo é encontrar Vash the Stampede, um pistoleiro com a cabeça a prêmio, cujas vestes lembram muito a de um cardeal inquisidor. Depois de algum tempo a consumir ficção nosso imaginário se torna preguiçoso, nos acostumamos a aceitar a premissa de determinada obra, vivê-la em seu universo como um sonho, mas sem o espanto de nos imaginarmos dentro dela, de extrapolarmos as suas consequências ao mundo real. É justamente este exercício o qual convido o leitor. Imagine, com todo o realismo e esforço, viver neste mundo ermo... Neste faroeste pós-apocalíptico, você, um homem comum, em meio a monstros e cyborgs, um sol escaldante sob a cabeça, a água escassa, e tecnologia avançada, e ao mesmo tempo ancestral, tida como um tesouro de eras distantes. Viver altas aventuras neste contexto exigiria um espírito firme, um caráter sólido e a frieza para puxar o gatilho para defender a si mesmo e aos seus. Aliás, Vash não puxa o gatilho...

Como o típico herói dos anos 90, o nosso herói é um pacifista. Vash não quer matar ninguém, e quando se mete em confusão e é obrigado a abrir fogo, sempre procura minimizar os ferimentos e evitar a morte do inimigo. Nessas confusões, episódios secundários com vistas a trabalhar a interação entre os personagens até que a trama principal é inserida gradualmente, vemos expresso frutuosas reflexões que ainda tem lugar em nosso mundo ''pré-apocalíptico''. Há grandes capitalistas (ao menos para os padrões daquele faroeste espacial) a monopolizar os recursos naturais, lucrando com a miséria alheia; há bandidos, que apesar de bandidos, estabelecem entre si um código de honra e companheirismo; há selvagens assassinos arrependidos e a amansados pelo amor familiar, há o apego camponês a terra que trabalhara contra (uma vez mais) a ganância capitalista; há o drama imortal entre a concretização da vingança e o perdão.

Há também padres; falo de Nicholas D. Wolfwood, um sujeito maneiro, embora modernista e safado. A esse respeito, creio que sou o primeiro brasileiro a escrever algo digno a respeito, uma vez que os demais críticos, tal qual o autor do anime, aparentam não ter compreendido muito bem a doutrina católica, tendo assimilado apenas a sua estética. Todavia, não nos precipitemos, falemos um pouco do personagem. Nicholas é um padre andarilho, uma pessoa boa muito semelhante a Vash, que vive para cuidar de órfãos abandonados, a diferença do sacerdote para com o protagonista é que enquanto Vash é movido por ideias utópicas e o desejo de salvar todo mundo a todo o tempo, Nicholas é um homem realista, sabe que sacrifícios são necessários, não hesita em realizá-los, apesar de buscar sempre o caminho onde as perdas em vidas humanas sejam as menores. Agora aquilo que só um católico poderia perceber,: Nicholas é um herege safado. Vem spolier por aí: o infeliz anda por aí sem batina, não mostra nenhum zelo em pregar a doutrina e realizar seu ofício espiritual, chega a profanar o celibato e ainda por cima morre proferindo tolices reecarnacionista! Isso me deixou irritado! Pesquisando mais afundo, porém, descobri que apesar da estética católica, o personagem, ao menos na obra original, isto é no mangá, pertence a uma igreja fictícia de adoradores de plantas. Já estava eu a ligar para a inquisição espanhola, mas o coitado está fora de nossa jurisdição.

Isso aqui já está virando textão, ao menos para os padrões do bunKer, então para encerrar vou direto ao argumento final do anime, expressão do ethos do pós-guerra com todos os seus vícios e virtudes.: a questão do pacifismo e da utopia. Vash não quer matar ninguém, quer salvar todo mundo a todo o tempo. Nicholas entende que para salvar os cordeiros não se pode poupar o lobo. Ao fim o autor parece dar razão a Vash, que preferiu dialogar com seus inimigos a destruí-los. Todavia, a que preço? As repetidas omissões de Vash foram ocasião de um morticínio. Tivesse ele executado a pena capital, tantas vezes moralmente justificado pelo princípio de legítima defesa própria e alheia, muitos inocentes teriam sido poupados. É natural e humano querer salvar a todos. É profundamente cristão inclusive se sacrificar com vistas a isso, buscar o melhor, não apenas para si mas, para todos. Entretanto, é uma dolorosa e sangrenta ilusão pensar que isso será possível. Diria eu, é uma heresia, é a negação do inferno. O mundo melhor não virá. Não são todos os que podem ser salvos. A perfeição e a utopia não são alcançáveis. Há momentos em que se deve escolher entre salvar alguns ou perder a todos. Vash estava errado, o padre (modernista) Nicholas tinha razão. É preciso ser realista e abandonar as ilusões afim de minimizar os sacrifícios, doces utopias não raro são terminam de modo trágico e sangrento.

