terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Como ler Paulo Freire


Quando o assunto é educação, muito se fala a respeito da infraestrutura precária e, sobretudo, do salário dos professores. Não acho que esses sejam pontos irrelevantes, só percebo que está se mirando no alvo errado. De nada adianta professores ganharem mais de 10 mil reais de salário e termos colégios com infraestrutura de última geração se há problema na metodologia de ensino. 

No Brasil, quando o assunto é ensino, o patrono da educação brasileira, Paulo Freire, torna-se referência. Já que estamos aqui para discutir qualidade da educação, é imprescindível que as bases que sustentam o fundamento do ensino brasileiro, ou seja, a pedagogia Paulo Freiriana seja analisada. 

Analisarei uma de suas principais obras: “A Pedagogia do Oprimido”. Trata-se de um livro de fácil acesso, disponível gratuitamente para download no site do Portal da Cidadania e que, segundo o Google Acadêmico, foi citado mais de 14500 vezes. Entretanto é preciso tomar cuidado na leitura de tal obra.

Se você for ler o livro despreocupadamente, sem grande cuidado, a impressão – grifo em impressão – que passa é que Paulo Freire é um educador libertado, consciente dos problemas da educação e com espírito de bondade para dar-nos a direção certa para corrigir os problemas. Esta impressão é devida a retórica de seu texto. Ele sabe usar expressões de rótulo positivo como amor, liberdade, conscientização humanidade, etc. levando a pessoa a pensar que está diante de um bom produto. Articulando-se com drama, discurso motivacional, raciocínios circulares e posicionando-se como um ser superior iluminado, Freire consegue propagandear bem sua pedagogia. 

O problema é quando se analisa a obra sem cair no jogo de propaganda e dramaticidade. Afinal, não é comendo margarina de café da manhã que se terá uma família feliz. O que precisa ser entendido é o que efetivamente Paulo Freire está querendo transmitir em sua obra. Não quero sentimentalismo e nem provocaçãozinha indutora. Quero saber o que ele está efetivamente querendo propor. É com o espírito do ceticismo que se deve ler Paulo Freire, a fim de não se deixar levar por seus truques. 

O que então Paulo Freire argumenta em “A Pedagogia do Oprimido”? Retirando todos os dramas, discursinho motivacionais, raciocínios circulares, antíteses que parecem dizer muito, mas nada dizem, psiquiatria de botequim, enfim, toda empulhação retórica, o que Paulo Freire está efetivamente dizendo é que o professor oprime seus alunos. Não estou aqui falando de um professor corno, de uma professora mal amada ou de um professor que não gosta de ser professor e então desconta toda sua frustração em seus alunos. Esses seriam casos particulares, cuja advertência e/ou punição de seus superiores poderia resolver. O que Paulo Freire diz é que os alunos são oprimidos pelo professor. 

Segundo a lógica de Freire, Sócrates oprimiu Platão que oprimiu Aristóteles. Antes de eu obter meu diploma, fui oprimido durante os 10 semestres do curso e como continuo estudando e fazendo cursos, estou em contínua opressão. Se eu me tornar professor (na verdade já dei algumas aulas), irei oprimir meus alunos. 

O interessantes é que Paulo Freire cria uma blindagem contra qualquer tentativa de refutação. Se alguém discordar dele, significa que está alienado, que está preso no sistema, que não é livre (já vou falar da liberdade que ele tanto gosta de falar). Deste modo, o simples fato de eu questionar uma relação de opressão que não existe, faria o pedagogo dizer que pelo fato de eu estar “imerso” no sistema, não conheço a realidade e por isso oponho-me a libertação, uma vez que – segue o bom jargão – o oprimido de hoje quer ser o opressor de amanhã. 

Qualquer relação de mando e/ou autoridade para Paulo Freire significa opressão. Parece jamais querer assimilar que a relação professor/aluno é simples: um tem o conhecimento, o outro quer aprender, deste jogo de interesse (o professor recebe dinheiro para ensinar) acontece o processo de educação. O professor é o líder não por ser opressor, mas por ter aquilo que o aluno necessita: o conhecimento. Mas não! O dogma de Paulo Freire diz que qualquer posição desigual gera um sistema opressor/oprimido e se um crítico (como eu) argumentar que ele está errado, isso confirmaria a tese dele, pois o crítico está preso no sistema enquanto Freire está liberto. Em suma, ou acreditamos que Freire era onipotente ou temos que reconhecer que sua artimanha retórica é de uma vigarice estupenda! 

O mais curioso é observar que os professores que acedem vela para Paulo Freire são, na realidade, oprimidos por ele (se eles têm consciência disso ou não é indiferente). Ao invés de eles denunciarem essa armadilha retórica, preferem dizer amém ao discurso da opressão para que possam afirmar que estão “livres” e “libertados” daquilo que se chama abstratamente de sistema. É aquela estranha libertação que deixa a pessoa presa ao raciocínio Paulo Freiriano. Se você comprar o discurso, é livre. Se não comprar, não é livre. Temos um Paulo Freire combatente de uma opressão, mas que cria um sistema de raciocínio claramente opressor, pois vende “liberdade” sem liberdade de escolha. 