Por fim, antes de nos despedirmos caro leitor, fiquemos com está bela música que tem papel de destaque na trama:

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Não se contaminar


34ª Semana do Tempo Comum - Segunda-feira
Primeira Leitura (Dn 1,1-6.8-20) 
Responsório (Dn 3,52s.)
Evangelho (Lc 21,1-4)

Daniel foi chamado a viver na corte real. Todavia, "para não se contaminar" tomou a firme decisão de não tomar parte nos banquetes e manjares reais, se alimentando tão somente de legumes. E com uma alimentação tão sóbria, ainda estava mais gordo, forte e saudável que os comilões da corte. Seria uma apologia bíblica ao vegetarianismo? Há que se forçar muito a barra para ver uma ideologia moderna, um lifestyle, em tão antigo manuscrito. O que havia em Daniel era o espírito de penitência. A fidelidade à lei, a consciência de que o luxo e o excesso no comer e no beber prejudicam o espírito (São Francisco de Assis também ensinava a seus filhos espirituais mortificação do paladar), bem como a consciência de que habitando a corte não pertencia ele a tal ambiente, e que não devia adotar os hábitos daquele local. Mais do que nos ensinar a comer legumes, a leitura de hoje nos quer mostrar que não devemos ser assimilados, que não podemos deixar-nos impregnar por todos os costumes e hábitos do ambiente no qual vivemos. O ambiente hoje pode ser nosso trabalho, aos mais jovens a escola, a faculdade, e, em alguns casos trágicos, até mesmo nossas famílias. Por vezes temos de abster-nos de determinados hábitos comuns aos que convivem conosco, em espírito de penitencia, para não nos contaminarmos.

domingo, 17 de novembro de 2019

Rinha de Galo


Já faz algum tempo que a peleja de galináceos tem sido amplamente discutida na internet. O que começou como um meme tem ganhado tons cada vez mais sérios, incluso lobbistas a lutar pela legalização da prática, apesar de todo o drama de uma geração fraca e efeminada. Tal qual rodeios e touradas, a rinha de galo é uma tradição que remonta a tempos imemoriáveis, encontrando entre seus admiradores desde o general grego Temístocles a Santo Agostinho de Hipona.

''A Ordem'' - Santo Agostinho de Hipona

O galo, animal viril com instinto dominador, tende a agressividade naturalmente. O ambiente da rinha é um local onde lhe permite expressar tal instinto, além de uma oportunidade econômica para os criadores lucrarem na luta de seus animais, bem como com o mercado de apostas. E ao fim da rinha, ainda é possível unir e integrar a comunidade rural com aquela galinhada.

Afinal, até quando tão ancestral tradição ficará relegada a ilegalidade, tratada como fosse uma aberração? Se rodeios e touradas são valorizados, que motivo há para desprezar a rinha? 

De todo o modo, pensemos na prática através de uma perspectiva arqueofutirsta. Em um futuro hipotético onde animais mutantes fruto de moderna transgenia duelam contra galos cyborg, em rinhas internacionais, com transmissão ao vivo via internet por todo o universo, com um frenético mercado de apostas. Novas regras deveriam, sem dúvida, ser elaboradas afim de se garantir a justiça nos duelos. Talvez uma categoria para especial para “galos orgânicos”, ou quem sabe a restrição de determinados genes ou modificações robóticas. Há que se atentar também ao uso de drogas que potencializam a agressividade. Quem sabe não precisemos de um antidoping aviário? 

Enquanto pensamos no futuro, fique o leitor com esta bela luta.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Força, Sabedoria e Gratidão

32ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (Sb 6,1-11)
Responsório (Sl 81)
Evangelho (Lc 17,11-19)

1. <A sabedoria é mais estimável do que a força e o homem prudente vale mais do que o valoroso. (Sb 6,1)>; A sabedoria é mais desejável que a força, é o que nos ensina hoje a primeira leitura. Ou seja, a força é desejável e tanto mais o é a sabedoria. Você deseja a força? Eu a desejo. Vou a academia três vezes por semana e me submeto a um rigoroso treinamento busca dela. Pois tanto mais deve ser nossa busca pela Sabedoria. E o princípio da sabedoria é o temor a Deus. Acontece, porém, nestes tempos amalucados uma coisa gozada: muitos, incluso muitos homens, não desejam a força e, tampouco a sabedoria. Se contentam em ser fracos, covardes e burros! Nada disso importa, desde que tenham luxo e conforto. É uma mentalidade desprezível, mentalidade de escravo, mentalidade de eunuco. Busquemos a força e a sabedoria. Que sejamos fortes como leões e astutos como gatos de rua, não mansos e fracos como cãezinhos de madame.