Muito é dito a respeito da “liberdade” e da “conscientização”, mas aqui há um claro problema de deturpação de seus significados. Paulo Freire diz que a radicalização é libertadora, pois quer a transformação da realidade concreta e que esta transformação deve partir da conscientização. Ou seja, Freire, através de palavras bonitas, na verdade está induzindo que a liberdade seja usada para a transformação. E você é obrigado a acreditar que a transformação é boa e necessária. Se a conscientização concluir não vale a pena acreditar na ideologia de Freire, como é o meu caso, ele alegará que a pessoa está alienada. Em suma, você é livre desde que aceite a transformação que Freire quer que você faça [em pró da ideologia que ele defende], ou seja, não estamos falando de liberdade, mas de manipulação. Tampouco de conscientização, mas de doutrinamento ideológico. 

Ao não utilizar as palavras em seus sentidos adequados, o educador Paulo Freire presta um desserviço à leitura. Ele não está preocupado no uso apropriado das palavras, mas no caráter positivo de propaganda que tais termos trazem consigo. Somos a favor da liberdade, o problema é que Paulo Freire utiliza tal expressão de modo errôneo para esconder o que ele realmente quer: que sejamos capacho da transformação que ele julga ser necessária. Enfim, existe a liberdade de verdade e a liberdade Paulo Freiriana, que é o oposto da liberdade. Eis então outro cuidado: as palavras usadas por Paulo Freire podem não possuir seu significado real. 

Relembramos então a premissa Paulo Freiriana: o professor é opressor de seus alunos por estar preso a um sistema. O que Paulo Freire quer é a transformação deste sistema pela radicalização. Ocorre que o único que pode “se libertar” desse sistema é o oprimido. Deste modo ocorre a famosa inversão Paulo Freirana: é o professor que deve aprender com o aluno. Sendo assim, o professor não deve ensinar, mas apenas mediar o conhecimento. Os alunos, por serem os oprimidos, já tem possuem o conhecimento, o professor só mediar para que a transformação aconteça. Ao ser apenas um mediador, o professor deixa de oprimir, pois estará dialogando de igual para igual com seus alunos. 

Em suma, o que Paulo Freire defende é o fim da autoridade do professor sobre o aluno, já que são os alunos que possuem o verdadeiro conhecimento da transformação. Como Paulo Freire adquiriu o verdadeiro conhecimento da transformação, já que ele mesmo era professor, portanto opressor, é uma contradição cuja única resposta possível é realmente acreditar que ele era um ser iluminado. 

A confusão que Paulo Freire faz é proposital. Talvez você não esteja entendendo bem. Tentarei esquematizar em um silogismo, afinal, temos apreço pela lógica, esquematizando talvez fique mais fácil de entender a “lógica” Paulo Freiriana. 

Premissa 1: O professor oprime os alunos por causa do sistema. 
Premissa 2: Quem pode se libertar do sistema, ser o agente da transformação, são os oprimidos (os alunos). 
Conclusão: Logo é o professor que deve aprender com seus alunos. 

O que Paulo Freire propõe, portanto, é a inversão dos papéis. Se hoje tem aluno batendo em professor porque este perdeu sua autoridade na sala de aula, aponte o dedo para a educação Paulo freiriana. Se hoje os professores incentivam os alunos, quando contrariados, a protestar como crianças mimadas para terem seus direitos sem deveres atendidos, aponte para Paulo Freire. 

Simplesmente não dá para esperar coisa boa de um raciocínio que parte de premissas absurdas, chegando, como se devia suspeitar, a uma conclusão absurda. 

O efeito blackfire pode estar atuando em alguns professores que estão prestando atenção em mim de modo que podem fazer uma objeção indignada: “mas você só está falando da pedagogia do oprimido, ele tem mais obras”. O problema é que a essência deste raciocínio está presente nas outras obras. É exatamente por causa disso que estou escrevendo a respeito de como ser deve ler Paulo Freire. Esses truques e argumentação são constantes nas obras dele. 

Como o que Paulo Freire propõe é absurdo. Temos que a pedagogia brasileira é uma verdadeira porcaria, uma vez que propõe inverter o sistema da interação professor-aluno. A recuperação deve passar pelo retorno do ensino tradicional, tratando a relação como serviço e não inventando opressão onde não tem e propagandeando uma liberdade, cujo real significado é ser escravo de uma ideologia. 

Pode-se investir 100% do PIB em educação, se o absurdo lógico Paulo freiriano se mantiver, a educação continuará produzindo aberrações. Quem deve realmente se libertar são os professores dessa pedagogia doutrinadora que omite idéias perversas com termos bonitinhos, mas que estão deturpados de seu significado real. 

Conclui-se, por fim, que o grande mal da educação está em sua base. Ao comprarem a pedagogia de Paulo Freire, nossos professores estão afundando junto com seus alunos. Tudo por conta de uma opressão inexistente. Sendo assim, as outras demandas e palavras de ordens tão presentes em debates sobre a educação brasileira são secundárias, pois o principal problema está na raiz do processo, não na superfície.

#Augusto Pola Jr.

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