2. O Evangelho de hoje nos exorta a prática de uma virtude bastante impopular nessas terras. Talvez, não tão impopular quanto a castidade, mas ainda assim tão pouco praticada: a gratidão. Como nós somos ingratos, tanto para com Deus como para com nosso próximo. Não sabemos agradecer e, nem mais pedir, antes exigimos; cremos que temos "direitos". Precisamos ser mais gratos. Gratos por tantas benesses que recebemos sem o merecer. Parece exercício coach isso, mas vamos lá: pelo que eu sou grato? Como posso expressar minha gratidão? Como posso "pagar" tantos benefícios que tenho recebido de Deus, da Igreja, de minha paróquia, de minha cultura, de meu país, de minha família? Concretamente.

Pensou? Fica de tarefa :P ; expressar em gestos concretos a gratidão a todos quanto a merecem.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Calma e sossego d'alma

31ª Semana do Tempo Comum - Terça-feira
Primeira Leitura (Rm 12,5-16a)
Responsório (Sl 130)
Evangelho (Lc 14,15-24)

<Senhor, meu coração não se enche de orgulho, meu olhar não se levanta arrogante. Não procuro grandezas, nem coisas superiores a mim. (Sl 130, 1)>; é o que cantam os fiéis junto ao salmista na liturgia de hoje. Resta saber com quanta sinceridade... <Ao contrário, mantenho em calma e sossego a minha alma (Sl 130, 2a)>; continua o salmo... Nós não fazemos nada disso. A esterilidade de nossas obras assim o denuncia. Movidos pela agitação de nossa alma estamos a buscar nossa própria glória, nossa vã glória, ao invés da glória de Deus. É igualzinho os convidados da parábola do Evangelho de hoje, eles que não vão ao jantar porque estão ocupados demais buscando a felicidade sem Deus para ter tempo para Ele.

Não raro acontece algo pior: se usa a própria Igreja como desculpa, como instrumento para própria vanglória. Tal ou qual apostolado parece tão humano e tão pouco divino, mais preocupado em conquistar a boa fama para seus membros do que arrebanhar almas. O "apóstolo" mais preocupado em ser famosinho e tido em conta de sábio ou bom moço, que em de  facto ajudar os irmãos a chegarem a Deus. Deve ter pensado em um monte de gente nesse momento, certo? E você é diferente? Realmente diferente? Profundamente diferente? Ou, para usar uma analogia agrícola, o nematoide que mata a lavoura dos demais também não está presente no solo de sua alma, e pode causar o mesmo estrago na falta de um manejo adequado, na falta da oração e da penitencia? Gostamos de pensar que os maus nascem assim e que nós somos diferentes, somos pessoas de bem. No fundo somos feitos do mesmo barro, e não raro somos tão ruins quanto aqueles contra os quais nos revoltamos. Ninguém nasce bom, antes deve tornar-se bom...

Que Deus nos ajude a aquietar nossa alma, para que busquemos não a vanglória, mas os desígnios do Senhor!

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

''Ser-te-á retribuído na ressurreição dos mortos''


31ª Semana do Tempo Comum - Segunda-feira
Primeira Leitura (Rm 11,29-36)
Responsório (Sl 68)
Evangelho (Lc 14,12-14)

1. As pessoas ficam tristes por não ter seu talento reconhecido e seus méritos louvados: <Poxa, fulano é um bostinha e é rico e famoso enquanto eu sou legal, mas pobre e anônimo>; não devemos alimentar esse tipo de pensamento orgulhoso. Nos ensina o Evangelho de hoje que é até bom que não sejamos recompensados na terra, pois daí nossa recompensa fica guardada para eternidade. Aliás, é pra se temer se as coisas na terra começarem a dar certo demais. Ensina Santo Agostinho que Deus recompensa as virtudes do justo na eternidade, enquanto as eventuais virtudes do ímpio são recompensadas no tempo, pois após a morte ele há de sofrer o castigo eterno.

2. A intensa atividade de São Carlos Borromeu não deixa vocês com medo? O santo bispo fez tanta coisa, produziu tanto realizou tantas obras, enfrentou tantos desafios.... E eu aqui nessa esterilidade preguiçosa.

Como pretender ir para o mesmo lugar que ele sem viver uma vida semelhante?



Miserere nobis, Domine!